Obras

Obras

sábado, 28 de abril de 2018


VOZES , ECO & SILÊNCIO
A bolha do conhecimento

Se você ainda não leu o post anterior, peço que o faça, porque este é uma amplificação daquele. Dê atenção ao tema que está circulando entre os estudiosos e fala diretamente a todos, sem exceção. É uma leitura de fôlego que exige concentração e muita reflexão. O autor é o professor de Filosofia da Utah Valley University, de Los Angeles, C. Thi Nguyen, que está na linha de frente desse estudo. Ao traduzir, me ative no essencial, tendo o cuidado de não distorcer o texto e prejudicar a compreensão. A série foi dividido em quatro partes - três, na verdade - porque a última é um tema adicional que encorpa e arremata a análise. Dispensei notas ou comentários porque você entenderá o mote, mas reforcei algumas passagens destacando-as no texto.

Antes, para facilitar, trago um trecho do comentário do historiador Leandro Karnal feito em seu blog a respeito do assunto: "Todos sabemos bem menos do que imaginamos e ainda menos do que os outros imaginam que saibamos. Para contrapor o evidente desnível entre o que eu sei e o que eu suponho que saiba, isto seria a ilusão de profundidade explicativa. Entro em bolhas epistêmicas, encontro câmaras de eco e reforço meu viés de confirmação produzindo uma ilusão de profundidade explicativa. Como a decisão de crer é anterior a tudo, a busca do grupo é só um meio para eu me entregar à zona mais confortável para minhas opiniões." 

Boa leitura!

Existem dois fenômenos muito diferentes em jogo, cada um deles subvertendo o fluxo de informação de modos distintos: câmaras de eco e bolhas epistêmicas, estruturas sociais que sistematicamente excluem fontes de informação, exagerando na confiança de seus pares em suas crenças. Mas eles trabalham de formas completamente diferentes e exigem meios de intervenção também muito diferentes. Uma bolha epistêmica é quando você não ouve as pessoas do outro lado. Uma câmara de eco é quando você não confia nas pessoas do outro lado.

Porém, o uso corrente confundiu essa distinção, portanto, deixe-me apresentar uma taxonomia um tanto superficial. Uma "bolha epistêmica" é uma rede informativa da qual vozes relevantes foram excluídas por omissão. Essa omissão pode ser proposital: Podemos estar seletivamente evitando o contato com visões contrárias porque, digamos, nos deixam desconfortáveis. Como os cientistas sociais afirmam, nós gostamos de nos envolver em exposições seletivas, buscando informações que confirmem nossa própria visão de mundo. A omissão também pode ser totalmente inadvertida: Mesmo se não estivermos francamente tentando evitar discordâncias, nossos amigos na rede  tendem a compartilhar nossas opiniões e interesses. Quando pegamos redes construídas por razões sociais e começamos a usá-las como nossas fontes de informação, ficamos inclinados a perder pontos de vista contrários e a entrar em níveis exagerados de concordância.

Uma câmara de eco é uma estrutura social da qual outras vozes relevantes foram sumariamente desacreditadas. Se a bolha epistêmica apenas omite visões contrárias, a câmara de eco leva seus membros a desconfiarem de forasteiros opositores. Em Echo Chamber: Rush Limbaugh and the Conservative Media Establishment (2010), Kathleen Hall Jamieson e Frank Cappella oferecem uma análise inovadora do fenômeno. Para eles, uma câmara de eco é algo como um culto, isolando seus sectários alienando-os ativamente de qualquer fonte externa. Os de fora são considerados indignos de confiança. A confiança do membro de um culto é reforçada, direcionada para certas vozes internas. 

bolha epistêmica esteve no centro das atenções ultimamente, mais precisamente em The Filter Bubble (2011), de Eli Pariser, e em Republic: Democracy in the Age of Social Media (2017), de Cass Sunstein. A essência geral é: Recebemos muitas das nossas notícias de fontes do facebook e tipos semelhantes de mídia social. Essas fontes consistem principalmente de nossos amigos e colegas, a maioria dos quais compartilha nossas visões políticas e culturais. Visitamos blogs e sites favoritos. Ao mesmo tempo, vários algoritmos nos bastidores, como aqueles dentro da pesquisa do Google, personalizam invisivelmente nossas pesquisas, aumentando a probabilidade de vermos apenas o que queremos ver. Todos esses processos impõem filtros à informação.
Esses filtros não são necessariamente ruins. O mundo está sobrecarregado de informações, e não se consegue resolver tudo sozinho. Os filtros precisam ser diversificados. É por isso que todos nós dependemos de redes sociais expandidas para nos fornecer conhecimento, mas qualquer rede informativa desse tipo precisa do modelo certo de amplitude e variedade para funcionar. Por exemplo, uma rede social composta inteiramente de fãs de ópera inteligentes e obsessivos entregaria toda a informação que eu pudesse querer sobre a cena da ópera, mas não daria conta do fato de que, digamos, meu país tenha sido infestado por uma maré crescente de neonazistas. Cada pessoa na minha rede pode ser inteiramente confiável em relação ao meu viés informacional específico, mas, como uma estrutura agregada, minha rede não tem a "cobertura-confiabilidade", como chama Sanford Goldberg em Relving on Others: An essay in epistemology (2010). Esse modelo de rede não me oferece uma cobertura suficientemente ampla e representativa de todas as informações relevantes.
Bolhas epistêmicas também nos ameaçam com um segundo perigo: Autoconfiança excessiva. Em uma bolha, encontramos quantidades exageradas de concordância e níveis reprimidos de discordância. Somos vulneráveis ​​porque, em geral, temos realmente boas razões para prestar atenção se outras pessoas concordam ou discordam de nós. Ouvir os outros em busca de comprovação é um método básico para verificar se um raciocínio está certo ou errado. É por isso que podemos fazer nosso dever de casa em grupos de estudo e ter laboratórios diferentes repetindo experimentos. Mas nem todas as formas de corroboração são significativas. Wittgenstein diz: "Imagine olhar através de uma pilha de jornais idênticos e tratar cada manchete como mais uma razão para aumentar sua confiança. Isso é obviamente um erro. O fato de que o The New York Times relatar que algo tem boa razão para se acreditar, quaisquer cópias do jornal que você encontrar não devem adicionar nenhuma evidência extra."
Mas as cópias não são o único problema aqui. Suponha que eu acredite que a dieta Paleo seja a melhor de todas. Eu monto um grupo no face chamado 'Great Health Facts!' e vou preenchê-lo apenas com pessoas que já acreditam que Paleo é a melhor dieta. O fato de que todo mundo nesse grupo concorda comigo sobre Paleo não deve aumentar meu nível de confiança nem um pouco. Eles não são meras cópias - eles realmente podem ter chegado às suas conclusões de forma independente - mas a concordância deles pode ser inteiramente explicada pelo meu método de seleção. A unanimidade do grupo é simplesmente um eco do meu critério de seleção.

É fácil esquecer quão cuidadosamente os membros são pré-selecionados, como os círculos de mídias sociais epistemicamente preparados podem estar. Felizmente, porém, as bolhas epistêmicas são facilmente destruídas. Podemos estourá-las simplesmente expondo seus pares às informações e argumentos que eles perderam. Mas as câmaras de eco são um fenômeno muito mais complexo.
O livro de Jamieson e Cappella é o primeiro estudo empírico sobre como funcionam as câmaras de eco. Em sua análise, as câmaras trabalham alienando sistematicamente seus membros de todas as fontes epistêmicas externas. O resultado é um paralelo bastante impressionante com as técnicas de isolamento emocional praticadas na doutrinação de um culto. De acordo com especialistas em saúde mental na recuperação de adeptos, a doutrinação envolve novos fieis sendo levados a desconfiar de todos aqueles que sejam externos ao culto. Isso fornece um impeditivo contra qualquer tentativa de retirar a pessoa doutrinada do culto.
A câmara de eco não precisa de conectividade ruim para funcionar. Os seguidores têm acesso total a fontes externas de informação. De acordo com os dados de Jamieson e Cappella, os adeptos de Limbaugh [caso focal do estudo] leem regularmente - mas não aceitam - fontes noticiosas tradicionais e liberais. Eles são isolados, não por exposição seletiva, mas por mudanças em quem eles aceitam como autoridades, especialistas e vozes fidedignas. Eles ouvem, mas rejeitam, fontes externas. Sua visão de mundo pode sobreviver à exposição a essas falas exteriores porque seu sistema de crenças as preparou para esse ataque intelectual.

De fato, a exposição a opiniões contrárias poderia realmente reforçar seus pontos de vista. Limbaugh pode oferecer a seus seguidores uma teoria da conspiração: Qualquer um que o critique está fazendo isso a mando de um grupo secreto de elites malignas, que já assumiu o controle da grande mídia. Seus seguidores agora estão protegidos contra a simples exposição a evidências contrárias. Na verdade, quanto mais eles descobrem que a mídia chama Limbaugh de farsa, mais as previsões dele serão confirmadas. Perversamente, a exposição a pessoas de fora com visões contrárias pode, assim, aumentar a confiança dos membros da câmara de eco em suas fontes internas e, portanto, seu apego à sua cosmovisão. O filósofo Endre Begby chama esse efeito de 'antecipação de  evidência'.  O que está acontecendo é uma espécie de jogo intelectual, em que o poder e o entusiasmo de visões se voltam contra essas vozes contrárias através de uma estrutura interna de crença cuidadosamente manipulada.

quarta-feira, 18 de abril de 2018


A DIMENSÃO SOCIAL DA PALAVRA


Hoje quero discutir um ponto que foi citado de passagem já há algum tempo ("Só pensar não basta, pensar diferente é fundamental"). Importante trazê-lo de volta para ampliar a compreensão e mostrar aonde quero chegar. Estou falando da doxa, e o que é doxa? Grosso modo, doxa (grego) é o conjunto de juízos que uma sociedade constrói em um momento histórico específico, acreditando tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que, para a Filosofia,  não passa de uma crença ingênua que só pode ser superada através do verdadeiro conhecimento. A mentalidade de uma época - Zeitgeist, é o vetor resultante da interação das práticas sociais e da ideologia estabelecida. A relação entre doxa e episteme é a mesma de opinião e conhecimento. Platão entendia doxa como "oposição à verdade". Considerando que toda opinião reflete uma crença, doxa pode ser entendida como a opinião pública dominante sobre um dado assunto. Opinião pública dominante por sua vez também conhecida por "senso comum". 

Por opinião pública entende-se a somatória ou o conjunto das opiniões individuais, uma definição inadequada segundo alguns autores, porque quase sempre elas - as opiniões - não podem ser somadas dada a complexidade dos elementos que as constituem, que inviabilizam aplicar um valor específico. A opinião individual, quando não fundada no conhecimento da matéria e na análise crítica, é uma opinião fria, anódina, retrato de um impulso embalado pelo achismo, pela fala de uma "autoridade" ou "especialista", pela reprodução orgânica contaminada da polifonia gerada pela sociedade na onda - ou refém - da ardência das circunstâncias, do ouviu falar - "se todos dizem a mesma coisa, deve ser assim")Que leitura se faz aqui? Que peso pode ter uma opinião assentada nestes termos? Nenhum, peso zero.

De acordo com o professor de Lógica da Unicamp, Walter Carnielli, "Um argumento é uma 'viagem lógica', que vai das premissas à conclusão". E prossegue: "Um bom argumento é aquele em que há boas razões para que as premissas sejam verdadeiras, e, além disso, que as premissas apresentem boas razões para suportar ou apoiar a conclusão". Ele afirma que nós, brasileiros, temos péssima educação argumentativa, confundimos discussão com briga, e não sabemos lidar com críticas. 


Vejamos um exemplo de "opinião pública". Para uma fatia significativa da população, dado o momento social vigente a pena de morte deveria ser adotada em certos casos. Supondo que você simpatize com a ideia, já considerou todos os aspectos envolvidos na questão - sociais, culturais, legais, religiosos, psicológicos, filosóficos, históricos, morais, políticos, éticos? Obviamente não, porque sua competência nestas áreas é precária para emitir um juízo de valor legítimo. Você poderá dizer "sim" ou porque segue maioria (contágio) num processo de 'discurso-carbono', ou por achar que conhecer um ou dois campos seja suficiente para embasar sua opinião. Se todos os demais cidadãos pensarem como você, como estabelecer uma "soma" estatisticamente válida para a questão? Não tem como, não tem o menor sentido, coerência, solidez, não será uma escolha racional, sensata ou ética. E mais, não será uma opinião autenticamente sua. As piores formas de opinião são as de conveniência, oportunismo, persuasão e doutrinária.

Para o tema que nos toca, a opinião pública crê na existência dos discos voadores, pois para o senso comum a pluralidade de civilizações é algo natural. Argumentos não faltam! Pergunto: Baseada em que se faz essa afirmação? Respondo: Em tolas e vãs suposições, já que tais "argumentos" - todos, sem exceção - nem argumentos são, mas opiniões sem a devida instrução cognitiva que lhes dê sustentação. Toda opinião é em si uma crença. Quem acredita em disco voador dirá sem pestanejar que ele existe! Quem tem dúvida dirá "é possível", hesitando afirmar ou negar. O cético o negará até com certo desprezo, mas nenhuma delas se sustenta por si mesmas. 
Pergunto de novo: É possível somar as respostas de modo a montar um quadro confiável? As premissas apresentam razões para apoiar a conclusão? Responda você.

Fato é que há muita responsabilidade sobre tudo aquilo que se fala e se escreve, tanto maior quanto mais públicas essas manifestações se tornam. Toda opinião individual é um agente transformador da realidade com implicações profundas na medida em que intervém e influencia a esfera pública, ao ponto de direcionar o rumo da história. Há uma dialética silenciosa e invisível porquanto a palavra de um encontra e perpassa o silêncio do outro. 

Segundo Le Bon, "As multidões apenas conhecem os sentimentos simples e extremos, e, nesse sentido, aceitam ou recusam em bloco as opiniões, as ideias e as crenças que lhes são sugeridas, considerando-as verdades absolutas ou erros igualmente absolutos. É o que sempre acontece com todas as crenças que têm origem na sugestão, em vez de terem sido determinadas pelo raciocínio. Sabemos como as crenças religiosas são intolerantes e conhecemos o poder despótico que elas exercem sobre os homens".

Já para os ditos ufólogos, que, a rigor, nem isso são, mas sofistas falazes, suas opiniões tornam-se argumentos em defesa de suas crenças, ainda que as premissas sejam inteiramente falaciosas e insustentáveis à luz de uma análise crítica. E por que isso acontece? Por vários motivos. Escreve Carnielli, "Crenças não são argumentos, embora possam influir neles. Os mecanismos para formar opiniões podem não ser racionais, mas até nesse ponto a investigação lógica é essencial (...) Ainda mais, as pessoas podem manter crenças verdadeiras por razões irracionais, ou manter crenças falsas por decisões racionais. Some-se a tudo isso o fato de que o conhecimento é tradicionalmente visto como um tipo especial de crença, e que o problema das contradições na razão é também um importante tema da lógica. Pior mesmo é quando a crença se materializa em opinião e é usada para substituir o argumento." 

Outro artifício dos ufólogos é a retórica ardilosa carente de fundamentação lógica, técnica ou científica, surda ao debate e à reflexão. Eles vivem numa espécie de "Bolha epistêmica"termo criado por John Woods para determinar a relação entre o conhecimento que o sujeito pensa possuir e aquele que ele efetivamente possui. Woods busca explicar a complexa interação entre conhecimento e crença. Bolha epistêmica, portanto, é um estado cognitivo em que a distinção entre conhecer e acreditar que se conhece se torna fenomenologicamente indistinguível. Como o próprio nome indica, o indivíduo fica circunscrito a um conjunto de dados e informações pertencentes única e exclusivamente ao seu universo de interesses.


Carnielli diz que "Entra em cena o já quase famoso 'viés de confirmação' - a tendência da pessoa de acolher as informações que apoiem suas crenças e rejeitar as que a contradiga (...) Mesmo após a evidência de que suas crenças foram totalmente refutadas, o indivíduo em geral não consegue fazer revisões apropriadas de suas crenças". Mas a coisa não acaba aqui. Há um parceiro perverso do viés de confirmação que é a "ilusão de profundidade explicativa", uma engenhosa armadilha intelectual quando o indivíduo crê saber mais do que realmente sabe, e persiste acreditando nisso pela ressonância de suas ideias em outras fontes. No caso do ufólogo, ele deseja ter confirmados seus argumentos na casuística, nos testemunhos, nos supostos registros, e em nenhuma hipótese aceita ser rebatido. Sabe por que tamanha obsessão? Porque sem essa "confirmação" ele terá esvaziadas suas crenças e opiniões e estará à margem da sociedade - porque da realidade já está. Convenhamos, o vazio será gigantesco.

Fica difícil entender como uma informação adquirida por um agente cognitivo se transforma ema 'crença' e passa a orientar as ações do sujeito. Peirce sustenta que a elaboração da crença se baseia em um fator emocional relevante que ele chama de 'irritação da dúvida': Quando confrontados com ela, queremos rapidamente eliminá-la. A dúvida causa desconforto e inquietação, enquanto a crença é um estado de "calma e satisfação" no qual se quer permanecer. Mais que isso, o "estado da crença" proporciona acomodação, segundo Peirce, pela segurança das posições e convicções já firmadas. A bolha epistêmica e o viés de confirmação não só "legitimam" a crença como eliminam quaisquer contraditórios. O problema é que o sujeito é incapaz de discernir o que é conhecido daquilo que é simplesmente acreditado.

Falo com tranquilidade sobre tudo isso porque já estive do lado de "dentro" da bolha (ufológica) e sei como as cabeças funcionam. Também não gostava quando os de "fora" vinham com seus saberes tentando contrapor meus "argumentos": - Que coisa, não sabem nada de ufologia e ficam dando pitacos no assunto! Imperdoável, admito. Quando resolvi botar a cabeça fora da bolha para saber o que afinal havia de tão importante, de cara me esperavam Jung, Campbell, Lévi-Strauss, Eliade, depois Bauman, Eco, Morin e muitos outros, só para ficar nos mais conhecidos porque a lista é extensa. O horizonte que se abriu foi luminoso, libertador, fértil, inesgotável, generoso, ao contrário da bolha asfixiante, pegajosa, claustrofóbica e limitadora de antes.

E você, qual é a sua opinião? Em que lado da bolha está?

_________________
Walter Carnielli & Richard Epstein, Pensamento crítico: O poder da lógica e da argumentação. Rideel, São Paulo, 2011.
John Woods, The Death of Argument: Fallacies in Agent-based Reasoning. Dordrecht, Londo, 2011. 
Charles S. Peirce, Ilustrações da Lógica da Ciência. Letras&Ideuas, São Paulo, 2008.
Gustave Le Bon, As Opiniões e as Crenças. Ícone, São Paulo, 2002.
________. Psicologia das Multidões. Martins Fontes, São Paulo, 2008.

terça-feira, 27 de março de 2018

Crianças brincam de roda


Respeitável público, o circo está de volta. O show (de horrores) continua porque precisa continuar. Estou falando daquilo que só existe nos miolos frágeis, vulneráveis e carentes - o ET de Varginha. Ele voltou. Estou falando de um vídeo que está circulando pelas redes sociais anunciando, para o próximo mês de Julho na cidade mineira de Varginha, mais um - mais um - encontro para discutir o famigerado natimorto caso ocorrido há mais de duas décadas! O que há de diferente agora é que se fala em novas revelações, novas testemunhas, novas descobertas, novos desdobramentos, novos documentos, novo isso, novo aquilo... De diferente mesmo só os cabelos brancos dos organizadores,  tudo o mais continua tão patético e tão deprimente que me faz evocar o poema de T. S. Eliot, "Os homens ocos" (trecho): Nós somos os homens ocos/Os homens empalhados/Uns nos outros ancorados/O elmo cheio de nada. Ai de nós/Nossas vozes dessecadas/Quando juntos sussurramos/São quietas e inexpressas/Como o vento na relva seca/Ou pés de ratos sobre cacos/Em nossa adega evaporada. Não menos patético e deprimente é o tal vídeo.

O elmo cheio de nada.
Adega evaporada.
Ai de nós.

Como, a rigor, desde 1996 - ano da ocorrência - nada mais aconteceu de relevante que mobilizasse o noticiário ou causasse alarido, então, já que comer pão velho é melhor que não comer pão nenhum, essa turba de parvos persegue incansavelmente a mesma cenoura roída dia após dia, noite após noite, ano após ano. Amadores infantis e ineptos comportando-se como crianças brincando de roda no parque, cantando surradas cantigas em velhos brinquedos enferrujados, girando e girando e girando sempre no mesmo lugar.

Sem dúvida falta a essa gente - tristes marionetes -, razão, ciência e sensibilidade, por conta, sem dúvida, de novo, de um eclipse da razão que nutre a cultura da idiotia. Aqueles delírios de uma tarde de verão seguem vivos nos elmos ocos, ocos de um vazio que não se preenche. Eu disse delírios? Não seria antes insanidade, pantomima, estupidez? Quando a imaginação se confunde com a realidade, nada detém a errante stultifera navis. Quando tambores tocam, bonecos dançam. Acho que você identificou nos negritos títulos de alguns textos deste blog. Poucas palavras às vezes são suficientes para resumir o quanto a crença é o amparo dos ignorantes, afinal, que importa o saber se a demanda é por crença?

Pés de ratos sobre cacos.
Ratos e cacos.
Ai de nós.

Os estúpidos são estúpidos porque nunca aprendem nada e porque sempre esquecem tudo. Um tolo não sabe que é tolo como tatu não sabe que é tatu. Ambos apenas ocupam um lugar na fila do abate. O caso Varginha não renasce das cinzas como a mítica fênix, mas de um cadáver insepulto, ossada pútrida e fétida que atrai moscas e catadores de carniça. Por isso, recomendo enfaticamente que se leia "O Caso Varginha" (2001), de Ubirajara Rodrigues, o único investigador com legitimidade para discutir o assunto. O resto não passa de uma súcia de apedeutas, portanto irresponsáveis e analfabetos intelectuais, uma nociva mistura de anacronia, obscurantismo e nulidade com notórios traços de psicopatia. E picaretagem. Despejando impune uma torrente de falácias e asneiras, busca, a todo custo, obsessivamente, transformar uma ficção, uma ilusão, um devaneio em verdade, fuçando nos despojos descarnados um suco qualquer que lhes satisfaça as gônadas.

Elmos cheios de cacos.
Ratos ocos empalhados.
Ai de nós.

Encerra Eliot: Assim expira o mundo/Não com uma explosão, mas com um suspiro.

sexta-feira, 9 de março de 2018

UFOTOPIA EM IMAGENS
Alguns (poucos) amigos e leitores notaram a paralisação deste blog desde o final do ano passado e "cobraram" explicações, pois, acostumados a um novo texto toda semana, a descontinuidade causou estranheza. Como é compreensível a reclamação, cabe uma satisfação. Um leitor perguntou se eu estava cansado de escrever, e outro se o assunto tinha se esgotado. Digamos que um pouco dos dois: cansei de escrever sobre mais do mesmo e, em certo sentido, o assunto "UFO" há muito se esgotou por si mesmo. Mas os motivos reais são bastante simples.

O primeiro deles é que no início de novembro começou uma obra estrutural em minha casa que tomou todo o meu tempo e se estendeu até o fim de janeiro. O segundo é que um problema de conexão com a internet que custou a ser localizado e resolvido dificultou demais a navegação. Mas não foi só. No curso dessa parada forçada, eu pude rever e avaliar todo o material produzido, e fiquei com a mesma sensação de anos atrás, ainda que por razões distintas, de estar elaborando textos repetitivos, correndo o sério risco de tornar o blog enfadonhos - e pior - dar a impressão de estar "enrolando" meus leitores com temas recorrentes, ou seja, andando em círculos. Isso me incomodou demais

Confesso também que dei um tempo com as leituras para "desintoxicar" o intelecto e procurar outras fontes de estudo. Um retiro sabático mais que necessário. Isso tudo, entretanto, não significa que parei (ou cansei) de escrever ou que abandonei os amigos do outro lado da tela, ao contrário, a transdisciplinaridade adotada no plano de estudo e a rica literatura existente exigem revisitação permanente. Suponho que os três livros (quase 1000 páginas), os mais de 90 textos no blog e as dezenas de artigos escritos tenha sido material suficiente para expressar meu pensamento e minha posição frente ao assunto

Assim, a partir de agora, só vale a pena escrever quando e se surgir algo realmente relevante - um fato, uma notícia ou um estudo com conteúdo que promova considerações substantivas. O blog não será mais semanal, mas circunstancial e - assim espero - mais consistente. Por ora, compilei uma coletânea de imagens que marcaram essa jornada. Diz o ditado popular que uma imagem vale mais que mil palavras, mas se ela vier com "legenda", melhor, pois traduz exatamente o ponto que o autor deseja discutir. Retome suas reflexões que por alguma razão possam ter ficado para trás. Se desejar reler o texto, clique no título logo abaixo. É só uma amostra, logo trarei uma nova seleção. Não são leituras avulsas, mas complementares e intimamente ligadas.

Até breve.


http://ufologia21.blogspot.com.br/2017/01/inicialmente-eu-havia-pensando-no.html









sexta-feira, 8 de dezembro de 2017


O OUTRO NO ESPELHO DE NARCISO, QUEM É?



Apesar de narcisismo ter sido referido pelo viés filosófico no curso dos meus estudos, não posso deixar de fazer uma brevíssima inserção sobre o Mito de Narciso pelas letras da Psicanálise, de onde emergem as melhores definições. Para isso, exploro um pouco a competência de Ana Vicentini:
Podemos também ver esse jogo¹ sob a ótica do mesmo e do outro, do paradoxo que preside à pulsão de Eros: na busca do outro, busca-se o que falta a si mesmo, busca-se a reparação ou ortopedia da falta e, em última instância, a perfeição do Todo. O que o mito erótico de Narciso sublinha, em cores trágicas, é que essa busca pela completude necessariamente passa pelo outro, mas por um outro não mais tomado como tal, mas reduzido à imagem de si, a um reflexo. É com esse reflexo, com essa “sombra tomada como substância”, que Narciso se identifica e na qual se perde de forma trágica. Ao invés do jogo amoroso da reciprocidade, Narciso põe cruamente em jogo a lógica da reflexividade, da confluência sobre si de sujeito e objeto, encerrando-se em uma circularidade mortífera.
Nesse ponto, Ana enfatiza que é no mito de Narciso que a Psicanálise encontra uma valiosa fonte para teorizações sobre identidade e identificações, e acrescenta que Lacan também se ocupou bastante com o drama do espelho em seu conhecido trabalho "O estádio do espelho como formador da função do eu". "A criança (l’infans) é capturada pela imagem completa e totalizante de seu corpo, fragmentário e sem coordenação, que se forma no espelho. A imagem especular precipita-o de um estado de prematuração motriz, inerente à espécie humana, como lembrou Freud, ao regozijo de uma imagem que justamente vai conformar esse corpo despedaçado em uma ilusória totalidade."

Freud também se ocupou do mito, construindo a concepção metapsicológica de sua teoria sob os pressupostos básicos da noção de sexualidade do aparelho psíquico e do recalque observados na prática diária. Contudo, é quando ele começa a compreender as psicoses a partir dos preceitos psicanalíticos que se iniciam as revisões e inovações em sua visão, surgindo a partir daí o conceito de narcisismo. Freud atesta a aplicabilidade da teoria sexual também às psicoses, firmando a sexualidade como propulsora do funcionamento do aparelho psíquico. Mesmo partindo da psicose, Freud não se limita a ela, ampliando o narcisismo também às neuroses. No transcorrer do estudo, ele relaciona as pulsões sexuais com “necessidades”, que chama de pulsão de autoconservação.

Aos poucos, Freud vai adensando seu trabalho, e em “Totem e Tabu” ele reformula sua concepção, afirmando que o narcisismo não seria apenas uma fase passageira do desenvolvimento sexual do sujeito, e sim uma estrutura perene, envolvida na formação do Eu. Por fim, usa das observações da esquizofrenia, da vida mental de crianças e dos povos primitivos para desenvolver o conceito do narcisismo. Segundo ele, enquanto na esquizofrenia há uma retirada da libido do mundo externo para o Eu, na neurose a libido retirada dos objetos externos será investida nos objetos da fantasia. Para finalizar, em “Além do Princípio do Prazer”, Freud introduz o conceito de pulsão de morte, substituindo os termos pulsões do eu e pulsões sexuais por pulsões de vida e pulsões de morte, que teriam desdobramentos em outras obras. 

Ainda para Ana Vicentini,
Paralelamente ao júbilo que essa imagem especular provoca, permanece, tal como para Narciso, o hiato entre ela e o sujeito: ao mesmo tempo em que ela sou eu, ela é outro que não eu. Para estabilizar esse pequeno júbilo delirante, há a presença de um terceiro termo, de um grande Outro (na expressão de Lacan), diverso desse pequeno outro identificatório da imagem, que pode aquiescer ou negar a exclamação de Narciso ao se reconhecer: “Iste ego sum.” (Este sou eu.) Dito de outra forma, subjacente a essa imago idealmente completa, há uma tensão paranóica em relação ao que esse Outro pode fazer: reconhecer o reconhecimento ou negá-lo, afirmar o sujeito ou negá-lo. Esse drama, cuja dimensão de ficção, de metáfora, não nos deve passar desapercebida, adquire o status de uma matriz na estruturação subjetiva e irá presidir às relações do sujeito com o mundo.
Segundo Lipovetsky, toda geração costuma eleger uma figura mitológica ou lendária para se identificar, reinterpretando-a de acordo com o momento vivido. “Hoje em dia é Narciso que, aos olhos de considerável número de pesquisadores [...] simboliza os tempos atuais.” Instala-se, dessa forma, um novo paradigma de individualismo, que designa um novo perfil nas relações do sujeito consigo próprio, com seu corpo, com o outro, com o mundo, com o tempo, no momento em que surge uma cultura inteiramente voltada ao hedonismo e ao permissivo.

A comprovação do heliocentrismo retirou do homem o protagonismo na peça cósmica, Deus deixa de ser o centro do conhecimento, deslocando a verdade mais uma vez. Demolir um dogma de mais de mil anos, ir contra todas as concepções geocêntricas de Ptolomeu e todos os saberes da Bíblia e os ditames da Igreja era algo inaceitável, mas o golpe foi letal e certeiro na autoestima e no orgulho do homem. Não bastasse essa dura realidade, 200 anos depois foi a vez de Darwin lacerar a alma ao demonstrar que éramos apenas uma consequência natural da evolução da vida no planeta, aparentados com os primatas, uma espécie proveniente da combinação aleatória de genes, e não uma criação divina. Como escreveu Millôr Fernandes com acre ironia, “O homem é um macaco que não deu certo”.  Os pilares dos estatutos religiosos começavam a ceder. 

E o derradeiro golpe e desferido por Freud, ao apresentar as bases científicas sobre o inconsciente. O homem deixava definitivamente de ser o centro do mundo e senhor de si mesmo. Sua dignidade se esfacelara, e nessa topografia acidentada ele começava a conhecer sua frouxidão, seus temores e suas inquietudes, escancarando sua vulnerabilidade mais profunda, comprovando quão longe está da maioridade no calendário do universo. Condensando esse trajeto, o homem deixou de ser o centro do Universo (Copérnico), o centro da espécie (Darwin) e, como último prego do caixão, o centro de si mesmo (Freud), isto é, não passa de uma criatura vazia que só sobrevive graças à sua estrutura de linguagem. E é a linguagem o define.

"O espelho de Narciso" - completa Ana - "mapeia todo um campo visual onde se constroem e destroem imagens, identidades - ou melhor, identificações -, relações amorosas e revela, como em um baixo-relevo, um outro registro subjacente a esse cenário imaginário. Ama-se a si próprio através do outro e assim se confunde a reciprocidade do amar e ser amado, da voz ativa e passiva, tão cara, por exemplo, à tradição cristã. Uma confusão de vozes verbais que pode ser vista pela ótica de uma voz marcante da língua grega, a voz média, de valor reflexivo, cuja importância para a gramática da psicanálise foi ressaltada tanto por Freud quanto por Lacan no que concerne às vias e aos desvios da pulsão."

Achou o tema complexo? Eu também, mas quem disse que é fácil compreender a nós mesmos? Há muito mais por debaixo dessa fina película que nos reflete. Tomando como ponto de partida o delicado poema de Cecília Meireles - "Em qual espelho ficou perdida minha face?", podemos divagar... De quantos espelhos preciso para encontrar minha face? Qual deles a revelará? O que revelará?
 

¹ “Ele ama uma esperança sem substância e crê que é substância o que é somente sombra.” Ovídio (43 a.C. -18 d.C.)
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Ana Vicentini de Azevedo, Mito e Psicanálise . J. Zahar, 2004.
Gilles Lipovetisky, A Era do Vazio. Manole, 2005.
Sigmund Freud, Totem e Tabu. Cia. das Letras, 1999.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017


ESPELHO QUE NOS REVELA - 1 

Crer em criaturas fabulosas é como estar diante de um espelho prodigioso que nos permite ver e entender a nós próprios de maneira muito mais clara e verdadeira, desde que se tenha coragem para tal. Confrontar o mundo exterior é encarar o mundo interior, real termômetro de nossa estabilidade psíquica e mental. Ainda que com ressalvas, Jung afirmava que a maior vitória da sanidade foi a conquista da racionalidade. Assim como o mito, a religião e a ficção – e aqui nos permitimos uma breve digressão, a arte também tem ligações com as forças inconscientes. Aniela Jaffé, discípula de Jung, estudou o modo como a arte moderna pretende restabelecer aquelas conexões, mostrando quais são os símbolos religiosos subjacentes a esse movimento artístico.

O escritor e roteirista Lúcio Manfredi destaca esse aspecto. Tomando por base para exemplificar a produção artística de Salvador Dalí e René Magritte, ele postula que um dos motivos pelos quais o estudo das obras de arte é útil para compreender o fenômeno Óvni é a vertente psicossociológica porque, independentemente de sua origem, os discos voadores são uma espécie de espelho no qual, à maneira das figuras de Rorschach, o homem projeta as questões centrais de sua vida e de sua sociedade. Se no mundo exterior surge algo novo, estranho à nossa compreensão, só podemos recorrer a signos igualmente novos para interpretá-lo, e não ficar tentando adivinhar possíveis respostas ou arranjando explicações  espúrias e delirantes.


É isso que faz a psicóloga junguiana ao relatar que os rumores sobre discos voadores começaram a circular mais ou menos na mesma época em que o símbolo do círculo tornou-se dominante na pintura moderna. Usando como referências Vassily Kandinsky, Paul Klee e Pierre Delaumay (sequência abaixo), entre outros, Jaffé sugere que tanto essas obras quanto as aparições dos discos sejam interpretados como uma tentativa da psique inconsciente coletiva para curar a dissociação de nossa época apocalíptica através do símbolo do círculo.

Contudo, o espelho revela algo além do que nossos olhos veem: revela, na verdade, o que não vemos. E o que não vemos ou não queremos ver? Quando diante do espelho, literal ou alegórico - o cinema ou a ficção, por exemplo - o que está refletida é a imagem do Narciso em nós, não do 'monstro' que nos habita e que nos escapa como viajante nômade.

O monstro nunca pode ser contemplado, já que o espelho não reproduz sua imagem. O espelho refletirá sempre a divindade, o herói: se a face do Outro revela a nossa, ela não pode jamais ser “ultrajada”, pois que feita “à imagem e semelhança do Criador”, logo, o monstro "não existe", e por não existir, será ignorado. A presença do monstro representa uma anomalia, um desvio, uma (dis)torção, um afastamento do modelo divino, ou seja, uma condenação do corpo. Para Umberto Eco, o espelho fala a verdade de modo desumano – a perda da ilusão sobre a própria juventude. Mas o monstro existe, e por ele se colocam questões extremamente contemporâneas, porque precisamos de sua imagem para retomar a reflexão sobre a humanidade do homem, uma vez esgarçadas as certezas de sua identidade e integridade. 

Diante deste quadro, embora Tucherman refira-se mais diretamente ao hibridismo dos cyborgs, entendo e aplico sua escrita a qualquer outro, monstro ou não: “Pois não é a oposição simples que marca a diferença entre monstros e homens, mas um sistema complexo de aproximações e distâncias. Sendo o Outro, ele não é externo como deuses e animais, vigora sempre no limite do humano, um limite “interno”, produtor de figuras estranhas em relação às quais não deixamos de nos perguntar se são efetivamente humanas, já que nos surgem como a folia do corpo, o desregramento da cultura, a desfiguração do Mesmo no Outro. Como algo com o qual não nos confundimos, mas também não nos diferenciamos totalmente: nesse sentido, sua definição é instável e sua alteridade é móvel.” No mesmo texto, ela cita um pensamento de Ralph Waldo Emerson, de 1832: “Os sonhos e as bestas são duas chaves através das quais vamos descobrir nossa natureza, são objetos de prova”.

Sherry Turkle, também citada por Tucherman, afirma que ele, Emerson, “encontrara (antecipara) os objetos de pensamento da modernidade, sendo profético: Freud pensou a racionalidade confrontando-a com o sonho; Darwin e seguidores pensaram o mesmo confrontando o homem com a natureza: o mundo das bestas visto como nosso passado e ascendência”. Tucherman finaliza: “Os monstros talvez existam para nos mostrar o que poderíamos ser, não o que somos, mas também não o que nunca seríamos, e assim articulam a questão: Até que grau de deformação ou estranheza permanecemos humanos?”

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Lúcio Manfredi, Os Óvnis da Dalí. Metaxy, Rio de Janeiro, 2003.
Carl G. Jung, O Homem e seus Símbolos. Noca Fronteira, 19686.
Ieda Tucherman, Breve História do Corpo e de seus Monstros. Vega, Lisboa, 1999.
_______. A ficção científica como narrativa do mundo contemporâneo.
www.comciencia.br/reportagens/2004/10/09.html. Acessado em 12/01/2014.
Umberto Eco. Signo. São Paulo. Presença. 2005.
 05.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017


A ÁRVORE DE DOURADOS FRUTOS


Hoje trago uma pequena fábula que mais parece um conto de fadas sem fadas, príncipes, batalhas, cavaleiros, tesouros e criaturas fantásticas. A autora é a querida amiga Laura Elias, escritora e contadora de histórias. O texto foi publicado, não por acaso, ao contrário, na obra A Desconstrução de um Mito. A entenderá é muito óbvia.

Era uma vez um reino onde as pessoas possuíam pouco alimento. Não que a terra fosse improdutiva ou não houvesse possibilidade de se encontrar novas fontes, mas apenas porque costumeiramente os habitantes de lá consumiam sempre as mesmas coisas. Um belo dia, surgiu uma árvore carregada de frutos dourados e chamativos, cuja aparência suculenta levou os esfomeados habitantes do reino a salivarem de desejo.
Os olhos brilhavam de encantamento, admirando a beleza que aqueles frutos dourados invocavam em seus inconscientes. Agarrados à expectativa de receber um alimento rico e saboroso, não ouviam os que, à sua volta, preveniam contra o perigo que os frutos representavam. Ninguém sabia de onde tinham vindo e do que eram feitos!
Completamente tomados pela sedução que brotava de suas almas, pelas promessas contidas naquele alimento, atiraram-se a ele, devorando, enlouquecidos, a casca dourada, a polpa macia, o doce sumo. Durante algum tempo, sentiram-se felizes e saciados, toda a sua fome havia sumido! Mas então, algo começou a acontecer.
Primeiro, foi o comportamento que se alterou. Passaram a ver aqueles que recuavam à sedução dos frutos como pessoas obtusas e frias, cujas opiniões advinham do fato de não se deixarem levar pelos apelos da alma, não ouvirem seus corações. Passaram a se reunir em grupos onde discutiam as benesses dos frutos, de que forma haviam se tornado pessoas melhores, mais brilhantes, mais sábias, apenas porque se alimentavam daquelas maravilhas.
Aquele fruto estupendo, cuja aparência sedutora, gosto imebriante e polpa carnuda os fascinavam, mostrou finalmente o que era. Jazia em sua essência um veneno de ação lenta, que aos poucos atingiu com violência àquele que alimentava. Alguns morreram, muitos perderam a capacidade de raciocinar, a maioria enlouqueceu.
Comenta-se que após certo tempo, outras árvores foram surgindo ao longo do reino e as pessoas, ainda que conhecendo a história da primeira árvore, recusavam-se a aceitar que fossem iguais e continuaram a alimentar-se dos frutos malignos. Nenhuma delas jamais se perguntou por que, mesmo sabendo que estavam se envenenando, atiravam-se, famintas, à sedução que as douradas cascas ofereciam.
A resposta, talvez, os fizesse ver que não precisavam daquele alimento, mas que poderiam melhorar os já existentes. Era só querer. Exatamente aí residia o problema. 




sábado, 18 de novembro de 2017


ALUCINAÇÃO:NOS MEANDROS DA PSIQUE


Com a segunda e última parte do artigo do Dr. Ubirajara Rodrigues, encerro a série sobre alucinação. Voltando à origem do debate, a pergunta "Visões coletivas são possíveis?" tem por resposta, sim, a visão coletiva é possível e até demonstrável, o que explica uma infinidade de eventos tais como aparições de natureza religiosa, espíritos, criaturas extraordinárias, alienígenas, discos voadores e muitas outras coisas do tipo. Vamos à conclusão do autor convidado.

No fundo, essa experiência é importante porque abrange um processo que nos permite chegar a conclusões surpreendentes. Por exemplo: numa noite escura, durante vigílias, um grupo inteiro pode testemunhar a observação de fenôme
nos estranhos pertencentes ao mundo abstrato da mente. Se interrogados separadamente, cada um dos indivíduos poderá acusar detalhes extremamente coincidentes, sem contudo oferecer prova de que tenha avistado alguma coisa realmente objetiva e concreta. Podemos relatar uma ocasião em que um senhor de 40 anos, negro e de cabelos curtos, observado por um grupo de dezoito pessoas, pareceu-lhes uma mulher jovem, loura, de longos cabelos, seios voluptuosos e vestida apenas com um sutiã.

Apesar do aparente aspecto hilariante, o resultado coincidiu com as fortes tendências sexuais confessadas pelo 
objeto da experiência. Mais complexo foi o índice de coincidência obtido por 22 pessoas, num grupo de 32, durante um curso de parapsicologia ministrado por nós. Uma jovem foi vista como uma freira idosa, de hábito completo, no interior de um prédio antigo, onde de fato residira uma religiosa por toda a vida, coisa que foi confirmada posteriormente e não era do conhecimento de qualquer um dos presentes. [Neste ponto, acrescento que participei da referida experiência naquela ocasião como parte da plateia seguindo os passos de todo o processo, atestando a lisura da pesquisa. Os resultados foram de fato surpreendentes].

Para casos semelhantes é fartamente demonstrado que o inconsciente humano pode representar a realidade que capta de um ambiente impregnado pelas impressões vibratórias de pessoas e fatos que o marcaram. Em grupo, tudo leva a crer que a captação é mais forte e bem mais fácil, portanto, menos rara do que se supunha. Numa de nossas tentativas, uma senhora foi observada por 60% dos presentes com o ventre aberto e luminoso, de onde se projetava a figura de um bebê. Jamais pudera ser mãe e, de idade madura, guardava só para si o que chamava de sua “maior frustração”.

De grande interesse para a ufologia são os registros que os observadores fazem de movimentos, não só do indivíduo sentado, como de objetos fixos do ambiente, movimentos esses, é lógico, não ocorridos. Na verdade, tudo se trata de simbolismos materializados em imagens, que o inconsciente projeta à interpretação das pessoas. Esse recôndito amplo e onisciente do psiquismo humano necessita, pois, de pontos de referência e estímulo para se manifestar. Em casos de observação de Óvnis irreais, atribui- se, primeiramente, à vontade da testemunha em ter pelo menos um contato visual com tais corpos, sem se falar no extremo fanatismo que hoje reina em certos segmentos da área ufológica, que a cada dia criam mais e mais “contatados” Outra razão é o mito do disco voador (mito apenas por seu aspecto de mistério secular), que já está plasmado na mente da humanidade e é trabalhado pelo nosso inconsciente de quando em vez. Ainda melhores e mais fortes são as facetas de um simbolismo arquetípico tão bem analisado por Jung.

Nos demais casos, principalmente durante as experiências já comentadas, o primeiro impulso que forçará a manifestação do inconsciente é a ilusão de ótica. Num ambiente totalmente negro, apenas com uma tênue luz infravermelha incidindo sobre o observado, a vista custa a adaptar-se, provocando perda de perspectiva e distância. Depois a fixação do olhar leva os objetos, quase todos delineados somente em silhueta, a perderem suas referências reais. Nessa situação, se permanecermos de olhos abertos e despertos, a percepção tem que ser suprida de algum modo. Consequentemente, nada mais propício à ação quase imediata do inconsciente, que se utilizará da ilusão para logo nos levar a interpretar as imagens disformes que, aos poucos, tratamos de moldar segundo diversos fatores. 

A projeção de imagens mentais é um campo vastíssimo de estudo, onde já se conhecem fenômenos registráveis até no mundo físico. As fotos paranormais estariam aqui enquadradas, nos casos em que a película grava cenas não-concretas e pessoas que não se acham presentes no momento do disparo da câmera, como revelam muitas dessas fotos em nosso poder. A parapsicologia caminha a passos largos para provar que a mente coletiva humana é capaz de materializar imagens em um espaço dimensional que normalmente não temos condições de observar, embora possa estar mais próximo de nós do que imaginamos.


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Aí está. Finda a série, espero ter contribuído minimamente para esclarecer um assunto que circula com frequência no meio acadêmico mas é pouco discutido no ambiente laico, e, por isso mesmo, objeto de compreensível incompreensão. Todos nós as vivenciamos, em certa medida, porque são mais comuns do que se pensa. Espero, também, ter ficado claro que as alucinações não explicam todos os fenômenos, os fatos espetaculares, fabulosos, apenas parte deles -  discos voadores e alienígenas, por exemplo, criaturas etéreas, celestiais, míticas e sobrenaturais - e toda uma imensa galeria pertencente ao universo simbólico das abstrações necessárias do homem.

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Maurício Aranha, Etiologia das alucinações. Ciência&Cognição, 2004, v. 2, p. 36-41.
Pierre Janet, L’automatisme Psychologique: Essai de psychologie expérimentale sur les forme inférieures de l’activité humaine. Centre National de la Recherche Scientifique. Paris. 1973. In Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 11:2, jun/2008, p. 310-314. (Tradução Alain François).
William James, As Variedades da Experiência Religiosa. Cultrix, 1991.
Ioan Lewis, Êxtase Religioso. Perspectiva, 1977.
Oliver Sacks, Alucinações. Relógio d'Água, 2013.
__________. A Mente Assombrada, Cia. das Letras, 2013.
Carl G. Jung, Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Vozes, 2000.
__________. Símbolos da Transformação. Vozes, 2001.