Obras

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sábado, 30 de julho de 2016


Um mito moderno? Não, um mito pós-moderno
Parte IV: as funções do mito



Mais uma vez começo perguntando: É possível a ressurgência de um mito nos moldes dos antigos? A "era dos mitos" é coisa do passado? Campbell entendia que as informações provenientes de tempos imemoriais têm relação com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, construíram civilizações e formaram religiões através dos séculos. Mas eles não "existem desde sempre", não "ocorrem o tempo todo"? Foi o que disseram Campbell e Armstrong no post anterior, lembra? Se eles estiverem certos, e penso que sim, então a resposta pode ser "sim" para a primeira pergunta e "não" para a segunda?

Para outros, os mitos contemporâneos implicam uma atitude substituinte, para preservar a consciência mítica (que na verdade nunca desapareceu, apenas ficou eclipsada pela modernidade científica) e fazer com que os vínculos com o sagrado permaneçam habitando os recônditos da psique. Já tratei disso - o processo de desmitificação, a perda dos conteúdos simbólicos, no capítulo II desta série, lembra disso também? Para conduzir essa tarefa, os mitos assentam-se em quatro funções fundamentais, a saber, conforme Campbell:

Mística (ou metafísica) - Cuida dos mistérios da vida, da maravilha que é o mundo, do nosso deslumbramento com o universo, com o fantástico, o mágico, o inexprimível, o transcendente. "Os mitos abrem o mundo para a dimensão do mistério, para a consciência do mistério que subjaz a todas as formas. Se isso lhe escapa, você não tem uma mitologia".

Cosmológica - é a ligação que a ciência faz com o cosmo através, de novo, com os mistérios desse cosmo, com a origem da vida e do mundo, por extensão, da nossa origem.

Sociológica - a organização do indivíduo, da sociedade, o suporte e a aferição de uma ordem e dos valores sociais, morais e culturais. A importância dessa função se revela nos rumos atuais de nossa civilização, do nosso mundo.

Pedagógica (ou psicológica) - a mais importante, que todo indivíduo precisaria se relacionar, porque indica a vida que se dever levar, em qualquer circunstância. Saber lidar com as concepções de vida e de morte, a finitude e a imortalidade. Face o seu caráter sagrado, o mito produz uma equilibração psíquica.

E você perguntará: O que as funções do mito têm a ver com o fenômeno Óvni? Qual a relação? A função do "mito" ufológico é nos levar a repensar nosso papel no mundo e no universo, inclusive a ver esse mesmo mundo com os olhos do outro; dessa forma, ele no revela, dando à nossa existência seu real significado. Ele faz com que nos entendamos com a história pregressa para saber como construir o futuro. O mito não está no objeto da mensagem, e sim no modo como ele a expressa, isso é o mais importante. Só é possível compreender a função do mito na sociedade contemporânea, se entendermos o significado e o valor que tinha para as sociedades ancestrais, sua força litúrgica, sua configuração religiosa e sua dimensão espiritual.

O fenômeno Óvni igualmente nos estimula pensar sobre a transcendência, os mistérios da vida, desvela nossos medos, faz refletir sobre a origem de tudo; ele é o espelho fiel do que somos e, principalmente, nos aponta o caminho para o que precisamos e deveríamos ser. Mudar, entretanto, é algo que, definitivamente, não faz parte dos planos do homem. Quem se deita à sombra reclama quando o sol muda de lugar.

"A necessidade de significância cósmica é um dado antropológico estrutural diretamente ligado ao terror da aniquilação pela morte. Não queremos admitir que estamos sozinhos, e que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um sistema de ideias e poderes no qual estamos mergulhados, e que nos sustenta". Essa fala de Becker, já trazida aqui antes, é oportuna para concluir nosso raciocínio. O fenômeno Óvni vem ao encontro desse desejo, pela sua 'materialidade' e proximidade. Fazer "contato" com um ser "superior", em "carne o osso", é uma experiência inexprimível, e o homem jamais abrirá mão dessa possibilidade, ainda que utópica, ainda que quimérica, ainda que irrealizável. Na verdade, já se disse aqui também, nada mais é que a busca da imortalidade.



PS: Se você não entendeu o porquê da ilustração ao alto (Blade Runner), me escreva. Ela é essencialmente mitológica, assim como todo o filme.
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BECKER, Ernest. A Negação da Morte. Record, 1991.
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Paz & Terra. 1980.
MORIN, Edgar. O Paradigma Perdido: a natureza humana. Publ. Euro-América. 1973.
________. O Homem e a Morte. Imago. 997.
OTTO, Rudolf. O Sagrado. Vozes. 2007.






domingo, 24 de julho de 2016


Um mito moderno? Não, um mito pós-moderno
Parte III: a estrutura do mito


Colocar a palavra estrutura na mesma pauta de mito evoca de imediato a figura ubíqua e centenária de Claude Lévi-Strauss. Desde muito cedo, ainda em idade pré-escolar, ele percebeu que poderia ler qualquer coisa, desde que houvesse uma "semelhança estrutural" por trás da palavra, e a partir daí, ele deslocou o mesmo princípio para os mitos. Dizia ele que nenhum mito existe isoladamente, isto é, nenhum deles pode ser interpretado se a análise não abranger os demais. Do mesmo modo, isso digo eu, o fenômeno Óvni não pode ser compreendido se a análise não integrar as demais esferas do conhecimento.

O estruturalismo é amplamente utilizado em praticamente todos os campos do conhecimento - Linguística, Psicologia, crítica literária, Filosofia, Antropologia e Psicanálise, por exemplo, como modelo de inteligibilidade. A noção central do estruturalismo, por si autoexplicativa, é a da estrutura entendida como um todo, no qual as partes só adquirem sentido em relação umas às outras, ou seja, pela sua interdependência e mútua cooperatividade.

Importante ressaltar que o estruturalismo não é um método estático e imutável e muito menos linear, ao contrário, ele se modifica e se reinventa pelos signos que dele são extraídos e pelas interpretações e leituras que deles são feitas. Nesse particular, Umberto Eco entendia que um signo vai muito além de estar no lugar de outra coisa, "mas ele é aquilo que sempre nos faz conhecer algo mais". Tal como ocorre na prática psicanalítica, as entrelinhas, os interstícios, os espaços e os 'silêncios' dos signos revelam muito mais do que supomos saber. Você está me acompanhando?

Lévi-Strauss comparava os sistemas mitológicos à organização cósmica, onde o centro do "corpo" multidimensional se mantém estável e equilibrado, enquanto as bordas se espraiam, se misturam e se confundem. A questão é: Seria a estrutura do fenômeno Óvni homóloga à do mito? Entendo que o mesmo se dá na formação da "galáxia ufológica": enquanto os campos limítrofes se desorganizam e se desalinham, o núcleo se mantém intacto. Se o mito é multidimensional, o fenômeno é polimorfo. 

O meio utilizado para esse estudo é o da hermenêutica ufológica, derivado da técnica psicológica criada por Jung para o estudo dos sonhos, mitos, contos de fadas, obras de arte e demais produtos do inconsciente - a amplificação. Essa técnica consiste em determinar os mitologemas¹ básicos em uma dada estrutura, comparando-os com outras configurações em que estes mitologemas apareçam, e dedicando uma cuidadosa consideração ao contexto em que tal aparecimento se dá. O fenômeno Óvni só pode ser compreendido se tomado em sua totalidade e comparado-o com outras totalidades que permitam interpretá-lo. É exatamente o que Lévi-Strauss fala sobre o mito.

Tanto os mitos quanto o fenômeno são eventos prodigiosos (latim prodigium - profecia, predição), excepcionais (de exceção), contendo vínculos estreitos com o sagrado (latim sacer - à parte, afastado). Podemos dizer que são a expressão simbólica de forças vivas superiores atuando no inconsciente. Campbell dizia que "Mito é algo que nunca existiu, mas que existe desde sempre". Karen Armstrong faz eco: "Mito é um evento que, em certo sentido, ocorreu só uma vez, mas que acontece o tempo todo". No escopo do fenômeno, o indivíduo, ao passar pela experiência mítica do "contato", sente-se privilegiado, "escolhido", destacado da sociedade, apartado, ou, na linguagem ufológica, abduzido (latim ab ducere - afastar, tirar, levar para fora).

Outro ponto em comum é a linguagem. A narrativa mítica e a casuística ufológica apresentam semelhanças na deficiência linguística, originária de uma debilidade inerente à própria linguagem. Ambas, a seu modo e na sua estética, tratam de uma manifestação de natureza mítico-religiosa - deuses, heróis, entes supranaturais e superiores. A respeito da linguagem, Cassirer diz que "Toda designação linguística é essencialmente ambígua, e nesta ambiguidade das palavras está a fonte primeva de todos os mitos."

A imanência da religião na base do mito é a chave para compreender seu significado e o que ele representa para a vida humana. Longe de esgotar esta análise, a estrutura religiosa presente no mito não está ausente no fenômeno, se entendermos o sentido subjetivo do estatuto religioso: O reconhecimento da existência de um poder ou poderes que nos transcendem; O sentimento de dependência a esse poder; O desejo ou a necessidade de qualquer forma de contato ou de relação com esse poder. Todo esse rico emaranhado de proposições nos empurra de maneira quase impositiva para a ideia de um 'envoltório mítico' - Bertrand Méheust² chama de gangue mythique, encapsulando o fenômeno Óvni.



1 Mitologemas são núcleos de significado de um mito. Podem ser psicológicos,                      sociológicos ou históricos, mas geralmente são combinações entre eles.
2  Professor de Filosofia e PhD em Sociologia pela Sorbonne. Autor de Science Fiction et       Soucoupes Volantes (Rennes, Terre de Brume, 2007), entre outros.

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AZEVEDO, Ana V. Mito e Psicanálise. Jorge Zahar. 2004.
CAMPBELL, Joseph. Mitologia na Vida ModernaRosa dos Tempos. 2002.
CASSIRER, Ernst. Linguagem e Mito. Perspectiva. 1992.
ECO, Umberto. Semiótica e Filosofia da Linguagem. Ática, 1991.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Martins Fontes, 1992
______. Aspectos do Mito. Edições 70, 2000.
FROMM, Erich. Psicanálise e Religião. Ibero Americano, 1966.
LÉCI-STRAUSS, Claude. Mito e Significado. Edições 70, 1987.



LEIA ABAIXO SINOPSE DA OBRA RECÉM LANÇADA  NAUS DA ILUSÃO


sábado, 16 de julho de 2016

Naus da Ilusão
Uma análise transdisciplinar
sobre a crença em "discos voadores"


Lastreado por densa e extensa bibliografia no campo das ciências sociais e das humanas, e em mais de quatro décadas de prática investigativa, estudos e permanente análise, Carlos Reis investe contra o senso comum e a cultura plantada em torno principalmente do "disco voador", em uma abordagem inédita, corajosa e surpreendente.

Para o autor, no cerne deste trabalho, este e outros temas de iguala natureza são signos de representações contemporâneas, integrando um complexo sinérgico de crenças, lendas, fantasias e superstições,as muletas metafísicas,  através do qual o homem se escora para eclipsar seus medos ontológicos e depositar suas mais quiméricas esperanças.

Como aporte para a argumentação central, um panteão de autores e pensadores de larga envergadura dialoga com a história e a cultura, as estruturas narrativas, as instâncias religiosas, a ficção e o imaginário no cenário da pós-modernidade, construindo sólidas pontes entre o fértil campo acadêmico e um pântano sombrio cercado de mistificação, preconceito e ignorância.

Tendo a condição e a natureza humanas como vetores dessa dialética, foi tecida uma malha de trama profunda e complexa - uma tapeçaria persa, como dito no prefácio -. que encaminha deduzir, de modo consistente e contundente, o que o "disco voador" representa para o homem em sua busca de compreensão do mundo, de si mesmo e do significado de sua própria existência. Pensamentos e textos extraídos de páginas da literatura universal pontuam pela obra, enriquecendo as reflexões do leitor.

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segunda-feira, 11 de julho de 2016



Um mito moderno? Não, um mito pós-moderno
Parte II: para que serve o mito


Torno interrogação a afirmativa do título: para que serve o mito? Com tantas definições entre muitas que não desembarcaram aqui, uma boa reflexão se faz necessária para entender para que ele serve. Foi nos mitos que Jung encontrou a matéria prima para analisar os mistérios da alma, os eventos anímicos e os arquétipos: "Nos mitos e nos contos de fada, como no sonho, a alma fala de si mesma e os arquétipos se revelam em sua combinação natural como formação, transformação, eterna recriação do sentido eterno".

Para ele, o homem primitivo é de tal subjetividade que seu conhecimento da natureza é essencialmente a linguagem do processo anímico inconsciente.  "Ele simplesmente ignora que a alma contém todas as imagens das quais surgiram os mitos, e que nosso inconsciente é um sujeito atuante e padecente, cujo drama o homem primitivo se encontra analogicamente em todos os fenômenos grandes e pequenos da natureza". Jung desmembra o que Freud resume numa só frase - "O homem não é senhor em sua própria casa".

A mitologia é uma expressão do inconsciente coletivo, diz Jung, e, como tal, a pesquisa se desenrola em torno do indivíduo, pois sempre trata de certas formas representativas complexas, os arquétipos, como ordenadores inconscientes das representações. O mito tem a função de intermediar a relação da vida consciente com  a vida inconsciente, estabelecendo conexões com a memória arquetípica. Para que o mito cumpra essa função, ele precisa ser ritualizado, vivenciado, experienciado. 

Joseph Campbell via o mito como uma forma de expressão necessária e universal dentro do estágio inicial do desenvolvimento intelectual humano, quando acontecimentos inexplicáveis eram atribuídos à intervenção direta dos deuses. O que o mito faz é apontar o transcendente para além do fenômeno. Mircea Eliade, por sua vez, diz que viver o mito representa uma experiência verdadeiramente religiosa, distante da vida cotidiana, profana, ordinária. Essa religiosidade está no fato de ao se reatualizar os eventos fabulosos, assiste-se novamente às obras criadoras dos entes sobrenaturais.

Não poderia faltar o pensamento de Umberto Eco, que, de alguma forma, sempre esteve às voltas com os mitos ao longo de sua obra. Ele definia o mito como uma identificação do objeto com uma somatória de finalidades não muito claras, expressão de um conjunto de tendências, desejos, solicitações e temores particulares candentes do indivíduo. Em outras palavras, um mito para cada um de nós. Ao mesmo tempo, sem contradição, sem conflito e sem dores, vivemos em permanente processo de desmitificação, de diluição do repertório simbólico enraizado no inconsciente.

Não é difícil identificar alguns agentes dessa desmitificação: a tecnologização e a cientificação dominantes (e aceleradas) dos novos tempos, a perda da autêntica religiosidade (não estou falando de religião), a total ausência de introspecção, a paralisação dos mecanismos autorreguladores do pensamento: Não interessa como a coisa funciona, basta que funcione. E rápido. O caminho não é apreciado, chegar ao destino é o que importa. E rápido.

Essa modesta mas rica coletânea de saberes (os ausentes são em maior número) conta ainda com Ernst Cassirer, para quem o mito não se refere, necessariamente, a uma realidade objetiva, podendo ser a uma realidade interna, abstrata, conceitual, emocional. O mito não fala uma linguagem comum, mas por símbolos e metáforas, uma linguagem de correspondências, não de referências. Antes de seguir adiante, quero confessar que não resisti à tentação de destacar em itálico várias dessas passagens, mesmo confiando plenamente na sua capacidade de percepção e apreensão das sutilezas contidas nas palavras. É um recurso válido para redobrar sua atenção.

O último membro desse 'colegiado' é Vicente Ferreira da Silva, e sua voz ecoa com força: "O mito persiste no imaginário dos homens, com suas dúvidas e a confiança cega que eles depositam em algo com poder de orientar suas vidas. Esse poder indefinido não é apenas uma divindade no sentido da mitologia clássica, mas será sempre um poder que transcende o limite físico e o entendimento dos homens". Tomado o conjunto das exposições e a de Jung como guia, a "utilidade" do mito está em agir como elemento mediador e unificante dos conteúdos psíquicos, arquetípicos e simbólicos.

É fundamental ter isso bem claro, e ao amplificar e transportar para o estudo ufológico profundo, a correlação surge inevitável. O método da amplificação no discurso junguiano se caracteriza por promover associações da consciência ante uma determinada imagem, conteúdo ou símbolo, num movimento circular em torno do ponto a ser explorado: "A amplificação consiste simplesmente em estabelecer paralelos". Jung esclarece ainda que "Qualquer estudo simbólico  leva em conta duas vertentes: a individual - as impressões pessoais do sujeito, e a coletiva - o repertório de arquétipos da humanidade."

Para encerrar, mas sem descer a detalhes posto que será discutido adiante mais a fundo, Campbell discorre sobre as quatro funções essenciais do mito: a mística, a cosmológica, a sociológica e a mais importante, segundo ele, a pedagógica. São cenas do próximo capítulo. Fiquei devendo porque o mito é  pós-moderno: essa é a expressão que batiza o período contemporâneo, assim entendido a partir de segunda metade do século 20, exatamente quando, ora veja, a Ufologia ganhou o mundo (veja o post anterior das "coincidências"). Podemos chamar também de neomodernismo, modernidade tardia, hipermodernidade. Se Jung estivesse publicando hoje seu livro, provavelmente empregaria uma dessas terminologias para o título.



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CAILLOIS, Roger. O Mito e o Homem, Edições 70, 2001.
CAMPBELL, Joseph. O Vôo do Pássaro Selvagem. Ensaios sobre
          a universalidade dos mitos Rio de Janeiro. Rosa dos Tempos. 1997.
ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. Perspectiva, 1970.
ELIADE, Mircea. Aspectos do Mito. Edições 70, 1986.
JUNG. Carl G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Vozes, 2000.
_______. Símbolos da Transformação. Vozes, 2008.


domingo, 3 de julho de 2016


Um mito moderno? Não, um mito pós-moderno
Parte I: O que é mito


O tema que você lerá nas próximas semanas não é novo, ao contrário, alguém semeou a ideia há quase 60 anos. Esse alguém foi Carl G. Jung, que, mesmo pondo em risco sua reputação profissional, colocou toda a sua experiência e conhecimento a serviço de uma análise complexa, e por isso mesmo, como confessa, incompleta.  Assim, em 1958, publicou "Um Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu", no qual faz uma longa imersão no continente psicológico e mítico do fenômeno Óvni.

Desde então, o conhecimento na área cresceu de maneira exponencial, e a revisão do tema mostra que ele não envelheceu, permanece mais atual que nunca. Ao que tudo indica, o sábio de Viena tinha razão: o fenômeno Óvni pode mesmo ser um mito moderno, ou, talvez mais apropriadamente, pós-moderno. Não antecipe conclusões sem antes fazer uma leitura atenta.

Mencionar mito dentro do assunto "disco voador" provoca duas reações opostas: indiferença ou inconformismo. A primeira parte do princípio de que quem fala em mito não sabe o que está dizendo, e a segunda parte do princípio de que quem fala em mito não sabe o que está dizendo. É isso mesmo, ambas as reações, embora contrárias, causam o mesmo sentimento de repúdio e aversão, sendo o primeiro, discreto, o segundo, mais explícito. Faltam informação, reflexão, cautela na hora da de lançar um olhar crítico mais profundo.

Como essa abordagem é mais que polêmica, é espinhosa, ampla, profunda, complexa e atrelada a outros campos, ela será dividida em tantos capítulos quantos forem necessários para proporcionar uma base de entendimento, mesmo sabendo que ficará incompleta, por óbvio. De antemão informo que Jung e suas obras não foram e nem poderiam ser as únicas fontes desse estudo, que não só mantém seu curso como é abastecido permanentemente por outras letras e outras vozes.

A ideia é esclarecer o que é o mito, para que serve, qual ou quais são suas funções, sua estrutura e significado, por que considero o fenômeno um mito e por que pós-moderno. Será um desafio monumental sintetizar o assunto, mas farei um esforço sincero para torná-lo compreensível. Se discordar com o que está sendo exposto, não o faça sem ponderação. Empreenda também um esforço para considerar a real possibilidade de estar diante de um mito em andamento.

Mito, do grego mythós, significa a palavra, o verbo, a explicação do cosmo, do mundo, da vida; sendo polissêmico, permite várias interpretações, mas não admite simplificações. Resumindo no limite do razoável, ele pode ser entendido como uma narrativa de significação simbólica referente a aspectos da condição humana. Importante guardar e assimilar essa definição, ainda que abreviada. Os processos de encantamento e simbolização do mundo passam, obrigatoriamente, por essas narrativas fabulosas.

Vale acrescentar o que Rubem Alves entendia por mito, que dá tons líricos e suaves num primeiro olhar, porém é de uma profundidade singular: "Mitos são histórias que delimitam os contornos de uma grande ausência que mora em nós." Memorize esse enunciado também. Campbell postulava que mito era a busca de sentido da vida, ou, da experiência de estar vivo.Um verniz poético que dá brilho à verdade. Ausência, nostalgia, saudade, vazio, como queira, o mito encerra um desejo, a necessidade de algo inexprimível à razão, a tentativa de voltar às raízes, às nossas origens ou da origem de tudo. Pode ser a também a procura de um conhecimento ou de um acontecimento, ou tudo junto.

O mito, o sonho e a imaginação fazem parte da dimensão simbólica da experiência humana, sendo a expressão transpessoal - universal - daquilo que é representado no nível pessoal do sonho, entendendo-se por sonho, neste caso, como a totalidade do sujeito na esfera de sua existência. O mito repousa na memória arquetípica da humanidade.

Embora Barthes entenda que tudo possa se constituir num mito a partir da fala, "É a história que transforma o real em discurso. É ela e só ela que comanda a vida e a morte da linguagem mítica." O que Barthes define como mito é o instrumento através do qual um produto histórico, humano, é convertido em uma natureza simulada:
Uma prestidigitação inverteu o real, esvaziou-o de história e encheu-o de natureza, retirou às coisas o seu sentido humano, de modo a fazê-las significar uma insignificância humana. A função do mito é evacuar o real: literalmente, o mito é um escoamento incessante, uma hemorragia ou, se se prefere, uma evaporação; em suma, uma ausência sensível.

Para o filósofo Vicente Ferreira da Silva, o mito não é simples palavra ou narrativa literária, mas uma presença real e efetiva dos deuses e da manifestação divina, remetendo a uma série de fatos extra-humanos, uma referência memorizadora e histórica. Não há ambiguidade, contradição ou paradoxo no mito: esse é o seu princípio -transformar a história em natureza, e a natureza não é ambígua nem contraditória e muito menos paradoxal. Observe a representação mítica abaixo, o ouroboro - símbolo da eternidade, contínuo recomeço, totalidade, completude, individuação (Jung), e compare com a figura central na cena de Prometheus acima. O mito continua abrigado, aquecendo, vivo e atuante no inconsciente. Tenha isso em mente.

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BARTHES, Roland. Mitologias. Bertrand Brasil, 1993.
CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. Palas Athena, 1990.
CASSIRER, Ernst. Linguagem e Mito. Perspectiva, 1992.
JUNG, Carl G. Um Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu. Vozes, 1991.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e Significado. Edições 70, 1987.
MORAIS, Régis de (org). As Razões do Mito. Papirus, 1988/
REIS, Carlos. Reflexões sobre uma Mitopoética. LPBooks, 2011.
ROCHA, Everardo. O que é Mito, Brasiliense, 1985.







domingo, 26 de junho de 2016


Não é coincidência, é consequência


A análise comparativa abaixo intenta demonstrar que a Ufologia não foi obra do acaso nem surgiu de uma suposta e precipitada visão de "pratos voadores". Não. Ela estava incubando no inconsciente, aguardando o momento para invadir o cotidiano da pessoas e de lá nunca mais sair. Era só uma questão de tempo, e ele veio. Para desenhar o disco voador, ligue os pontos.

1938
Ano em que o mundo assistiu incrédulo o irromper de uma nova guerra, duas décadas depois de terminada uma que deixara cicatrizes profundas. O hálito da morte voltava ser sentido, sem sentido. 
Orson Welles, ator, cineasta e roteirista, leva ao ar sua peça radiofônica "Guerra dos Mundos", baseada no clássico homônimo da ficção científica (1898) de H. G. Wells. Resultado: pânico generalizado, suicídios, saques, fuga em massa nas cidades 'invadidas' pelos marcianos conforme as "agências internacionais" noticiavam os ataques em massa. Era sintoma evidente da tensão que pairava no ar e prenúncio do que poderia ocorrer em caso caso de ameaça real. Esse medo nunca mais nos abandonou.

1945/50
Nos estertores da guerra, um saldo terrível: milhões de mortos, economia falida, escombros, banhos de sangue, terra arrasada, horizontes esfumaçados, literal e figurativamente. Temor, insegurança, desconfiança, futuro indefinido, falência das instituições, Igreja e esperança na berlinda.
Surgiam os primeiros "sinais celestes", bólidos e luzes estranhas que riscavam o espaço despertando medo e curiosidade. Forças miliares alertas temendo ataques de surpresa. Escritórios são criados para investigar e acompanhar de perto estas presenças inesperadas e indesejadas. Guerra dos mundos ainda presente no imaginário

1950/1960
No período do pós-guerra começam a germinar nos Estados Unidos os primeiros sinais de um movimento que se disseminaria por todo o globo - a contracultura, com atos de contestação e rebeldia contra o establishment. Revolução artística, social e cultural, 'sexo drogas e rock'n roll', juventude transviada, hippies. A literatura e o cinema de ficção científica ganham impulso vertiginoso, surge a New Age e o florescer das filosofias e doutrinas orientais, xamanismo, medicina alternativa, práticas divinatórias, anjos, esoterismo e ocultismo de toda espécie, cristais, gurus, florais e um diversificado parque temático.

Nesse contexto, a Ufologia pega carona (ou é cooptada), entronizando os "irmãos cósmicos" como guardiães e protetores da humanidade. Proliferam os contatos com entidades "superiores", seres 'iluminados', avatares de uma nova consciência planetária. 'Mensagens' de extraterrestres advertindo sobre nossas experiências atômicas inundam o planeta, assim como seitas e movimentos messiânicos e milenaristas.

1960/1980
A Nova Era ganha mais adeptos e mais espaço, multiplicam-se as mudanças de paradigmas como a proteção ao meio ambiente, desenvolvimento de técnicas de autocura, alimentação natural, sociedades alternativas, convivências comunitárias e um autêntico carnaval da alma místico. Sociólogos se debruçam nos livros tentando prognosticar os rumos de 'nova sociedade. Um incipiente campo de estudos na área das ciências sociais chama a atenção do mundo acadêmico - o imaginário, e novas teses sobre o comportamento humano começam a surgir, enriquecidas com a participação de outras disciplinas. A ficção científica de qualidade conquista definitivamente o cinema e a literatura, tendo como foco os aliens, e os seriados de TV são sucesso absoluto de público, vitaminando a imaginação e as certezas de que não estamos sós no universo.

A Ufologia registra aumento das observações de Óvnis com as 'ondas' nos continentes americano e europeu. Mais e mais "contatos" e "sequestros" são registrados, entupindo os arquivos privados e oficiais, encorpando as estatísticas e as convicções dos ufólogos. Grupos de pesquisa e associações, com seus boletins e publicações artesanais surgem às centenas em todo o mundo, estimulando a imaginação alheia. Sobe a temperatura da febre ufológica e seu arsenal de ideologias.

Seria conclusão natural interpretar estes eventos como simples coincidência, acontecimentos casuais, arranjos fortuitos de situações aleatórias que, de alguma forma, se conectam e se fundem, mas são explicações reducionistas e muito simplórias, próprias da falta de uma reflexão mais profunda.
Meu estudo (lembrando que aqui é só uma pincelada) mostra que as ligações são tão complexas, tão imbricadas entre si e com desdobramentos que vão além das fronteiras primárias, que é praticamente improvável que todas estas conexões contenham mera simultaneidade.

Poderíamos ainda considerar a possibilidade de serem ocorrências sincrônicas, sem vínculos entre si. Entretanto, ao longo de sua vasta obra, Jung foi lapidando e polindo seu entendimento sobre sincronicidade, e um extrato dessa ideia é um dado a ser analisado: "A sincronicidade designa o paralelismo de espaço e de significado dos acontecimentos psíquicos e psicofísicos que nosso conhecimento científico até hoje não foi capaz de reduzir a um princípio comum. (....) Em princípio, é impossível descobrir uma conexão causal recíproca entre os acontecimentos paralelos, e é justamente isso que lhes confere o seu caráter casual. A única ligação reconhecível e demonstrável é o seu significado comum".  Meu itálico sugere pensar nisso com carinho.

O panorama geral de um momento particular da história humana mostra que nunca tantas e tão profundas mudanças foram sentidas a um só tempo. Esse "momento particular", como vimos, iniciou em meados do século passado. Se, fizermos as conexões corretas, e estiverem mesmo corretas, podemos ver que uma situação é decorrência da outra, ou seja, o surgimento da Ufologia deu-se em razão do estado de saúde do mundo naquele instante. Mera especulação? Absolutamente não.

O diagnóstico elaborado por pensadores notáveis, homens de ciência, filósofos, sintetizado em frases curtas, é inquietante: geração de surdos, massa amorfa indistinta, diluição das identidades, império do efêmero, fim das utopias,  era do vazio, surto de apatia da massa, são algumas reflexões que nomeiam nossa atual civilização. Em três palavras: volátil, voraz e vulnerável. O que a Ufologia tem a ver com isso? Absolutamente tudo, mas agora é com você, ligue os pontos e tire suas conclusões. Eu já tirei a minha. O 'disco voador" vai aparecer de corpo inteiro em sua mente.

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AMARRAL, Leila. Carnaval da Alma: comunidade, essência e sincretism na Nova Era. Vozes, 2000.
BLOOM, Harold. Presságios do Milênio: anjos, sonhos e
           imortalidade. Objetiva, 1996.
CAMPBELL, Joseph. A Extensão Interior do Espaço Exterior. Campus, 1991.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Contraponto, 2000.
DURAND, Gilbert. A Imaginação Simbólica. Edições 70, 1993.
MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, Ciência e Religião. Edições 70. 1984.
JUNG, Carl G. Sincronicidade. Vozes, 2000.





domingo, 19 de junho de 2016


Olhando  o disco pelo buraco da fechadura


Ao longo dos meus anos de estudos sobre o tema "disco voador", pude observar que a equação central que acirra o debate gira em torno de se acreditar ou não no fato. De um lado, os que creem piamente, tendo ou não qualquer relação direta com o fenômeno. Nessa conta estão ufólogos, contatados e abduzidos, e aqueles que acreditam baseados em divagações que remetem aos escritos bíblicos do tipo "Na cada de meu Pai há muitas moradas" (João:XIV), ou em vagas suposições - "Se a Terra é habitada, por que não milhares de outros planetas?" Na outra ponta estão os que rejeitam sumariamente essa possibilidade, mesmo sem qualquer leitura a respeito. Não aceitam e ponto final, mas não têm argumentos para contrapor aqueles. Já escrevi sobre isso em posts anteriores.

Devo informar aos litigantes - crédulos e céticos - que ambos estão errados em suas posições, e por uma razão em comum: falta de conhecimento sobre o tema que permita travar uma discussão inteligente, sensata e produtiva, especialmente os ufólogos, que julgam conhecer a matéria mas que, em realidade, são tão ignorantes quanto qualquer outro fora da sua trincheira. Ninguém sabe coisa alguma sobre o assunto, que inclui este escriba, obviamente, com a diferença nobremente socrática de que sei que nada sei, mas com esforço sincero para tentar compreender, a partir de outros enfoques.

Se tudo for uma questão de interpretação, e é bem possível que seja, então devemos prestar atenção a Lacan, quando diz que toda interpretação é tão justa e verdadeira, tão obrigatoriamente justa e verdadeira, que não se pode saber se respondem ou não a uma verdade. O que ele quer dizer com isso? Que qualquer um pode ter razão em sua exposição, mas o que determina para onde a verdade se inclin aestá na fundamentação na qual o argumento se assenta e se sustenta: solidez, amplitude e credibilidade formam o tripé que dá força e segurança na formulação do pensamento.

O semiólogo Umberto Eco sempre teve muita preocupação e critério ao tratar da interpretação, tanto para o texto escrito como para a análise de um dado acontecimento, usando a hermenêutica como instrumento de reflexão. É o ponto que nos interessa. A hermenêutica pode ser entendida como a ciência do processo interpretativo. Na prática,  ela é utilizada a partir do momento em que existam formas de comunicação simbólica. Algumas vozes de peso entendem que o cenário contemporâneo é, por excelência, uma "era hermenêutica". Parece desnecessário dizer que a Ufologia, e tudo que lhe diga respeito é, passado o filtro, essencialmente simbólica.

Afirmar a intentio operis - a intenção da obra (ou do fato) é, para Eco, seu propósito fundamental. Está se falando, de certo modo, de traduzir o que está expresso na linguagem e na estrutura do objeto - texto, fala ou evento: "Como provar uma conjectura da intentio operis?  A única maneira é verificá-la a partir do texto enquanto conjunto coerente." Eco ressalta que a ideia, na verdade, vem de S. Agostinho (De Doctrina Christiana): "Qualquer interpretação dada de certa parte de um texto poderá ser admitida se confirmada por - e deverá ser rejeitada se for contrariada por - uma outra parte do mesmo texto."

Estou certo de que o leitor já plantou a semente da mensagem, já entendeu a "moral da história". A rigor, tudo o que temos feito é olhar o fenômeno pelo buraco da fechadura, e quando fazemos isso, obrigatoriamente fechamos um olho, e a visão que temos do outro lado é incompleta, fragmentada, portanto, insuficiente. Não temos a visão do todo, só parte dele. É para isso que somos dotados de dupla visão, para termos a correta e a mais ampla perspectiva do mundo.

Ficamos tão deslumbrados com os mistérios que há do lado de lá, tão seduzidos, iludidos e embriagados com seu fulgor, que nos esquecemos de olhar para dentro de nós, para esse ser tão enigmático quanto indecifrável, pulsante e desejoso de novas descobertas. Sem ter consciência do que somos, nos aventuramos como ontonautas* com temor e desconfiança pelos mares do inconsciente. Tateamos o universo exterior em busca de respostas, sem perceber que elas estão dentro de nós. É o universo que nos revela, e não o contrário. Os mistérios de lá são os mesmos de cá, só precisamos saber fazer as perguntas certas.

* Navegantes de si mesmo
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ECO, Umberto. Os Limites da Interpretação. Perspectiva, 1995.
LACAN, Jacques. O Seminário - livro 1. J. Zahar, 1986.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Vozes, 2005.





segunda-feira, 13 de junho de 2016


Será que o tempo existe mesmo?


Pode parecer um tanto descabido discutir se o tempo existe o não, mas não deixa de ser um notável exercício de reflexão. Na verdade, especular sobre este tema leva a aspetos cosmológicos e cosmogônicos, à origem e finitude da vida e até à criação dos deuses. Não é pouca coisa. Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Newton, Einstein, Heidegger, Sartre, toda essa turma de filósofos, cientistas e doutores, em todos os tempos o tempo todo, dedicaram um tempo considerável pensando sobre o assunto. Seria desumano discorrer sobre cada um dos conceitos destes luminares, mas é possível elucubrar um pouco em cima de suas ideias.

Raciocinemos, pois: Se a eternidade é um "tempo sem fim", cabe perguntar: Teve um começo? O que nunca começou, existe? Vejamos de outro modo. Sabemos que passado e futuro não existem, são construções psicológicas, logo, só resta o presente, o imediatamente agora, mas quanto tempo dura esse 'agora imediato'? Não dura nada, menos que uma nanofração de um milionésimo de segundo. Como pode existir algo que não dura nada, não pode ser medido, está no ponto do indivisível?

Se a medição do tempo foi uma necessidade humana para estabelecer regras de ordenação do mundo, o que acontece quando essas regras deixam de existir? O sonho, obra do inconsciente, não obedece a nenhuma regra, aliás, sua regra é não ter regras, articula-se aleatória e maravilhosamente caótico, isto é, atópico: tempo algum e lugar nenhum, outro tempo e outro lugar e qualquer tempo e qualquer lugar.

Experiências com pessoas mantidas isoladas, sem nenhum contato com o mundo exterior e sem reguladores de qualquer espécie, mostraram que elas perdem completamente seus referenciais de tempo, não sabendo distinguir o dia da noite. O metabolismo se reorganiza, os ritmos circadianos se ajustam, os ciclos vitais (alimentação, excreção, sono) adaptam-se às circunstâncias. Para essas pessoas, de algum modo o tempo deixou de existir mesmo que "passem o tempo" fazendo alguma atividade.

Se está difícil acolher uma ideia tão complexa, vamos pensar de modo inverso. Consideremos o tempo não como uma 'seta' apontando para a frente e você caminhando por ela, mas como uma instância absoluta, estática, imutável. Como diriam os antigos filósofos, "o tempo não passa, ele é", ou seja, não flui, não vai a lugar algum. Imagine o tempo como a parte submersa do oceano, sem medidas, não dimensional; a vida é essa bolha de ar que surge do nada, um sopro que flutua frágil até se apagar.

É evidente que estamos subjugados por esse algo que não existe, irreal, algo que criamos e agora inelutavelmente acorrentados. Se pensar bem, presos também a uma miríade de coisas esculpidas pelo espírito, irrigadas e perpetuadas pelo medo, pelo vazio existencial e pelo desejo inextinguível de eternidade.
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AGOSTINHO, Santo. Confissões, livros X e XI.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Vozes. 1997.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Vozes. 2005.
BOUTANG, Pierre. O Tempo. Difel. 2000.
ARIÈS, Philippe. O Tempo da História. Francisco Alves. 1986.



sábado, 4 de junho de 2016


Viagem no tempo só na ilha da fantasia


O tema desta semana está dividido em duas partes: a primeira trata da total impossibilidade de viagem no tempo, e a segunda, que o tempo, em certo sentido, não existe. Você deve estar pensando como assim, o tempo não existe, esse cara pirou! Calma, lembre-se, esta é uma janela de reflexão, não de piração.

Nada de física, mecânica quântica, relatividade e espaço-tempo; nada de divisão histórico-geológica do tempo conforme Braudel, nada de Einstein, Hawking ou qualquer outro gênio da espécie. Também não vou discorrer sobre concepções religiosas dos doutores da Igreja. Vou, tão somente, pensar livremente a partir da lógica e do racionalismo filosófico, afinal, "livre pensar é só pensar" como costumava dizer Millôr Fernandes. Melhor assim, pensar livre de réguas e dogmas cerceadores, imperativos e doutrinários.

Obviamente, passo longe da Ufologia e seus delírios lisérgicos de que os discos, com sua 'avançada tecnologia', fazem longas travessias interestelares através dos famigerados buracos negros, estilingues gravitacionais, janelas dimensionais ou túneis temporais. Isso sim é muita piração para o meu gosto, assim como também é inútil debater sobre a Teoria das Cordas, os universos paralelos ou os Buracos de Minhoca (Pontes de Einstein-Rose), meras especulações, conjecturas e devaneios que não se mostram minimamente aplicáveis. Quem é do ramo sabe bem disso.

Imaginemos, só parta ilustrar, que você entre numa 'máquina do tempo', agende uma data no passado (ou futuro) e zás! Lá está você na sua festa de aniversário de cinco anos, com os dedos lambuzados de brigadeiro apagando velinhas. Ou, no sentido inverso, em estado senil e terminal num leito de hospital. Acha mesmo possível tal cenário? Não lhe parece por demais absurdo, no estrito sentido da razão? É uma boa história para Hollywood, não para a vida real.

Pois é assim que a maioria das pessoas imagina uma viagem no tempo. Ainda que hipoteticamente fosse possível, o que aconteceria se você chegasse antes de nascer? Ou o que garante que você irá se encontrar com você no futuro caso tenha morrido durante a viagem? Certamente a engenhoca iria irromper vazia lá seja onde for, porque você terá sido sugado para o vácuo absoluto. Ou ainda, se a máquina "pifar" no curso da viagem? Bem, nesse caso, você ficará vagando congelado por todo o sempre na singularidade do espaço-tempo.

O exemplo dado foi deliberadamente pobre, infantil até, para mostrar que, se com essa concepção rudimentar a viabilidade da viagem é zero, quanto mais complexa for [a concepção] mais impossível se torna [a viagem]. Será sempre um delicioso exercício ficcional, só isso, mais nada. Qualquer argumento que pretenda ter um suporte teórico sólido, pode ter certeza, é tão sólido quanto um castelo de cartas.

Existem formas mais simpáticas de se viajar no tempo: olhe para o céu estrelado e lá está o passado, milhões de anos atrás. Mergulhe na memória e se veja comemorando seus cinco anos. Olhe para sua filha, hoje adulta, e seus olhos continuarão vendo aquela linda garotinha de tranças no seu primeiro dia de escola. De todo modo será, sempre, uma viagem virtual. Talvez você queira falar sobre os videntes, profetas e oráculos, que 'preveem' o futuro ou 'conhecem' o passado. Sobre esses mercadores de ilusão falarei qualquer dia destes.

Na próxima semana vou tratar sobre o tempo propriamente dito, ainda sob o olhar da filosofia porque, afinal, ela é a mãe de todo o saber. Se o tempo não existe, a viagem nele também não. Mas vou viajar no tempo e antecipar alguns tópicos. Que tal pensar que o tempo não passa, mas que ele é estático? Quando ainda não havia nada, havia tempo? Se eternidade é o tempo sem fim, ele teve um começo? E o tempo do sonho, que tempo é? 

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HAWKING, Stephen. Uma Nova História do Tempo. PocketOuro. 2008.
BRAUDEL, Fernand. Escritos Sobre a História. Perspectiva. 1992.







sexta-feira, 27 de maio de 2016

   Por que o Fenômeno Óvni seduz tanto?


Antes de entrar no assunto de hoje, um breve e necessário preâmbulo. Meu processo de análise da questão ocorre em duas frentes - o fenômeno e o objeto. O primeiro foi abordado em "Reflexões", a partir de um enfoque multidisciplinar, com fulcro em Mitologia, mas não se encerrou aí. O segundo foi judiciosamente lapidado nos últimos cinco anos e está vindo em "Naus". É dele que trato agora de modo muito resumido, a menor fatia do bolo. Recortes das duas obras estão juntos e misturados para tentar jogar um pouco de luz.

Só mais um detalhe: em meus estudos sobre o fenômeno, incorporo tudo aquilo que dele não faça parte, porque pertencem exclusivamente às ciências humanas e sociais, ao contrário do que pensam entusiastas e ufólogos:  aparições marianas, 'chupa-cabras', Triângulo das Bermudas, deuses astronautas, sagradas escrituras; tradições, pinturas, ruínas, templos, rituais e oralidade primitivas, folclorismo em geral e muito mais. Uma saco de gatos que a Ufologia insiste em botar a mão.

O verbo seduz no título tem razão de ser; poderia usar fascina ou encanta, que têm significados semelhantes. As figuras de sedução (enganar através de um jogo de aparências) preenchem um vazio imediato e constroem, pelo imaginário, a sensação interior de pertencimento no mundo. A sedução tem como ingrediente central a irracionalidade. O fenômeno, como toda figura de sedução, carrega um componente mágico. Nessa mesma linhaLévi-Strauss assinala que a eficácia da magia implica sua crença, mas ela só terá efeito se a plateia estiver inscrita numa mesma malha social. Este tópico tem importância capital, principalmente no conjunto desta reflexão, mas não só.

O primeiro elemento da sedução do fenômeno está na esfera da transcendência, aquilo que está além da compreensão, além do entendimento intelectivo, que não se deixa capturar ou não se revela. Provocando mais que mera curiosidade, enseja à busca permanente de respostas,  mas como o homem não está preparado e não suporta ficar sem elas, inventa uma. Entre elas, o  disco voador é mais uma dessas invenções. É onde as religiões (o sagrado) e as crenças exercem um poder de sedução preponderante. Segundo Morin, o que caracteriza o homo é o fato de ele ser unidual, físico e metafísico, sapiens e demens - produtor de fantasmas, mitos, ideologias, magias, totens - uma vida apartada da vida, imaginária, irreal, às vezes surreal.

O segundo componente  está no campo da ficção, no caso da Ufologia, da ficção científica. Não sei se posso sintetizar com as palavras do sociólogo Jean-Bruno Renard, mas arrisco: "O fenômeno dos discos voadores é o ponto culminante da simbiose entre os temas de ficção científica e as crenças pararreligiosas." A ficção pertence ao plano do imaginário, e, dada a extrema complexidade, recorro a Gilbert Durand, referência mundial nesse campo: "A necessidade da função fantástica reside na faculdade do imaginário de ultrapassar a temporalidade e a morte. A eufemização que ela assegura é o principal motor desse grande processo sócio-antropológico." O discurso de Durand gira em torno da morte e da angústia que causa no homem, e isso tem tudo a ver com o 'disco voador', como uma das muletas já referidas em texto anterior. Costumo dizer que a religião é a porta de entrada da Ufologia; a ficção, a de saída.

O terceiro ingrediente é o mistério. Quem não se deixa "seduzir" pelos filmes de mistério ou por uma boa história mo gênero de Agatha Christie ou Conan Doyle, por exemplo? O mistério seduz porque enfrenta o desconhecido e causa um estranhamento, um duplo sentimento de atração e distanciamento, como acontece com o 'sagrado'. Vale dizer, ao mesmo tempo que guarda reverente distância do objeto, sente por ele incontida atração, como se nunca tivesse havido uma separação: esse caráter simbólico-diabólico é o que estabelece a união e a separação dos contrários (symvallein, ligação; diaballein, disjunção).

Por último, o quarto elemento, o inconsciente. Seria covardia tirar Freud do seu gabinete para me socorrer, mas acho que posso condensar dizendo que o disco voador encanta porque sua face "desconhecida" e "inexplicável" nos revela, ou melhor, revela nosso inconsciente, algo que é absolutamente verdadeiro: o inconsciente é também ele desconhecido e inexplicável. Na composição desse quadro, pode-se concluir que o 'disco voador' seduz porque nos coloca em contato com o transcendente através da imaginação diante do desconhecido si mesmo.

Tentando tornar mais palatável sem parecer reducionista: para burlar a angústia ontológica do desamparo, da insignificância e da solidão no cosmo, o homem fabrica sonhos, fantasias, ilusões e utopias como escudo contra uma realidade que desvela seus medos estruturais, sua indigência e seu não lugar na infinitude do universo.

Estou certo de que apesar deste espaço restrito, é possível ter uma boa noção da densidade daquilo que estou trazendo até você. Embora gratificante, e por sua própria natureza, instigante, esse labirinto de espelhos que é o enigmático ser humano reserva surpreendentes revelações, e saiba que ainda nem dobrei a primeira curva. O que quero dizer é que este blog, e na extensão, meus livros e meus escritos, não passam de modestos candeeiros. É a única coisa que tenho à mão para iluminar o caminho, porque é o único caminho que tenho para iluminar.

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DURAND, Gilbert. A Imaginação Simbólica. Edições 70, 1993.
LEGROS, Patrick et al. Sociologia do Imaginário. Sulinas, 2007.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural. Tempo Brasileiro, 1996.
BECKER, Ernest. A Negação da Morte. Record, 2008.
GALIMBERTI, Umberto. Rastros do Sagrado. Paulus, 2003.
MORIN, Edgar. O Cinema ou o Homem Imaginário. Relógio D'Água, 1997.
LIBÂNIO, João B. As Lógicas da Cidade: o impacto sobre a fé sob o impacto da fé. Loyola, 2002.





sábado, 21 de maio de 2016



  A História agradece aos exploradores



Neste último quarto de século, tenho empreendido um olhar crítico com tal vigor e rigor, que muitas vezes me vejo obrigado a refrear o ímpeto, mas, em se tratando de Ufologia, que afinal conheço bem, não poupo o verbo. Por essa razão, reiteradamente sou levado a rebater as "evidências inquestionáveis" da casuística ufológica. Evidências? Inquestionáveis? É enfadonho discutir nesse nível dada a habitual fragilidade do discurso oponente, mas abro uma exceção para esclarecer alguns pontos.

Um dos 'argumentos' que sempre vem à baila é o caso brasileiro conhecido como "A noite oficial dos Óvnis", que completou 30 anos no último dia 19. Não vou discorrer sobre os fatos daquela noite, apenas tomarei como exemplo indo direto ao que interessa. Os mais novos poderão se informar através das referências, os mais velhos sabem do que estou falando.

Quando uma notícia de disco voador vira manchete, os jornais dão destaque, rádios e TVs entrevistam ufólogos e promovem debates com astrônomos, revistas pautam matérias especiais. Passada  ebulição, tudo volta ao normal. Ninguém mais fala do assunto e a imprensa não quer saber o que de fato aconteceu. O caso circula apenas entre os ufólogos, mas a estatística que fica ilude a opinião pública, os leigos  e os crédulos. Não foi diferente com "A Noite", que causou um furor sem precedentes; autoridades e militares envolvidos vieram a público tentar esclarecer os fatos no calor dos acontecimentos. Durante algum tempo não se falou outra coisa até o interesse acabar. Foi mais um caso contabilizado como inconclusivo. 

De concreto, apurou-se, na filtragem dos dados, no cruzamento dos depoimentos e dos registros eletrônicos, que apenas três objetos luminosos (e não 21 como noticiado inicialmente) foram detectados visualmente e pelos radares. Algo aconteceu, balões e pontos fixos foram identificados e descartados, mas não se sabe exatamente do que se tratou. Com certeza discos voadores não foram. O relatório oficial produzido dois meses depois limitou-se a informações técnicas complementares, transcrição das gravações e um brevíssimo e cauteloso parecer. Como os ufólogos não aceitam indefinições, assomam crispados denunciando "acobertamento da verdade" e outras patetices iguais. Tanta renitência tipifica imaturidade e vegetatismo intelectual. Quando não é ingenuidade, é insanidade.

Quando se declara "Óvnis existem", isto é verdade, ninguém discute, mas Óvni não é sinônimo de disco voador. Os ufólogos, no entanto, juntam um e outro na mesma linguagem e a cartilha está pronta. Apesar de tanta "certeza", precisam sempre, obstinadamente, da chancela oficial para validar suas histórias.

Outra alegação muito comum é apresentar o testemunho de pilotos, especialistas, técnicos, patentes do governo e outras figuras, e até do âmbito familiar - primo, irmão, mãe, etc. como prova cabal e irrefutável da existência destes objetos. Errado. Nenhuma palavra pode ser considerada como prova do que quer que seja até que se faça a uma ampla investigação, diligente, isenta e a mais completa possível.

Mas, omo afirma peremptoriamente um amigo, "não há dúvida de que são naves operadas por inteligências não humanas que atuam na nossa atmosfera há séculos". Há uma contradição escancarada nessa fala que nem ele nem seus pares ainda foram capazes de perceber! E não vou dizer, eles que torrem os miolos tentando descobrir. Ela não passa de um blefe, um ardil retórico que fere o principio da razoabilidade, uma falácia doutrinária grotesca despejada sem o menor pudor. Enfim, um bordão anacrônico e decadente que se ouve a todo momento, por isso o debate é enfadonho.

É uma pena que os ufólogos, apedeutas errantes na sua imensa maioria, estejam circulados pelo restrito campo de visão no estudo dessa falsa ciência chamada Ufologia, o porto seguro, o reduto, território sagrado que dá guarida às suas crenças e carências. Dessem um passo à frente e um vasto território se estenderia sob seus pés para possibilidades infinitas de crescimento. Quem o fez jamais recuou. Mas essa massa improdutiva jamais atravessará as portas do seu castelo imaginário, recolhida silente na ignorância, no medo e na covardia.

Imagine se Newton, Galileu, Copérnico e Einstein não ousassem pensar para além do trivial. E se os navegadores do velho mundo resolvessem passar seus dias jogando cartas e bebendo vinho no conforto dos requintados salões? Por que Platão, Pascal, Kant, Spinoza e Nietzsche perderiam seu precioso tempo com complexas elucubrações filosóficas que romperam as barreiras do pensamento? E o que dizer da exploração espacial, quando homens destemidos se lançaram no vazio infinito sem garantias de voltar? A história do mundo se escreve com a coragem e a insaciável vontade de conhecer dos verdadeiros desbravadores.

O rio do conhecimento é largo e caudaloso, e quem ficar à sombra na margem jamais saberá da força e da riqueza dessas águas. Restará esquecido no limbo da história. Por oportuno, Baudelaire: "Conheço muitos que não fizeram, quando deviam, porque não quiseram, quando podiam".


Colaboraram Eustáquio Andréa Patounas e Rogério Chola.
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Of.11/OOP/c199 - 1º CINDACTA - 11/07/1986
RAAD, Mariana. A Noite: Objetos voadores não identificados nos céus                                            do Brasil. Revista Força Aérea nº 43, Jun-Set/2006.

sábado, 14 de maio de 2016













Vamos botar um pouco de lógica na conversa!


Hoje trago mais alguns comentários de leitores para discutir, que vieram pela rede e por e-mail. Estão na íntegra, todo ou em parte. Só lamento, com todo o respeito aos autores, que não sejam proposições lá muito inteligentes, pecando pela ingenuidade e primarismo, traços evidentes de falta de informação.

O primeiro veio de um amigo e se refere à origem dos discos voadores, e não tem ligação com o blog, mas foi incluido pela afinidade com os demais: Ópto mais por uma origem pluridisciplinar, em parte extraterrestre em parte um fenômeno bidimensional. Alguém pode me explicar o que é "origem pluridisciplinar em parte extraterrestre em parte bidimensional"? O que é isto? Ora, não se joga uma frase dessas no ar para que cada um entenda como quiser, sem base, sem referendo científico e sem um pilar teórico lógico. Que diabos de argumento estapafúrdio é esse? Trata-se sim de uma verborreia com contornos de impostura intelectual.

Já disse uma vez neste mesmo espaço, e insisto: incondicionalmente, sou amigo dos meus amigos, mas não vou poupar quem vier com falcatruas discursivas, falso conhecimento científico, firulas, falácias, artimanhas e disparates. Não venham insultar minha inteligência, que mesmo não sendo lá essas coisas, exige respeito. Estou pronto para o debate sério e de conteúdo, mas para os chatos e pífios embates ideológicos eu não tenho mais paciência. São miados travestidos de rugidos. E deixo um aviso, ataques pessoais é coisa de nanico.

O próximo discorre sobre a vida inteligente extraterrestre: Há vida inteligente, extraterrestre, sim, mas em dimensões diferentes da nossa!!!! Por isso, não podem ser comprovadas cientificamente... porque não se vêem!!! Mas quase todo mundo já está informado disto e muitos já tiveram encontros com "eles"... A linha narrativa revela absoluta irracionalidade: "Dimensões diferentes da nossa que não podem ser comprovadas cientificamente mas que quase todo mundo sabe e muitos tiveram encontros com eles". Desconexa, ilógica e confusa, mas expressa com tanta ênfase que reflete uma crença solidificada (leia o post das muletas metafísicas).

A última manifestação também trata da vida em outros planetas: Quando se pesquisa sobre a existência de vida física em outros planetas se observa apenas o lado externo destes. Aí talvez teria que se andar muito no universo cósmico para achar algo semelhante com o nosso. Mas assim como na Terra há presença de vida física em regiões intraterrenas, o mesmo também ocorre em outros orbes. Existe vida que não seja física? Se já é dificílimo localizar vida em qualquer estágio, que dirá dentro destes astros? Quando ela fala 'intraterrena', seria a Terra Oca? Espero sinceramente que não. Minhoca é um bicho intraterreno? 

O caldo que se extrai dos enunciados é que nenhum deles apresenta coerência ou um critério lógico na elaboração do raciocínio, nem mesmo conhecimento prévio dos pressupostos citados - bidimensionalidade, origem pluridisciplinar, vida intraterrena... São construções invertebradas descoladas da realidade, ideias, opiniões e convicções eleitas ao arrepio da mais elementar fundamentação empírico-teórica. Aí fica inviável conduzir um diálogo proveitoso.

Fiquei com a nítida sensação de que os posts não foram lidos com a devida atenção; os leitores atropelaram a análise conjuntural da matéria sem abarcá-la em sua totalidade, e deu nesse falatório disléxico e destrambelhado. Faltou um norte para orientar suas colocações. Este blog tem o cuidado de não cansar o leitor, por isso são matérias curtas, sintéticas, não descem a detalhes. Cabe a você compreender com clareza o cerne da mensagem, absorver sua essência e exercer a reflexão com amplitude.

A literatura referenciada tem sido extremamente útil na hora de concatenar meus pensamentos, fazer as ligações certas no lugar certo, formular teses com base segura e ponderar sobre todas as possibilidades, mas, principalmente, tem inseminado um conhecimento sem limites. Julgo importante o leitor considerar seriamente sua leitura para os temas de seu interesse. A ciência é o instrumento que distingue a aparência a essência, e onde não houver uma resposta objetiva, não há ciência. Asasim, com paciência, discernimento e apuro crítico, prepara-se o espírito para enfrentar o mundo real tal como é, e não como o idealizamos. Espero que ela possa ajudar você também.

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sábado, 7 de maio de 2016


Vida extraterrestre é possível. Inteligente, não


Parece haver uma confusão generalizada, em alguns casos conveniente, em outros, por ignorância, quando o assunto é vida extraterrestre inteligente. Conveniente quando se trata de um jogo de retórica executado por ufólogos imbuídos de má-fé, cujo objetivo explícito é direcionar a opinião pública leiga para assim justificar a razão de suas pesquisas. Confusão por ignorância é aquela advinda dos amantes e entusiastas da ciência, obviamente desprovidos de outros saberes necessários ao correto entendimento da matéria. No fundo, o que há é um claro descumprimento das regras do pensamento analítico, lógico, técnico e crítico, cujo conteúdo é mais complexo do que se imagina. Vamos então colocar as coisas nos seus devidos lugares.

Sim, vida extraterrestre é perfeitamente possível, embora até hoje não exista o menor indício, nenhuma comprovação, nada que possa confirmar sua existência. Podemos levantar essa hipótese apenas a partir da descoberta de microrganismos terrestres que sobrevivem em ambientes inóspitos e em condições extremamente hostis, nada além disso.

Uma varredura realizada num raio de 200 anos-luz em busca de sinal de vida resultou infrutífera. Veja os números (aproximados): um ano-luz equivale a 10 trilhões de quilômetros; 200 anos-luz, 2.000.000.000.000.000 (2 quintilhões). Se viajarmos a 100 mil km/h até Plutão (6 bilhões/km) levaremos 10 anos, e à estrela mais próxima, Alfa Centauri (~ 45 trilhões/km), 50.000 anos! Quem se aventura?

Estou farto de ouvir de bocas razoavelmente instruídas que a descoberta de planetas semelhantes à Terra fornece fortes indícios de que a vida por lá possa ter se desenvolvido. É um colossal equívoco, que mostra desconhecimento de pelo menos duas matérias essenciais: paleobiologia e cosmobiologia - os extremos que se tocam ao estudarem, numa ponta, a formação e o desenvolvimento da vida na Terra, e na outra,  a vida fora dela. 

São tantas as variáveis que iforjaram a vida no planeta, tão complexas e tão singulares, que é praticamente impossível que tenham se repetido espaço afora nas mesmas condições. Estou falando da vida como a conhecemos. Por essa razão, "Terra rara, vida rara" tornou-se ideia dominante dentro das ciências astronômicas, contrário ao que pensam os fanáticos pela ficção científica e crentes na vida extraterrestre inteligente. Se houver vida no cosmo, ela deverá estar no nível unicelular ou algo assim. Ou totalmente diferente de qualquer coisa jamais imaginada. 

Quase um consenso científico, o surgimento da vida na Terra foi acidental, fortuita, uma anomalia - ou um prodígio, e ainda que tenha se multiplicado alhures, provavelmente jamais saberemos. Se algum tipo de vida alienígena for constituído à base de estrubiôncio, jamais a encontraremos, porque estrubiôncio não consta da tabela periódica de elementos. É uma enorme perda de tempo, uma tolice monumental, diria até uma estupidez enviar sinais de rádio para algum ponto do espaço esperando por resposta. É como dizer olá a um poste. Acredite em mim, é melhor se acostumar logo com nossa solidão cósmica. 


Em 2014, uma equipe internacional de astrofísicos elaborou um mapa local do espaço com cerca de 500 milhões de anos-luz de diâmetro - uma fração infinitesimal do universo observável, segundo seus membros.* É importante saber também que as galáxias se afastam a centenas de milhares de quilômetros por segundo, ou seja, o universo está em constante movimento. Isto significa que, quanto mais ele se expande (e envelhece), mais a Terra se torna invisível e isolada, um grão de sal errante no oceano cósmico. 

O segundo ponto da discussão é a "inteligência". Não há unanimidade porque não há uma definição clara a respeito, até porque nossa concepção de inteligência é muito pobre. Alguns animais revelam comportamentos 'inteligentes', mas nenhum desenvolve tecnologia ou ciência para viver. Em termos estritamente lógicos, a vida extraterrestre é perfeitamente factível, mas vida inteligente cognitiva que perambule à solta por aí, absolutamente não. É preciso desconstruir essas utopias, os paraísos, os eldorados para que haja espaço para a reconciliação com o mundo real da vida, esse que está ai tocando a ponta do seu nariz, tal como é, e não aquele da ilusão que você idealiza.

Portanto, já passou da hora colocar um ponto final nessa história de uma vez por todas. De agora em diante, quando alguém lhe disser que somos visitados desde sempre por civilizações alienígenas avançadas, ignore. Trata-se de alguém vulnerável, desfocado, desinformado, que flerta com a ficção científica, que navega na onda dos deuses astronautas, abraçado com a mística esotérica, desconectado com a realidade e sem capital filosófico amplo o suficiente para refletir a respeito com a devida seriedade. Acredite em mim, sinal de vida inteligente terrestre é descartar a extraterrestre.

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* The Laniakea Supercluster of GalaxiesTully, R.B. et al. Nature, 04 sept, 2014.

GRINSPOON, David. Planetas Solitários. Rio de Janeiro. Globo. 2005.
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