Obras

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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

TERRA RARA, VIDA RARA
Parte 1

Decidi voltar ao assunto "vida extraterrestre inteligente" trazendo, desta vez, a palavra  de um especialista, Marcelo Gleiser*. Melhor, trago a íntegra do capítulo do seu livro Criação Imperfeita que dá título ao post, com uma diferença: Gleiser coloca uma pergunta e eu, uma afirmação. Prepotência? De forma alguma, vida rara não quer dizer "única" (embora possa sê-la), apenas pouco comum, não sendo abundante quanto se possa pensar, como veremos. Começamos, assim, uma nova série para tentar jogar um pouco mais de luz à questão. Peço que você tenha muita atenção na leitura dos textos porque é aqui que nasce o "pecado original" da ufologia. Pecado, do latim pecatum - tropeço, engano, passo em falso.

A premissa fundamental que poderia dar à ufologia uma credibilidade minimamente sustentável - e legitimidade - seria a comprovação científica da existência de vida extraterrestre inteligente, mas não há nada, nenhum sinal, o menor vestígio num raio de 200 anos-luz de qualquer tipo de vida da mais básica que seja. Trabalhar com dados lógicos, técnicos e científicos é o único caminho possível para se chegar a resultados concretos. A partir daqui Gleiser é o dono da palavra. Vamos viajar com ele.
Esta introdução foi necessariamente longa para dar ideia da complexidade de se chegar à vida inteligente, e é apenas o começo. Os demais capítulos serão mais enxutos sem perder a clareza. Não deixe de ler, com atenção.Inseri comentários destacados do texto.
...

Quando estudamos a origem e a evolução da vida, fica claro que uma série de fatores devem atuar para que a vida surja e cresça em complexidade. Aqui estão alguns dos passos mais importantes: 

Química inorgânica 
A vida necessita de elementos químicos básicos como carbono, oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, etc. Mesmo se algum tipo de vida bem exótico existir em um planeta remoto, provavelmente usará elementos químicos semelhantes. Graças às supernovas, isso não é um obstáculo: esses elementos são encontrados por todo o cosmo.

Química orgânica 
Os elementos químicos precisam interagir e formar moléculas inorgânicas simples, como a água, a amônia e o gás carbônico, e moléculas orgânicas simples como o metano e outras. Aqui também não devem existir grandes obstáculos, já que mesmo no
espaço interestelar astrônomos identificaram uma extensa lista de moléculas inorgânicas e orgânicas, muitas delas necessárias para a vida aqui na Terra.

Bioquímica 
Essas moléculas orgânicas precisam encontrar um meio onde possam reagir, criando moléculas cada vez mais complexas, chegando então nas moléculas que caracterizam  a  bioquímica,  como  as  proteínas  e  os ácidos nucleicos. Aqui as coisas
começam a  ficar  complicadas. Como  discutimos, a  água parece  ser  um  ingrediente
crucial para a vida. Certamente, podemos sempre especular que alguns tipos exóticos de bioquímica sejam possíveis na ausência de água.
Como não temos qualquer evidência disso, no momento, as discussões sobre a origem e a existência da vida concentram-se em ambientes com água. Essa condição restringe radicalmente os tipos de corpos celestes que podem abrigar seres vivos. Os planetas precisam estar na chamada zona de habitação da sua estrela, se bem que, como o clima infernal de Vênus e a aridez de  Marte mostram, essa condição não é suficiente para garantir  a existência de vida. (Ou a definição de zona habitável precisa ser refinada).
Luas, por outro lado, mesmo que fora das regiões de habitação, podem ter água líquida devido a um efeito conhecido como aquecimento de maré. Como vimos, Europa, a lua de Júpiter que contém um oceano sob uma crosta de gelo, é um excelente exemplo. Experimentos do tipo Miller-Urey sugerem que os primeiros passos em direção à química da vida, a formação de aminoácidos, são relativamente fáceis de serem dados, contanto que a atmosfera e a superfície do planeta ofereçam as condições apropriadas. Porém, água líquida e os elementos químicos apropriados não garantem sucesso. Para que as reações ocorram, são necessárias concentrações relativamente altas de reagentes.
Fora isso, o planeta tem que estar relativamente calmo, por exemplo, não sendo ativamente bombardeado por asteroides. Sua superfície também deve ser relativamente estável, sem deformações de maré muito intensas e sem erupções vulcânicas de impacto global.

Início da vida 
Dado tudo isso, o próximo passo é o mais misterioso: de alguma forma, reações químicas inanimadas transformaram-se no primeiro ser vivo, um conjunto  de  reações
autossustentáveis capazes de absorver energia do meio ambiente e de se reproduzir.  Como   parte  do  processo,   os  blocos  essenciais  das  moléculas da  vida
escolheram uma orientação espacial específica, a sua quiralidade (propriedade que distingue um objeto de sua imagem especular - nota do blog).

Células procariotas 
Os passos que vão da relativa simplicidade dessa vida primitiva até a complexidade das  proteínas  e  dos  ácidos  nucleicos  pertencentes às  primeiras  células procariotas 
também são obscuros. A uma certa altura, uma membrana protetora feita de gorduras circundou os reagentes, protegendo-os do ambiente externo. Com eficiência crescente, a membrana permitiu que energia e nutrientes entrassem e dejetos saíssem. Nesse meio tempo, o material genético dentro das células levou a reproduções e sofreu mutações, gerando uma diversificação maior. Esse era o mundo dos protozoários.

Células eucariotas
O próximo passo em direção a uma maior complexidade da vida foi a transição das células procariotas às células eucariotas, que levou em torno de dois bilhões de anos. A
hipótese mais aceita atualmente, sugerida pela bióloga Lynn Margulis (a primeira esposa de Carl Sagan), é que os eucariotas surgiram de alianças simbióticas entre diferentes tipos de seres procariotas. Por exemplo, a mitocôndria, a fonte processadora de energia das células modernas, parece ter sido um organismo independente no passado distante que foi ou comido ou absorvido por outro organismo, formando,
de modo ainda desconhecido, um novo organismo.

Vida multicelular
Após o advento das células eucariotas, o próximo grande momento na história da vida foi a transição, aproximadamente três bilhões de anos após o surgimento dos primeiros seres vivos, de criaturas multicelulares. Tal como na transição de procariotas a eucariotas,  a  origem  de seres  multicelulares também é explicada  a partir de alianças 
simbióticas entre seres unicelulares: por um processo de tentativa e erro, seres unicelulares se juntaram ou foram sendo absorvidos para criar novos seres com funções diversificadas.
Entretanto, ainda não se sabe como os tipos diferentes de DNA desses seres foi unificado num só genoma. Uma explicação alternativa, a Teoria Colonial, propõe que seres unicelulares se agruparam em colônias que aos poucos foram evoluindo até tornarem-se seres multicelulares. Embora o debate continue, a Teoria Colonial vem ganhando mais adeptos nos últimos anos.

Vida multicelular complexa 
Muitos cientistas propõem que a diversificação acelerada dos seres vivos que ocorreu por volta de 550 milhões de anos atrás, a chamada "explosão cambriana”, deu-se devido a mudanças no meio ambiente terrestre. As mais importantes foram a oxigena-ção da atmosfera, graças à ação das algas verde-azuis, e o aumento da atividade geológica devido ao movimento das placas tectônicas. Essas placas, que podemos imaginar como sendo pedaços da superfície da Terra ligados como num quebra-cabeça, vão se deslocando aos poucos, ativando a química dos oceanos e da superfície. O movimento tectônico funciona como uma espécie de termostato global, reciclando compostos químicos que ajudam a regular os níveis de gás carbônico, mantendo a temperatura relativamente estável. Sem ele, a água não teria permanecido líquida por bilhões de anos, o que teria dificultado imensamente o desenvolvimento da vida, especialmente o da vida complexa.

Vida inteligente
Após 500 milhões de anos de evolução de seres multicelulares, incluindo várias extinções em massa e mudanças climáticas severas, os primeiros membros do gênero Homo surgiram na África em torno de 4 milhões de anos atrás. A inteligência, como a conhecemos hoje, surgiu há menos de um milhão de anos, estando presente por nem mesmo 0,02% da história da Terra. 

Ponderando cada um dos passos delineados acima, e ao constatar a desolação dos outros planetas do nosso sistema solar, fica difícil entender como é possível afirmar com confiança que a vida deve ser comum no Universo, ou que o Universo é "certo" para a vida. Não há dúvida de que devemos continuar a buscar planetas semelhantes à Terra, como a missão Kepler da NASA está fazendo no momento, e a missão Darwin da Agência Espacial Européia planeja fazer no futuro.


Marcelo Gleiser é astrônomo, doutor em Física e professor de Filosofia Natural do Dartmouth College, EUA. Tem vários livros publicados, dois deles ganhadores do Prêmio Jabuti.

(continua)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018


PATETAS ACREDITAM EM PAPAI NOEL
Descobrir a gota ocasional de verdade no meio de um grande oceano de confusão e mistificação requer vigilância, dedicação e coragem. Mas, se não praticarmos esses hábitos rigorosos de pensar, não podemos ter a esperança de solucionar os problemas verdadeiramente sérios com que nos defrontamos, e nos arriscamos a nos tornar uma nação de patetas, um mundo de patetas, prontos a sermos passados para trás pelo primeiro charlatão que cruzar o nosso caminho.
O que você acabou de ler é um 'alerta' em O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan, escrito há pouco mais de 20 anos. O texto curto merece reflexão extensa, e é dele que me servo, pedaço por pedaço. Por quê? Nos últimos dias assisti a entrevista de um amigo na TV (depois constatei que as outras participações seguem o mesmo tom), e debati com outro pela rede, e estas duas situações serviram de gancho para a conversa de hoje. O que eles têm em comum? São simpáticos misticóides crédulos, irredutíveis em suas crenças. "Misticóide" não tem caráter ofensivo porque, na acepção, trata das pessoas que são exageradamente místicas, acreditam em espíritos, anjos, magia, pêndulos, astros, oráculos, alienígenas, porém sem a mínima noção do exercício lúdico e maduro dos verdadeiros místicos. Quanto as patetas de que fala Sagan, são os ingênuos, inocentes, inexperientes, excluídas as crianças.

Uma observação importante: Sagan era conhecido pelo ceticismo em relação a discos voadores e seres alienígenas, mas não sobre vida extraterrestre, que é muito diferente. Ele a considerava possível mas de difícil comprovação. Seu arrazoado lógico e científico, seu amplo saber em várias áreas e sua retórica refinada dificultavam a réplica sobre Ets. Quem se dispusesse a debater com ele precisava ter argumentos contrários sólidos no mesmo nível de conhecimento. No mínimo, ele provocava muita reflexão. No passado, eu mesmo torcia o nariz quando ouvia seu nome, até reconhecer que ele estava coberto de razão. Não doeu nem um pouco rever meus conceitos.
Descobrir a gota ocasional de verdade no meio de um grande oceano de confusão e mistificação 
Com muita consciência, lucidez e sem qualquer traço de vaidade, é o que venho fazendo nas últimas três décadas através dos livros, dos artigos publicados por instituições acadêmicas fora do país, e neste blog desde 2015 em mais de 100 postagens. É bastante, mas não suficiente. Dadas as devidas proporções, não pretendo impor nenhuma verdade, mas, como Sagan e outros nomes incansavelmente presentes aqui, trazer claridade e conteúdo mais profundo e substancial. O amigo entrevistado, camarada experiente, inteligente, rodado como eu, infelizmente se perdeu em erros históricos primários, inexplicáveis para alguém do seu naipe, conduzindo-se a seguir no padrão anos 70 ao falar de abduções, física quântica, círculos ingleses, deuses astronautas, pirâmides, bíblia, ufologia como paraciência.... Uma decepção, pois esperava uma fala madura, e o que vi foi a postura de um aprendiz infeliz no que diz.
requer vigilância, dedicação e coragem.
Entendo como vigilância, a busca seletiva por novos saberes, atualização e revisão contínuas de conceitos; por dedicação a escolha criteriosa permanente nessa busca, ampliando o leque de novas investigações, mente aberta a possibilidades não pensadas e sensibilidade para prospectar campos não explorados. Ademais, manter-se firme nos objetivos, evitando deixar-se seduzir pelas tentações aliciadoras do lugar-comum.

Coragem é um capítulo à parte. Coragem é absorver críticas e promover autocrítica, ter clareza de estar em rota de colisão ao senso comum com todos os dissabores implícitos. Coragem é abrir-se e acolher o novo quando fundamentado na lógica, na experiência e na ciência lato sensu; é saber aprender, saber estudar, saber discernir e saber assumir o tamanho da própria ignorância, em outras palavras, ter a capacidade de enfrentar o medo do desconhecido. Coragem, enfim,  é não esperar a tormenta passar, mas aprender a dançar na chuva.

Um depoimento pessoal: Quando surgiu o momento oportuno (do latim ob portus - vento que conduz ao porto) de navegar por outros mares, não hesitei em sair daquela 'ilha' (latim insula - isola) e seguir meu instinto  para rumos que me levariam à 'saída' (grego exodus - exit, êxito). Curioso é que quem primeiro levantou minhas âncoras e mostrou outros horizontes foi justamente este amigo do debate! 

Na conversa, apesar da longa, sincera e respeitosa amizade, fica sempre um sentimento mútuo de frustração. Sua sentença é: "Eu vejo  tudo isso como um processo gradual de aproximação de inteligências de fora do planeta. É a minha certeza, minha convicção". Todo crédulo renitente não deixa brechas para qualquer diálogo mais expansivo, o que caracteriza falta de repertório, humildade e inteligência. Inteligência, do latim intus legere - "ler por dentro", por extensão é a capacidade de percepção e apreensão da realidade do mundo com profundidade. Tal compreensão assusta e deprime os fracos, fazendo com que busquem preencher este vazio pelas vias escapistas alienadoras dessa realidade, e tome doses generosas de esoterismo, misticismo, ocultismo, etc. O fosso que separa o real do irreal - ou surreal - é abissal.
Mas, se não praticarmos esses hábitos rigorosos de pensar, não podemos ter a esperança de solucionar os problemas verdadeiramente sérios com que nos defrontamos 
Semanas atrás falei aqui sobre o preço da história, e é sobre isso que Sagan se refere, a premissa básica da vida: pensar. Não pensar é inércia, é ter certezas e não seguir adiante. Nesse sentido, todo misticóide crédulo é, por definição, heterônomo - não pensa por si, obedece e se submete aos desígnios de um ente externo, seja quem ou o que for. Pensar irriga a terra, fornece alimento, floresce ideias, instiga saber, fortalece, renova e transforma. É questão de escolha: ou você se  senta à beira sombreada da estrada e deixa passar as estações, ou se move sob a luz em direção à colheita. 
e nos arriscamos a nos tornar uma nação de patetas, prontos para sermos passados para trás pelo primeiro charlatão que cruzar o nosso caminho.
Uma nação da patetas! Eis aí o alto custo que a história nos impõe em razão da nossa indolência - ser passado para trás por charlatães, vigaristas, trapaceiros e misticóides, que se valem da inocência e ingenuidade, em última análise, da ignorância alheia, apropriando-se de um falso conhecimento para fazer prevalecer suas artimanhas em proveito próprio, jamais coletivo. Uma nação de patetas não tem o que reclamar. O ausente nunca tem razão. Quero lembrar mais uma vez que o preço da história é alto e não necessariamente será você o pagador, mas poderá ser o responsável pela dívida.

Você perguntará o que Papai Noel tem com isso? Bem, eu poderia falar do coelhinho da Páscoa ou de fadas, que contemplam o mesmo simbolismo e o mesmo olhar psicanalítico, mas fica para depois. Papai Noel é de origem longínqua e desconhecida,
figura mítica de natureza religiosa - renovação, renascimentobaseada em crença. Chega às casas (corações) pelos céus montado numa carruagem. Espero que você esteja me acompanhando, preste atenção aos itálicosO 'bom velhinho' é a representação do personagem transcendente, imaginário, supranatural, fabuloso (do latim fabula, falação, oralidade). Sua longa barba branca denota uma existência longeva, referência ao Velho, ao Sábio, ao Pai! Vem do reino da fantasia para atender nossos desejos, os desejos da criança e dos adultos-crianças, sempre com a mão erguida à procura de alguém que os ampare, os conforte, os proteja, que torne realidade as suas mais candentes esperanças. Notou alguma semelhança?

Criança que acredita em Papai Noel, coelhinhos e fadas não é pateta, o adulto sim, ainda mais quando esse Noel é franzino e de outra cor. Daqui em diante entraríamos no universo dos contos infantis, da Filosofia e da Psicanálise. É de Freud as palavras finais:
...Não devemos esquecer que o relacionamento analítico se baseia no amor à verdade, isto é, no nosso reconhecimento da realidade e que isso exclui qualquer tipo de impostura ou engano. Você entendeu a mensagem. Quanto aos misticóides crédulos... prisioneiros do tempo. 
Só, insuficiente e em eterna agonia,
o homem clama por qualquer Outro


P.S. up-to-date: Eu alertei na semana passada sobre impostura desmedida: Acontecerá neste domingo dia 5, no Rio de Janeiro mais uma vigarice explícita - "UFOS, 2019: Chico Xavier e a Transição Planetária", e "Marte, a verdade encoberta". Essa sem-vergonhice será ministrada por um conhecido apedeuta patafísico nefelibata ao custo de R$ 50 por cabeça. É só mais uma reunião de patetas.

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William A. Corsaro, Sociologia da Infância. Artmed, 2011.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

FALTA VERGONHA NA CARA
Specchio. Alumínio, 2017.
Cortesia Matteo Pugliese. Milano, Itália.



Conheço muitos que não fizeram,
quando podiam,
porque não quiseram,
quando deviam.
Rabelais


Algum tempo atrás escrevi aqui a respeito de um encontro de ufologia na cidade de Varginha. Planejado desde meados de 2017 para ocorrer em janeiro de 2018, foi adiado para julho e agora remarcado para janeiro do próximo ano. Não sei o motivo do primeiro adiamento, mas o segundo foi por falta de quórum, ou seja, não atingiu o mínimo de público necessário sequer para cobrir os custos do investimento. É esperar para ver se de fato irá se realizar na nova data a. Tenho dúvidas.

Convenhamos que preparar um congresso internacional para meia dúzia de interessados é armar um retumbante fracasso. Há uma explicação para a ausência de público? Os organizadores não são marinheiros de primeira viagem, têm experiência, conhecem bem os caminhos, já tiveram êxitos anteriores. Das vezes em que participei nada os desabona. O que houve? Creio que a resposta esteja no esgotamento do tema, seja 'disco voador' ou o 'caso Varginha'. Água parada não move moinho, diz um antigo provérbio português. Quem não tem nada de inédito ou interessante a dizer, é melhor ficar de boca fechada. Não subestime a capacidade de compreensão do outro. Na verdade, jamais desconsidere o outro.  O que “Varginha” poderia apresentar de novidade vinte anos depois que já não tenha sido esmiuçado à exaustão? Nada. A propósito, deixei bem clara minha convicção de que este caso de ufológico não tem nada no post “Delírios de uma tarde de verão”.

Água parada não move moinho! Vira charco, é podre e cheira mal. O banquete acabou faz tempo. A insistência infantil e no mais das vezes patética para “provar a existência do disco voador” patrocina a demência.  Faltou maturidade, tato, inteligência,  sensatez, sensibilidade, honestidade e escrúpulos na iniciativa do encontro. Falta, principalmente, vergonha na cara. Mal comparando, é como se num congresso médico alguém apresentasse sistematicamente o mesmo tema ultrapassado, algo do tipo “Novas técnicas para a lobotomia”. Com exceção do séquito fiel, tudo indica que o público em geral está cansado de ouvir a sempre enfadonha ladainha das teorias conspiratórias para ocultar a verdade e outras tolices iguais. É um desperdício pautar nossa breve existência pela mediocridade. É como criança brincando de roda, gira gira gira sempre no mesmo lugar... Quanto tempo perdido, quanta imobilidade, quanta conformidade, que falta de perspectiva - muito sertão nenhuma vereda! Quem não sabe para onde ir, qualquer caminho serve, mas pobre daquele que não tem um caminho, esse não vai a lugar algum! Vai ficar lá, bem no meio do nada.

Volto a dizer que quanto mais persiste a necessidade de explicação, quanto mais se tenta provar qualquer coisa, mais o descrédito aumenta. Volto a dizer também que não se pode querer resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa, isso é sintoma de esquizofrenia. Essa turma não aprendeu ou não quer aprender a lição. Há uma notória fratura com a realidade, com o mundo e com a verdade. Na maioria dos casos, não há ortopedia que conserte.

Tive a curiosidade de ver o programa do congresso. Enquanto alguns temas pararam lá nos anos 70, outros são de estarrecer, o que não surpreende: “Bem-vindo ao novo mundo: a exopolítica e o exodireito”. Como é que é, exopolítica e exodireito? Alguém pretende falar de política e direito do extraterrestre? “Agenda alienígena”, “Viagens interestelares: o papel das ciências físicas e das tecnologias quânticas”. Um conteúdo dessa ordem caracteriza um exército de Brancaleone constituído de patafísicos¹  nefelibatas² vocacionados para a mais explícita empulhação. Até quando?

A plateia pode até ser leiga em direito, física e tecnologia quântica seja lá o que isso for, mas não é estúpida a ponto de cair nessa canalhice intelectual como querem os palestrantes. Isso talvez explique o inexpressivo número de inscritos. Mais uma vez reforço o dever da responsabilidade e da ética nas relações sociais. Mais uma vez digo que essas vozes não têm um rosto, logo, não há autoria. Mais uma vez fica patente que esses princípios fundamentais não estão sendo respeitados. E por quê? Porque faltam caráter, atitude, decência e vergonha na cara. Até quando?

Um leitor informou que na Europa os registros sobre Óvnis caíram drasticamente nos últimos 20, 30 anos. A literatura, que antes ocupava um setor próprio nas livrarias, está confinada agora às prateleiras do esoterismo. Para Peter Hatttwig e Werner Walter, pesquisadores alemães, o boom sobre Ufos é coisa do passado: "As explicações são muito mais racionais", afirma Werner, acentuando que o sensacionalismo em torno dos Ets alimentou expectativas que não se confirmaram, daí o crescente desinteresse. O jornal Le Monde Diplomatique, na edição de 2007 (nas raras vezes em que abre espaço para o tema), em matéria assinada por Luc Bronner, informava que os ufólogos têm nostalgia da "idade do ouro" dos Óvnis, que começou por volta dos anos 1950 e acabou na década de 180. Nostalgia é mesmo a melhor definição para "saudade dos bons tempos" de que falamos aqui recentemente.

O tiro saiu pela culatra! Segundo Luc, os filmes e séries de TV na linha "Arquivo X" estimularam a opinião pública a considerar estes eventos como ficção. Uma parcela significativa da população acredita que são os "delírios" dos ufólogos, em especial aqueles que afirmam terem sido sequestrados, que prejudicam a imagem do movimento (Certains y voient la conséquence de films et de séries télévisées comme "X-Files", qui incitent l'opinion à considérer ces événements sous le seul angle de la fiction. D'autres estiment que ce sont les "délires" des ufologues les plus extrêmes, notamment ceux qui affirment avoir été enlevés, qui ont brouillé l'image du mouvement). Para atualizar esses dados, entrei em contato com amigos pesquisadores franceses e eles confirmaram o que já se sabia: no início de julho ocorreu o encontro UFO PARIS em que um dos conferencistas apresentou casuística de...1965! O cenário hoje é o mesmo - nostalgia. A ufologia definitivamente perdeu espaço para coisas mais importantes, que é o caminho sem volta lógico e natural, enquanto no Brasil o atraso, além de crônico, é gigantesco.

A revista Lumiéres dans la Nuit, uma espécie de porta-voz da ufologia francesa desde os anos 60, viu o número de assinantes despencar de 5.000 para 800 nos últimos anos, com tendência de queda. Surpreende que ainda esteja ativa. Como parâmetro, a tradicional revista brasileira Planeta há décadas deixou de publicar artigos de ufologia. Para uma relevante maioria da população europeia, a ufologia deixou de ser assunto sério para se tornar simples entretenimento. Em 2000, o Centre National d'Études Spatiales - CNES (o equivalente à NASA) encerrou as atividades do grupo interno de estudos sobre Óvnis devido a críticas sobre a seriedade do trabalho. Foi reativado em fins de 2007 com a tarefa de monitorar "fenômenos aeroespaciais não identificados". O que mais posso dizer?

Quanto a imagem specchio - espelho, não foi por acaso. É fundamental acrescentar um ponto complementar aos textos anteriores, porque está ligado organicamente com o de hoje. Reporto ao alferes Jacobina no conto "O Espelho", de Machado de Assis, no qual ele só se vê refletido quando vestido a roupa referência - seu uniforme militar, ou seja, o espelho é uma espécie de máscara: sem a farda, Jacobina não é nada, não é ninguém, não tem rosto, não tem identidade, volta a ser o invisível Joãozinho. Importava-lhe como os outros o viam - Senhor Alferes. A fusão do 'papel social' com a autoimagem conduz à dimensão especular inerente tanto do olhar do outro como o reflexo realizado pelo 'duplo espelho'.

O espelho sustenta a persona, que passa a ter 'vida', 'corpo', na verdade, um negativo do real - aquilo que não é, um autorretrato às avessas. Sem o olhar do outro, o alferes deixa de sê-lo. se esfumaça, torna-se imagem difusa, vaga, esgarçada, um fantasma, sombra da sombra, corpo 'incorpóreo'. Jacobina não se encontra mais, cai em solidão, no vazio da existência, sua "segunda alma" não o completa, ele perde a inteireza, criatura mutilada. É o eterno conflito entre ser e parecer ser, entre o 
statu e a 'nudez' do ente. O pensador russo Mikhail Bakhtin dizia que a consciência é construída pela polifonia social do meio em que o indivíduo está inserido.

O teólogo e crítico social dinamarquês Søren Kierkegaard é certeiro: 
Podes imaginar algo mais terrível que ver decompor-se tua natureza em uma multidão, tornar-te múltiplo, uma legião, como os desgraçados seres demoníacos, e assim perder o mais íntimo e mais sagrado de um homem - a potência ordenadora da personalidade?


¹ PatafísicaContração do grego epì tà metà tà phusiká – o que está além da (meta)física), ou ciência das soluções imaginárias.
² Nefelibata: Que vive nas nuvens.

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https://www.lemonde.fr/societe/article/2005/10/18/les-ufologues-ont-la-nostalgie-de-l-age-d-or-des-ovnis_700516_3224.html


sexta-feira, 13 de julho de 2018




A HISTÓRIA TEM SEU PREÇO
Antes do texto anterior sobre o 'passado que é para sempre' ser publicado, alguém postou nas redes a seguinte mensagem: “Sinto saudade de alguns velhos amigos; talvez não seja saudade, seja necessidade de viver tudo outra vez”. Não foi simples coincidência ou lampejo premonitório, porque é um sentimento impregnado no espírito como se precisássemos refazer nossa história o tempo todo. Não é preciso diploma para identificar esse comportamento. Voltar ao passado para que, para corrigir os erros cometidos? Fazer diferente? Não é preferível fazer certo agora em vez de arrepender-se depois? É nessa linha que venho aprofundar aquela reflexão.

Há pouco mais de 50 anos, o mundo recebia com surpresa e admiração a notícia do primeiro transplante de coração humano. A iniciativa do médico sul-africano Christian Barnard abria possibilidades inimagináveis para a medicina. Uma vida humana estava em suas mãos, onde ética e responsabilidade sobressaiam acima de todas as coisas. Ele sabia dos riscos, sabia que ninguém antes havia ido tão longe, que não seria uma jornada fácil, com inúmeros percalços: rejeição do órgão, complicações cirúrgicas, mudanças no metabolismo, oscilações de pressão, enfim, poderia um fracasso histórico seria possível. Um gesto errado e tudo se perderia. Mas ele sabia também que tal passo só teria êxito se tivesse considerado todas as variáveis, se sua equipe contasse com os melhores profissionais, se os testes demonstrassem alto índice de sucesso e, claro, ele conhecia o ofício como ninguém e confiava em sua habilidade. Ele não era um aventureiro. O resto da história você conhece.

Há pouco mais de 60 anos, o mundo recebia com surpresa e assombro a notícia do primeiro homem lançado ao espaço, Yuri Gagarin. Um feito inédito que não era mais ficção, abrindo possibilidades inimagináveis para a astronáutica e até para o futuro da humanidade. Os cientistas tinham em suas mãos uma vida humana, onde ética e responsabilidade estavam acima de suas convicções e ambições. Eles sabiam dos riscos do seu arrojo, sabiam que ninguém antes havia tentado tal façanha, que não seria uma jornada fácil, com todas as dificuldades inerentes: problemas operacionais, erros de cálculo, falha humana, pane técnica. Nada poderia dar errado ou tudo cairia por terra, mas eles sabiam também que este pequeno passo só teria êxito se tivessem considerado todas as variáveis, se as equipes contassem com os melhores profissionais, se as simulações demonstrassem alto índice de êxito e, é claro, todos conheciam muito bem o ofício e confiavam em suas respectivas aptidões. Não eram aventureiros. O resto da história você também conhece.

Há pouco mais de 70 anos, o mundo recebia com surpresa e alvoroço a notícia de que discos voadores haviam sido observados pela primeira vez. Um fato sem precedentes que parecia saltar das páginas da ficção científica para o mundo real, abrindo possibilidades inimagináveis para o futuro das ciências. Os pesquisadores tinham em suas mãos uma vida não humana, onde ética e responsabilidade deveriam estar acima das convicções. Eles não sabiam dos riscos de sua empreitada, não sabiam que não seria uma tarefa fácil, com todos os impedimentos óbvios: ignorância absoluta da matéria, falta de critério, excesso de confiança nos métodos, falta deles, de leitura e literatura, necessidade imperativa de respostas e sobretudo desejo da confirmação de suas crenças. Um passo precipitado e tudo se perdeu. Eles não sabiam também que tal engajamento só poderia ser bem sucedido se tivessem considerado todas as variáveis - não o fizeram; se tivessem os melhores profissionais - não tinham; se as informações de cunho científico sobre vida extraterrestre demonstrassem alto percentual de probabilidade - demonstravam o contrário, e se todos soubessem o que deveria ser feito- ninguém sabia. Eram todos aventureiros. Você sabe no que deu.

Agora, imagine os dois primeiros eventos nas condições do terceiro: Se o cirurgião superestimasse sua competência e cometesse erros cruciais, se a equipe fosse inábil, o estudo incompleto, o instrumental inadequado, a técnica equivocada. O resultado seria desastroso. No segundo caso, se o foguete não tivesse força suficiente, se os motores falhassem, se o astronauta sofresse um colapso emocional, se o cálculo de reentrada na atmosfera estivesse errado, o resultado teria sido catastrófico. Quando acontecem falhas, a ciência revê suas teses, corrige procedimentos e técnicas, aperfeiçoa a tecnologia, revisa cálculos, desenvolve novos métodos, esgota todas as possibilidades. Hoje, o transplante é rotina em todo o mundo, a medicina não encontra limites, Lua e Marte se tornaram "íntimos", satélites navegam espaço afora e projetos mais arrojados estão nas pranchetas.

E a ufotopia, em que estágio se encontra? Aprendeu com seus erros? Não, porque nunca os admitiu. Buscou outras vias de pesquisa? Não, a única que tem lhe basta. Adotou conduta ético nas relações sociais? Não, ignora o que seja isso. Procurou dados técnicos e científicos atualizados e consolidados que justificassem seu exercício? Não, por julga sua atuação autossuficiente e impecável. Considerou uma autocrítica ou ajuste de rota? Se nunca teve rumo não tem o que corrigir. Admitiu o descompasso e o insucesso do discurso ou a possibilidade de um modelo alternativo de explicação? Impensável, é preferível soçobrar na insensatez a reparar a barca esfrangalhada. A extensão de sua ignorância é proporcional ao tamanho das bobagens que prega. Voltamos à equação discutida anteriormente: responsabilidade ou convicção, prazer ou realidade. Tudo está entrelaçado, como você já deve ter percebido.

O que distingue os primeiros dos últimos é que aqueles possuem espírito de grandeza, consciência do dever e responsabilidade nas ações. Têm sonhos, não delírios, ideais maduros, não crenças infantis, dúvidas, não certezas. Têm ética, pensam o futuro sem esquecer o passado. O resultado está no valor da colheita. A história tem seu preço e cobra caro pelos erros. Quem paga é o futuro presente. Lembre-se, teu passado é tua história sendo escrita o tempo todo, minuto a minuto, dia após dia! Já pensou nisso?

sexta-feira, 6 de julho de 2018


SÓ O PASSADO É PARA SEMPRE


A inspiração para o texto de hoje veio pela análise* feita sobre um capítulo específico da série Westworld exibida pela HBO. Na matéria, o que me chamou a atenção foi a autora, a crítica de cinema Rachel Kraus, roçar num ponto que reacendeu minhas reflexões há muito aquietadas. Estou falando de imortalidade por um viés pouco habitual, razão pela qual são apenas considerações introdutórias que têm relação com o que temos debatido nas últimas semanas aqui.

Rachel traz questões sobre vida e morte, deus e diabo, criação, cita referências bíblicas e míticas, Milton, Dante e outros épicos. Na labiríntica trama da série - e sou obrigado a descrevê-la -, os 'anfitriões' do parque temático foram produzidos de modo a se parecerem tão humanos a ponto de não serem distinguidos destes. Suas lembranças são fabricadas e reelaboradas continuamente assim como sua história pregressa, em um nível de realismo tal de os técnicos tentarem implantar neles uma consciência! Porém, uma falha crítica no sistema das memórias faz com que os androides costurem suas vivências pretéritas e construam um sistema cognitivo próprio que os impele buscar o princípio de tudo, a "memória global" e a matriz de suas vidas sintéticas. Assim, uma espécie de autoconsciência vai se formatando aos poucos. Se tiverem êxito, acreditam poder alcançar a 'individualidade', a liberdade e a imortalidade. Alguém lembrou do replicante Roy Batty, em Blaide Ruuner, e a procura obstinada pelo seu criador e por um pouco mais de tempo de vida

O que quero discutir Rachel nem passa perto. É uma reflexão que venho burilando há tempos e não é nenhum devaneio porque não parto do zero. A literatura, alguns estudos psicanalíticos, sociais e antropológicos me servem de referência. A vivência pessoal, a observação do cotidiano e uma leitura periférica me estimulam prosseguir. A questão é bem complexa e multifacetada, onde dialogam velhice e juventude, memória, passado e futuro, morte e imortalidade, narcisismo, cultura e religião. E olhe que estou falando de divagações preliminares bem modestas.

O título do post anterior, Em busca do útero perdido, sugeria continuidade. Voltar ao "berço primevo" remete subjetivamente a renascimento, ressurreição; se tomarmos este processo como um ciclo contínuo, teremos um recomeço após outro, indefinidamente, ou seja, perpetuidade. Em outros termos, voltar ao passado significa "não morrer jamais". Vejamos este exemplo: Uma mulher viúva, idosa, solitáriafilhos distantes, cujo principal 'passatempo' é folhear constantemente um velho álbum de recordações. Seu tempo presente é permeado de solidão, melancolia e saudade, e o futuro, sem perspectivas, em contagem regressiva. Só lhe esta agarrar-se às lembranças dos tempos vividos. Ao fazê-lo, inconscientemente ela retorna aos "bons tempos", desejando revivê-los, voltar à bela e encantadora mocidade, à doce infância. A cada mirada no álbum esse desejo a invade, e novo e de novo... como ela gostaria de começar tudo novamente, de "eternizar" aqueles momentos! Seu álbum é a "fonte da juventude" sonhada e cantada em prosa e verso, seu "cofre secreto" que guarda confidências e pensamentos irrevelados, esconderijo da alma e do coração.

Estudos científicos sobre o comportamento humano indicam que questões existenciais levam o indivíduo a trabalhar seu narcisismo quando se defronta com a finitude e a precariedade da vida. Freud dizia que desde criança nós nos colocamos como centro do mundo, quanto mais o ego se identifica com a persona, maior é a rejeição daquela parte de si mesmo que não se aceita - a decrepitude, a velhice, a morte. É o puer aeternus - juventude eterna, uma imagem arquetípica dominante de um dos elementos de uma polaridade ativa presente na psique em busca da união com o Outro - o Velho, o Sábio, o Mestre. Deus? Jung via o puer como o arquétipo de criança, especulando que sua fascinação recorrente origina-se da projeção, pelo homem, de sua incapacidade de renovar-se.

Voltar ao passado é olhar para o futuro? Em cero sentido, sim. Mergulhar na memória para reviver o ontem não é simplesmente "paralisar" o tempo e ali ficar, é também expandi-lo para o futuro. Como é? Quando um milionário decide congelar seu corpo para "renascer" daqui a 100 ou 200 anos, ele está se projetando para o futuro, se "imortalizando" de certa forma. Nesse caso, não seria a câmara criogênica ela mesma uma "concha uterina"? Os anfitriões de Westworld  não querem resgatar o passado para garantir o futuro? As religiões não prometem a vida eterna pela fé ao Princípio Causador? O replicante de Blade não quer chegar ao seu criador para obter a imortalidade? Não menospreze a ficção só porque é ficção, ela se articula por um fluxo de provocações, revelações e verdades, instigadora por vocação. A força que a ficção tem de nos fazer olhar para dentro de nós é algo muito sério!

Sobre apegar-se às coisas (o álbum de fotos, por exemplo), Freud sublinha que os objetos nos fazem admitir a passagem do tempo e reconhecer nossa finitude, confortando-nos pela transitoriedade da vida. Contudo, se aceitamos que a morte é inevitável, tentamos "matá-la" com o silêncio, desmenti-la: "No inconsciente, cada um de nós está convicto de sua imortalidade". Para ele, a própria morte e a passagem do tempo não têm registro no inconsciente. O tempo do inconsciente não é o tempo que passa, mas um "outro tempo", o da "mistura dos tempos", o "tempo da ressignificação". 


E se colocarmos essa reflexão no espelho, numa perspectiva invertida? Em O retrato de Dorian GGray, de Oscar Wilde, o personagem, embevecido pela sua bela estampa que a todos seduzia, desejava. por ela. tornar-se imortal. Tão magnífica beleza não poderia jamais perecer, perder-se no tempo, por isso, no romance, quem envelhece é seu retrato pintado por um amigo. Muitas interpretações já foram feitas, quer pela psicanálise, quer pela antropologia. Há Narciso em Dorian quando este sente irresistível fixação pela própria imagem (se você pensou em selfies e facebooks, acertou). Toda imagem de si próprio é sempre um "duplo", um "outro eu que não eu", e é nesse outro eu que se escondem todas as dores, o tempo, os demônios, as farsas, os medos, o lado mais obscuro - "a parte que não se aceita". Esse outro eu dentro do espelho é esconderijo, o refúgio, o útero. A afirmação é de Jung:
Todos os conteúdos que não se ajustam ao todo são negligenciados, esquecidos, ou reprimidos e negados. Isso se constitui uma forma de autoeducação que não deixa de ser, porém, demasiado arbitrária e violenta. Em benefício de uma imagem ideal a qual o indivíduo aspira moldar-se, sacrifica-se muito de sua humanidade.
Por fim, um detalhe possivelmente intencional da obra que não me passou despercebido: A mulher por quem Dorian quase se apaixona em uma breve relação, Sybill. E quem é Sybill? Sibila, da mitologia greco-romana, é a mulher com dons proféticos e vasto conhecimento; por essa razão, ela pede a Apolo - e é atendida - a vida eterna. No entanto, esquece de pedir junto a juventude eterna, e por isso vive em perpétua decrepitude. 

Não importa se o que se fez um dia tenha sido a mais inominável atrocidade ou o feito mais heroico. Não importa que se tenha levantado um majestoso templo e o tempo o tenha feito pó. Não importa que se tenha escrito uma enciclopédia hoje esquecida na prateleira empoeirada de um sebo. Não importa que a obra-prima esteja abandonada nos porões de um velho casarão. É uma questão lógica: O que está feito está feito e nada poderá apagar. Faz parte da história, e ainda que o universo imploda numa casca de noz, o passado é para sempre porque o erro e a verdade só se revelam através dele.

Essa reflexão bate com impacto no fundo da alma porque nos faz parar por um instante e nos obriga, primeiro, a dar uma espiadela no que fizemos ontem; depois, no que estamos fazendo hoje, e por último e por óbvio, que as consequências por vir nos são desconhecidas. O passado nos alcança e nos revela: ou nos dá asas ou ferros, ou a luz ou as trevas, um rosto ou a máscara, a graça ou o tormento. Ele é para sempre porque está presente o tempo todo. Eis o que pensa a filósofa francesa Simone Weil:
O tempo, na sua marcha, utiliza e destrói o que é temporal. Também nele existe mais eternidade no passado que no presente. Valor da história efeticamente cumprida, semelhante à da recordação em Proust. Deste modo, o passado apresenta-nos algo que é simultaneamente real e melhor que nós, e que pode empurrar-nos para cima, coisa que o futuro nunca faz. 

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*https://mashable.com/2018/05/14/westworld-james-delos-speech-literary-references/#RKKhoI.x3kqS  acessado em 16/05/2018.
FREUD, S. Sobre a Transitoriedade.  Obras Completas. Vol. XIV.
JUNG, Carl G. O Eu e o Inconsciente. Vozes, 2008.
WEIL, Simone. A gravidade e a Graça. Martins Fontes, 2016.

sexta-feira, 22 de junho de 2018


Vertigo II, bronze, 2014. Cortesia Matteo Pugliese. Milano, Itália.
EM BUSCA DO ÚTERO PERDIDO
A face do Anjo da História está voltada para o passado. Onde nós percebíamos uma cadeia de eventos, ele vê uma catástrofe única que continua empilhando destroços e jogando-os diante dos seus pés. O anjo gostaria de ficar, acordar os mortos, e tornar inteiro o que foi esmagado. Mas uma tempestade está soprando do paraíso; o anjo ficou preso em suas asas com tal violência que não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impulsiona irresistivelmente em direção ao futuro, para o qual ele dá as costas, enquanto a pilha de escombros cresce, diante dele, rumo ao céu. A tempestade é o que chamamos progresso.

A citação é de Walter Benjamin em Teses sobre o Conceito de História (1940), uma interpretação da obra de Paul Klee, Angelus Novis, de 1920. Não difere muito do que o nosso velho conhecido Zygmunt Bauman vem dizendo há anos, nem do que outros nomes de igual estatura debatem há décadas. Nenhum deles veste manto de profeta, não têm bola de cristal, não consultam astros e cartas e oráculos e não fazem jogo de adivinhação. É uma antevisão do futuro com um pé no passado e a mão no presente. É com base nisso e mais um pouco, e nas duas últimas obras do sociólogo polonês  - O Retorno do Pêndulo e a póstuma Retrotopia que proponho uma breve reflexão sobre a nossa velha conhecida ufotopia. Mas não só sobre ela. Em tempo, a citação está reproduzida em Retrotopia.

Havia crença, esperança e otimismo no futuro até algumas décadas atrás. O horizonte era pleno e plano, sol e céu estrelado. Podia-se planejar a vida para os próximos anos com bastante segurança e garantia de sucesso. Em meados dos anos 1980, contudo, principalmente no terreno cultural, que quase sempre é reflexo e vaticínio do mundo, começou-se a perceber que entrávamos na era do “re” - reformulações, reciclagens, revivalismos, reedições, retrospectivas, repaginações, vislumbrando-se certa paralisia, como se a única opção fosse voltar melancolicamente ao passado. Mesmo  assim, a certeza no progresso permanecia intacta. Mas a história segue seu curso, e esse sentimento de perenidade foi perdendo vitalidade, prenúncio da extinção. A juventude questionando duramente os modelos tradicionais, desconfiança crescente das elites políticas e das instituições; desigualdades sociais acentuadas, crises no desemprego e na segurança e falta de perspectiva como decretação irreversível do fim das utopias.

A ideia central de uma grande massa de autores se assenta em algumas palavras-chave já trazidas aqui - incerteza, instabilidade, volatilidade, voracidade, vulnerabilidade, só para ficar nas mais óbvias. Quando desdobramos a análise de cada uma delas, nosso giroscópio interno enlouquece, nossa bússola rodopia e não mais nos orienta, ou seja, ficamos à deriva no meio do nada. "O que o pensamento do futuro tende a trazer à mente de hoje é a ameaça de ser descoberto e rotulado como inapto para a tarefa, com seu valor e dignidade negados, marginalizados, excluídos e banidos", decreta Bauman¹. Para ele, o Anjo da História de Klee está em pleno voo. Ao passado. "Sua face está girando do passado para o futuro, mas suas asas sendo puxadas para trás pela tempestade, golpeando esse tempo do futuro imaginado, precipitado e antecipadamente temido em direção ao paraíso do passado (ele próprio imaginado retrospectivamente, depois de ter sido perdido e reduzido a ruínas)." A pressão sobre as asas é tão violenta que ele não pode mais fechá-las.

Novas expressões começam a povoar as discussões acadêmicas e não acadêmicas: "Em busca do abrigo primal" e "De volta às tribos" são algumas, e outra interessante é ainda mais clara - "Caverna retrotópica platônica", cunhada pelo historiador Leandro Karnal. A magnitude do tema extrapola estas linhas, portanto fico por aqui. Vamos ver isso no cotidiano. 

Você leu aí em cima Em busca do abrigo primal. Você leu nos posts anteriores bolha epistêmicacâmara de ecosala de espelhos, referências explícitas para caverna. Qual caverna não produz eco? O que isto quer dizer? Que dizer que o homem está se isolando, usando a tecnologia como forma de manter-se abrigadoprotegidoseguro e anônimo - sem identidade -, sem romper o fio umbilical com a 'civilização'. Liberdade e segurança, exposição e proteção - um paraíso, só que por trás de uma tela fechado entre quatro paredes. Ou dentro de uma bolha. Que paraíso é esse? Lembra da multidão de solitários, da geração de surdos? Não seria uma forma dissimulada de culto à personalidade?

O que isso tem a ver com a ufotopia? O que tenho observado pelas lentes da minha experiência, é que os ufólogos já não estão nem aí se disco voador existe ou não, ele é um mero "detalhe"! O que lhes importa realmente é continuar com a algaravia discursiva com a aquiescência da tribo para seguir brincando de ciência e animando picadeiros. Reitero que há anos eles tentam inutilmente provar o improvável, defender o indefensável, sustentar o insustentável, recusando-se a aceitar o fracasso anunciado. e é sabido que repetir continuamente uma ação esperando por resultados diferentes é indicativo inequívoco de esquizoidia. Para quem não sabe, esquizoidia é um conjunto de sintomas potenciais de esquizofrenia como, por exemplo, dificuldade de adaptação à realidade e forte predisposição ao devaneio. T
orna-se fundamental, portanto, manter o circo falido com seu disco voador de papel, é sua referência identitária. Tire isso deles e não terão mais um rosto para ser visto na sala de espelhos e suas vozes ecoarão no vazio de suas existências. Quem não vê o próprio rosto não vê o rosto do outro; quem não vê o outro não vê a si mesmo. Quem não vê seu rosto vê o que, vê quem? Quem não vê a si e ao outro não pode ver o rosto do mundo e não será visto por ele! A bolha, os ecos e os espelhos os protegem!

Aqui vou mais longe (acho que já escrevi sobre isso em algum momento): Se estamos falando de bolha, caverna, útero... por que não urna, vaso ou nave? Nave, na arquitetura, é a parte central da igreja, ponto sagrado de encontro dos fieis; vaso (de guerra) é o mesmo que navio, do grego naos, do latim navis, nave; urna (também vaso), se mortuária, conserva os ossos, as cinzas, a 'identidade' do morto. Por que não pensar que o "disco voador" - nave, bolha, vaso, útero - não possa ser o "espaço simbólico" que preserva a imagem, o corpo, a 'rosto', 
centro sagrado de convergência de dedicados sectáriosÉ uma reflexão bastante plausível. Ela se inspira na fábula do monge que, caminhando em silêncio pelos jardins do mosteiro na companhia de outro mais velho, pergunta - Será que Jesus existiu?, ouvindo a resposta - Isso não importa, continue orando. E seguiram em muda contemplação.

Em relação à 'caverna platônica retrotópica', nosso útero primitivo, na ufotopia isso parece ser via de mão única. Tenho notado que casos antigos com destaque na imprensa (não necessariamente) têm sido revisitados com o falso verniz de "novos dados investigativos", "novos depoimentos" ou "novos documentos secretos revelados" e outros firulas. Já não é apenas falta de conteúdo - nunca teve -, é não ter mais histórias para contar. Então surge uma "volta às origens", aquilo que era novidade, despertava interesse e promovia debates simplesmente extinguiu-se como fogo fátuo, dando lugar a reminiscências e repetições.

Acabou aquela casuística bizarra que alvoroçou gerações de pesquisadores. A fonte secou, é o fim da farsa. Sobrou vasculhar os arquivos, agarrar-se às lembranças, encantar-se com as sombras na bolha. Não havendo futuro, resta o passado, a retrotopia,
 "Uma terra estranha, território desconhecido, não visitado, não testado, não experimentado". Se o futuro salga nossos sonhos mais doces, a saída é recolher-se de volta ao útero, à bolha. À nave.


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 ¹  https://outraspalavras.net/posts/bauman-assim-chegamos-a-retrotopia/ acessado em 11/05/2018.
BAUMAN, Zygmunt; DESSAL, Gustave. O Retorno do Pêndulo. Zahar. 2017.
_________. Retrotopia. Zahar, 2017.  

sexta-feira, 8 de junho de 2018


A REALIDADE DO PRAZER

Quem é do ramo conhece as expressões que estão no título. Com eles, tento fazer uma ponte - ou pinguela - entre Psicanálise e ufotopia, ou entre Freud e o "fenômeno" dos discos voadores. Se alguém quiser contribuir com seu conhecimento sobre a matéria, ficarei grato. Os itálicos são meus. 

Alguns autores definem o princípio de prazer como a canalização das energias psíquica e orgânica com o propósito de obter a satisfação almejada. Como ela pode não ser inteiramente alcançada, ou por frustrações basicamente internas ou por aspectos socioculturais, o princípio de realidade se impõe: uma autocensura faz com que o indivíduo desobedeça questões éticas e morais para atingir o pleno gozo de seus desejos. Não é tão simples assim. É sabido que o princípio do prazer é regido pelo funcionamento do id, uma vez que sua principal característica é de caráter econômico, isto é, diminuir os níveis de tensão do aparelho psíquico. Já o princípio de realidade é tido como regulador, ao modificar o princípio de prazer em relação aos caminhos que este trilha em busca da satisfação pretendida. Freud explica: 

Sabemos que o princípio do prazer é próprio de um método primário de funcionamento por parte do aparelho mental, mas que, do ponto de vista da autopreservação do organismo ante as dificuldades do mundo externo, ele é, desde o início, ineficaz e até mesmo altamente perigoso. Sob a influência dos instintos de autopreservação do ego, o princípio de prazer é substituído pelo princípio de realidade. Este último não abandona a intenção de fundamentalmente obter prazer; não obstante, ele exige e opera o adiamento da satisfação, o abandono de uma série de possibilidades de obtê-la, e a tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer.

Ainda segundo Freud, estes dois princípios não devem ser vistos separados, pois há entre eles uma ligação fundamental, sucessiva e sequencial, interagindo ao longo da vida. Entretanto, no indivíduo adulto, as demandas "imediatistas e mágicas do princípio do prazer são bem mais cultuadas". É importante destacar, para melhor compreensão, a importância das estruturas psíquicas - id, ego e superego. Id é a estrutura mais primitiva e mais difícil de ser acessada, regida pelas pulsões inconscientes onde não vigoram quaisquer inibições ou censuras e conceitos de certo e errado. Ego é aquela estrutura em que a pessoa é consciente de seus deveres e obrigações, ou seja, censuras e inibições atuam permanentemente. Já o superego é construído no curso da vida através das vivências pessoais e das circunstâncias. Entende-se o ego, portanto, como a estrutura intermediária ordenadora que equilibra e controla esses extremos - id e superego-, lidando com os conflitos internos e externos. Um ego "desajustado" desestabiliza a balança e projeta um possível colapso.

Freud postulava que há uma prevalência do princípio de prazer sobre o de realidade devido à necessidade psíquica em manter o equilíbrio das pulsões. Ele já detectara isso nos casos estudados desde os primeiros meses de vida e nos anos da primeira infância. O psicanalista Bruno Bettelheim desenvolveu de modo pioneiro a relação dos contos infantis com a psicanálise, como forma de expressão literária voltada a questões ligadas à disciplina e religião, entre ouras. Ou seja, desde cedo estamos submetidos a condicionamentos comportamentais e estruturais que nortearão nossa vida nas atitudes e pensamentos nos âmbitos social, cultural, e, muito particularmente, psicológico e emocional. Percebeu como isso é de suma importância? E ainda mais, se considerarmos que Freud, em 
A Interpretação dos Sonhos, entre outros autores, faz conexões dos sonhos e demais instâncias e as relações da criança e do adulto consigo mesmo e com as vivências cotidianas. Em síntese, desde cedo o sujeito está em busca do prazer, não da realidade. Esse é um dado real e inegável - evitar sofrimento, a dor, a angústia, os pesadelos fugir enfim do mundo real.

É preciso ressaltar o quanto contos e sonhos adquirem semelhanças quando postos na perspectiva dos conflitos internos do mecanismo psíquico em busca do prazer, e no encontro com a realidade que acontece o tempo todo, ainda que em planos distintos: os sonhos são manifestações do id enquanto os contos envolvem experiências práticas conscientes do ego, que estimulam entender o mundo com todas as suas regras sociais. Sobre isso, Bettelheim nos diz que:

Nos sonhos, quase sempre a realização do desejo é disfarçada, enquanto que no conto ela é expressa abertamente. Num nível considerável, os sonhos são o resultado de pressões internas que não encontraram alívio (...) O conto faz o oposto: Ele projeta o alívio de todas as pressões e não só oferece caminhos para resolver os conflitos como promete uma solução 'feliz' para eles (p.52).

[Observação oportuna e necessária: Se substituirmos os contos pelas narrativas da ficção científica, a interpretação dos conteúdos oferece significativas explicações no contexto da ufotopia]

Eis o ponto-chave: o desejo ou a necessidade de encontrar um caminho, ainda que não se saiba exatamente aonde chegar, seria a representação do funcionamento do princípio de prazer, enquanto a necessidade de saber o que se deseja para prosseguir no caminho certo está atrelada ao princípio de realidade. Tem-se aí, pois, a manifestação dos conflitos entre satisfação e realidade, entre id e ego. O problema maior reside quando não se distingue o conto, a fábula, a fantasia, da realidade. Volto a Bettelheim:

Não podemos controlar o que se passa em nossos sonhos. Embora nossa censura interna influencie aquilo que venhamos a sonhar, esse controle corre em um nível inconsciente. O conto de fadas, por outro lado é, em grande parte, o resultado de o conteúdo comum consciente e inconsciente ter sido moldado pela mente consciente, não de uma pessoa em particular, mas pelo consenso de várias a respeito daquilo que consideram problemas humanos universais e de que se aceitam como soluções desejáveis.

Kant é cirúrgico e enfático quando aponta que a busca do prazer está em rota de colisão com a realidade, simplesmente porque quanto mais o desejo de prazer aflora, mais diminui a capacidade de pensar, raciocinar, deliberar. Prazer e reflexão são mutuamente excludentes. Todo aprendizado pressupõe dor, desconforto, correção contínua, conflito, enfrentamento, amargura, tristeza, elementos fora do campo do prazer. Tal explicação é fulminante e esclarecedora. Nosso principal atributo, nosso bem mais valioso é pensar, e pensar é obstáculo duro na busca do prazer, da felicidade. Se vivêssemos exclusivamente para o prazer, seríamos todos animais cuja única finalidade seria comer, dormir e copular até não mais poder, vale dizer, supremacia dos hormônios sobre os neurônios. Acho que está tudo muito claro aqui.

Agora trago dois conceitos cruciais como reforço complementar no entendimento dessa questão: ética da convicção e ética da responsabilidade, ambos vivamente associados aos princípios apresentados, ainda mais tendo em vista o ambiente recheado de polarizações virulentas e embates destemperados em todos os níveis. Suponho que você já tenha feito a correspondência: convicção e prazer, responsabilidade e realidade. Segundo Max Weber, que estabeleceu a distinção, ética da convicção 
é o conjunto de valores que orientam o comportamento do indivíduo na esfera privada. A ética da responsabilidade representa o conjunto de normas que moldam suas ações a partir das relações com o outro, em última análise, com a sociedade. Em outras palavras, de um lado, os interesses pessoais, de outro, os coletivos. Ética é a arte da convivência.

Não é preciso muito esforço para perceber que a ética da convicção engloba todo o arcabouço da bolha epistêmica, da câmara de eco, do viés de confirmação e da ilusão de conhecimento, que já vimos, acrescida de um quinto elemento, a 'sala de espelhos', conforme Bauman*:

Nesse estado anímico de instabilidade, maníaco, esquizofrênico, o homem está desesperado buscando uma solução mágica. Torna-se agressivo, brutal na relação com os demais. Usamos os avanços tecnológicos que, teoricamente, deveriam nos ajudar a estender nossas fronteiras, no sentido contrário. São utilizados por nós para nos tornar herméticos, para nos fecharmos no que chamo de echo chambers, um espaço onde a única coisa que escutamos são ecos de nossas vozes, ou para nos fechar em um "hall dos espelhos", onde só reflete nossa própria imagem e nada mais. 

Ele reforça a ideia de que vivemos em dois mundos paralelos - online e offline. O primeiro nos coloca metade do tempo diante de uma tela no mesmo momento em que tocamos a vida diária. A outra metade do tempo passamos realmente offline. O que ele está dizendo é que fugimos da realidade - e da responsabilidade - correndo para o porto mais seguro, o abrigo mais aconchegante, a zona de conforto que nos protege dos males, do desconforto, dos medos e infortúnios. Ali, na virtualidade, nas terras mágicas, nos mundos paralelos, encontramos um substitutivo para a vida social da qual nos esquivamos furtiva e infantilmente dos problemas e das responsabilidades reais. Nos isolamos e nos escondemos atrás das redes, das tecnologias e outros buracos, cavernas, berços e úteros onde nos tornamos herméticos emparedados. Como sempre, é uma questão de escolha. O problema, grave e insolúvel, é que tais escolhas são feitas por crianças travestidas de adultos.

A ética da convicção, junto com o princípio do prazer, denota um jogo de interesses em que responsabilidade e realidade são cartas fora do baralho. É o negócio dos fracos, covardes, levianos, com vocação para a irresponsabilidade e o desrespeito, onde se revela a falha de caráter pela consciência dos erros cometidos, e falta dele pela constância igualmente consciente dos mesmos erros. Quem vive na realidade vive com responsabilidade. 

Fica nítido o que move o espírito dos, na falta de outro nome, ufólogos: Convicção pelo prazer, a começar pela relação com as alegadas testemunhas. No afã de provar o improvável defender o indefensável - suas crenças delirantes e paranoicas -, escancaram a vida dessas pessoas sem qualquer apreço pela privacidade, exibindo publicamente suas identidades, profissão, condições, expondo-as ao constrangimento, ao escárnio e ao ridículo. Em qualquer campo de atividade em que se exerça a prática investigativa, há certos preceitos fundamentais que regem a conduta e as ações do examinador, de modo a produzir resultados legítimos e confiáveis, amplamente aceitos e reconhecidos pela comunidade científica. Entre estes preceitos, responsabilidade, dignidade e ética, e o mais importante, absolutamente imprescindível - conhecimento sobre o objeto de estudoEis aí a ilusão de saber explicativoum saber que é a somatória de zero sobre zero, produto de um capital cognitivo nulo e indigência intelectual. Que conhecimento podem ter sobre "disco voador" se não têm inteligência suficiente para saber que não têm inteligência suficiente para saber? Egos inflados pavoneando-se de um conhecimento inexistente, então, como o pavão, não podem voar e passam o tempo ciscando farelos, sobras e insetos. Como transmitir conhecimento de algo que não se conhece? Onde faltam ética e responsabilidade faltam decência, dignidade, respeito e vergonha na cara.

É evidente que são todos leigos, amadores despreparados, ignorantes no trato da coisa, movidos pelo desejo e necessidade de uma resposta definitiva, satisfatória e totalizadora para suas profundas carências, e como rota de saída de uma realidade que devora suas nais loucas utopias. Sua câmara de eco é a plateia cativa encantada que aplaude estimulando a patuscada, O viés de confirmação são os atores falando para atores do mesmo palco. Em nome de uma convicção insensata, há a preferência pelo prazer em detrimento do dever. O dever é para gente adulta, e o que acontece é uma inconsequente fuga da realidade que esfacela o compromisso inalienável com a responsabilidade. Com a decadência da cultura e por extensão, da civilização, o mundo líquido tão brilhantemente proclamado por Bauman parece estar se vaporizando...



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*http://www.ihu.unisinos.br/eventos/559679-vivemos-em-dois-mundos-paralelos-e-diferentes-o-on-line-e-o-off-line-entrevista-com-o-sociologo-zygmunt-bauman acessado em 29/05/2018.
FREUD, S. Além do Princípio do Prazer - psicologia de grupo e outros trabalhos. Imago, 1969.
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise nos Contos de Fadas. Paz&Terra, 2007.
DALRYMPOLE, Theodore. Podres de Mimados. É Realizações, 2015.