Obras

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sexta-feira, 12 de maio de 2017

A pós-verdade é uma verdade


O termo é antigo e já usei aqui algumas vezes: palimpsesto. Do grego palin - de novo, e psao - raspar, referindo-se ao pergaminho que, para ser reutilizado, era raspado para apagar o escrito anterior e dar lugar ao novo. O prefixo palin remete a outros verbetes com sentidos aparentados: palíndromo - leitura inversa; palingenesia - renascimento, regeneração; palinfrasia - repetição de palavras ou frases. Palimpsesto é empregado também em sentido figurado, como uma pintura que recobre outra mais antiga, ou um fato criado para encobrir outro verdadeiro. Na política essa prática é contumaz.

Esse tem sido meu trabalho: seguir apagando criteriosamente letra por letra para desvendar o "texto original". Não dá para condescender. Mas a versão do momento nas discussões chama-se "pós-verdade". É dela que vou falar. Estou de pleno acordo com o conceito de pós-verdade, mas tenho dúvidas se o termo é o mais adequado. Este post foi inspirado pelo amigo Alejandro Agostinelli, da Argentina, através de seu blog - www.factorelblog.com, ao publicar o artigo "Resistir a la posverdad", de Esther Diaz, doutora em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires.


Passo direto a uma das fontes: "Pós-verdade parece mais uma expressão de impacto para chamar a atenção de um público saturado de informações e inclinado para a alienação noticiosa. Mas o fato é que estamos diante de um fenômeno que já começou a mudar nossos comportamentos e valores em relação aos conceitos tradicionais de verdade, mentira, honestidade e desonestidade, credibilidade e dúvida".¹ O autor cita a teoria da "cognição preguiçosa", de Daniel Kahneman², referindo-se à tendência das pessoas de ignorar fatos, dados e eventos que obriguem o cérebro a um esforço adicional, ou seja, pensar.

Embora o termo tenha sido usado pela primeira vez nos anos 1990*, o Dicionário Oxford, da universidade homônima, elegeu-o, em 2016, como a "palavra do ano", definindo-a como "um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais". Não se trata de apologia à mentira, mas de indiferença para com a verdade dos fatos. Não cabe discorrer aqui a vertente filosófica para "verdade".

"Segundo a revista The Economist," prossegue o autor, "o mundo contemporâneo está substituindo os fatos por indícios, percepções por convicções, distorções por vieses. Estamos saindo da dicotomia tradicional entre certo ou errado, bom ou mau, justo ou injusto, fatos ou versões, verdade ou mentira para ingressarmos numa era de avaliações fluidas, terminologias vagas ou juízos baseados mais em sensações do que em evidências. A verossimilhança ganhou mais peso que a comprovação." O emaranhado de interesses que envolvem o conceito de pós-verdade é complexo e demanda tempo, paciência e rigor na depuração e recomposição dos fatos. Como diz Castilho, "Como existe a 'cognição preguiçosa', as convicções passam a ocupar o espaço das evidências e das provas". Trocando em miúdos, a pós-verdade é eufemismo para a pseudoverdade.

Diante da crescente dificuldade para materializar a verdade em razão do tsunami de informações, criam-se pós-verdades, ou factoides, onde repetição e insistência passam a ocupar o assento das evidências. É um pensamento que se verifica na política, na economia, na religião, nas redes sociais... As versões se tornam mais importantes que os fatos, e esse é um dado de realidade. O que chamamos de fatos são, na realidade, representações particulares de cada indivíduo.

Sei que você pescou o resto da história. Sim, a ufotopia é essa usina de pós-verdades, impregnada de mentiras, asneiras, ignorância, desonestidade, irresponsabilidade e tudo o mais. Cada vez mais basta "parecer" para "ser", o que é um erro grosseiro. Ao saber cabe demonstrar que aparência não é essência. 


* O termo foi usado em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, segundo Ralph Keyes em The Post Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life,St. Martin’s Press, 2004. 
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¹ Carlos Castilho, "Apertem os cintos: estamos entrando na era da pós-verdade", Observatório da Imprensa, setembro de 2016.
² Daniel Kahneman,  Rápido e Devagar: duas formas de pensar, Objetiva, 2011.

sexta-feira, 5 de maio de 2017



O futuro do presente já começou

Fechando nosso microgiro pelo mundo iniciado semana passada, trago mais dois comentários. O historiador português Joaquim Fernandes tem se ocupado nos últimos anos em fazer uma análise social, antropológica, histórica e religiosa relacionada ao nosso tema, e traça um panorama do que ocorre no país irmão.¹

Ele começa dizendo que o interesse do público varia conforme a intensidade das redes sociais, o que nos permite inferir tratar-se de interesse 'por contágio', viral, não natural. Afirma ele que "A credibilidade dos investigadores-entusiastas - fora da academia - é discutível e com raro critério metodológico". Investigadores-entusiastas significa dizer, literalmente, amadores, diletantes, gente inabilitada para tratar o assunto com o necessário estofo científico. A imprensa praticamente não toca no assunto, cabendo às redes sociais o papel difusor. A televisão, quando trata o assunto, o faz sem novidades e sem rigor.

A boa notícia é que a principal vertente investigativa corre sobre análises integradas e visões multidisciplinares, com ênfase nas ciências sociais e humanas, sem descuidar dos dados de natureza física. Estamos falando do corpo docente das universidades e das suas publicações. Fernandes ressalta que "Existe um problema - seja ele apenas social ou mítico-social ou espiritual-mental com elementos exógenos imperceptíveis no estado atual dos acontecimentos. O problema não se resume nem termina no mitema² clássico do estereótipo  'disco voador' ou similares designações conjuntamente em voga na opinião pública." Atenção agora: "Da Nossa Senhora de Fátima aos avatares ETs e aliens há um continuum indelével de apropriações linguísticas, de referentes e da consciência individual e coletiva". 

Trocando em miúdos a fala de Fernandes, o que ele está dizendo é que tanto os eventos de natureza mística - aparições marianas em particular - como os casos mais comuns de visualizações e contatos passam, necessariamente, pelo contexto narrativo geográfico, temporal e social, pelos modelos e referências culturais e aspectos arquetípicos. Essa fusão de elementos exige um envolvimento cognitivo que não pode ficar restrito ao "modelo extraterrestre" como hipótese explicativa dominante. Juro que eu não queria ser repetitivo, mas não tenho escolha ao relembrar, por oportuno, que o pesquisador Jacques Vallée já aconselhava, décadas atrás, que, se todas as tentativas de explicação do fenômeno fracassaram seguidamente, é preciso rever e abandonar o conceito de "naves extraterrestres". 

De Portugal passamos à França, onde a paisagem não é outra, segundo Pierre Lagrange, Jacques Scornaux, Gilles Durand e outros estudiosos pertencentes à academia. Para eles, o interesse do público decaiu bastante e hoje praticamente inexiste, exceto quando um ou outro caso tem discreta atenção da mídia. Muitos grupos foram extintos, as instituições oficiais pouco participam, e, a não ser por alguns poucos pesquisadores mais ortodoxos, o assunto não desperta mais que curiosidade. Por outro lado, as pesquisas adotaram uma linha mais abrangente e diversificada, com envolvimento discreto das universidades. Na França em especial, mas também em países com Bélgica, Suíça e Itália, esoterismo, ocultismo, espiritismo e outras crenças perderam fôlego e agonizam nos pequenos grupos praticantes.

Que prognóstico esse painel nos permite fazer? Antes de tudo, uma análise cautelosa. A amostra não é retrato do mundo, já o dissemos, mas há uma clara percepção de total desinteresse generalizado pelo tema. Percepção subjetiva, sim, mas embasa e atesta essa leitura um robusto feixe  de reflexões e observações, o olhar atento, imparcial, acurado, ajustado permanentemente. O fato relevante é o alinhamento das propostas de estudo de agrupar várias disciplinas, principalmente das ciências sociais, trazendo claridade a questões importantes, diminuindo as zonas de sombra e silêncio, os pontos cegos e os ruídos de fundo. É exatamente por essa vereda que conduzo meu trabalho. Isso pode significar que a ufotopia esteja no ocaso, tal como um dia desapareceram as fadas de jardim, as aparições de santas, bruxarias e tantas outras lendas populares. 

A ufotopia ficou nessa idade primitiva por ser incapaz de pensar fora de si mesma, levando de roldão seus crédulos seguidores. Aqui e ali renitentes tremularão bandeiras puídas e desbotadas, alheios à realidade dos fatos. E o fato é que não há mais lugar para crendices e criaturas bizarras como homem das neves, monstro lacustre, duendes, curupiras, querubins, ciclopes, sereias, zumbis, vampiros, atlantes, lemurianos e homenzinhos verdes de olhos esbugalhados. Os tempos são outros.



¹ E-mail de 14/11/2016
² Mitema - partícula essencial de um mito, imutável e irredutível.
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Jean-Michel AbrassardLe modèle sociopsychologique du phénomène OVNI.  Presses Universitarires de Louvain, 2016.
Jean.-Bruno Renard. Le merveilleux. CNRS Editions, 2011.
Pierre Lagrange. Une ethnographie de l’ufologie – La question du partage entre science et croyance. École des hautes études en sciences sociales /Université d’Avignon et des pays du Vaucluse, 2009.
_______. A propos des prétendus aspects psychologiques et sociologiques des témoignages d’observation d’ovnis. Workshop "Collecte et analyse des informations sur les phénomènes aérospatiaux non identifiés". Paris/CNES, 2014.
Joaquim Fernandes. Moradas Celestes. O imaginário extraterrestre na cultura portuguesa. Lisboa. Âncora. 2014.
Roberto E. Banchs. Fenómenos Aéreos Inusuales: um enfoque biopsicosocial. Editorial Universitária, 1994.

sábado, 29 de abril de 2017

De olho no futuro do presente - parte 1



O texto contundente de semanas atrás tinha razão de ser. Eu dei um tempo para você espairecer o espírito, descontaminar a mente, exercitar a reflexão para o devir a partir do presente. Quem está de olho nesse futuro sou eu e faz tempo. Não dá para mapear todo o globo, mas uma pequena amostra sinaliza o que pode estar acontecendo em alguns países, bem ao contrário do que se viu - e ainda se vê - em nosso país. Aí você entenderá melhor o porquê da linguagem crispada. 

Até onde sei, os "discos" estão ficando cada vez mais raros, e não é porque a imprensa ignora: é que não está acontecendo nada mesmo. Se puxar pela memória, o Caso Varginha foi o último (e único) de repercussão mundial, há mais de duas décadas (1996)! Desde então, não me recordo de nada que tenha sido destaque, a não ser, talvez, uma ou outra ocorrência de menor relevância. Só quem fica à espera do contato redentor é o místico e crédulo por natureza, bobo e ingênuo por vocação. Você verá que esse esvaziamento é geral. Respondendo a algumas questões como interesse pelo assunto, atuação dos governos e da mídia, nível das pesquisas e novas tendências, estudiosos e analistas não tergiversaram, não douraram a pílula, foram direto ao ponto.

Da Argentina, Roberto E. Banchs¹ informa que o público tem se voltado lentamente a outros temas que se relacionam com o objeto de estudo, temas esses não necessariamente científicos, e que as novas tecnologias marcam uma tendência. Naquele país e em outros da região, a participação das Forças Armadas tem sido menos do que moderada. Sem recursos, apenas observam os fatos, manifestando-se com um pouco mais de liberdade que em épocas anteriores. Quanto à seriedade e credibilidade dos pesquisadores, Banchs afirma: "No creo que haya mejorado, por el contrario". E conclui: "Hoy se consume mucha, demasiada 'información' (la mayoria de las veces no procesada) y hay poca reflexión." Dispensa comentar, não é mesmo? 

Da península ibérica, Vicente-Juan Ballester Olmos dá notas da Espanha.² O interesse existe em função do empenho dos meios de comunicação, em baixa no momento, apesar de alguns programas de rádio, TV e revistas populares vez ou outra tocarem no assunto. "Pero, de modo general, ha bajado mucho desde los años 70-90." A atuação governamental e militar é quase nula, e desde os anos 90 os arquivos estão franqueados na internet. Sobre a credibilidade dos pesquisadores, "Normalmente es muy baja, están orientados a escribir artículos que cobram". Os acadêmicos não demonstram interesse pelo tema, e, se têm, é sob um ponto de vista cético (lamento, mas entendo). A imprensa demonstra indiferença pelo assunto.

Comentário: De modo geral, nota-se que desde o início dos anos 1990 o desinteresse vem crescendo, tanto do público como dos órgãos oficiais, e da academia então nem se fala. É claro que a atual conjuntura geopolítica global colabora para esse cenário, mas não é a causa principal, há um conjunto de fatores para isso: os grupos e centros de pesquisa estão morrendo por desnutrição, isto é, por falta de 'cenoura' na praça. Ajuda para isso o baixo grau de comprometimento e conhecimento dos pesquisadores, que vai de mal a pior, contribuindo fortemente, inclusive, para a não aproximação da esfera acadêmica. Semana que vem eu concluo, trazendo Portugal e França para a conversa, mas suponho que você já tenha uma boa noção da situação. O futuro do presente já começou.


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¹ E-mail recebido em 14/11/2016
² E-mail de 18/12/2016

sexta-feira, 14 de abril de 2017


O círculo, o tempo e a linguagem

Pediram minha opinião, eu dei. Agora escrevo. O assunto tem sido comentado aqui sob vários ângulos, e ainda recentemente voltei a ele quando do anúncio da NASA sobre a descoberta de (mais) um sistema solar semelhante ao nosso: Vida extraterrestre inteligente. Parece que está havendo uma febre pelo tema, só se fala nisso e vem mais por aí. A referência agora é um longa de ficção científica que divide opiniões e crítica, o insosso e sonolento "A Chegada". A presença dos alienígenas como pano de fundo não foi suficiente para impulsionar a questão da linguística. Diluiu-se na névoa da colossal nave. Estou ficando cada vez mais seletivo e exigente na análise, mas não é esse o ponto. O filme é só um pretexto para introduzir a discussão.

Para dar base científica à trama e justificar o papel da linguista, o filme recorre à "Hipótese Sapir-Whorf", que é objeto de controvérsia, inclusive sobre sua autoria. O cerne do debate linguístico gira em torno da tríade cultura-linguagem-pensamento como um trançado borromeano (figura): seus elementos são indissociáveis e sem prevalência de qualquer um deles. Também não é esse o ponto que quero comentar, nem a confusa e tortuosa inserção do fator "tempo" na interação com o extraterrestre.


O que interessa é a ideia que está por trás da narrativa - a linguagem. Se o diretor queria passar algum recado, fracassou, e chego a pensar que nem ele mesmo sabia exatamente o que queria transmitir. O que parece ter tentado dizer é que o sujeito precisa mergulhar na cultura e na mente do outro se quiser compreender e apreender sua lógica, sua linguagem, seu modo de pensar. Até aí, óbvio demais. Usou seres alienígenas como extremo da comunicação com inteligências não humanas. O diretor já fez coisa melhor, mas nesse longa sua atenção se dividiu entre o roteiro e a mensagem, e ambos se perderam no vácuo.

Eu queria entender como diabos a cientista concluiu que o círculo era um símbolo para "tempo"? Por causa dos sonhos que teve após entrar na nave? Forçou a barra. Esqueça o alienígena, coloque em seu lugar um esquimó: se ele desenhar um círculo no ar, acompanhado de um grunhido e bater palmas, estrará se referindo ao tempo, ao mundo ou ao à sua tribo? Poderia ser um afável cumprimento ou seu oposto, um enfático "volte de onde veio"? O círculo pode ter vários significados, alguns até antagônicos, dependendo da cultura em que está inserido.

A rigor, filosoficamente falando, o tempo não tem nada a ver com o círculo!

A cruz suástica, por exemplo. Adotada pelos nazistas durante a Segunda Guerra, sua antiguidade perpassa os celtas, astecas, índios Hopi, budistas, gregos e hindus, com diferentes interpretações. Um detalhe fundamental ressaltado por Cirlot é que os símbolos não estão isolados, mas unidos entre si de algum modo, gerando composições simbólicas mais complexas.

Não sou linguista, mas estudos mostram que, para se decifrar um código ideográfico ou uma língua estrangeira, é preciso que exista uma estrutura por trás do código ou da língua. Pegue um ideograma chinês e tente decifrá-lo. Leia uma frase em dinamarquês, sânscrito ou russo e traduza. Sem conhecer a formação estrutural, não dá. Tente entender o rugido do leão, o canto do sabiá, o coaxar do sapo. Mesmo percebendo que há uma "lógica" peculiar em cada som, a "tradução" só será possível desde que se identifique a estrutura de cada um, e isso pode levar um tempo extraordinário, ou nunca ser descoberta.

O filme comete erros primários, perdendo-se na superficialidade das explicações que não explicam, na invenção de uma serpentina temporal à semelhança de "Interestelar" que atiça o imaginário, mas que só funciona nas teias diáfanas da ficção, porque as da realidade são concretas, "pegajosas", sem filtros. No fim das contas, o diretor não fechou a história. Ela acaba do jeito que as naves foram embora - do nada. Não tem material nem para reflexão, é só mais uma ficção inverossímil que não vai deixar saudades. Brincar com o tempo é um modo de não ter de enfrentá-lo.


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Juan-Eduardo CIRLOT.  Dicionário de Símbolos. Moraes, 1984.

sexta-feira, 7 de abril de 2017


Caminho para o nada

A manifestação de um leitor sobre o post anterior (Insanidade, pantomima ou estupidez?) me chamou atenção, fez pensar e inspirou o texto de hoje. Diz ele que a "enxurrada de ignorância misturada com imaginação e má-fé" é o que constitui a ufologia "que agoniza", e conclui dizendo que "resta velar a defunta, pois sua substituta já assumiu o seu posto com revigorada mentalidade". Compartilho seu ponto de vista, mas concordo só em parte com ele.

Eu não diria que a ufotopia irá "morrer" no sentido literal; o mais provável é se tornar reduto de um emaranhado de falso conhecimento, falsas revelações, falsas pesquisas e falsos mistérios, uma crença como tantas outras. Coincidência ou não, é exatamente sobre essa questão que trato no próximo post, já pronto, postergado em favor deste.

E com o que não concordo? Com a parte do "uma ufologia substituta".

Não, meu caro amigo, não quero ser arauto de nenhuma nova ufotopia para substituir a velha. Em nenhum momento pretendi assumir esse lugar, ser um divisor de águas, um reformador. É verdade que, anos atrás, defendi a ideia de uma "nova ufologia" a partir dos conceitos de Vallée e outros autores, até o dia em que abandonei de vez a atividade investigativa. Desembarquei, mas continuei observando o fluxo das marés, tanto que, duas décadas depois, um amigo me convenceu a escrever textos para um blog que ele mesmo se encarregaria de montar, daí surgindo o Ufologia 3.0 (hoje Ufotopia), para promover meus estudos. Acho que Rabelais me passou uma lição de casa: Conheço muitos que não fizeram, quando deviam, porque não quiseram, quando podiam.

Não, o blog nunca poderia ser uma nova ufologia, ainda que possa parecer, até porque, como substituir o que nunca existiu? Além disso, as propostas são totalmente distintas. Enquanto a ufotopia é uma sistema que se abastece de um repertório falido de contatos, abduções, marcas, filmes, fotos, delírios e um gigantesco histórico de bobagens, meu intuito é apenas e tão somente ser um canal de informação e reflexão ao estabelecer pontes com o saber consolidado.

Se a ufotopia é uma ilha de fantasias, o conhecimento é terra firme de verdades. 

Ufotopia não quer convencer ninguém, não prega nenhuma doutrina, não se verga ao senso comum, não adota posições inflexíveis. Porém, e isso é importante ficar claro, a firme convicção que norteia seu caminho não foi construída do dia para a noite e não se lastreia em ficções, mas na experiência de décadas e em solos férteis e ricos de saberes. Você, leitor, se convencerá (ou não) por sua conta ao sopesar os conteúdos com consciência, lucidez, discernimento. As pontes têm essa função, levá-lo da ilha ao continente para que decida qual direção seguir e onde quer ficar. É uma questão de escolha.

Não precisamos de uma nova ufotopia, já aprendemos o bastante com a antiga. Ao idealizarmos o alien, o de fora, o 'outro', desnudamo-nos por dentro e por inteiro. Esse é o seu único legado - ser uma lente antropológica. O mundo exige um novo modelo de conhecimento, contrário à "especialização": a transdisciplinaridade. Isso não é uma escolha, é o único caminho possível. A ufotopia não atinou para essa transformação, e caminha agora para o limbo, o nada, o vazio. Por quê? Porque ela se "especializou" com esmero e sem escrúpulos em dar respostas simplistas e erradas, quando não falsas, para questões complexas muito acima da sua capacidade de entendimento. Ou seja, despejou disparates, e dos grandes. Ela jamais poderia ser o que pensa ser - ciência - porque nunca buscou ter o que precisava: respeito, credibilidade, solidez e tantos outros requisitos fundamentais. Agora é tarde. O último a sair apague a luz.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Insanidade, estupidez ou comédia?

O assunto de hoje me fez regredir ao tempo em que disparava críticas ásperas sem poupar ninguém, nem os amigos, quando erram necessárias. Parece que foi ontem, e não me sinto enferrujado. É que em certos momentos a elegância, a diplomacia, a boa formação e a ética devem ficar de lado para dar vazão à indignação ante um fato desprezível, indecoroso. Já não sou lá muito polido quando algumas situações exigem acidez na palavra, e menos ainda quando se tornam obscenas.

O texto original estava bem mais pesado, sem meias palavras, contudo, precavido, submeti antes a um olhar jurídico e fui aconselhado a abrandar os termos, a "pegar leve", ou seja, a escrever com a razão, não com o fígado. Contrariado, ponderei e obedeci. Só um pouco. Por isso, me desculpo pelo linguajar e vocabulário rude. O que me causa repugnância, que abomino, condeno e combato com fúria titânica é a exposição acintosa da ignorância coletiva para um assunto em que todos são apedeutas. Não sei qual termo no título está a caráter para o fato, diria que todos e principalmente os que foram suprimidos. Vejo fortes indícios de um comportamento psicótico.

A tragédia anunciada: "Câmara Municipal abre seu plenário para seminário sobre extraterrestre".¹ Até aí nada de mais, a Câmara nunca foi mesmo um primor de seriedade, então, que abra suas portas a quem bem entender. Alguém poderá dizer que isso é democracia, eu chamo de outra coisa. A indecência e a impostura intelectual estão no conteúdo desse espetáculo grotesco com o título Seminário Científico sobre Extraterrestres do Nosso Passado - um vomitório desatado de irresponsabilidade, desrespeito, boçalidade, falácias, obtusidade, aleivosias e desvarios, por conta de um analfabetismo científico e cultural tão macabro quanto nocivo, de um anacronismo colossal, com as bênçãos do curral político. 

O evento se deu sob a batuta de uma tal Academia Latino-Americana de Ufologia Científica, parida sabe-se lá de qual vacuidade mental. Lamento que um dos palestrantes seja um velho amigo, vítima talvez de alguma lavagem cerebral bem-sucedida. A programação é de revirar o estômago de tão fétida, posto que usa como base argumentativa os casos Adamsky, Antonio Rossi, Viktor Novi e Karran, fraudes notórias e sabidas, além de outros embustes clássicos.
Confira: https://www.facebook.com/events/384256685292706

"É preciso desatarraxar o parafuso da história, porque eles [alienígenas] efetivamente estão chegando", anuncia sem a menor cerimônia o mestre de cerimônias. Se desatarraxar o parafuso da cabeça desse cidadão, ela cai. A esse zurro jumentício segue-se o do orador: "A pergunta é se chegarão ou se voltarão". Melhor não apostar. O mau cheiro aumenta quando, com o aval de um coro de "cientistas" e exibindo na tela cenas de Independence Day, afirma, com desfaçatez quase celestial, que "ufologia é uma ciência, sim, e uma ciência nobre, nova, que não se ensina nas faculdades". Essa é de lascar.

Cientistas? Um pesquisador em "transcomunicação espiritual" pós-graduado em "psicologia energética corporal e consciência", um médico vegetariano, um ex-meteorologista sênior do Weather Channel nos EUA, além de outros títulos do mesmo naipe. O mal se alastra quando o expositor reclama que "a ufologia é vista de uma maneira preconceituosa, com muita fantasia, desconhecimento". O que ele esperava com este circo de horrores? Depois, alega que Hollywood é a culpada por criar o estereótipo do monstrinho verde em obras como, por exemplo, "Marte Ataca!", porque ele acha Contatos Imediatos de Terceiro Grau e O Dia em que a Terra Parou mais verossímeis!

Não é só a história que precisa desatarraxar os parafusos. 


Esse mesmo senhor esteve no Peru visitando múmias que julga serem de ETs. Ou ele crê serem seus ancestrais ou quer ressuscitar Däniken e seus insuportáveis deuses astronautas. E sua verborreia doentia não reconhece nem respeita a lucidez alheia, citando as sagradas escrituras como a Bíblia e o Alcorão, excreta, com empáfia pseudo douta, que Maomé, Jesus e Moisés seriam "contatados autênticos". Isso tem nome: demência mórbida. Conheço bem o tipinho, gente medíocre que existe às pencas e prolifera como batráquios no pântano e ratos no esgoto, deixando um rastro pestilento por onde passa. A Câmara paulistana e a plateia tiveram o que merecem. 

Entende agora porque pulei fora dessa verdadeira Stultifera Navis? Porque o padrão é esse! Entende agora porque a ufotopia é um hospício ao ar livre? Entende agora porque as autoridades guardam asséptica distância desses psicopatas perigosos? Entende agora porque eu me dedico em te informar e prevenir dos loucos de pedra, aventureiros, farsantes e desmiolados à solta na multidão? Outro dia escrevi aqui que quem se abrigar sob o meu guarda-chuva não irá se molhar. Entendeu agora?



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¹http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/03/1869997-camara-municipal-abre-seu-plenario-para-seminario-sobre-extraterrestre.shtml

sexta-feira, 24 de março de 2017

Longevidade não é sinal de inteligência




O fato virou manchete no mundo: "Cientistas detectam sinal de rádio que pode vir de uma civilização alienígena". Já abordei este assunto mais de uma vez, mas quando ele volta à baila, as pessoas me fazem muitas perguntas (geralmente as mesmas). A fonte da notícia foi o SETI - Search for Extraterrestrial Intelligence que, afinal, para receber as polpudas verbas de pesquisa, precisa mostrar serviço e não só, apresentar resultados. O sinal captado vem de uma estrela localizada na chamada "zona habitável", a 95 anos-luz e idade estimada em 6,5 bilhões de anos. Talvez já nem exista mais, nem o planeta que a orbita com a hipotética civilização que poderia ser a responsável pelo sinal. Mas não é esse o ponto que quero comentar.

Uma estrela emitir um sinal tão potente e por tanto tempo é normal, porém, crer que uma civilização, por mais antiga e avançada, também tenha desenvolvido tecnologia semelhante à nossa não é lá sinal de muita inteligência. Só falta os deslumbrados cientistas do SETI ou de outros centros acharem que os aliens estão enviando uma mensagem em código Morse! Se for o caso, sugiro internação imediata. Cada vez que uma notícia dessas é divulgada e provoca tal reação, mais reforça a necessidade do ser humano de companhia cósmica e insistência obsessiva e alucinada nessa busca. Apesar de o retrospecto ser de total frustração, ele não desistirá jamais.

Alguns poderão perguntar por que não pesquisar a vida extraterrestre inteligente, mas eu não tenho a menor vontade de responder, de tão óbvio. Ou melhor, respondo com outra pergunta: Por que não enfiar a parafernália de instrumentos num formigueiro para tentar decifrar a linguagem das sociedades formicídeas? Não seria formidável descobrir o que as incansáveis formiguinhas 'conversam' depois do jantar, já que a espécie 
é considerada inteligente? É mais perto, mas fácil, seguramente mais barato, com ampla variedade de insetos himenópteros para estudar e a vantagem de acompanhamento permanente. A chance de um resultado positivo é zero. O princípio é o mesmo.

Não importam classe social, credo, cultura, profissão ou curriculum, todos querem dividir o espaço com mais alguém, a qualquer preço. Quanto mais o universo se agiganta aos nossos olhos, mais improvável encontrar parceiros por aí. O princípio é o mesmo: Quanto maior o palheiro, mais difícil achar a agulha. Quanto mais fundo o rio, mais difícil pescar o peixe. A solidão é insuportável, daí, qualquer 'barulhinho' que venha de fora deixa a turma excitada. Nem vou comentar a indisfarçável vaidade profissional e intelectual daquele que intenta ser o primeiro a captar um sinal inteligente vindo do espaço exterior. Nesse momento o ego chega literalmente às estrelas.

Em 1961 surgiu a famosa Fórmula de Drake (ou Equação de Green Bank) que buscava encontrar um número razoável de planetas que pudessem abrigar uma civilização tecnologicamente comunicativa. Criada pelo astrônomo Frank Drake, obviamente ela não vingou, apesar dos esforços de uma equipe de respeito. Como não se pode responder às premissas fundamentais "Que tipo de vida estamos procurando?"e "O que se entende por inteligente?" a equação se dissolve.

Mas não é o que pensam os apressadinhos desinformados e tolos diplomados, que se agitam com a possibilidade quase tão real, quase tão próxima, quase tão crível de que alguém bate à porta. Cuidado meninos, segurem a sanha. Os mais comedidos cientistas do SETI,  mais fincados em solo firme e mais sensatos afirmam, em tom quase tão sério que, se houver inteligências por aí prontas a nos visitar, com certeza virão para assumir o controle do mundo. Não há nada mais estúpido que o Welcome space brothers. Talvez seja prudente não abrir a porta.
 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Quando a imaginação atravessa a realidade


Continuando o tema da sci-fi, hoje resolvi economizar nas palavras e deixar que um pequeno pacote de imagens fale por si, ilustrações criadas para as novelas de ficção científica décadas antes da chamada era moderna dos discos voadores - 1947. Nunca houve uma "era antiga". É evidente que o formato "disco" das então chamadas naves interplanetárias dormitava no inconsciente, no imaginário, esperando o momento de se deslocar e atravessar a realidade cotidiana. Era uma questão de tempo.

Observe, consulte a imageria ufológica e verá que as semelhanças não são meras coincidências; há muito mais em jogo, há toda uma estrutura dinâmica, semântica, estética, com linguagem e gramática próprias, material que enriquece as ciências sociais e humanas, a história, a cultura, o imaginário, a mitologia e a religiãoA ufotopia é o sorvedouro dos elementos da ficção num processo mimético de ideias e conceitos. É uma história que se escreve por mãos alheias e cenários emprestados. 


1909 - Le vainqueurs de l’espace. Arnould Galopin. Paris.
Cortesia Yven Bosson Collection; agendemartienne.fr



1926 - Amazing Stories. Capa: Frank R. Paul. amazingstoriesmag.com



1936 - Wonder Stories. Capa: Frank R. Paul. amazingsotiresmag.com




1938 - AstoundingStories. www.pulpartists.com/Wesso.html



1940 - Thrilling Wonder Stories. Capa: Frank R. Paul. Gallery Frank R. Paul’s Artwork. frankwu.com



1946 - Amazing Stories. amazingstoriesmag.com



Vale destacar o que diz o sociólogo Jean-Bruno Renard, que vê o fenômeno Óvni como o ponto culminante da simbiose entre os temas de ficção científica e as crenças pararreligiosas. Já para o professor de Teologia da Universidade Göttingem, Andreas Grünschloß, "Sem dúvida, um importante atrativo das crenças em UFOs é a sua capacidade de sintetizar elementos de tradições esotéricas, espirituais, teosóficas e cristãs, para reconciliá-las com a ciência, a tecnologia espacial e a cosmologia moderna." Eu tenho dito que a ficção é a porta de entrada da ufologia, e a religião, a de saída. Daí porque estou adotando a expressão ufotopia, muito mais apropriada.

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Biago D'Angelo. “Deuses Invisíveis: A ficção científica e os mitos cosmogónicos
(Lem, Lessing e Le Guin)”. E-topia: Revista Electrónica de Estudos sobre a Utopia,       
nº 9, Edição Temática “Ano 2100”. Porto. 2008.
Umberto Eco.  Sobre os Espelhos e Outros Ensaios. Nova Fronteira, 1989.
Abdres Grünscholß. “Quando entramos na nave espacial do meu pai - Esperanças
cargoísticas e cosmologias milenaristas nos novos movimentos religiosos de UFOs”. 
Trad. Paulo Gonçalves Silva Filho. Revista de Estudos da Religião. PUC/SP. nº 3, 2002.
Patrick Legros et al. Sociologia do ImaginárioSulinas. 2007.
Alice F. Martins. Saudades do Futuro: O cinema de ficção científica como   
expressão do imaginário social e do devir, Ed. UnB. 2013.
Bertrand Méheust. Science-Fiction et Soucoupes Volantes. Terre de Brume, 2008.
Carlos Reis. Naus da Ilusão. Multifoco, 2016.
Ieda Tucherman. “A ficção científica como narrativa do mundo contemporâneo”.
www.comciencia.br/reportagens/2004/10/09.html.

sexta-feira, 10 de março de 2017



Na semana passada você tomou conhecimento, pela primeira vez, da palavra ufotopia, expressão que criei para revelar a verdadeira face da ufologia. Desnecessário explicar. Outros termos virão a reboque, no âmbito da ficção científica, assunto inesgotável, de amplitude muito além do que se supõe e umbilicalmente ligado ao universo do disco voador. Por isso o post está dividido em duas partes, ficando a bibliografia reservada para o final. 

Umberto Eco identifica quatro caminhos possíveis para a obra ficcional: alotopia, ucronia, utopia e metatopia/metacronia. É nesta última que ele entende que a sci-fi encontra sua principal característica: "... o mundo possível representa uma fase futura do mundo real presente; e por mais que seja estruturalmente diverso do mundo real, o mundo possível é possível - e verossímil - exatamente porque as transformações a que foi submetido nada mais fazem do que completar as linhas de tendência do mundo real." Para Eco, a ficção científica assume a forma de uma antecipação, e a antecipação assume a forma de uma conjetura formulada a partir de linhas de tendência reais do mundo real. 

Em outras palavras, o que Eco está dizendo é que a FC segue o padrão utópico: "A projeção ou representação de uma sociedade ideal, muitas vezes caricatural, como deformação irônica de nossa realidade". E conclui: "
... o mundo paralelo é sempre justificado por rasgos, desfiamentos no tecido espaço-temporal, enquanto na utopia clássica ele é simplesmente um não-lugar dificilmente identificado (talvez passado e desapercebido) do nosso próprio mundo físico."  Ele entende que a ficção científica, de modo geral, oferece uma realidade que nem a própria realidade concreta é capaz de suplantar, onde o universo da narrativa é o único no qual podemos estar totalmente seguros de uma coisa e que oferece uma ideia forte de verdade.

São muitos os autores e especialistas que falam da importância da FC não só para a cultura de uma sociedade como para a própria sociedade. Morin, por exemplo, afirma que, por ser um espelho antropológico, o cinema (ou a literatura), como veículo de massa da ficção, reflete as realidades práticas e imaginárias, as necessidades e os dramas da individualidade humana. À realidade imaginária da obra de ficção corresponde a realidade imaginária do homem. Existe uma prevalência da fantasia realista e da ficção sobre o fantástico e o documental, e é a antropologia do imaginário que nos leva à essência das questões contemporâneas.

O crítico literário e estudioso de ficção científica Darko Suvin observa, neste gênero, uma proximidade cognitiva que permite, mais do que profetizar o futuro (não profetiza), compreender a realidade angustiante do presente de onde a exaltação das viagens como estruturas metafóricas da narração cognitiva. Ao mesmo tempo em que aproxima, ela cria uma espécie de "estranhamento cognitivo", um distanciamento invertido, ou seja, familiarizar o desconhecido.

A escritora Doris Lessing entende que a mente humana sente necessidade de se expandir em direção às estrelas, às galáxias e ao infinito, e a ficção seria como a "eclosão do nada", algo como o renascimento da necessidade do mito e da função das religiões na produção estética da obra ficcional. Ela afirma ainda que os mitos são atuais porque oferecem condições "lógicas" ou aceitáveis para viver ao reunir em si os questionamentos sobre a ciência e a sociedade.

Depois deste breviário, incompleto naturalmente, é possível deduzir que na ficção, no mito, no conto de fadas, nas fábulas e no fenômeno Óvni, tempo e espaço são indefinidos - acronia e atopia, ou, indo mais além, heterotopia e heterocronia, dimensões de cruzamento entre o real e o imaginário. Tão importante quanto estudar a ficção à luz da antropologia, é compreender o antropos no contexto da ficção. Na visão de Morin, é no núcleo desta posição que está o fato que caracteriza o homo sapiens e o homo demens - produtor de fantasias, fantasmagorias, ideologias, mitos e magias.


O que estou tentando mostrar, muito resumidamente, é que a narrativa da obra ficcional tem pesada influencia na linguagem ufológica, em todos os sentidos, a tal ponto de não se distinguir onde uma acaba e começa a outra. Definitivamente, ufologia não é para principiantes e amadores. Continua na próxima semana.

sexta-feira, 3 de março de 2017


Conexões desconexas
carlosalbertoreis51@gmail.com


Sei que parece óbvio o que vou dizer e, por favor, não pense que esteja subestimando sua inteligência, até porque sua presença é sinal de que há vida inteligente por aqui. Você sabe o que é conexão desconexa? Grosso modo, é quando se liga um fato a outro sem que haja vínculos entre eles, ou pode ser também pensar uma coisa e falar outra, ou confundir "alhos com bugalhos".

O mais comum é quando assistimos o primeiro capítulo de uma novela ou seriado, o segundo, o terceiro... o quinto... aí perdemos vários seguidos e quando retomamos lá pelo vigésimo episódio, não entendemos mais nada da trama e tentamos ligar os fatos. Começamos a ler um bom livro, mas, por circunstâncias várias, deixamos de lado por um tempo e quando voltamos ao ponto marcado, a memória não reteve os fatos anteriores e temos que retroceder várias páginas ou até começar do zero para refazer as ligações de causa e efeito. Por que estou dizendo isso?

Porque é o que acontece por aqui. Não sei se você é leitor assíduo, se está fazendo as ligações corretas entre os inúmeros temas abordados - porque estão todos ligados como fios imperceptíveis de uma teia. Também não sei se estou sendo claro em muitas dessas passagens, não sei se este blog está atingindo com clareza seus objetivos. É uma autocrítica? Sim, também, mas há uma clara percepção de que tem gente misturando as estações. Será o senso comum que prevalece e interfere na visão dos fatos? Se for, você terá que mudar seus conceitos, porque tudo o que eu não quero é cair na vala do senso comum. Tenho evitado fazer argumentações subjetivas justamente para não margem a interpretações ambíguas. O fato é que a confusão persiste.

Com frequência me perguntam se eu "acredito em vida extraterrestre". Claramente há uma sub-pergunta aí, uma pergunta com segundas intenções, uma pergunta antevendo resposta prévia, querendo saber se, acreditando em vida extraterrestre, acredito também em seres extraterrestres, em "discos voadores". Quem faz a pergunta não está pensando em microrganismos, vida unicelular, essas coisas, mas em vida inteligente. Esse é um exemplo clássico de conexão desconexa. Eu não trabalho com crença, trabalho com lógica e ciência. Vou mais fundo.

A história escreve que certos processos religiosos serviram como duro obstáculo à evolução humana em suas relações com a cultura e a ciência. A religião sempre esteve imbricada à narrativa mítica e o inverso é verdadeiro. Estou falando da origem do pensamento religioso no qual estamos imersos até a medula, por respeito e medo do desconhecido (ou do transcendente). Estou falando do homo religiosus, que traz em si o sentimento da divindade. Essa conversa vai longe. Vou mais fundo ainda.

Vejamos o que diz Laplantine: "A construção da divindade é realizada no imaginário coletivo. Este imaginário caracteriza-se por uma criação limitada e definida pelo sistema religioso e social. À medida que são colocados para a sociedade novos fenômenos e problemas, criam-se novos deuses ou reinterpretam-se as divindades tradicionais. As criações de novos deuses são feitas pelas relações entre as tradições religiosas e socioculturais e a reinterpretação dessas tradições". Já mostrei aqui que este é o pensamento corrente e consensual entre os estudiosos nas ciências sociais.

Para a historiadora das religiões Karen Armstrong, as religiões são construções culturais, históricas, sendo o antropomorfismo o fundamento de qualquer religião, e os deuses refletem as aspirações e ambições humanas. Segundo ela, o pensamento religioso surge a partir deste desejo de ligar-se à divindade, ou religar - religare, religio - o profano ao sagrado, o mundo inferior ao plano superior, o elevado, o "além-terrestre". “Não se deve esquecer que, para o homem religioso, a sacralidade é uma manifestação completa do Ser”, afirma Eliade. A existência da vida extraterrestre inteligente, da sua realidade, é a pedra angular da ufologia, e, neste sentido, ela deixa de ser ufologia para se tornar uma... ufotopia.

Para encerar, esperando que tenha ficado claro o que é uma conexão desconexa: Vida extraterrestre não é a mesma coisa que vida extraterrestre inteligente. O tema foi explorado no post "Vida extraterrestre é possível, inteligente não" (/5/2016). Não se trata apenas de discutir filosofia, ciência ou lógica porque é uma questão religiosa e cultural bem mais complexa, enraizada no espírito humano. "Acreditar" em discos voadores e seres alienígenas subentende crença, e crença não se discute. O que se discute é o conhecimento que podemos ter sobre ela, suas origens, suas causas. A crença acaba onde começa o saber.

Em tempo: Dias atrás, astrônomos anunciaram a descoberta de sete planetas de características semelhantes às da Terra orbitando uma estrela anã-vermelha do tamanho de Júpiter, num sistema planetário distante cerca de 40 anos-luz batizado de Trapist-1. O que me surpreende não é a descoberta em si, mas os cientistas alegarem que pode haver mais! É claro que pode, com certeza haverá mais, muito mais, mas atenção: como sempre acontece nessas horas, aumenta o frenesi pela possibilidade de haver vida por lá. Sim, pode haver, mas vamos manter os pés no chão.

As primeiras informações indicam que as condições parecem favoráveis para que algum tipo de vida possa existir, ou ter existido, inclusive a possibilidade de água em estado líquido. Mas é só o que se tem, o resto é pura especulação. A vida pode ser abundante universo afora, mas não será a vida inteligente afirmada infantilmente pela ufologia nem a acalentada pelos sonhadores. Isso, repito, não é ciência, é ufotopia - projeção ou representação de um ideal não muito bem definido, não exatamente um outro mundo, mas de um possível imaginado. Ufotopia. Semana que vem tem mais.

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ARMSTRONG, Karen. Em Nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, cristianismo e islamismo. Companhia das Letras, 2009.
DELUMEAU, Jean. De Religiões e de Homens. Loyola, 2000.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano.  Martins Fontes, 1992.
LAPLANTINE, François; TRINDADE, Liana. O que é imaginário. Brasiliense, 1997.
LÉCY-BRUHL, Lucien. A Mentalidade Primitiva. Paulus, 2008.