Obras

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domingo, 27 de março de 2016



A Ufologia é uma mentia? Não, mas é uma farsa.


Confesso que me agrada muito quando um leitor se manifesta, seja qual for a natureza do seu comentário. Tenho motivos de sobra para gostar: a livre expressão do pensamento alheio é uma forma legítima de se avaliar o alcance do texto dentro do cenário a que ele se propôs, estimula a reflexão do autor do texto (e dos leitores que o leem) até como forma de autocrítica, se for o caso, e fermenta o intelecto em busca de resposta, esclarecimento ou réplica. No jargão popular, o leitor "levantou a bola" e eu não vou perder a oportunidade de gol. Dito isto, vamos ao que interessa.

No post Teatro Ufológico..., um leitor postou sua opinião a partir do trecho em que comparo a linguagem da Ufologia com a do teatro - "uma farsa, uma fantasia...", e conclui seu raciocínio com "Em outras palavras, a Ufologia é uma MENTIRA". Fica difícil saber se ele compreendeu corretamente a mensagem, se eu, como autor, não fui claro o suficiente na transmissão da mensagem, ou se ele apenas extraiu uma pequena parte do conteúdo como gatilho para expor sua descrença em relação ao tema. Faltou saber também o que ele entende por ufologia. De qualquer modo, até para dirimir dúvidas, tentarei esclarecer o melhor possível.

A Ufologia não é uma mentira, mas uma farsa. A confusão pode estar no verbete "farsa", que não é sinônimo de mentira. Farsa é uma encenação, "representação que induz ao logro, de caráter burlesco" (Houaiss). Neste sentido, não há como negar, essa é a realidade, a Ufologia praticada à revelia do método científico e do pensamento lógico, racional e crítico é, sem dúvida, um teatro farsesco, risível a mais das vezes. Os atores (ufólogos) fingem pesquisar o que acreditam conhecer; o público aplaude sempre a peça ficcional fala o que ele quer ouvir, mesmo que não entenda o roteiro; a mídia explora se a previsão é "espetáculo" e casa cheia, e as autoridades compactuam quando lhes é conveniente e lhes outorga um pretenso poder. Afinal, o show deve continuar.

Agora, espero que o mesmo leitor tenha se interessado em ler o post seguinte - Afinal, por que pesquisar... que é quase uma continuidade do Teatro. O exercício da prática investigava, dentro dos princípios mais rigorosos do pensamento científico, leva não só a entender o mundo e as instituições que fazem este mundo ser o que é e como é, como também, e principalmente, conhecer a nós próprios e nosso papel no panorama global da sociedade em que vivemos. Creio que posso resumir tudo numa única e forte palavra: responsabilidade. É por isso que este blog se chama Ufologia século 21.

Assim, meu caro leitor descrente da Ufologia, e  queridos leitores que me acompanham nestas linhas, encerro dizendo que não investi quatro décadas e meia pesquisando uma mentira, embora tenha passado parte dela num "palco", com todos os holofotes a que tive direito. Porém, quando percebi que o meu personagem contrariava os princípios fundadores da minha consciência, saí de cena. Faço um mea culpa simmas não estou aqui para me redimir, nada tenho do que me arrepender. Muito do que aprendi sobre o ser humano devo à Ufologia que, através de suas "mentiras" vem contando muitas verdades. É delas que venho falando aqui, com humildade e respeito a você.







sexta-feira, 18 de março de 2016



O INSTINTO QUE ME MOVE!


O post anterior, Afinal, por que pesquisar “disco voador”, rendeu manifestações que gostaria de comentar, por julgá-las interessantes, começando por um colega da Argentina. Escreve ele que a frase de Elliot e a metáfora do palimpsesto foram muito boas para o ponto de vista da análise. De fato, são situações que experimentamos no cotidiano, muitas vezes sem perceber, e os exemplos a seguir ajudam a entender a coisa.

Quando você assiste pela segunda vez àquele filme que tanto gostou, ou relê um livro que te marcou de alguma forma, irá perceber sutilezas que passaram batidas da primeira vez. E por quê? Porque, neste momento, passados meses ou anos, você se tornou outra pessoa, mais amadurecida, com outras vivências, outros valores, e essa revisão do filme ou do livro lhe dará uma nova perspectiva e um novo entendimento dele próprio e do mundo. E de si mesmo. O objeto é o mesmo, porém visto agora com outros olhos, e fica a sensação de que é a primeira vez. Isso é Elliot.

Para a metáfora do palimpsesto, recorro ao teatro, à ficção científica e ao mito. Como representações que são, mostram uma "realidade" querendo falar de outra que, de algum modo, nos revela, nos desnuda. Só com perspicácia e espírito crítico somos capazes de filtrar a narrativa e decifrar a simbologia embutida. O que Lévi-Strauss diz sobre o mito vale para o teatro e para a ficção, de que o problema está em encontrar a invariante em um conjunto de códigos, em traduzir o que está expresso na linguagem deste conjunto


O impulso de conhecer



Outra participação muito interessante que despertou muito minha curiosidade para o assunto foi a de uma amiga, citando Melanie Klein, psicanalista austríaca colega de Freud: "Melanie dizia que todos nós somos dotados de um instinto epistemofílico, sem o qual nem a nossa própria existência poderia ser mantida." A saber: episteme conhecimento, ciência, e filia - atração, amor, desejo, logo, desejo pelo conhecimento. A expressão foi usada por Freud  ao considerar a existência de uma outra pulsão, designando, mais precisamente, a tendência inata da criança querer conhecer a verdade dos fatos que a rodeiam, para as quais ela não tem explicações. Freud também denominou essa pulsão como instinto do saber ou de pesquisa, mais adequado, mas ele não seguiu explorando esse rico filão. Melanie, por sua vez, estabeleceu uma correlação desse instinto com o desejo de controlar e dominar, em que o conhecimento seria um meio de controlar a ansiedade.

Como acrescentou a leitora, "provavelmente Melanie tenha razão, pois quanto mais conhecemos o meio, mais somos capazes de controlá-lo e dominá-lo. Ela colocava a infância no mesmo patamar daquele em que se inscrevia o Homem primitivo, alguma coisa como a ontogênese sendo o resumo da filogênese”. Trocando em miúdos, a raiz modela o fruto. Muito do que somos se deve ao que fomos. Devemos pensar sobre isso. 

O próximo comentário vem de um amigo de longa data, astrólogo, que alegou não ter ficado convencido dos meus argumentos por considera-los “parcos”. Em primeiro lugar, e que fique bem claro, em nenhum momento haverá aqui pregação de qualquer natureza, muito menos pretensão de convencer, doutrinar ou catequizar quem quer seja sobre qualquer assunto. A intenção explícita é diversificar as bases de reflexão por meio de outras vias de pesquisa, a partir não de um discurso opinativo e proselitismo, mas de fundamentos sólidos criteriosamente selecionados de fontes primárias. Poi isso, a bibliografia, quando houver, será sumária, de caráter meramente introdutório.

Em segundo lugar, este é um espaço que, por princípio, para não enfadar o leitor, pretende ser claro e objetivo, com prolegômenos que preparam o terreno para uma discussão posterior mais ampla e fecunda em outra arena. Especificamente neste caso, para a obra que está a caminho, onde, aí sim, ao longo de 380 páginas e tendo na retaguarda vasta e rica literatura, florescem argumentos consistentes na construção de uma tese.

Por fim, encerro com a participação de outro velho amigo, também da Argentina, que transcrevo na íntegra e no original, ondede maneira singela, traduz e sintetiza  a proposta última deste blog. Faço minhas suas palavras: La curiosidad natural del ser humano nos conduce a preguntarnos sobre los misterios, que empiezan con la vida misma y el cosmos, y a intentar develar o buscar alguna clase de respuesta. Sea ésta científica o filosófica. Luego, algunos sólo nos fascina transitar el camino de la pesquisa, cualquiera sea el objeto de la investigación. Allí nos encontramos con esos "peregrinos" de distintas tierras, con quienes compartimos las mismas. Tu sitio y las reflexiones son nuestros espacios comunes.


ZIMERMAN, D. E. Os Quatro Vínculos - amor, ódio, conhecimento,   
    reconhecimento - na Psicanálise e em Nossas Vidas. Porto Alegre. Artmed. 2010.

LÉVI-STRAUSS, C. Mito e Significado.  Lisboa. Edições 70. 1987.



segunda-feira, 7 de março de 2016


Afinal, por que pesquisar “disco voador”?

Eis aí uma pergunta recorrente que ouvi muitas vezes ao longo de todos esses anos. Aliás, só eu não, muitos, quase todos os pesquisadores que um dia se lançaram nessa jornada devem tê-la ouvido. E todos devem ter dado as respostas mais diversas, cada qual dentro de um contexto todo particular. Interesses pessoais, contingências da vida, curiosidade, falta do que fazer e, em muitos casos, por terem passado pela experiência de ter visto alguma coisa, sem saber exatamente do que se tratava. Não é o meu caso. De qualquer modo, tais situações foram o gatilho para que um dia se tornassem “ufólogos”. 

Por outro lado, todos, sem exceção, acredito, devem ter sentido na carne um olhar enviesado, desconfiado, um esgar, um instante de silêncio – quase de reprovação – por parte do perguntador, como se estivesse a pensar “com tanta coisa importante para fazer na vida, esse cara vai perder tempo correndo atrás de disco voador?!” Confesse, se você não é um de “nós”, em algum momento deve ter passado pela sua cabeça algo semelhante em relação ao seu amigo, sua namorada, um colega de trabalho, seu cunhado... não se preocupe, não é uma crítica. É compreensível. Muito embora alguns adotem uma postura séria e de sincero interesse pelo assunto, o feeling de anos detecta que se trata apenas de um discreto gesto de respeito para com o pesquisador.

Ora, se pesquisar disco voador oferece farta munição para chacotas e piadinhas, se a mídia só bate à porta quando o fato pressupõe espetacularização da notícia, se o investimento em livros, viagens, participação em congressos é alto e sem retorno (financeiro), salvo exceções, por que diabos insistir nessa “coisa de malucos e alienados” se o resultado das pesquisas é matemático, isto é, igual a zero? Pois bem, presumo que a curiosidade deve estar fazendo cócegas em você para saber a minha resposta. Lá vem ela. Antes, uma nota de rodapé: enquanto por que subentende uma causa, para que implica uma finalidade,e é o que me parece muito mais importante.

Quando, no distante ano de 1971, eu tive meu primeiro contato (calma!) com a literatura sobre o tema, obviamente meu interesse foi às alturas. Literalmente. Meus olhos começaram a esquadrinhar a vastidão celeste em busca dos “discos”. Se eu acreditava na existência deles? Claro que sim, mesmo não tendo muita noção de como a coisa acontecia. Foram necessários muitos anos de estudo, muita leitura, muitos congressos, reflexões, debates, vigílias, pesquisas de campo, frustrações e decepções, muita discussão, muitos bastidores e muita encrenca para, enfim, reunir toda essa bagagem e formar um juízo bastante lúcido, amplo, agudo, profundo, sensato, crítico e objetivo, porque o assunto é extrema e ricamente complexo, que não se resolve numa conversa de bar. Muito menos no espaço deste blog, mas é o que tenho pena lançar algumas sementes. Vale a pena.


Por que raios etão pesquiso “disco voador”?

A primeira coisa que posso dizer me remete ao poeta britânico T.S. Elliot (1888-1965): O fim da busca será retornar ao ponto inicial e conhecer o lugar pela primeira vez. Entendo “fim” não como término, encerramento, mas como  perpetuum mobile do saber. Ao fazer e refazer essa trilha inúmeras vezes, senti que caminhava por uma espécie mesmo de espiral - já vira isso antes, mas os olhos eram outros, a perspectiva era diferente, o patamar de conhecimento estava um grau acima, se o considerarmos como um crescente, ou um grau  abaixo, se falarmos em profundidade.

Então, ao encaixar as peças desse quebra-cabeças – mesmo incompleto, amparado por uma constelação de verdadeiros desbravadores do pensamento e profundos conhecedores da natureza humana, de Aristóteles a Kant, de Spinoza a Nietzsche, uma imagem irrompeu fulgurante iluminando toda a minha trajetória: O “disco voador” era, e é, apenas um palimpsesto! E que palimpsesto, simplesmente perfeito! E o que há por trás dele? Quem ou o que ele oculta? Dirá essa esfinge moderna ao intrigado: Decifra-me! Reflete sobre o que vês, porque o que vês te reflete. Decifra-te! Quem tiver olhos para ver, ouvidos para ouvir, cérebro para pensar e sensibilidade para entender a chave do enigma, chegará onde cheguei. E aí, decifrou? 



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016


Teatro Ufológico. Comédia ou Tragédia?

Depende de como se olha a questão. De perto pode ser uma comédia, de longe, uma tragédia. Ou pode ser ambos.Vejamos. O que um ufólogo deveria pesquisar? O Óvni, o Ufo, a nave extraterrestre, o disco voador, o que seja. É o que ele pesquisa? Não, absolutamente não. E por que não? Porque não se pesquisa o que não se tem em mãos para pesquisar. Como assim? Façamos uma rápida reflexão.

Imagine uma equipe médica investigando a etiologia de uma doença rara e misteriosa através unicamente de fotos dos pacientes e dos órgãos lesados, da pele manchada, dos relatos sobre suas dores, incômodos, dificuldades. Nada de laboratório, nada de biópsias, nada de exames clínicos. Imaginou? Você acha que esse grupo conseguirá diagnosticar as causas da doença? De qual doença? Terá ele a capacidade de determinar a população de risco, de prognosticar a gravidade, os sintomas e o grau de deterioração do corpo, qual o tratamento adequado e o princípio ativo capaz de estancar a progressão do mal e até sua cura? Não, absolutamente não. Sem o conhecimento profundo da matéria e sem o objeto da sua investigação, o grupo não vai a lugar algum. O câncer vai matar o infeliz e a equipe médica morrerá na ignorância. O mesmo raciocínio se aplica à Ufologia.

Por que comédia?

A graça nisso tudo está pelo fato de a Ufologia se investir de uma autoridade que não lhes pertence, de acreditar nessa pretensa autoridade e no seu falso saber, servindo de cenário roto para o papel farsesco dos seus membros, que fingem investigar aquilo do qual não têm a menor ideia do que seja. Em outras palavras, estão mais para caçadores de Óvnis e coletores de casos, como eram as sociedades tribais arcaicas dos caçadores-coletores de 30 mil anos atrás.

Ser ufólogo, portanto, é uma abstração, um equívoco, uma falácia, é pertencer a uma categoria inexistente, é viver fora do mundo real, mas dentro de uma irrealidade toda particular. Não obstante os abnegados e valorosos pioneiros terem investido suas vidas nessa aventura, é óbvio que estavam – e estão, todos, ainda hoje, totalmente despreparados e inabilitados para exercerem essa complexa atividade. Ouvi alguém perguntar "- Então quem está preparado?"? Falarei sobre isso oportunamente, não vou deixar você na mão.

Por que tragédia?

Se o ufólogo não pesquisa o que deveria pesquisar do jeito que deveria porque não está intelectualmente preparado, se não tem o indispensável conhecimento da matéria, se não sabe como nem por onde começar, e se não tem o objeto de estudo para destrinchar seus mistérios, o estrago se concretiza no produto final que chega ao consumidor – na informação deturpada, corrompida, manipulada, prostituída na essência. E o público, ingênuo, leigo, acredita na palavra do estudioso, afinal, “se o ufólogo diz que disco voador existe e ele é o cara que sabe do assunto, quem sou eu para questionar?” "Se o médico me diz que o colesterol subiu, tenho que tomar os remédios que ele receitou". Não é desse jeito que a coisa funciona?

E assim, ao longo destas últimas quase sete décadas, a Ufologia tem mostrado ser de uma incompetência exemplar, de uma impostura cavalar, a peça bem mal encenada do que é uma antipesquisa graças à inépcia de seus roteiristas. Sim, leitor, eu sei, também pertenci a esse elenco de atores, mas com a diferença de que um dia abri os olhos, e ao me dar conta que participava de uma tragicomédia, saí de cena. Como todo teatro, esse também é só uma farsa, uma fantasia, uma ficção, porém, como toda  obra de ficção, ela igualmente fala a verdade, sob outra linguagem, outra narrativa e outro figurino. Resta ao público entender essa linguagem, ou continuará aplaudindo o que pensa ser o real. Fim do primeiro ato. Cai o pano.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016




O que é ser cético?


Antes de entrar no tema de hoje, quero ressaltar que este espaço não será dedicado a opiniões e achismos, ao contrário, terá textos fundamentados em muita leitura, estudo, análise, reflexão, por isso virão acompanhados de indicação literária como estímulo de leitura aos interessados. Dito isto, vamos ao que interessa. 

O que é ceticismo? O que é um cético? O ceticismo, adotado com outra roupagem teórica em ambiente distinto do filosófico (a Filosofia é seu local de origem e o ceticismo é um dos pilotis da filosofia moderna) pode destitui-lo de seu real significado. Daí, como sempre, reporte-se ao estudo etimológico para dar a conhecer seu conceito correto e definitivo: do latim scepticus, do grego skeptikosskepticism, significa indagar, refletir, observar, examinar, investigar e duvidar, sim, mas com inteligência e equilíbrio, praticando e aprimorando o espírito crítico a partir do conteúdo do conhecimento adquirido.

O autêntico cético não é nunca intransigente e duro opositor ou um descrente categórico contumaz, e sim um pensador incansável, sensível e flexível em suas posições, mas ao mesmo tempo exigente em suas prerrogativas. Ele é aquecido pela chama da inquietude, em permanente ebulição atrás de saciar sua sede pela verdade, e mesmo que não a encontre, valerá a pena entregar-se às searas do conhecimento. 
   
Vale trazer aqui um parágrafo da obra de Jean-Paul Dumont, Scepticisme (França, 1986), com tradução de Jamir Conte: "O termo ceticismo terminou por designar, hoje, na linguagem comum, uma atitude negativa do pensamento. O cético é visto, freqüentemente, não apenas como um espírito hesitante ou tímido, que não se pronuncia sobre nada, mas como aquele que, qualquer coisa que aconteça ou qualquer coisa que se possa dizer, se refugia na crítica. Da mesma forma, acredita-se ainda que o ceticismo é a escola da recusa e da negativa categórica. Na realidade (...) o ceticismo não autorizaria qualquer posição decidida, a começar até pela que consistiria em afirmar, muito antes de Pirro e como Metrodoro de Abdera, que sabemos apenas uma coisa: que nada sabemos. Os céticos qualificam a si mesmos de zetéticos, isto é, de pesquisadores; de eféticos, que praticam a suspensão do juízo; de aporéticos, filósofos da contrariedade, da perplexidade e dos resultados não encontrados."

Ficou claro que não era intenção fazer uma imersão histórica e filosófica obre o tema, nem discorrer de forma acadêmica recorrendo para isso a inúmeros autores, pois o objetivo é simplificar e facilitar a compreensão em termos bastante razoáveis.  O ceticismo traz o germe da crítica, tendo por substrato o esclarecimento dos fatos em discussão. O papel da crítica é exatamente trazer os fatos à luz da razão, como afirma Kant: " [A crítica] é o tribunal que garante a razão em suas pretensões legítimas, mas condena as que não têm fundamento",

A razão crítica  jamais irá render suas armas porque o cético não irá desaparecer, posto que é peça essencial no processo de aprendizado e do próprio conhecimento. Sabemos, todos, o quanto este tema é complexo, extenso e, em certo sentido, inesgotável. Minha contribuição é mínima, mero aperitivo, ao contrário da bibliografia, que parece um fausto e interminável banquete. Não há, contudo, polêmica ou divergências, apenas refinamento para sua mais completa definição, mesmo sabendo que qualquer definição é - por definição - limitante. A redundância é proposital. As obras listadas a seguir são apenas um ponto de partida. O resto da viagem é por sua conta.

HUME, David. Investigações sobre o Entendimento Humano. São Paulo. Ed. Unesp. 2004.

LANDESMAN, Charles. Ceticismo. São Paulo. Loyola. 2006.

RUSSELL, Bertrand. Ensaios Céticos. Porto Alegre. L&PM. 2013.

SMITH, Plínio J. O que é Ceticismo.  J. Zahar. Rio de Janeiro. 2004.

VERDAN, André. O Ceticismo Filosófico. Florianópolis. Ed. UFSC. 1998.







quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Adeus, “bons tempos”. Renovar é fundamental





      É muito comum, numa roda de amigos da “velha guarda”, alguém vir com o bordão do “bons tempos aqueles...”. É a deixa para esquentar a conversa em torno de vários assuntos – política, trabalho, casamento, educação, relações humanas, futebol e muitos outros. Em um cenário de incertezas, insegurança e vertiginosas transformações sociais e culturais como esse que estamos vivendo, a ideia de que “no passado tudo era melhor” ganha força e resgata o espírito saudosista de muitos.

Nesse papo de bar, um tema que inflama os ânimos diz respeito à velha ufologia, aquela do período dos anos 60 a 80, que reunia os pioneiros e indômitos desbravadores que, sendo ingênuos, não mediam esforços em busca de desvendar os mistérios daquele que seria chamado “o enigma do século”. Havia uma atmosfera de seriedade por parte da maioria, investida do desejo honesto de esclarecer os fatos. Mas os tempos mudaram e não se pode voltar ao passado, até porque ele naufragou num oceano de erros.

 Atenção aqui, “ingênuos” não é a mesma coisa que “tolos”. Ingenuidade aqui tem o sentido de sinceridade, lisura, honestidade e simplicidade – no que diz respeito à compreensão do fenômeno, reduzindo-o à mera presença de “naves extraterrestres e seres alienígenas” como a única explicação possível. A prematuridade das ações (e precariedade de conhecimentos) e a imperativa necessidade de respostas não os faziam perceber o engano em que estavam incorrendo. Para alguns dessa velha guarda, foi a era “romântica” da ufologia, romantismo que não tem mais espaço há muito tempo. Embora a “era moderna” dos discos voadores tenha se iniciado em meados do século passado, na verdade a ufologia nasceu no contexto da pós-modernidade, e é dentro dessa moldura que ela deve ser analisada. E o “romantismo” está atrelado ao moderno, não ao pós-moderno, por isso um e outro são inconciliáveis.


O trabalho está só começando 

Então, alguém pode perguntar: Que Ufologia se pratica hoje? Melhor perguntar: Qual Ufologia deve ser praticada? Não duvide, a resposta propõe extrema dificuldade para a plena execução de uma “novíssima” ufologia. Em tempo: este escriba também é das antigas, também cometeu erros, por ingênuo, portanto, fala com conhecimento de causa. Pelo menos não parou no tempo, não se acomodou; ao contrário, se recicla e se renova permanentemente, inquieto, insatisfeito, com insaciável apetite e sede de saber.

A extrema dificuldade começa ao tentar dar uma resposta satisfatória e totalizadora de como se deve trabalhar com a ufologia nestes novos tempos. Trabalhar e, principalmente, pensar. Se tomasse como parâmetro o trabalho que acabo de concluir, teríamos pela frente 400 páginas a serem discutidas, o que é inviável. Sintetizar seria uma medida errada, iria confundir mais que esclarecer. Vou ter que confiar na capacidade do leitor inteligente de saber ler nas entrelinhas.

Seguramente, nada é simples ao tratarmos desse ou de qualquer outro assunto. Complexidade é nota dominante. Ao compilarmos dezenas de obras que esquadrinham o presente e diagnosticam um cenário emaranhado de possibilidades, torna-se lógico deduzir que qualquer resposta que se pretenda deverá ser, obrigatoriamente, complexa, e permanentemente revisada. E não é diferente com a Ufologia. Não há mais lugar para os prosaicos aliens e discos voadores nos dias atuais. É anacronismo em alto grau. A percepção de uma realidade que vai muito além das imagens e dos objetos há muito passou a fazer parte de uma conduta cada vez mais crítica e exigente.

Para aqueles que estão chegando agora ao assunto, ávidos por conhecer os meandros e os bastidores da “pesquisa” ufológica, sedentos por documentos sigilosos (se rotulados “confidencial” será a glória), sequiosos por achados reveladores ou informações privilegiadas, um conselho. Não, uma advertência: vá devagar, que o cristal é coisa fina. Não se iluda com as aparências dessa baboseira toda, que não passa de teatro de segunda. Poupe o fôlego porque vai precisar dele, acredite. Este que escreve tem quase cinco décadas de experiência. Não vá cometer os mesmos erros, trilhar os mesmos já desgastados caminhos onde todos que já trilharam estancaram no mesmo lugar e estão lá até hoje.

Os que perceberam que o beco era sem saída, os que tiveram a sensibilidade e a coragem para empreender uma jornada de autoconhecimento, estes se deram bem. Sim, leitor, ao deparar com a verdadeira face do “disco voador”, o que se lhe revela é a face de quem o olha. Delírio? Devaneio metafísico? Pois é, entender, e aceitar, essa possibilidade é o mesmo que sentar numa cadeira de espinhos. Em contrapartida, as perspectivas de crescimento são muito melhores, muito mais edificantes e muito mais enriquecedoras e, de novo, falo com conhecimento de causa.

Há poucos meses, participando de um encontro com pesquisadores franceses, em Paris, surgiu o dado relevante – mas não surpreendente, de que a ufologia daquele país já não veste mais o figurino do misticismo, do sensacionalismo barato, da revelação bombástica, tanto entre o cidadão comum como entre os próprios estudiosos. Não se ouve mais falar em contatos, abduções, mensagens de seres superiores, declarações oficiais, luzes noturnas e toda essa parafernália espalhafatosa tão comum na terra brasilis. Não, caro leitor, isso é coisa do passado, peça de museu. Nas sociedades culturalmente mais amadurecidas esse comportamento está desaparecendo. O patamar lá é outro, a visão crítica e lúcida é a linha mestra do pensamento e da prática investigativa. Quando alguém pisa fora desse quadro, revela um perfil deslocado no tempo e no espaço, condenado ao declínio e ao retrocesso intelectual progressivo.



Pesquisadores franceses em encontro com o autor 


Uma tapeçaria persa de saberes

Não são poucos os campos que se articulam e se interpenetram na construção de uma nova tese solidamente fundamentada. Entram em cena aspectos sociológicos, instâncias religiosas e culturais, contributos da Psicanálise, da Filosofia, Mitologia, História, ficção, imaginário, psicologia do comportamento, todas as vertentes da astronomia e da biologia, antropologia, neurociências e muito além delas, num verdadeiro colóquio transdisciplinar. Ou uma tapeçaria persa de saberes. Se acha que exagerei, espere só até dar de cara com a Semiótica, as tramas narrativas, os ensaios sobre narcisismo, alteridade, simbolismo, arte, cultura new age, etnologia. Ainda acha que estou brincando? Prepare-se para um denso diálogo com Sartre, Morin, Baudrillard, Lacan, Becker, Lévi-Strauss, Fromm e então saberá do que estou falando. Esse é o caminho inevitável para exercício da verdadeira ufologia. Não tem volta, é via de mão única.

Excelentes obras e renomados autores constroem uma literatura maiúscula, refinada, de gente grande para gente séria. Nela há lugar para infantilismo, choro, ilusão, preguiça, covardia e impostura. Não há intermediários, não há meias palavras, não há borrões, não há verniz. É tarefa para ambiciosos sem pressa e, importante, não é para uma só pessoa, mas para uma equipe, um grupo engajado de cabeças pensantes inteiramente desapegadas de individualismo e vaidade. Se não for assim, nada feito.

E então, está disposto a encarar esse desafio e promover uma revolução na pesquisa? Ou vai se esconder covardemente no que já está pronto para consumo, de qualidade duvidosa? Se sua opção foi a primeira, ótimo, arregace as mangas e seja bem-vindo, mas vou logo avisando que aqui não tem sofá.

Os bons tempos da velha e “romântica” ufologia ficaram guardados na memória. Provavelmente, éramos mais felizes em nossa ingenuidade porque acreditávamos fazer a coisa certa. Sem saudosismo. “Não recue ante nenhum pretexto”, dirá Nietzsche. É bem mais saudável encarar um caminho promissor de conhecimento e descobertas a permanecer encarcerado no vazio da zona de conforto das crenças preestabelecidas, das lendas, fantasias, superstições, oráculos, demiurgos, taumaturgos e curandeiros. E charlatões. Confie na sentença da poetisa: Sei que não dá para mudar o começo, mas se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.

Oportunamente postarei aqui a sinopse da obra referida, muito bem acolhida pelo grupo francês, assim como informações quando da sua publicação. Por enquanto, quero provocar seu interesse deixando uma sugestiva amostra da bibliografia consultada, de um total de 140 títulos. Talvez você estranhe a ausência de livros sobre ufologia, mas se leu como confiei que leria, verá que o entendimento sobre o fenômeno Óvni não está mais nele próprio. A posição se inverteu, o olhar agora é de fora para dentro e de cima para baixo.


ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro. Forense Universitária. 2007.

BAUMAN, Zygmunt. Medo Líquido. Rio de Janeiro. J. Zahar. 2008.

BLOOM, Harold. Presságios do Milênio. Anjos, sonhos e imortalidade. São Paulo. Objetiva. 1996.

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. Rio de Janeiro. Cia. de Bolso. 1978.

CASTORIADIS, Cornelius. A Instituição Imaginária da Sociedade. São Paulo. Paz e Terra. 1991.

ECO, Umberto. O Signo. São Paulo. Editorial Presença. 2005.

ELIAS, Norbert. A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro. J. Zahar. 2001.

FREUD, Anna. O Ego e os Mecanismos de Defesa. Porto Alegre. Artmed. 2006.

HORKHEIMER, Max. Eclipse da Razão.  São Paulo. Centauro. 2002.

LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio. São Paulo. Manole. 2005.

 MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, Ciência e Religião. Lisboa. Edições 70. 1984.

MORIN, Edgar. Cultura de Massas no Século XX - Neurose. Rio de Janeiro. Forense Universitária. 2007.

NÖTH, Winfried. Semiótica da Magia. Revista USP, nº 31. São Paulo. 1996.

PEIRCE, Charles S. A Fixação da Crença. Covilhã. LusoSofia. s/d.

THOMAS, Keith. Religião e o Declínio da Magia. São Paulo. Cia. das Letras. 1991.


Poderia a Mitologia explicar a Ufologia?  Uma reflexão.

postado em julho 2011

A Mitologia pode explicar o fenômeno Óvni? Essa é uma daquelas questões que demandam duas respostas aparentemente antagônica: sim, pode. Não, não pode explicar. Para entender porque elas não se excluem mutuamente, precisamos primeiro fazer um curto sobrevôo nas terras da mitologia para conhecer suas dimensões continentais, uma área tão vasta quanto a da nossa própria existência. Essa geografia representa a condição humana com todas as suas nuances, inquietações, medos, virtudes, humores, limitações e aprendizados. Sintetizando numa única frase, podemos afirmar que os mitos são narrativas de significação simbólica referentes a aspectos da natureza humana.
Mas um elenco de grandes autores nos oferece outras definições. Rubem Alves, por exemplo, diz que Os mitos são histórias que delimitam os contornos de uma grande ausência que mora em nós. [Joseph] Campbell vai além, postulando que não se trata exatamente de buscar um sentido para a vida, e sim o da experiência de estar vivo, de forma tão profunda que ressoa bem no íntimo de nossa alma e nos mostra a beleza dessa existência. Já para outro nome de peso, Mircea Eliade, referência mundial em estudos de mitologia, O mito é sempre uma criação por excelência, e revela a sacralidade do sobrenatural – a irrupção do sagrado no mundo, o acontecimento primordial. Muitos outros enriqueceriam indefinidamente os conceitos sobre os mitos.
Ao estudarmos sua cartografia, saltam aos olhos palavras-chave que expressam essa realidade: ausência, nostalgia, saudade, vazio, desejo, carência, uma eterna insatisfação, uma busca interminável, uma necessidade de algo inexprimível à razão, uma vã tentativa de voltar às raízes. Pode ser a busca de nossas origens ou da origem de tudo. Pode ser a procura de um conhecimentoou de um acontecimento, ou pode ser tudo isso. Os mitos são a ressonância destes anseios permanentemente ocultos na mente humana, de onde se produzem, por idêntico processo, os sonhos, as fantasias, os devaneios, a arte e a religião – formas substitutivas cuja finalidade é dissimular as verdadeiras moções pulsionais estruturantes do ser humano.
O que se conclui sobre os mitos é que eles foram criados para dar sentido e direção à vida do homem; não são uma invenção gratuita, não nascem da imaginação desenfreada ou de um capricho dos deuses, nem constituem forma de pensamento pré-científico. Eles são a expressão simbólica de forças vivas e atuantes que trabalham nos subterrâneos da psique. E isso é apenas o começo, mas nosso combustível, neste momento, não permite alcançar as fronteiras – se é que existem, porque sempre haverá um metro a mais de terra a ser explorada. O sobrevôo seria curto, alertamos. Antes de pousar, entretanto, é possível notar que existem tênues variações delimitadas nesse terreno, indicando outros tipos de lavoura. Vejamos do que se trata.
O leitor com espírito aberto e olhos atentos às entrelinhas já terá percebido que as falas da mitologia reverberam nos campos da ufologia – campos férteis em imaginação, fantasia e fabulação, provocando ecos que não se perdem no vazio, ao contrário. Além de olhos apurados é preciso saber ouvir o que tais ecos querem nos dizer: busca incansável? Retorno às origens? Vazio? Carência? Irrupção do sobrenatural no mundo? Uma rápida vista d´olhos no circo ufológico e lá está tudo isso. Sim, goste-se ou não, reconheça-se ou não, a mitologia pode explicar a ufologia. Em parte. Não pode explicá-la sozinha, e somente assentados em solo firme é que identificamos aquelas outras lavouras: antropologia, religião, filosofia, história, psicanálise, sociologia, compondo um instigante e enriquecedor mosaico transdisciplinar.
É aqui que começa a verdadeira pesquisa. É aqui que se dão as maiores descobertas. É aqui que o homem se mostra como realmente é, e não como imagina ser. Todos os nossos medos, todas as nossas inquietudes, todas as nossas necessidades, desejos e frustrações estão desveladas através das narrativas míticas e igualmente expostas nas narrativas ufológicas. Goste-se ou não, reconheça-se ou não.
A ufologia, por sua vez, social e culturalmente nascida num momento histórico transformador da humanidade (não por acaso), se conduz por um fluxo descontínuo de narrativas baseadas em eventos duvidosos, obscuros e não comprováveis, não contemplando, portanto, os requisitos básicos da pesquisa científica: rigor, estrutura, critério e método. Mas não é só por este viés que ela comete seus piores delitos e nem é nossa intenção trilhar este caminho. Ao se colocar ciência e crença na balança da verdade, uma coisa não pode ser refutada: o ponteiro se inclina sempre sob o peso da argumentação responsável, da autoridade reconhecida, da experiência respeitada e da evidência consolidada.
Assim como a mitologia se serve daqueles campos para explicar o objeto de seus estudos, a ufologia não só imprescinde deles como agrega, ao seu latifúndio, além da própria mitologia, ficção, astrobiologia, psicologia e outros tantos quantos forem necessários. O ritmo vertiginoso sem tréguas das mudanças do mundo, aliado ao volume ciclônico de informações exige atualização permanente. Os ventos dessas transformações sopram céleres, fazendo a curva do aprendizado crescer exponencial e cumulativamente. Com o advento da internet e da comunicação digital, assiste-se a uma revolução em escala planetária sem precedentes, por isso nada justifica mais uma atitude tão anacrônica de ingenuidade, credulidade fácil e ilusão, ainda mais quando se constata um movimento sinérgico, progressivo e global na revisão historiográfica corretiva dos fatos. A ufologia não está fora desse quadro.
Mesmo concordando com Vallée – Quanto mais luz projetarmos sobre o fenômeno, mais zonas de sombra estaremos criando, preferimos adotar um espírito mais arrojado e atender a um antigo desejo de Campbell: Até onde sei, ninguém tentou ainda configurar em um único quadro as novas perspectivas que abrimos nos campos do simbolismo comparado, religião, mitologia e filosofia, utilizando-se do conhecimento moderno. Ao encontrarmos paralelos e semelhanças indiscutíveis entre os mitos e o fenômeno Óvni na origem, estrutura, forma, estética, simbolismo e expressão, demos vida ao sonho de Campbell, abrindo novas possibilidades. E quitamos uma dívida conosco e com a Ufologia que prezamos.
Empreendemos, então, a tarefa de executar um amplo estudo comparativo entre ambos em Reflexões sobre uma Mitopoética (LivroPronto, 150 págs), obra a ser lançada brevemente. A abordagem sintética não compromete o apuro da análise, até porque vem norteada por nomes de primeira grandeza no cenário acadêmico e literário; além dos já citados, Zygmunt Bauman, Ernst Cassirer, Lévi-Strauss, Jung, Gilbert Durand, Lacan, os brasileiros Marilena Chauí, Régis de Morais, Antonio Novaski, Constança César e muitos outros emprestaram seus saberes, proporcionando um exame multifacetado e multiplicador. Nosso objetivo, enfim, foi inspirado em Antonio Cândido, um dos mais respeitados críticos literários da atualidade (parafraseado): Fecundar o ensaio acadêmico com a especificidade da narrativa ufológica e, ao mesmo tempo, enriquecer a visão crítica dos fatos através da formação universitária.

             As sombras do não lugar
   Excerto de"Reflexões sobre uma Mitopoética"

postado em julho 2011


Ao iniciarmos a discussão sobre o conceito de vida extraterrestre inteligente, ponto de partida para a crença na origem dos discos voadores e seres alienígenas, topamos com três questões ao mesmo tempo difíceis de serem respondidas:vidaextraterrestre e inteligente. Em relação a vida, será que tudo o que sabemos sobre a sua origem na Terra nos dá a certeza de estarmos no caminho certo? Presumimos que sim. A ciência faz o possível e o impossível para certificar-se de que suas teorias são as mais próximas da verdade, mas ainda pairam incontáveis dúvidas a respeito de tudo, e as especulações (de speculum – observar, refletir) não terminam.

Quanto à vida extraterrestre, não passa de suposição, pois não há nenhuma comprovação científica para o fato. O espaço é permanentemente vigiado por “olhos e ouvidos” atentos ao menor sinal que indique companhia para o baile cósmico. Até o momento em que estas linhas foram escritas, o silêncio é absoluto e parece que isso não irá mudar. A capacidade tecnológica do homo sapiens é indiscutível e irrefreável, mas, paradoxalmente, temos que conviver com a ignorância em outros campos. A descoberta recente de uma forma de vida surpreendentemente incomum como a bactéria GFAJ-1[1] revelou aspectos interessantes: a vida oferece variações impensadas para a sua adaptação em ambiente adverso, e sinaliza, apenassinaliza a possibilidade de que a vida tenha proliferado espaço afora, ainda que na esfera dos microorganismos.

Em terceiro lugar, o “problema” da inteligência é o mais complexo. O tempo a ser decorrido entre aqueles prováveis organismos unicelulares e a mais elementar forma de vida inteligente se estende em torno de 500 milhões de anos. Não vamos mergulhar no universo das neurociências para compreender o mecanismo da inteligência, pois o que nos traz aqui são os processos mentais que devemos utilizar para pensar sobre o “não-humano”, o extraterrestre.

A questão é como ordenar tais processos sem recorrer aos padrões, valores, parâmetros e princípios humanos? Impossível? Absurdo? Se estamos falando de algo não terrestre e queremos entender como é possível que exista esse algo, precisamos abandonar todos os condicionamentos intelectuais que norteiam nosso saber. Se realmente a vida for uma anomalia terrestre, um acidente, uma singularidade, então qualquer outra vida, inteligente ou não, é uma quimera, decretando o fim dos devaneios ufológicos. No entanto, se imaginarmos que haja uma única civilização avançada o suficiente e perto o bastante a navegar pelo cosmos, então podemos prosseguir na divagação Se a existência dessa única civilização já seria algo extraordinário, imagine dezenas espalhadas por aí como defendem os ufólogos.

A partir dessa possibilidade, é perfeitamente natural pensar que “lá” também deva existir uma complexa engenharia aeronáutica, fábricas de discos voadores, linhas de montagem, máquinas, operários, técnicos, pilotos, simuladores, aparelhos eletrônicos, automatismo. Ferramentas, logística, hangares, manutenção, oficinas, sucatas, restos, lixo, talvez até reciclagem. Se prosseguirmos nesse exercício, aos poucos, sem perceber, estaremos entrando inapelavelmente para o terreno da fantasia e da ficção.

Se nossos vizinhos cósmicos tivessem aparência menos humana e mais humanoide, o quadro não mudaria. Eles precisariam ser muito diferentes, totalmente diferentes para que então também pudéssemos pensar de maneira diferente. Convenientemente, entretanto, não há registros de criaturas com aspecto androide, robôs, rastejantes, artrópodes ou disformes, repugnantes ou aterrorizantes, Pois se de fato houver vida em abundância espaço afora, será menos surpreendente se for semelhante, em aparência, aos mais criativos e bizarros produtos da imaginação.

Pelas leis da natureza, onde há vida há nascimento, crescimento, degeneração e morte, logo, podemos supor que alhures existam aliens bebês, crianças, jovens, adultos e idosos, sexuados, o que sugere a mais complexa estrutura de organização social, ao feitio da nossa civilização moderna: casas, escolas, hospitais, ensino, medicina.... Não há como articular um raciocínio diferente. Não podemos imaginar que tudo funcione apertando botões, e ainda que fosse, deverá haver uma “fábrica de botões”, fios, máquinas, operários, engrenagens...

Após avaliarmos em conjunto todas as variáveis incorporadas nesse raciocínio, o que pode ser mais inconcebível do que acreditar que exista uma civilização tão extraordinariamente semelhantes à nossa? E mais, próxima o suficiente para nos visitar com a frequência alardeada? Crer em tal possibilidade é deitar fora os mais elementares princípios de lógica. Se assim fosse, o debate religioso assumiria proporções vulcânicas: deixaríamos de ser tão “especiais”, sendo não mais que uma espécie inferior na escala evolutiva do cosmos. As implicações culturais, sociais e psicológicas seriam difíceis de prognosticar, mas teriam sem dúvida um efeito devastador. Onde estaria nossa verdadeira origem? Seria possível administrar uma diversidade existencial tão profunda (lembrando que estamos divagando em cima de uma única civilização!)? É de se presumir que o choque psíquico não tem precedente na história humana.

Essas deduções assentam-se em nossos padrões mentais, vale repetir, mas acontece que estamos falando de algo não terrestre, não humano, e o que delineamos sugestivamente é um cenário com todos os atributos do mundo terrestre, humano, portanto uma evidente contradição. Se queremos pensar objetivamente e sem incoerências, precisamos enganar, ou “anular” o processo de construção mental que nos leva a estas conclusões. Como? Se tal civilização existir de forma diferente da que imaginamos, não temos como imaginar de forma diferente. E não há forma diferente de imaginar a partir dos elementos conhecidos para formular o pensamento. Não é um dilema, é lógica! Não há como ser de outro jeito! Para pensar fora do universo mental em que estamos presos, temos que nos deslocar para um “não-espaço”, um não-lugar, tal como o personagem Neo em “Matrix”, jogado no vazio para reformular toda a sua estrutura sensório-pensante. É o que faremos na segunda parte desta reflexão.

[1] A bactéria GFAJ-1 substituiu o elemento fósforo por arsênio na sua composição. Em que pese a previsível polêmica sobre a descoberta, a possibilidade deste fato abre perspectivas extraordinárias da viabilidade de vida em outros sistemas planetários.

           Atravessando o espelho mágico
      
                                    Excerto de Reflexões sobre uma Mitopoética

                                                            postado em julho 2011



     Esperando ter ficado compreendido, no segmento anterior destas reflexões, que a existência de vida extraterrestre inteligente é uma possibilidade bastante remota, diante da dificuldade de se conceber uma civilização tão incrivelmente semelhante à nossa – a única possível considerando os elementos que temos para imaginá-la. Explicamos também ser impraticável pensar de modo diferente, dentro das nossas estruturas mentais.

     A título de ilustração, vamos imaginar o clássico disco voador com a superfície polida, brilhante, com janelas, ruídos, luzes multicoloridas, pés retráteis e outras particularidades. Do veículo surge uma escadinha ou rampa por onde desce um tripulante com aparência humana, porte apolíneo, olhos “penetrantes” e semblante sereno, um autêntico “comandante”; acena e gesticula ensaiando uma comunicação, fala de maneira clara, firme, inteligível, fluente com o idioma local e demonstrando total conhecimento sobre nossa existência. Este exemplo não é uma fantasia, é a fusão das centenas de “contatos” colhidos ao redor do mundo. Com base nessa descrição, acrescida dos conceitos expressos na primeira parte, só podemos deduzir que estamos diante de uma civilização em tudo e por tudo semelhante à nossa, com diferença de alguns milhares, talvez milhões, de anos.

     O “comandante” obviamente se apresentou dignamente vestido, e portanto sua roupa exigiu um fabricante, maquinário e operadores e assim por diante. Ao falar no idioma local, qualquer que seja ele, presume-se conhecer o sentido das palavras, a gramática, linguística, a construção sintática, o significado das expressões, aprendidas através de um super aparelho tradutor ou decodificador da linguagem humana. Isso mais parece cena dos filmes de ficção B. Diga-se de passagem, a comparação não é gratuita.

     O cerne do problema está em empregar conceitos humanos para tentar explicar o que seria, à primeira vista, algo “não-humano” – uma cilada intelectual da qual nem a Ciência escapa, é preciso reconhecer. Arriscaríamos afirmar que este talvez seja o ponto mais importante no tratamento global da matéria, o útero de onde nascem todas as discrepâncias, todos os conflitos e todos os silêncios. Arriscaríamos dizer também que é uma questão vital para a continuidade de qualquer discussão nessa área.

     Pensar sem usar suportes humanos bloqueia o raciocínio, cria um aparente dilema, provoca premissas inválidas e paradoxais. No entanto é, no fundo, um magnífico mergulho para dentro do espelho e se tornar o reflexo imaginário de uma realidade inexistente, a única forma possível de entender – se for possível – do queestamos falando.



Atravessar o espelho e ser o reflexo imaginário de uma realidade inexistente?




     Pura filosofia, com jeitão de conto surreal. Por que o espelho? Porque ele possui um caráter temporal associado ao espírito da imaginação e à consciência, como veículo capaz de reproduzir os reflexos do mundo visível; e ao pensamento, como órgão de autocontemplação narcísica do universo. O espelho também está associado à verdade, quando confronta o si-mesmo: não é à toa que dizemos “olhe-se no espelho” quando queremos que alguém encare a verdade.


Reflexo imaginário de uma realidade inexistente?
     Pois imagine-se diante de um espelho no qual você se vê por inteiro e a tudo que o cerca. Aproxime-se, toque a ponta do nariz no reflexo, dê um passo à frente e – zás! – você desapareceu! Para sua surpresa e medo está agora do lado de ládentro do espelho, no vazio absoluto, no meio do nada, instante zero, negação do tempo, inverso da matéria, simulacro do real, espetáculo da criação. Não pode nem ver o lugar em que estava, porque não há nada a ser refletido, nem o espelho existe mais, e mesmo que estivesse esperando pelo seu retorno, você agora é apenas o reflexo daquilo que não pode ver!

     Como seu próprio reflexo imaginário, agora passou a fazer parte de uma dimensão supra-humana, inefável, onde nenhum paradigma é verdadeiro, nenhuma referência é válida e nenhuma verdade é definitiva. É nesse envolvente e mágico espaço líquido – o reino encantado de Magonia – que se manifestam os mitos, os sonhos, as fábulas e os discos voadores, e somente inserido nesse espaço e só nele é que se pode ter alguma chance de compreender a verdadeira natureza de cada um. Nele, seremos sempre imagem e reflexo daquilo que estivermos procurando.o.


             O fenômeno Óvni só pode ser compreendido a partir do conhecimento "sináptico".
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