Obras

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sexta-feira, 28 de julho de 2017


NEM LUZ NEM CALOR

Como você deve ter lido na semana passada (se não leu, recomendo que o faça), o assunto "pensamento" continua em pauta. Isso é bom, estaremos todos pensando a respeito. Ao final do post, comentei rapidamente a entrevista do filósofo Krishnamurti com suas opiniões sobre o sagrado e o pensamento. Minha discordância sobre o que ele disse naquela ocasião, meras platitudes, só reforça o distanciamento que sempre tive dele. Antes, porém, uma ressalva necessária: Não foi possível determinar a data do encontro, mas, pelo modelo da transmissão, presumo ter ocorrido no final dos anos 1970, no vigor da Nova Era e das filosofias orientais, da 'meditação transcendental', da 'descoberta interior', do poder da mente e do fortalecimento do misticismo. Da forma como o mundo se nos apresenta hoje, tais comportamentos se mostram deslocados.

Retomo o diálogo com o entrevistador Bernard Levin no ponto em que este pergunta como evitar o conflito interior, que seu interlocutor afirma nunca ter tido: Eu acho que isso realmente vem quando você tem a percepção direta da coisa. E como se consegue isso? pergunta Levin, completando - É como encontrar o Nirvana¹? Não, não, é como encontrar o completamente sagrado, totalmente não contaminado pelo pensamento. Conforme esclarece Rudolf Otto, o sagrado é indizível e inapreensível conceitualmente, logo, irracional; porém, ele tem em si o componente simbólico-diabólico - atrai-afasta, perceptível, racional, condicionado pelo pensamento. A "percepção direta da coisa" será, nesse sentido, subjetiva, portanto ,"contaminada".

Mais adiante, o entrevistado prega que "Devemos estar livres de toda ilusão que o pensamento criou, para vermos algo realmente sagrado". Se o pensamento é o criador de tudo, como saber o que é e o que não é ilusão? O sagrado não seria ele mesmo também uma ilusão? Deixemos isso de lado, não é esse o ponto. 

Quando Levin afirma ser impossível desligar a mente (e ele está certo), Krishnamurti responde com outra pergunta: "Quem é esse que desliga... a mente? Suponho que seja a mente que desliga a si própria". Como é, a mente desconectando-se de si mesma? E ele prossegueQuando nós percebermos que o observador é o observado, o controlador é o controlado, o experimentador é o experimentado, quando realmente nos darmos conta disso, não intelectualmente, não verbalmente, mas profundamente, então essa mesma percepção interrompe isso. De novo argumentum ad ignorantiam? Só porque não sou "iniciado" nessa metafísica rocambolesca significa que não tenho capacidade de entendê-la? Nem sempre o aluno não entender a matéria é culpa dele, você sabe.

A mente, senhores, não é ilógica, não vagueia bêbada pelas vias neurais. A mente não pode conhecer sua natureza, não pode conhecer a si mesma, não pode observar-se, experimentar-se. Essa não é uma verdade relativa. Se alguém aí estiver fazendo curso do tipo "Mind Control", saia correndo, é fria! Julgo importante reproduzir o parágrafo inicial da obra de Jung, que dá a dimensão da complexidade do problema.

"A experiência no campo da psicologia analítica nos tem mostrado abundantemente que o consciente e o inconsciente raramente estão de acordo no que se refere a seus conteúdos e tendências. Esta falta de paralelismo, como nos ensina a experiência, não é meramente acidental ou sem propósito, mas se deve ao fato de que o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência. Podemos inverter a formulação e dizer que a consciência se comporta de maneira compensatória com relação ao inconsciente. A razão desta relação é que: 1) Os conteúdos do inconsciente possuem um valor liminar, de sorte que todos os elementos por demais débeis permanecem no inconsciente: 2) A consciência, devido a suas funções dirigidas, exerce uma inibição (que Freud chama de censura) sobre todo o material incompatível, em consequência do que, este material incompatível mergulha no inconsciente; 3) A consciência é um processo momentâneo de adaptação, ao passo que o inconsciente contém não só todo o material esquecido do passado individual, mas todos os traços funcionais herdados que constituem a estrutura do espírito humano e 4) O inconsciente contém todas as combinações da fantasia que ainda não ultrapassaram a intensidade liminar e, com o correr do tempo e em circunstâncias favoráveis, entrarão no campo luminoso da consciência."

A mente é um "corpo de memórias" que opera a partir das experiências individuais, objetivas ou subjetivas, diretas ou indiretas, liminares ou subliminares. Consciente e inconsciente são interdependentes. O que a consciência despeja no inconsciente, este regurgita de volta uma substância, 'contaminada'. Krishnamurti sustenta argumentos de fundo religioso, e toda religião é essencialmente mística, que por sua vez é crença, e como toda crença, é frágil, diáfana, vulnerável. Tanto uma como outra - religião e mística - são construções do pensamento para fazer frente aos males do mundo e às dores do viver. Não pode haver pensamento 'puro', do mesmo modo que não pode haver mente esvaziada. Um amigo costuma dizer que "são verdades relativas" para encerrar a discussão ou fugir dela. Convém para quem não tem argumentação sólida.

Pelo menos nessa entrevista o Sr. Krishnamurti não disse nada de relevante, ao contrário, ainda afirmou que "A verdade não é um ponto fixo, por isso não pode haver caminho para ela". Levin insistiu: "Mas tem que haver um caminho", e em vez de uma resposta enriquecedora, circunlóquios, de novo um discurso arrevesado de conceitos anódinos. Mentes sem luz não irradiam calor.


¹ Nirvana, segundo Abbagnano, "Extinção das paixões e do desejo de viver, portanto da corrente dos nascimentos, na doutrina budista. Na filosofia ocidental, Schopenhauer adotou essa noção vendo nela a negação da vontade de viver, cuja exigência brota do conhecimento da natureza dolorosa e trágica da vida".
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Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia. Martins Fontes, 2007.
Rudolf Otto, O Sagrado, Vozes, 2007.
Umberto Galimberti, Rastros do Sagrado, Paulus, 20033.
Carl G. Jung, A Natureza da Psique, Vozes, 2000.

sexta-feira, 21 de julho de 2017


DE OVO VAZIO NÃO NASCE PASSARINHOO?

A postagem da semana passada provocou manifestação de um leitor, que respondo de pronto para não deixar um intervalo longo entre comentário e resposta. O leitor traz apenas duas citações do livro do psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, O Olhar, sem qualquer comentário adicional. Fiquei sem entender seu objetivo, corroborar ou contrapor o que escrevi. Como não tive acesso à obra, também não sei exatamente em que contexto se encontra cada frase: 
Se olharmos para manchas de umidade na parede (como fez Da Vinci), para nuvens no céu ou para manchas do teste de Rorschach, logo começaremos a ver mil formas diferentes onde, em regra, a observação casual registra apenas 'borrões'. Onde quer que o homem fixe o olhar, atento, aí começa a haver mudança. Nossa atenção é inerentemente criativa, e talvez só ela seja.

Manchas, nuvens, borrões, objetos, sombras e relevos de fato induzem a um fenômeno ilusório conhecido por pareidolia, fazendo cm que "vejamos" figuras as mais diversas. Um olhar atento gera mudança, claro, porque a concentração estimula a reflexão (con centrar - convergir os focos de atenção para o centro), e toda reflexão é em si criativa. Esta primeira parte, a meu ver, faz eco a tudo o que tenho escrito aqui. A última frase também é verdadeira - só a reflexão, o pensar, é inerentemente criativo. Cm certeza, porém, em clara contradição à outra frase trazida pelo leitor:  Do vazio criador nascem todas as coisas', dizem os hindus; 'do vácuo quântico gera-se toda a realidade', afirmam os cientistas de vanguarda.  

Ao indagar se procede este "vazio criador" a um amigo graduado em Ciências da Religião e estudioso da filosofia Hindu, respondeu: Segundo algumas perspectivas filosóficas do Hinduísmo, a expressão procede,... mas é filosofia especulativa. Sugeriu, então, que eu pesquisasse a concepção de śunyata, a escola Samkhya, śrşti, pralaya... A exploração desse tema exige imersão completa e demanda um tempo incalculável para absorver todos os conceitos adequadamente. Como de hábito, recorri à academia, à lógica e às minhas leituras atrás de mais esclarecimentos.

Śunyata, no budismo Mahayana, diz respeito a um estado de 'esvaziamento' da consciência, sair da esfera dos sentidos, do mental, do espiritual, do físico, ou seja, do não pensar! Nada muito diferente do que pregam os místicos sobre os 'estados alterados de consciência', ou do cristianismo quando aborda as experiências extáticas ou manifestações do divino. Porém, quando se busca aprofundar o entendimento, invariavelmente o que se tem é um malabarismo retórico tão vazio quanto o vazio que se tenta explicar - argumentum ad ignorantiam, recurso próprio dos místicos com pés de barro. Outra saída estratégica muito comum é, para não se perder em explicações inexplicáveis, alguém dizer que tal estado "escapa à sua compreensão" porque você não tem "sensibilidade refinada" para entender e captar, e que portanto será perda de tempo tentar explicar.

Se Nietzsche tiver razão (Algo pensa em mim), se Freud estiver certo (O homem não é senhor em sua casa) e se as descobertas do Human Brain Project se mostrarem válidas, então o pensamento independe mesmo do homem, um processo autônomo, logo, o tal 'esvaziamento' da consciência não passa de uma ilusão ou falácia. A meditação pode até levar a um estado de quietude, serenidade e equilíbrio, mas só isso, mais nada. Sua mente estará em permanente atividade, queira você ou não. Em outras palavras, nada surge do nada. Vazio criador ou vácuo quântico são meras divagações místicas, conjecturas metafísicas, ilações filosóficas ou, na pior das hipóteses, conversa fiada. A verdade inegável é que há algo "lá", latente, pronto para fazer surgir outro algo. Junte todos os zeros e você não terá nada, acrescente "1" e terá um número, uma medida, um valor. De ovo vazio não nasce passarinho. A trilha seguida pelo Brain Project é descobrir de onde vem o pensamento e o que o produz. Se vai conseguir é outra história.

Vazio criador? Vácuo quântico gerador da realidade? Cuidado com certos cientistas 'de vanguarda', muitos costumam defender ideias que ninguém entende e que nem eles sabem explicar, uma confraria de iniciados no vazio. O pensamento não tem limites, o conhecimento não tem limites, porém, triste sina, somos humanos, e a estupidez também não tem limites, por isso o mundo se afoga em teorias das mais estapafúrdias. Cuidado, não deixe sua inteligência se ajoelhar por estas 'pérolas', que só encantam e seduzem cabeças mais, digamos, tolinhas. 

No momento em que terminava esse post, uma leitora enviou pelas redes sociais a entrevista de um famoso filósofo indiano, tido por muitos um "líder espiritual", falando sobre o sagrado e o pensamento, entre outras coisas. Vale comentar, mas só os primeiros minutos do vídeo; farei uma análise maior na próxima postagem, após assisti-lo na íntegra. De imediato, desconfio de alguém que diz nunca ter tido um conflito sequer na vida, porque, segundo ele, conflito "destrói a mente, a dignidade humana e o sentido de atenção". Meu estupor é indescritível diante de tal despropósito. Será que o sujeito não sabe que o simples ato de pensar por si só já é conflituoso? Aquele que nunca enfrentou um revés, dilema, dúvida ou angústia simplesmente nunca viveu, como nos versos do poeta Francisco Octaviano:

Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e ão sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem
Só passou pela vida não viveu.

À parte minhas reservas sobre a credibilidade do entrevistado, nenhum conflito é destruidor na essência, muito ao contrário, totalmente edificante, porque é próprio da mente transitar entre dor e prazer, êxito e fracasso, escolhas, decisões. Nenhum ser humano pode almejar o equilíbrio de sua existência sem experimentar essa dualidade! Isso é tão elementar que levanto suspeitas quanto a honestidade do depoente. Ora, o "sentido da atenção"- leia-se concentração, reflexão - é o instrumento por excelência que conduz à (auto)crítica, à (auto)análise e, portanto, ao melhor conhecimento de si mesmo. Perdoe-me a insistência, mas se há algo que destrói a mente é não pensar, é juntar-se à massa mansa, seguir o rebanho ao som da sineta. E ainda estamos no primeiro minuto da entrevista! Fico por aqui. Semana que vem tem mais. Preciso pensar sobre o que vou escrever. Como reflexão final, uma frase do escritor Victor Hugo: "Água que não corre forma um pântano; mente que não pensa forma um tolo".

sexta-feira, 14 de julho de 2017

DE ONDE VEM O PENSAMENTO?


Não é por acaso que a imagem símbolo deste blog é um cérebro "em movimento" já que pensar é sua senha. É por isso que trago um tema voltado ao continuum mente-cérebro. Foi publicado recentemente na revista Frontiers in Computational Neuroscience¹ o interessante artigo Cliques of neurons into cavities provide a missing link between strucutre and function. Agradeço ao Joaquim Fernandes pela indicação da matéria. O que há de tão relevante que justifique trazê-la aqui? Tem a ver com o tema principal deste blog? Tem, já vamos saber.

Numa tradução livre, o título do artigo se refere a um grupo de neurônios que se "reúnem" em espaços vazios, "bolhas" ou "cavidades", no momento em que o cérebro entra em operação para processar informações, sinalizando ser possível encontrar a conexão desconhecida entre a estrutura da rede neural e sua função, algo até então insondável. Nós encontramos um mundo que nunca havíamos imaginado, relata o diretor do Human Brain Project, Henry Markram. Existem dezenas de milhões desses objetos, mesmo em uma pequena área do cérebro de até sete dimensões. Em algumas dessas redes, encontramos estruturas que chegam a onze dimensões. Certamente o sentido de 'dimensão' usado por estes cientistas não é o mesmo entendido pelo senso comum, o que pode dificultar um pouco o entendimento do artigo. 

A equipe descobriu estruturas arquitetônicas que aparecem quando o cérebro precisa processar informações, para depois se dissolverem. Entenda, não são os neurônios que desaparecem, e sim a arquitetura formada por eles, arquitetura essa até então desconhecida. A melhor analogia talvez seja a de um avião voando a baixa altitude para não ser detectado pelo radar, mas não escapa a um binóculo. Isso significa que podemos ver algumas informações, mas não a imagem completa. Então, em certo sentido, nossas descobertas podem explicar por que tem sido tão difícil entender a relação entre estrutura e função do cérebro, explica a cientista-chefe Kathryn Hess.

Outro membro da equipe, Ran Levi, ilustra de forma diferente: É como se o cérebro reagisse a um estímulo construindo e arruinando uma torre de blocos multidimensionais, começando por hastes (1D), depois plataformas (2D), então cubos (3D) e geometrias mais complexas com 4D, 5D, etc. A progressão da atividade através do cérebro se assemelha a um castelo de areia multidimensional que se materializa fora da areia e depois se desintegra. Essas construções pluridimensionais ocorrem no neocórtex - a parte mais evoluída do nosso cérebro -, matriz de nossas ações, sensações e consciência.

Segundo Hess, essa arquitetura é altamente organizada e complexa oculta nos padrões de disparo aparentemente caóticos dos neurônios, e que só foi possível descobrir através de um filtro matemático específico - a topologia algébrica. A topologia algébrica é como um telescópio e um microscópio ao mesmo tempo. Ele pode ampliar as redes para encontrar estruturas escondidas - as árvores na floresta - e ver os espaços vazios - as clareiras - tudo ao mesmo tempo, explica a cientista. Essa é a melhor síntese que posso oferecer, porque o artigo traz questões técnicas pouco familiares para nós. O link ao final levará você ao texto original.

Voltemos à pergunta inicial: O que há de importante nisso e qual a sua relação com a ufotopia? Em primeiro lugar, a importância da descoberta está nela mesma, e seria prematuro projetar resultados. Tempos atrás escrevi aqui sobre a construção de um mapa quadridimensional de um supercontinente de galáxias com 5500 milhões de anos- luz de extensão, por uma equipe internacional de astrofísicos. Não há resultados imediatos disso também, por enquanto. Macrocosmo e microcosmo aos poucos sendo desvendados pelo "mesocosmo" - nós. O homem em busca de si mesmo.

Em segundo lugar, estamos falando de atividades cerebrais complexas profundas. Toda pesquisa nesse campo reveste-se sempre de grande expectativa e a certeza de achados valiosíssimos, mas isso leva tempo. Quando o projeto Genoma começou, a mais de 50 anos, os cientistas tinham uma direção mas não sabiam o que iriam encontrar no caminho. Quando Colombo levantou âncoras, tudo o que ele sabia é que seria uma longa travessia por mares desconhecidos e intermináveis até chegar a algum lugar. E ele descobriu um novo mundo. É esse o pensamento da cientista-chefe Hess: Nosso trabalho futuro é estudar o papel da plasticidade - o fortalecimento e o enfraquecimento das conexões em resposta aos estímulos - com as ferramentas da topologia algébrica. A plasticidade é fundamental para o misterioso processo de aprendizagem, e espero que possamos dar uma nova visão desse fenômeno.

Mais perguntas: Onde o inconsciente entra nisso, se é que entra? A atividade inconsciente se utiliza dessas arquiteturas? Como os neurônios se articulam e se organizam nas arquiteturas? Cada conjunto tem uma função específica? São essas "reuniões" responsáveis também pelos nossos erros? O cérebro explica a mente, ou o contrário? O que é o insight, uma 'sobrecarga' da rede neural? E o lapso de memória, uma não ação? Existe um grupo para cada atividade, por exemplo, para o medo, a criação, decisão, oração, mentira? Dois ou mais grupos de neurônios podem atuar em um única atividade?

Por fim, trata-se um processo autônomo, independente da nossa vontade como os movimentos peristálticos do intestino, do coração? Se não interferimos, o que move o pensamento? Isso nos leva a Nietzsche que dizia Es denkt in mir - algo pensa em mim. O que pensa em mim? O que pensa? Perceba, não é quem, mas o que, e isso é desconcertante. Freud, provavelmente leitor de Nietzsche, tinha razão ao dizer que O homem não é senhor em sua própria casa. O que submerge no inconsciente é mais importante do que o que flutua no consciente, por isso a ideia do iceberg é cabível.



São perguntas relevantes tanto quanto as que fazem os cientistas. Apesar da velocidade dos avanços tecnológicos, as respostas deverão levar alguns anos e serão fundamentais, esclarecendo muito sobre as nuances do comportamento humano. É uma questão de tempo. Fazer muitas perguntas pode parecer coisa de imbecil, mas não fazer nenhuma com certeza é. O único caminho possível para decifrar o mundo é saber fazer as perguntas certas.

 Para saber mais, assista a estes vídeos:

https://www.youtube.com/watch?v=LS3wMC2BpxU&t=5s (legendado)
https://www.youtube.com/watch?v=37SFQri8g_U
https://www.youtube.com/watch?v=ySgmZOTkQA8
https://www.youtube.com/watch?v=LS3wMC2BpxU&t=11s

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sexta-feira, 7 de julho de 2017


DELÍRIOS DE UMA TARDE DE VERÃO


Não tem erro, é só o assunto 'disco voador' entrar na conversa que lá vem a pergunta: Afinal, o que aconteceu lá? "Lá" é Varginha, palco onde em Janeiro de 1996 ocorreu o caso de maior notoriedade nacional, com repercussão em todo o mundo. A primeira coisa que faço questão de dizer é "Ainda bem que foi em Varginha, fosse em outra cidade e o estrago seria irreparável." Após a surpresa inicial, explico o comentário e dou a minha visão do fato. A minha visão. 

Felizmente foi Varginha. Por quê? Porque o caso foi parar nas mãos do experiente pesquisador Dr. Ubirajara Rodrigues. Apesar de a sua vida pessoal e profissional ter sido turbilhonada pela avalanche midiática que amplificou o fato, ele saiu ileso graças à postura reta, serena e imparcial, impondo respeito pela competência investigativa. Ninguém melhor do que ele para falar com autoridade sobre o ocorrido. A palavra final é dele, e qualquer outra informação que não tenha seu aval será especulação barata, sandice, falsidade ou asneira mesmo, e essas correm soltas por aí. Ele dá o caso por inconclusivo, expondo todas as razões no seu livro¹. Isso, no entanto, não impede de dar meu parecer e do qual meu caro amigo tem pleno conhecimento, ainda que não concorde inteiramente com ele. 

Não foram poucas as ocasiões em que 'Varginha' foi centro das nossas conversas, não foram poucas as vezes em que me detive na releitura de sua obra nos pontos centrais, estudando e refletindo cuidadosamente através de uma análise que se magnificou além das circunstâncias fáticas, o que permitiu formar um juízo bastante lúcido. Afinal, o que aconteceu em Varginha?

Não aconteceu nadada. Nada de ET, disco voador, resgate de corpos, autópsias, filmagens secretas, conspiração de silêncio, nada. O paroxismo do delírio chegou ao ponto de se alegar que um soldado do exército teria morrido em "circunstâncias misteriosas após contato com o corpo do alienígena"! Noticiou-se também que um famoso médico legista teria realizado a necrópsia no referido alien. Quanta bobagem, é o estado da arte da ignorância. É inadmissível a falta de inteligência e a desfaçatez das autoridades em nos fazer acreditar que resgataram e examinaram cadáveres de seres alienígenas! Por quem nos tomam, por idiotas? A mim, não.

É uma conduta incompatível com a liturgia de suas funções institucionais. Em nome da segurança nacional? Marte ataca? Ensaio geral para a Guerra dos Mundos? Perderam a noção do ridículo, senhores? É a ficção assumindo o lugar da realidade. Enquanto eles sonham mirando as nuvens do imaginário, eu olho para o chão por onde devo caminhar. Recomendo enfaticamente se instruírem mais sobre o assunto, com profundidade, para que não cometam e não nos envergonhem com mais esse vexame novamente.

O que houve mesmo foi um pandemônio desnecessário. O estopim do estardalhaço foi aceso pela forma intempestiva, leviana e imprudente com que a notícia foi deflagrada e se espalhou fora do controle, à revelia do amigo. O caos se instalou rapidamente na cidade, a imprensa mundial desembarcou em questão de horas e não se falou em outra coisa durante meses. O Exército foi acionado e homens circularam pela região em seus pesados caminhões em todo tipo de ação, criando um ambiente ao feitio dos melhores roteiros de ficção científica sobre invasão alienígena, lembrando certas cenas de "ET", de Spielberg. Só faltou o ator principal.

Minha avaliação, respeitada incondicionalmente a posição do Dr. Ubirajara, é que tudo não passou de uma interpretação precipitada das meninas que viveram o fato. Uma vez que os rumores correram céleres sob os holofotes implacáveis da imprensa, reconhecer o erro àquela altura geraria uma situação absolutamente constrangedora, embaraçosa. Era evidente que as garotas jamais iriam se desmentir porque a comoção havia se impregnado na população. Como se costuma dizer no interior, a guisa de troça, "já que está que fique". Não há como não notar semelhanças com o evento de Fátima, comentado recentemente: Um fato mal explicado desproporcional à sua real medida, narrativas que não podiam ser desfeitas, interferência externa, envolvimento social, etc. Não são coincidências, são contingências que vão além das dimensões originais, muito mais comuns do que se pensa.

O "caso Varginha" é o exemplo clássico da imperícia no trato de uma situação delicada, e, sobretudo, de irresponsabilidade, por envolver autoridades, instituições, mídia, setores da sociedade e terceiros num cenário que, ao ignorar as regras do bom senso, do senso crítico, da ética e da seriedade, bateu às portas do histrionismo. Ainda bem que foi em Varginha, onde a sobriedade, a decência e o caráter de um pesquisador foram o anteparo que evitou uma catástrofe maior. Um pouco de juízo e tudo teria sido evitado, e eu não precisaria escrever essa crônica de uma patuscada anunciada.

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¹ O Caso Varginha, 2001. (esgotado, disponível em alguns poucos sebos),

sexta-feira, 30 de junho de 2017


OO DIA QUE FOI INVENTADOTIU

Semana passada, dia 24 de junho. este blog completou 70 publicações. Não pensei que chegaria tão longe. No mesmo dia, a ufotopia comemorou 70 anos do que seus seguidores chamam de "Dia mundial dos discos voadores". Já foi longe demais. Juro que não programei nada, foi mera coincidência. A;iás, não sei o que os alienmaníacos têm a comemorar. já que estão de mãos vazias até hoje. Ah, claro, dirão eles que as provas são 'irrefutáveis', que governos sabem de tudo mas escondem a verdade, que o Vaticano detém segredos irreveláveis, que Varginha é é um caso incontestável e coisa e tal. Balelas, falácias, devaneios, delirium fremens (não errei, o "f" é de frêmito). Falando em Varginha, aguarde, em breve tratarei do assunto.

Eu ia deixar passar essa data em branco, mas aceitei escrever a pedido do meu amigo Grego, que também gosta de um barulho. A solicitação veio em cima da hora e nem tive tempo de preparar um texto mais elaborado, embora basta dar uma olhada nos posts anteriores ou nas obras que escrevi que está tudo lá, um punhado de boas considerações, análises, reflexões, fundamentação científica de várias disciplinas e autores e uma bibliografia de peso. 

Dia mundial dos discos voadores. Patético, coisa de mente obtusa, medrosa e despreparada para o mundo. Lado a lado, ufólogos que patinam na ignorância e tropeçam no desvario, e néscios viajantes das estrelas de quinta categoria, ambos herdeiros da Nova Era, do bestiário alucinatório, dos sonhos e esperanças que blindam pesadelos e desesperanças. A distância entre fascinados e vacinados está no campo do discurso, e ela não é pequena. O primeiro é monotemático, monocórdico, unidirecional e periférico ao homem: Discos voadores existem, e são tripulados por seres inteligentes provenientes de civilizações longevas e avançadas, que nos visitam há milhares de anos com os mais diversos objetivos. Irracional, bizarro, ilógico, ficcional, deprimente. Um monólogo rouco para si mesmos. 

Já o outro discurso é poliédrico, pluridimensional e multivocal, que incomoda, provoca desconforto e acentua o sentimento de vazio porque atinge o âmago da existência humana: Para mascarar a angústia visceral do desamparo e solidão  no cosmo - a mais vasta jamais imaginada, o homem cria fantasias, sonhos, ilusões e utopias contra uma realidade que desvela seus medos estruturais inescrutáveis, sua indigência e insignificância na infinitude do universo. Não há contraditório possível! A diferença de conteúdo é colossal! 


É para isso que existem as crenças, para atender a demanda de conveniências e carências: de faunos a anjos, de astrólogos e cartomantes a espíritos e vida após a morte, de amuletos e crendices a deuses astronautas e gurus pironautas*. O mercado é livre mas cada cenoura tem seu preço. Para o sujeito errante qualquer caminho é rota de fuga. A covardia é explícita, a insegurança e a imaturidade, escancaradas, porque a realidade lhe é insuportável tanto quanto a ideia da morte. Assim, iludidos, charlatães, flibusteiros e velhacos se unem ao rebanho, que vagueia pelas terras imaginárias de Magonia a festejar o 24 de junho, decretando a sua própria estupidez.

*Pironauta - neologismo, navegador da piração.

sexta-feira, 23 de junho de 2017


O real , o simbólico e o imaginário (final)

A revisão historiográfica calcada na análise crítica dos fatos, somada ao rigor metodológico de uma investigação isenta de paixões e não tendenciosa obedece a uma das prioridades da cultura comunicacional: Conhecer o mensageiro para melhor decifrar a mensagem. As sessões de leitura que Lúcia tinha com sua mãe precisam ser consideradas: histórias da vida dos santos e passagens de uma obra muito influente na época, "Missão Alvorada", do padre Manuel Couto, onde se falava do Inferno em termos medievais, com descrições de suplícios e horrores infligidos às almas pecadoras. Foi nesse ambiente que Lúcia daria seus primeiros passos rumo a clausura que viria logo depois, muito provavelmente fortalecida pela sua experiência visionária.

Outro dado importante de implicações diretas com Fátima diz respeito ao contexto político e ideológico daquele período. Portugal vivia um ambiente de intolerância religiosa pelo excessivo anticlericalismo jacobino dos arquitetos da Primeira República, proclamada em outubro de 1910. Além disso, havia muita incerteza e temia-se pela vida dos jovens soldados portugueses em combate na França. Para os líderes republicanos, os acontecimentos da Cova da Iria eram entendidos como atos de exploração da crendice popular pelas forças antirepublicanas e monárquicas revanchistas. Note-se que Portugal tinha 75% de população analfabeta, vulnerável a rumores, superstições, crendices e toda sorte de imposições culturais.

Nesse intrincado cenário político e social, as aparições ocorreram no mesmo momento em que a Nova República assumia o poder e estreitava suas relações com a Igreja. Portanto, eram "bem vindas", pois sedimentavam a hierarquia católica e se integravam à ancestral tradição mariana ancorada no imaginário mítico português. Em 1863 seria construído o santuário do Sameiro, ainda sem o estrépito das peregrinações fatimistas. Para consolidar essa "união mística" entre a Coroa e a Igreja Católica, em 26 de março de 1646, por requerimento de D. João IV, Nossa Senhora de Fátima foi consagrada Padroeira de Portugal.

Em 1929 o Papa Pio XI realiza a benção de uma estátua da Virgem de Fátima, em Roma, ratificando a validade do culto relativo às aparições. Em 2017, o Papa Francisco, em sua visita ao Santuário, promulga a canonização dos dois primos de Lúcia, Jacinta e Francisco, falecidos em 1919 e 1920. Um conveniente jogo de cena de grande apelo popular. Irmã Lúcia entrou para o claustro aos 14 anos e lá viveu até a sua morte, em 2005. Como Fátima já não era suficiente para sustentar suas débeis crenças, ela alegou ter tido novas visões da Virgem e de Jesus, entre outras entidades celestes (esse grifo é meu). Quanto às alegadas "mensagens", estas poderão ser comentadas em outro momento, tendo por base os trabalho de Fernandes e outros autores.

Pelo conjunto de aspectos aqui sumariamente apresentados, pelos estudos de largo espectro conduzidos por especialistas de diversas áreas e pelas reflexões de cunho filosófico, sociológico, cultural, histórico e psicológico de anos, Fátima se apresenta como um fenômeno emblemático muito além da marianofania. Como diz o próprio Fernandes, Um património imaterial e um fundo cultural ancestral da nossa matriz genética enquanto comunidade e mantêm vivas e persistentes as expressões de um pensamento mágico e da sua estrutura mítica profunda.

E aqui retomo a menção rápida do primeiro post de que nos encontramos diante de um quadro emoldurado pelas instâncias do real, do simbólico e do imaginário, que se tocam e, em certa medida, combinam-se num caldo de discussões multidimensionais. Acho que, neste caso, não preciso me estender em explanações sobre um e outro e outro porque seria afrontar a sua capacidade de apreensão. Já sou grato por saber que esta síntese tenha sido aprovada pelo autor do artigo.

São as palavras finais do amigo historiador que revelam as tintas originais desse moderno palimpsesto: A Igreja Católica acabou por se apropriar dos fenómenos de Fátima, talvez a única instituição no tempo capaz de o fazer, dado o desinteresse e incapacidade da ciência da época. Lúcia, qual donzela sacrificada a deuses ancestrais, foi encerrada e silenciada para que outra Fátima surgisse, mais lógica, mais integrada nos cânones católicos. Lúcia e os primos foram eles e também as suas circunstâncias, os seus limites e possibilidades, como lembra o cardeal Josef Ratzinger, o Papa emérito Bento XVI. Prisioneiros do nosso espaço-tempo e da nossa cultura, ponderamos aqui hipóteses interpretativas que não se coadunam com as necessidades dos crentes que repelem o uso da razão em matérias de fé. Mas, por força das nossas limitações humanas, cada um é livre de acreditar naquilo em que quer acreditar.

Somos tentados a ver na história de Fátima, na versão popular católica e do maravilhoso cristão, uma réplica das narrativas do “país das maravilhas”, o “mundo de Oz”, – ou mesmo o mundo das fadas e das mouras encantadas tão presentes nos nossos arquétipos míticos – onde irrompem as mais fecundas imagéticas do onírico universal, e onde Lúcia dos Santos faz de Dorothy Gale ou de Alice. O complexo estruturante de Fátima traduz um ponto de chegada, um ponto Ómega onde se fundem longínquas correntes culturais, cujos afluentes participaram da construção do nosso inconsciente coletivo e que definiram a sensibilidade feminina da religião popular portuguesa. Portugal foi sempre um país desde a nascença ligado a mitos estruturais. Um país alimentado por prodígios, profecias e espantos. Mas, como lembra Fernando Pessoa, “o mito é o nada que é tudo”…

Terminamos pelo início, de volta a 1917, quando uma amiga de Lúcia, Joaquina Vieira, perguntou à vidente:

Joaquina- Ó Lúcia, o que é que tu viste?
Lúcia – Vi uma Senhora.
Joaquina – O que é que tu lhe perguntaste?
Lúcia – Perguntei quem era vossemecê.
Joaquina – E o que é que ela te respondeu?
Lúcia – Ela esticou um dedo para cima.

Resta por descobrir o que fica na direção do “dedo esticado” da Senhora sob o céu de Fátima/Cova da Iria. Como avisa Confúcio, não detenhamos o nosso olhar no dedo…

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Para quem quiser saber mais sobre as análises contemporâneas de Fátima, indico os seguintes links:
Artigo original:  https://athena.pt/2017/05/11/116/
Documentário Conversas do Centenário com Joaquim Fernandes e convidados, Porto Canal. Seis episódios, um por mês, até outubro. Os dois primeiros já foram ao ar: http://portocanal.sapo.pt/um_video/pa1CmJJsNRhMNViurNgf/


sexta-feira, 16 de junho de 2017


BASTIDORES


António da Silva (irmão da mãe de Jacinta) – Se os cachopos viram uma mulher vestida de branco, quem poderia ser se não Nossa Senhora?!

Aquela “espécie de boneca muito bonita”, como também a descreveu Lúcia, não se identificara, mas a pequena Jacinta antecipara tratar-se de Maria da Nazaré, mãe de Jesus Cristo. Talvez por influência do tio para quem a alegada “Senhora” só poderia ser a Nossa Senhora que ascendera aos céus há quase 2 mil anos…

As aparições seguiram-se por seis meses, "testemunhadas" por milhares de pessoas a cada vez sempre num clima de máxima comoção, além de vendedores ambulantes munidos de folhetos com imagens da Virgem Maria, retratos das três crianças e penduricalhos. Escreve Fernandes: Um imparável rumor ultrapassava já toda a prudência e dispensava os inquéritos por parte dos responsáveis clericais. A força da religiosidade popular, de um povo angustiado pela guerra e ávido de sobrenatural tornara-se um indomável terramoto. E é Joaquim quem faz as perguntas:

A "mulherzinha bonita vestida de branco" seria mesmo a própria Maria de Nazaré? Obviamente que não. Manifestação sofisticada de uma inteligência ou realidade desconhecida? Também não. Uma "visão interior" como sugerida por Bento XVI, ou apenas uma recorrente fantasia infantil? Não tenho dúvidas de que se trata desta última. A situação fugiu do controle a tal ponto que Lúcia jamais negaria o ocorrido, como nunca fez e nem poderia. Ela não desmentiria sua versão dada a rígida disciplina religiosa familiar, a pressão dos clérigos locais e mais ainda pela temência à autoridade divina.

A convicção dos crentes sobre a manifestação de Maria permaneceu indestrutível até 1978, quando Fina D'Armada, uma pesquisadora laica, teve acesso aos arquivos do santuário de Fátima. Pela primeira vez, os documentos estavam sob um olhar fora da Igreja. Como relata Joaquim, Esta investigação foi vertida, em 1982, no livro “Intervenção Extraterrestre em Fátima”¹, que enunciava dados inéditos ou omitidos, hipóteses e leituras inéditas e “chocantes”, com base na reanálise dos inquéritos originais de 1917 e de 1923, amparada na leitura exaustiva e comparada da bibliografia da época, mormente fontes primárias com cerca de uma centena de testemunhos primários e pessoais. 

O próximo comentário me soa contundente e, em certo sentido, mortal para os incuráveis "marianofanáricos": Ainda hoje, o conceito de “extraterrestre” – invocado para os fenómenos de Fátima num amplíssimo espetro de sinónimos e possibilidades de natureza física e astrofísica – teima em ser tendenciosamente traduzido, de forma caricatural, pelo estereótipo do “marciano” e do disco voador do imaginário espacial da década de 1950! Arcaísmos insidiosos que intentam a ridicularização da hipótese proposta.



Fina d’Armada, em Fátima entrevistando João Marto, amigo de infância de Lúcia.

São muitas as contradições, os desvios e as omissões nos relatos dos pequenos protagonistas no transcurso do processo de reconstrução doutrinal em torno das “aparições”, que as “Memórias” tardias da Irmã Lúcia coram de forma notória. A "bela mulherzinha" se torna a "Virgem Maria", uma "bola de luz" que as poucos se transforma em "Coração" e mais tarde no "Coração Imaculado de Maria". A narrativa auroral e espontânea foi sendo interpretada, retocada e ajustada às conveniências paroquiais e políticas, como as do pároco de Fátima, Manuel Marques, nos primeiros interrogatórios.

A partir das descrições iniciais das crianças e das entrevistas originais feitas por Fina D'Armada, ainda que fortemente influenciadas pelo tônus clerical da época, foi possível estabelecer um “retrato” do episódio, conforme Fernandes: Uma figura feminina, muito bela, de olhos negros, envolvida por uma luz que cegava. Tinha cerca de 1 metro e 10 de altura e aparentava uma idade entre os 12 e os 15 anos. Vestia uma saia travada, branca e dourada, aos cordõezinhos de cima a baixo e atravessados. Um manto tipo capa que descia até à orla do vestido que não ultrapassava os joelhos. Trazia algo na cabeça que lhe cobria as orelhas e os cabelos. Pendia-lhe do pescoço um cordão com uma bola luminosa à altura da cintura. Não tinha movimentos faciais nem mexia os lábios quando “falava” nem os membros inferiores quando se afastava de costas voltadas em direção ao alto…

Seguindo a cronologia e genealogia do fenômeno, tem-se que: 

1 - Em datas não determinadas, de 1915 e 1916, Lúcia afirma ter tido visões de um “anjo”, figura a que chamou “estátua de neve” transparente ou ainda uma “pessoa embrulhada num lençol”;
2 - Em 13 de maio, os três pastorinhos assumem-se intermediários de uma “senhora vestida de branco”, que desce sobre uma pequena azinheira. Questionam-na sobre alguns doentes e o destino dos soldados portugueses enviados para as trincheiras de França;
3 - Em 13 de Julho ocorre a transmissão de um “segredo” pela mesma entidade aos pequenos videntes e promessa de um milagre para Outubro seguinte, com pedidos de orações, penitência e conversões. O tema da Grande Guerra sobressai nas mensagens alegadamente recebidas por Lúcia.
4 - Em 13 de Outubro a visitante sugere a edificação de um templo dedicado a Nossa Senhora do Rosário, ou identificando-se como tal (dúvidas de Lúcia) – garantindo que a Grande Guerra acabaria naquele mesmo dia. O que não sucedeu. O sangrento conflito só terminaria em Novembro de 1918, com cerca de 10 mil mortos portugueses.

(Encerra na próxima semana)
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¹ Ed. Bertrand


sexta-feira, 9 de junho de 2017


A gênese das marianofanias - 1


"Fátima" continua rendendo frutos, no blog e no mundo. Compreensível, por se tratar do seu centenário e por envolver aspectos muito mais que meramente religiosos. Minha intenção inicial era replicar um artigo assinado por Joaquim Fernandes* - "As 'aparições' de Fátima-1917 entre o real e o imaginário", na íntegra. Entretanto, por ser um texto longo, ainda que imperdível, sua divisão em capítulos para encaixá-lo no formato do blog resultaria em 10 capítulos, incorrendo no risco de sua leitura perder continuidade em algum momento. Assim, resolvi condensá-lo, atendo-me aos pontos realmente cruciais para se entender os "bastidores" da história, desse modo reduzindo consideravelmente a série de postagens. Os interessados no artigo original podem acessá-lo no link: https://athena.pt/2017/05/11/116/

Importante ressaltar que este episódio de caráter essencialmente religioso tornou-se um marco na vida de Portugal e do mundo, objeto de estudos para teólogos de todas as matizes e cientistas sociais. Por outro lado, espero que você perceba o vínculo  - não premeditado - com os posts recentes, quando se falou de vazio que não se preenche, palimpsesto, pós-verdade, tempo e linguagem, onde tudo está imbricado nos conceitos do real, do simbólico e do imaginário. Óbvio que este vínculo não é coincidência, nem casual, mas causal e, insisto em dizê-lo, soma da mescla de saberes, do capital crítico, da ausência de derivação de tendências e propósitos em busca da verdade. Vamos ao que interessa.

A “Senhora vestida de branco” tem uma milenar cronologia e, antes de Fátima e de 1917, estão registados alguns milhares de alegadas “aparições” marianas. A tradição ocidental reivindica uma primeira manifestação da Virgem Maria de Nazaré, ainda em vida desta, no dia 12 de Outubro do ano 40 da era cristã, em Saragoça, norte de Espanha, ao apóstolo Tiago, irmão de João Evangelista. Neste caso tratar-se-ia de um fenómeno de bilocação (estar em dois lugares em simultâneo), em que “a Virgem aparece acompanhada de anjos, sentada num trono de luz, circundada por nuvens diáfanas no momento em que Tiago orava”. Daqui nasceria o culto a Nossa Senhora do Pilar, na sequência do habitual pedido de edificação de um templo com aquela inovação.

Impossível não deixar de mencionar a famosa visão de Ezequiel: "Olhei, eis que um vento tempestuoso vindo do norte, e uma grande nuvem com fogo a revolver-se, e resplendor ao redor dela, e no meio disto, uma coisa como metal brilhante que saía do meio do fogo. Do meio desta nuvem saía a semelhança de quatro seres viventes, cuja aparência era esta: tinham a semelhança do homem. Tinham cada um quatro rostos, como também quatro asas (...) Os seres viventes ziguezagueavam como relâmpagos (...) O aspecto das rodas e a sua estrutura eram brilhantes como berilo."  Os adeptos da corrente danikeniana se apressaram em corresponder este e outros episódios visionários à presença de veículos extraterrestres. Por que seria diferente com Fátima? Segundo Fernandes, A crença nas “mariofanias” (aparições de Maria), como sustenta a historiadora francesa Sylvie Barnay, remontaria ao ano 380 da era cristã e proviria sobretudo do Oriente grego com fundamentos ponderosos: é que, na paisagem cultural da Ásia Menor, perdurava de há muito a tradição das deusas-mães, ecos dos cultos da fertilidade e que serviu de fermento à potencial piedade mariana, segundo o teólogo Hans Kung.

O “pai da igreja” Gregório de Nissa (m. 397) é tido como o fundador da crença, introduzindo no ocaso da Antiguidade um modelo de narrativa que se iria desmultiplicar nas torrenciais hagiografias e vidas santificadas nos séculos vindouros, quando contaminou toda a Idade Média europeia ocidental. Das geografias orientais, entretanto tomadas pela cristandade imperial ortodoxa, a crença mariana emerge mais tarde no Ocidente, já no século IX, atingindo um primeiro fulgor no século XII, com o decisivo contributo do monge cisterciense Bernardo de Claraval. A partir daí irrompem, como lembra Jean Delumeau, controversas teológicas marcadas pelo dogma da Imaculada Conceição, cujo lugar na hierarquia celestial do edifício cristão havia sido irreversivelmente marcado pelas decisões do Concílio de Éfeso, no ano 431: Maria, a que concebeu Deus (theotokos) superando “a que concebera Cristo” (christotokos) gerou um enunciado cristológico prenhe de consequências que perduram até hoje.


A figura de Maria de Nazaré foi catapultada pelo Concílio de Éfeso, em 431 d.C. para um patamar de excelência – a Theotokos (mãe de Deus) – abrindo assim uma via para uma hiperdulia (veneração e honra exacerbada pelos crentes) que as outras igrejas cristãs não aceitam.


As chamadas "aparições marianas", como revelações e cultos privados, não fazem parte de nenhum dogma da Igreja Católica. A fé católica romana assenta no dogma da Revelação cristã inscrita nos Evangelhos, como relembrou o cardeal Josef Ratzinger, papa emérito Bento XVI. Face à Palavra, objeto de fé divina, as chamadas “aparições” relevam somente da fé humana e são meras manifestações discutíveis no quadro dogmático reclamado pelos textos canónicos. A Igreja Católica não cauciona “videntes”, mas crentes; reconhece os lugares de peregrinação, mas muito raramente se manifesta sobre a autenticidade das chamadas “aparições”, donde nenhum católico é obrigado a aceitar o fenómeno aparicional mariano como certidão irrefutável de uma presença física ou outra da Virgem Maria.
Num domingo, 13 de Maio de 1917, no interior Portugal conhecido como Cova da Iria, três crianças tiveram sua visão quando pastoreavam ovelhas: Lúcia dos Santos, 10 anos, e seus primos Francisco Marto (9) e Jacinta Marto, de 7 anos. De repente, viram uma explosão de luz, e depois outra, como se fossem relâmpagos, quando notaram uma "mulherzinha muito bonita" rodeada de intenso resplendor. Inquirida pela mãe Maria Rosa, Lúcia descreveu sua visão:
Maria Rosa – Ó Lúcia, ouvi dizer que tinhas visto Nossa Senhora na Cova da Iria?
Lúcia – Quem foi que lho disse?
Maria Rosa – Foi a mãe da Jacinta, a quem a filha contara. É verdade?
Lúcia – Eu nunca disse que era Nossa Senhora, mas uma mulherzinha bonita. E até pedi à Jacinta e ao Francisco que nada dissessem. Não tiveram mão na língua!…
Maria Rosa – Uma mulherzinha?
Lúcia – Sim, mãe.
Maria Rosa – Então diz lá o que foi que te disse essa mulherzinha…
Lúcia – Disse-me que queria que nós fôssemos seis meses a fio, nos dias 13 chegados, e no fim diria quem era e o que queria de nós”.

(continua na próxima semana)

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* Doutor em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, co-fundador do CTEC- Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência, na Universidade Fernando Pessoa, Porto e co-autor, com Fina d’Armada, de obras sobre a fenomenologia das “aparições” marianas, como “Fátima nos bastidores do Segredo” (Lisboa, 2002, Âncora Editora). 

sexta-feira, 2 de junho de 2017


Alien covenant


Semanas atrás fiz um comentário sobre o filme "A Chegada", discorrendo sobre simbolismos, tempo e linguagem. Hoje faço nova incursão no cinema com Alien Covenant, novo filme de Ridley Scott, agora sob outro enfoque. Tomei por base o ótimo artigo da jornalista e escritora Eliane Brum, "Alien, o passageiro perdido de uma nave sem futuro", publicado no jornal El País (21/05/2017). Sutil ironia: sim, o alien somos nós, no extremo da alteridade. Não gostei da estética do filme, mas isso não vem ao caso. O artigo abordando a saga dá volume e densidade ao que você já se acostumou a ler aqui e que é o objeto central do blog.

Como sempre, a ficção científica e suas luvas de pelica a nos revelar verdades que não queremos ver. Ou não vemos de fato. E tome androides, replicantes, sintéticos, cyborgs e artificiais prenunciando um futuro distópico possível pela frente - o do pós humano. Outra revelação perturbadora: o silêncio na solidão, a falta de horizonte, o vácuo exterior, o vazio interior. Vazio que não se preenche.


A aporia está na ponta da linha, na visão de Brum: O erro daquele que foi projetado para não cometer erros aponta que o androide se humaniza. E a tragédia, para os humanos da espaçonave Covenant, é justamente a humanidade do sintético. Ao pensar por si mesmo, ao ser capaz de fazer suas próprias escolhas, David conclui que a humanidade é um erro. A analogia é evidente: o humano, incompleto por não ser "divino", busca divinizar-se, e a tragédia se consuma ao encontrar no criador a imperfeição de sua criatura. Se Frankenstein é nossa angústia - somos feitos com "pedaços" de outros, e Davi (o de Michelangelo) o sonho da perfeição, David (o androide) é o quase humano, incompleto, inseguro, vingativo, ressentido. 

Para a escritora, ao criar Alien, Ridley Scott é, Como boa parte da população atual, um humano do século 20 que chega ao 21 mergulhado num presente que é, ele em si, uma distopia. Mas uma distopia em que as referências já não dão conta. Busca-se desesperadamente nossos mitos fundadores, recicla-se os personagens arquetípicos e reedita-se as tragédias clássicas, mas já são oráculos sem respostas porque nós, que os interrogamos, estamos condenados ao presente. Já não há nem mesmo como contar com o espaço como fuga. A Terra se assemelha cada vez mais a uma nave superpovoada e avariada demais, da qual não há como sair. Ou, como ela define em outro artigo¹, A última utopia do presente é uma ilha vulcânica. Nosso presente é tão impactado pelo futuro que somos capazes de imaginar quanto pelo passado que tentamos compreender. Brum inverte o sentido doo tempo sem ferir a lógica!

Nada muito diferente do que você tem lido aqui e, muito provavelmente, em outros lugares. Nada muito diferente do que você, muito provavelmente, pauta em suas mais metafísicas reflexões. E, assim, giramos todos em falso. E o filme de Ridley Scott gira também em falso. Paralisados pela impossibilidade de imaginar um futuro, qualquer futuro, já não conseguimos dialogar com nossos mitos como antes. É este o vazio que, contrariando a lógica, não se preenche. Não a falta que produz movimento de busca, mas o vazio paralisante. O silêncio paralisante. O medo paralisante. 

A nave já não é a caravela que nos leva ao novo mundo – ou ao paraíso perdido. A nave é o presente onde estamos confinados. Nos brancos corredores claustrofóbicos viajamos com a destruição que carregamos. Alien, este estrangeiro íntimo feito da matéria dos sonhos, é o conto de fadas para adultos que dialoga com nossos medos mais profundos e inconfessáveis. Feito da matéria dos sonhos, ele só pode ser vislumbrado. Não é todo filho um alienígena enquanto se engendra nos interiores da mãe?

Nosso presente atualiza o passado, que reescreve o futuro, que ressignifica o presente. O futuro é um presente expandido. O tempo reconstitui o homem que reconfigura o mundo. As peças vão se encaixando. Precisamos muito de uma paleontologia dos fósseis do amanhã. Ou de uma psicanálise dos traumas futuros. A ficção é o cadinho, o alien o elemento. A alquimia é sua.



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¹ "O amanhã não pode ser apenas inverno". El País, 09/11/2016.
Alice Fátima Martins, Saudades do Futuro: o cinema de ficção científica como expressão do imaginário social e do devir.  Ed. UnB, 2013.
Ieda Tucherman, A ficção científica como narrativa do mundo contemporâneo
www.comciencia.br/reportagens/2004/10/09.html. 
_______. O pós-humano e sua narrativa. Revista de Comunicação, Cultura e Teoria da Mídia, 1:02, p. 105-124, 2003.
Mark Rowlands, Scifi=Scifilo: A filosofia explicada pelos filmes de ficção científica. Relume Dumará, 2005.
Izaura Rocha.The Happening. Terror pós-moderno e alegoria da alteridade como fonte de tensão e conflito.”  Boletim On-line de Ciências da Comunicação. U.FJF, 2009.

Jean-Bruno Renard. Religion, Science-fiction et extraterrestres. Archives de Sciences Sociales des Religions. 50:1; pp. 143-164. 1980.