Obras

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sábado, 30 de março de 2019


TERRA DE INSANOS


O texto de hoje é transcrição integral da coluna de Joel Pinheiro da Fonseca, publicado na Folha de São Paulo em 12/03/2019. A matéria tem tudo a ver com a tônica deste blog, além remeter ao post Stultifera Navis, tanto que o título originalmente pensado para o post de hoje era Circulus Stultorum - Círculo de tolos. "Terra de insanos" é mais contundente. O texto é tão claro e tão óbvio que dispensa comentar, nada diferente do que você está acostumado a ler aqui, só que agora por outras letras. Os sublinhados são links originais. O cardápio é variado - uma crença esdrúxula, teoria da conspiração, mania persecutória, defesa em bloco, lógica torta, rejeição social... um banquete para a Psicanálise, a Psicologia do Comportamento, Neurociências e, em casos mais graves, Psiquiatria. Na sequência, por oportuno, resenha de matéria veiculada no blog Factor 3024 de Alejandro Agostinelli acerca de um "contatado" brasileiro que apresenta uma "nova e revolucionária" teoria, a da Terra... convexa, segundo o parlapatão, ensinada pelos seus "amigos alienígenas". (Tradução livre).

O leque de crenças toscas e absurdas inclui, além da Terra plana alvo da matéria, Terra oca, discos voadores, fadas, anjos, espíritos, simpatias, superstições, cristais e muito mais. Toda crença é um areal movediço do qual só se escapa se alguém jogar uma corda. Repito, este blog se propõe ser um candeeiro iluminando o caminho para longe deste charco. As escolhas que fazemos determinam o mundo em que queremos viver.

A Terra não é plana, mas...
Joel Pinheiro da Fonseca
Economista, mestre em filosofia pela USP


documentário "A Terra é Plana" (Behind the Curve, Daniel J. Clark,2018), disponível no Netflix, mão apenas sacia nossa curiosidade mórbida por um movimento de crenças bizarras (no caso, de que nosso planeta não é uma esfera e sim um disco). Ele nos mostra a dimensão política da crença humana e o quão pouco somos guiados pela razão. No Brasil, ainda podemos considerar a esfericidade da Terra como uma verdade óbvia. Podemos buscar entender os terraplanistas, portanto, sem levar a sério o mérito de suas teses. Se eles crescem e se organizam,  não é pela racionalidade dos argumentos. A especulação tem que estar em algum outro mecanismo psicológico, que guardará lições sobre muitos outros movimentos. Primeiro ponto provável: as redes sociais foram condição necessária para o terraplanismo florescer. Nelas, pessoas comuns podem gerar seu conteúdo e chegar a milhões de outras sem passar por nenhum crivo da ciência institucional. Comunidades se formaram e se retroalimentam, fortalecendo o sentido de uma causa comum e convertendo pessoas que, não fosse pelas redes, jamais questionariam o formato da Terra 

Segundo ponto: os terraplanistas falam a língua do homem comum, enquanto a linguagem dos cientistas lhes é inacessível. Science just throws math at us, diz um dos expoentes do movimento, contando vantagem. E ele está certo. Alguns dos cientistas ouvidos pelo documentário, por sua vez, lutam para não transparecer o óbvio desprezo que sentem pelo terraplaniusmo, o que só fortalece nos membros o sentimento de que o sistema os persegue.

Afinal, é impossível acreditar que a Terra é plana sem, ao mesmo tempo, acreditar que toda a comunidade científica, as universidades, o governo e a mídia estão metidos numa conspiração para nos enganar sistematicamente. Sendo assim, nenhum argumento vindo da comunidade científica será persuasivo. As crenças humanas não se destinam apenas a conhecer a verdade, cumprem também uma função social de coesão geral e sentido de pertencimento. Somos apresentados a pessoas que se sentiam sozinhas e excluídas. Em muitos casos, o terraplanismo só acentuou o isolamento da família, mas apresentou uma comunidade  na qual se sentem valorizadas e na qual têm o reconhecimento que lhes era negado.

Pois as energias dos terraplanistas não estão no debate científico. Seus olhos brilham é com a política:
querem ocupar espaços (no currículo da educação pública, por exemplo) e se fazer ouvir. Organizam eventos, militam nas redes militam nas redes, veem-se como um coletivo em uma luta heroica contra um inimigo maligno. Ninguém se convence racionalmente de que a Terra é plana e por isso passa a rejeitar o sistema. O messianismo é justamente o inverso: a pessoa já queria, por algum motivo, rejeitar o sistema e, para isso, o argumentos baratos fornecem uma justificativa fácil. Não são, nisso, menos racionais do que nós. Afinal, não temos a prova da maior parte de nossas crenças  (entre elas, a esfericidade da Terra); elas dependem de nossa confiança nas instituições que nos rodeiam. É isso que está em jogo.

Limitar a expansão de seitas em um mundo no qual a informação circula livremente (e é bom que circule, não queremos voltar atrás) é um dos desafios deste século. O terraplanismo exige um salto de fé tão grande que provavelmente encontrará limites naturais. Comunidades de crenças menos absurdas embora também falsas podem ir mais longe e fazer estragos maiores.


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O dia em que silenciaram Urandir, o pregador da Terra convexa
Alejandro Agostinelli

"O congresso não permite esse tipo de estultície". Com estas palavras. o presidente do Congresso Nacional do Paraguai, senador Silvio Ovelar, impediu que o palestrante fizesse sua apresentação na sala Bicameral, em 14 de março último. O sujeito em questão era o brasileiro Urandir Fernandes de Oliveira, conhecido no meio ufológico quando se disse amigo do extraterrestre "Bilu", em 2010. Anos antes, Urandir havia sido condenado por vários delitos - fraude imobiliária, falsidade ideológica e curandeirismoou seja, um vigarista contumaz. O blog faz um apanhado sobre sua trajetória ilícita:


Ao longo dos anos, o desdobramento daqueles que buscavam se relacionar com os presumíveis ocupantes de discos voadores ou "irmãos espaciais" se espalhou, tanto que os cientistas sociais o consideram um movimento religioso em si mesmo. A natureza dessas associações tende a ser homogênea; eles são quase sempre inspirados pelo Espiritismo Cristão, Teosofia ou baseados em ideias de ufologia e ficção científica. A criatividade religiosa brasileira acrescenta uma vantagem de heterogeneidade: no país vizinho há comunidades lideradas por contatados cuja trajetória, doutrina e experiências recebem todo tipo de influências. Na cultura mágica religiosa brasileira existe pelo menos uma versão derivada de cada denominação. Há um discurso evangélico, outro católico, oriental, gnóstico e africanista, quando não são sincretismos que retrabalham as mais diversas visões de mundo. A mesma "ufologia científica" brasileira admite a espiritualidade como uma corrente legítima de pesquisa. Essa mistura de busca espiritual e científica faz parte da paisagem religiosa brasileira, o desrespeito pela diversidade religiosa, sexual e cultural está na agenda do dia do mais alto poder do Estado.


O blog traz um extenso levantamento biográfico, as atividades do farsante, vídeos das "performances paranormais" e outros documentos como, por exemplo, o depoimento de Elaine Sabaliauskas, ex-secretária e ex-namorada de Urandir: "Tudo tem um preço para ele; quando ele faz seus truques, ele só pensa em ficar com o dinheiro das pessoas. Agora [em 2000] está vendendo terras, mas os compradores não têm a escritura. Como ele está sempre cercado por seus homens, ninguém pode questioná-lo". Felizmente desta vez sua farsa não foi adiante porque as autoridades paraguaias foram bem mais sensatas e inteligentes que as brasileiras. Leia a matéria, o link está aí. Este assunto é grave, e voltarei a ele em outro momento, mas se quiser ler algo, vá em Tambores batem, bonecos dançam.


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http://factorelblog.com/2019/03/14/el-dia-que-urandir-no-predico/

sábado, 16 de março de 2019

PRIMITIVA MENTE MODERNA

A despeito de vivermos uma notável era de desenvolvimento tecnológico e científico, continuamos essencialmente presos ao pensamento primitivo mítico-religioso. Não há nenhum paradoxo nisso, ao contrário, basta seguir a linha do tempo da humanidade e veremos o quão isso é verdadeiro. Todas as tribos, sociedades e civilizações, em todos os tempos, desenvolveram suas ciência e sua tecnologia específicas, estruturalmente nada diferentes do que se observa no mundo contemporâneo. Nossa mente atual está envolta por uma finíssima película de "modernidade" que esconde (esconde?) uma inegável conduta primal instintiva de sobrevivência, dominação e medo, este como base da religião a partir do totemismo, impregnado na experiência humana. Observe as imagens do ontem e do hoje e tente negar que continuamos primitivos e identificados com nossos totens modernos. No fundo, só mudou a estética. 


     O pensamento mágico que legisla práticas sociais, ritualísticas e religiosas está vivo nas sociedades contemporâneas.
Só mudam a forma e a linguagem.

Uma explicação bastante resumida do totemismo e do pensamento mágico (mítico-religioso) poderia ser dada, mas é importante ressaltar que são muitos os autores e as interpretações; ainda que divergentes e contestadas, de algum modo se complementam. "O totem indica o fenômeno presente em todos os povos primitivos de transformar uma coisa (natural ou artificial) em emblema do grupo social e em garantia da sua solidariedade" (Abbagnano, p.863). Durkheim é enfático: "Eis no que consiste realmente um totem: é a força material sobre a qual se representam para a imaginação, através de toda sorte de fatos heterogêneos, essa substância imaterial, essa energia difusa, único objeto do outro" (p. 240). Eu me atreveria classificar o totem em três níveis: físico, metafísico e simbólico, mas falarei sobre isso em outro momento.


Frazer, Lévi-Strauss e outros entendem que, ao fundamentar o totemismo como um sistema, surge a explicação sobre a organização de clãs, a atribuição de emblemas animais ou vegetais aos clãs e a crença num parentesco entre o clã e seu totem. Para Malinowski, nas questões relativas ao totemismo e à magia, o importante está em perceber o que os nativos efetivamente fazem, como dão significado à vida e como agem. São os imponderáveis da vida cotidiana. Lévi-Strauss demonstra a relação entre ausência técnica e aspectos mágicos. Esse pressuposto, já levantado por Frazer, é que na ausência da ciência, o elemento aplacador de algumas incertezas entre os nativos seria a magia, recorrendo a ela para evitar ou desfazer temores. Você já leu algo semelhante por aqui, e não estávamos falando de totemismo.

Desse modo, dirá Lévi-Strauss, a dimensão mágica existente na relação dos homens com seus objetos se dá quando a técnica é incapaz de aquietar os espíritos dos primitivos. Desculpe repetir, mas isso você também já leu aqui. É nesse ponto em que a dimensão religiosa e mágica tem destaque com sentido prático: "Todos os ritos e práticas mágicas se reduziriam para o homem a um meio de abolir ou atenuar a ansiedade que ele sente ao atacar empreendimentos cuja saída é incerta. A magia teria, assim, uma finalidade prática e afetiva" (p. 147), grifo meu. Nesse sentido, como forma de elaboração sobre o mundo, os aspectos religiosos têm papel relevante porquanto se apresentariam como fontes primárias de conhecimento e especulação, no entender de Durkheim: "Os primeiros sistemas de representações que o homem produziu do mundo e de si mesmo são de origem religiosa” (p. 37).

O totem, ou o totemismo, é fundamentalmente um elemento distintivo de identidade do grupo, exercendo a função de unidade e coesão como representação de uma 'divindade' física - o patriarca ou o líder do clã, ou espiritual - entes da natureza. Essa posição obviamente lhe outorga um caráter eminentemente sagrado, portanto mítico e místico. Além do aspecto legislador, com práticas e ritos bem definidos e intransgressíveis, os aspectos religioso, mítico e místico/mágico apresentam-se como ordenadores moral; a consagração do totem é um jeito de representar a imortalidade do espírito. Você percebe que não há mudanças significativas no comportamento, nas atitudes e forma de pensar, e nos objetos de adoração nos dias atuais. O cenário "moderno" tecno-científico e uma cultura dita "civilizada" não ocultam o que podemos chamar de "natureza" humana: matar por um pedaço de pão, meio metro de terra ou um ideologia. Mata-se pelo prazer de matar, por esporte, diversão, ódio e psicopatias diversas, coisas que só o animal humano é capaz de fazer.

Vários estudos* apontam o que já se percebe há tempos: a infantilização geral que permeia toda a sociedade numa dimensão anda difícil de ser mensurada. É só olhar em volta. O homem contemporâneo se identifica e se fecha naquilo que lhe traz conforto e segurança emocional - sua "tribo" -, e se "ofende" quando algo não está de acordo com a sua maneira de pensar, de agir, de ser - vestuário, alimentação, sexualidade, política, etnia, religião, ideologia... Não se trata mais de simples polarização ou litígio entre duas zonas de conflito, mas de várias zonas e vários conflitos. Não havendo entendimento, razoabilidade, tolerância, inteligência, o clima será de hostilidade, truculência, tensão, extremismo, enfrentamento, a exemplo do que acontece quando crianças disputam um brinquedo. É a chamada geração "mimimi", geração do "choro" - mimados, ressentidos, ofendidos -, "vítimas" de uma sociedade emocionalmente desestabilizada, ou, como dizem os autores, uma geração a caminho do fracasso.

Pode-se fazer um prognóstico preocupante não muito longe da realidade: retrocesso, empobrecimento intelectivo, falta de lógica e clareza das ações, urgência de resultados (imediatismo), incúria de reflexões. Já falamos disso aqui: Há uma queda cultural orgânica patrocinada pela bolha epistêmica, pelo viés de confirmação, pela câmara de co, pela ilusão de profundidade explicativa e pela sala de espelhos. É o homem acuado em sua caverna num estado anímico de insegurança e esquizofrenia. Se você acha que a minha macro percepção da realidade é perversa, olhe em volta. Eu olho, e o que vejo para além das aparências e da superfície, sem filtros ou desvios, é um cenário contaminado, contagioso e progressivo de insensatez, ignorância e degradação moral que me assusta, num amálgama de pesar, vergonha e repúdio. O totemismo vive na esteira de una mentalidade assombrada, mítica, mística e infantil.

Essa ignorância do e no mundo aniquila a alteridade em seu sentido mais profundo, destroçando a ética e responsabilidade individual. O futuro é sombrio. Para o e crítico social Theodore Dalrymple - ele não é o único -, as fronteiras entre civilização e barbárie estão se esfacelando muito rapidamente, e não há como não concordar, basta olhara em volta, de novo. Penso que ele concordaria comigo se eu acrescentasse que está se desenhando uma "civilização da barbárie"terrível oxímoro -, desregrada e atomizada, que é brutalmente mais grave. Continue olhando em volta, os sinais estão claros por toda a parte. A temperatura está subindo e não é de aquecimento global que estamos falando.

Da mais remota tribo à mais poderosa nação do planeta, das legiões romanas às células terroristas, da mais pura tradição indígena ao mais explícito exibicionismo de narcisismo exótico; dos antigos rituais fúnebres às liturgias missais modernas, e dos rituais xamânicos, oferendas e cerimônias aos cultos divinatórios, feitiçarias e invocações místicas, o ser humano não mudou nada. Permanecemos sendo uma espécie "desconhecida", volátil e frágil, cada vez mais tão frágil que a segunda causa de morte no mundo é a depressão, só perdendo para intercorrências cardíacas. Cérebro e oração não andam lá muito bem e a tendência é piorar. Como nos alerta o dramaturgo e poeta romano Publius Terentius (195-185 a.C.), Homo sum, nihil humani a me alienum puto. Sou humano, e nada do que é humano me é estranho.


    O pensamento primitivo de supremacia, força, poder e distinção atravessa história.  Só mudam a forma e a linguagem

*Autores como Jonatham Haidt (NY University), Greg Lukianoff (Stanford Law School), Frank Furedi (Kent University), entre outros, fizeram pesquisas de largo espectro e publicaram a respeito da infantilização mas universidades e suas consequências em perspectiva global: The Codling of the American Mind: How good intentions and bad ideas are setting up a generation for faiulure. Haidt & Lukianoff, Penguin, 2018.



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DURKHEIM, E. As Formas Elementares da Vida Religiosa. Martins Fontes, 2003.
LÉVI-STRAUSS, C. A noção de estrutura e etnologia; Raça e  História; Totemismo hoje. Abril Cultural, 1980.
________. O Pensamento Selvagem. Papirus, 1989.
FRAZER, J. G. O Ramo Dourado. Circulo do livro, 1978.
LÉVY-BRUHL, L. A Mentalidade Primitiva. Paulus, 2017.
DIAMOND, J. Colapso. Record, 2007.
ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes, 2007.
MALINOWSKI, B, Magia, Ciência e Religião Edições 70, 1984.
DALRYMP[LE, T. Nossa Cultura... ou o que restou dela.  É Realizações, 2015.

sexta-feira, 8 de março de 2019


-8 MALEBOLGE
Ilustração: La barque de Dante (ou Dante et Virgile au enfers), óleo s/lona, Eugène Delacroix, 1822, Musée du Louvre

Encontram-se os Poetas no oitavo círculo, chamado Malebolge, o qual é dividido em dez compartimentos concêntricos. Em cada um deles é punida uma espécie de pecadores, condenados por malícia ou fraude.

Assim se abre o Canto 18 da Commedia (séc. 14), épico teológico do poeta florentino Dante Alighieri - il sommo poeta, um dos cânones da literatura ocidental. Somente no século 16 a obra foi rebatizada La Divina Commedia por iniciativa do também poeta florentino Giovanni Boccaccio. Nesse ponto da jornada, Dante e seu guia, o poeta romano Virgílio, encontram-se no portal do oitavo e penúltimo círculo (vale, penhasco, borda) do inferno, o Malebolge, destinado aos seres mais desprezíveis. Mas eles são tantos que este vale precisou ser dividido em dez fossos cercados por muros de pedra, cada um deles com distintos tipos de condenado. O texto ilustra e justifica o martelo crítico deste blog a alguns integrantes dessa súcia que você vai reconhecer. Dante não esqueceu ninguém: larápios, falsificadores, traidores, velhacos, tiranos, vigaristas, mistificadores, gananciosos, proxenetas, pervertidos, mercenários, promíscuos, facínoras, e ainda incluiu Papas, reis, rainhas, políticos, imperadores, cardeais, filósofos, poetas, etc.


Caronte, Salvador Dali, aquarela, 1960

Em linguagem mais contemporânea mesclada com expressões originais, que pouco mudaram nestes sete séculos, iremos a bordo na barca de Caronte que nos levará aos abismos mais profundos e sombrios para vermos de perto uma pequena parte desse Reino das Trevas com as "imagens pétreas" que se entranharam em nossa cultura e nosso inconsciente. Não se deixe medrar ante o odor repugnante dos rios de sangue, nem pelas súplicas, urros, tormentos, gemidos e gritos lancinantes de dor e desespero; não cerre os olhos à visão aterradora de corpos decompostos, mutilados, inchados, retorcidos, deformados, despedaçados e calcinados, sempre renascidos após devorados pelos vermes para um novo ciclo de torturas, pois logo à entrada lê-se a inscrição:


Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate
Abandonai toda esperança, vós que entrais
La Porte de l'Enfer, Rodin, 1917


Primeiro fosso: Lá estão alcoviteiros e rufiões que exploram as paixões alheias a serviço de seus próprios interesses. Como pena, são continuamente açoitados pelos demônios para satisfazem seus apetites de toda natureza, principalmente sexuais.

Segundo fosso: Aqui estão os aduladores e as mulheres lisonjeiras chafurdando no esterco por se aproveitarem das necessidades dos homens, através da fala maliciosa que deturpa o entendimento das coisas. Estão mergulhados nas próprias fezes, vômitos e secreções que espalharam pelo mundo.

Terceiro fosso: Eis os simoníacos - traficantes do sagrado, hereges, magos, blasfemos, que transgridem e conspurcam os ensinamentos da Igreja.. São enterrados nus, de cabeça  para baixo - batismo invertido - com as pernas ardendo nas labaredas.

Quarto fosso: Encarceram-se os impostores que se dedicam às artes divinatórias; sua punição é ter o rosto torcido para trás, impedidos de olharem para a frente e forçados a caminhar ao reverso. Suas lágrimas escorrem pelas costas e nádegas como castigo por ousarem predizer o futuro, atributo que cabe somente a Deus.

Quinto fosso: Submersos em um lago de piche fervente, debatem-se os corruptos e os trapaceiros, traidores da confiança dos homens. Os que tentam colocar a cabeça para fora são torturados ou lacerados pelos demônios. Estão em poços ocultos, tais como suas tramoias feitas às escondidas.

Sexto fosso: Vestidos com reluzentes e vistosos mantos estão os hipócritas; suas vestes escondem pesada armação de chumbo. Se não sentiram peso na consciência no ato das suas vilanias, sentem-no agora ao arrastar grossos trajes de falso brilho que descarnam seus corpos.

Sétimo fosso: Aqui estão encerrados os ladrões, picados por serpentes peçonhentas; répteis e cães famintos devoram-lhes as carnes e roubam suas tripas e traços humanos, como fizeram com suas vítimas, apoderando-se do que não lhes pertencia por meio da violência e do terror.

Oitavo  fosso: É onde são punidos os falsos conselheiros, envoltos por chamas em oceanos de lava e fustigados por tempestades de raios, por arquitetarem a fraude e a calúnia. "O fogo que os atormenta oculta os conselheiros da fraude, pois seu mal foi cometido escondido. Por pecarem com a língua, sua fala só passa pela língua furtiva da chama".

Nono fosso: Estão confinados os semeadores da discórdia, maledicentes, infames. São atravessados por espadas nas partes do corpo representativas da discórdia perpetrada: cabeças, membros, genitais; língua e orelhas são cortadas, as vísceras expostas, os olhos vazados. São os criadores de cismas religiosos, incentivadores de conflitos sociais e instigadores de desavenças familiares.

Décimo fosso: Destinado aos falsificadores. São punidos com terríveis flagelos, tendo o corpo coberto por chagas pútridas, pestes, lepra, úlceras, sarna, doenças e loucura, representando tudo o que de falso fizeram: remédios, alimentos, obras, moedas, objetos, etc. São os prevaricadores, alquimistas, mentirosos e falsários. Sues corpos estão ocos, putrefatos e fétidos.



Notas......................
Commedia - Do grego Komoidía, de kômos (festa) e oidós (cantor); grupos encenavam curtas peças teatrais e declamavam sátiras de costumes e políticas. Com Dante, a Commedia ganhou o significado de "poema alegórico", diferente da 'comédia' como a conhecemos hoje. A Commedia representa a trajetória humana rumo ao paraíso, por isso Divina. Dante pulsa, mais vivo e necessário do que jamais esteve. Ele mesmo noz diz que importante é ler o que está oculto na polissemia poética das palavras, chave iniciática para o rito de purificação. Sua opus maximum vai além da mera descrição do báratro, é antes a autêntica e cristalina radiografia do humano. Em meio a densa escuridão, Dante consegue nos iluminar pelo melhor caminho.

Malebolge é nome composto criado por Dante a partir de male + bolgia, ou, "bolsão do mal", "vala maldita", ou ainda cavidade, fosso, cova, poço, caverna. Para alguns autores, na Antiguidade havia um gigante horrendo de três cabeças e três troncos até o quadril, uma criatura de natureza tripla: do homem, da serpente e do escorpião - clara alusão à própria fraude. Dante o transformou num monstro fantástico de corpo único como personificação de tudo o que há de malévolo no mundo.



Pimps et Séducteurs, 1892, Gustave Doré


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Henry R. Loyn. Dicionário da Idade Média, Zahar, 1991.
Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, José Olympio, 1988.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

EN NOME DO PAI
Final

Chegamos ao fim da série na qual procuramos apresentar um recorte do pensamento de Freud sobre a influência das religiões e outras doutrinas em nossa vida individual e coletiva, não só sob o ponto de vista cultural e histórico, mas psicológico, psicanalítico e emocional. Para sintetizar todo este vasto e complexo conjunto de proposições, este enunciado do autor talvez possa ser útil: "A crença em deus subsiste devido ao desejo de um Pai protetor e de imortalidade, ou como um ópio contra a miséria e o sofrimento da existência humana". Você certamente compreendeu que este Pai tem várias faces, várias roupagens e circunstâncias. O grande desafio é superar o trauma infantil da proteção paterna, ou de qualquer outra proteção externa que dificulte o caminhar por conta própria. O grande desafio, enfim, diz Freud, é crescer.


Os enigmas do mundo apenas lentamente se desvelam à nossa investigação; há muitas perguntas que a ciência ainda não pode responder. O trabalho científico, porém, é para nós o único caminho que pode levar ao conhecimento da realidade fora de nós. Por outro lado, é apenas ilusão esperar alguma coisa da intuição e da meditação; elas nada podem nos dar senão informações – difíceis de interpretar – acerca de nossa própria vida psíquica, jamais acerca das perguntas cujas respostas são tão fáceis para as doutrinas religiosas. Introduzir o próprio arbítrio nas lacunas e, conforme opiniões pessoais, declarar esta ou aquela parte do sistema religioso mais ou menos aceitável seria sacrílego.

Tais perguntas são importantes demais para tanto; poderíamos dizer: sagradas demais.
Neste ponto, pode-se estar preparado para a seguinte objeção: “Bem, se até os céticos encarniçados admitem que as asserções da religião não podem ser refutadas pelo entendimento, por que não devo acreditar nelas, visto que possuem tanto a seu favor – a tradição, a concordância das pessoas e tudo o que há de consolador em seu conteúdo?” Sim, por que não? Da mesma forma que ninguém pode ser forçado a crer, ninguém pode ser forçado a não crer.

Mas que ninguém se compraza no autoengano de que com tais justificativas está seguindo os caminhos do pensamento correto. Se a condenação de “desculpa esfarrapada” cabe em algum lugar, então é aqui. Ignorância é ignorância; dela não deriva nenhum direito de acreditar em algo. Nenhum homem racional se comportará tão levianamente em outros assuntos nem se contentará com fundamentações tão miseráveis para seus juízos, para sua tomada de partido; ele se permite isso apenas em relação às coisas mais elevadas e mais sagradas. Na verdade, são apenas esforços para criar a ilusão, diante de si mesmo e dos outros, de que ainda se acredita na religião quando há muito já se está desligado dela.

Quando se trata de questões de religião, as pessoas se tornam culpadas de todo tipo de insinceridade e maus hábitos intelectuais. Há filósofos que expandem o sentido das palavras até que estas mal conservem algo de seu sentido original; chamam de “Deus” qualquer abstração nebulosa que criaram e então são deístas, crentes em Deus, diante de todo mundo; podem até se vangloriar por terem descoberto um conceito de deus mais puro, mais elevado, embora o seu deus seja apenas uma sombra sem substância e não mais a personalidade poderosa das doutrinas religiosas. Há críticos que insistem em declarar que uma pessoa que reconhece o sentimento da pequenez e da impotência humanas diante do todo do mundo é “profundamente religiosa”, embora não seja esse sentimento o que constitua a essência da religiosidade, mas apenas o passo seguinte, a reação a esse sentimento, a busca de auxílio contra ele. Quem não vai adiante, quem se conforma humildemente com o papel insignificante do homem na vastidão do mundo, é antes irreligioso no mais verdadeiro sentido da palavra.

Não está nos planos deste estudo tomar posição quanto ao valor de verdade das doutrinas religiosas. Basta que as tenhamos reconhecido em sua natureza psicológica como ilusões. Não precisamos ocultar, porém, que essa descoberta influencia imensamente a nossa atitude quanto à questão que para muitos deve parecer a mais importante. Sabemos aproximadamente em que épocas e por quais homens as doutrinas religiosas foram criadas. Se também soubermos os motivos pelos quais isso aconteceu, nosso ponto de vista em relação ao problema religioso sofrerá um sensível deslocamento. Dizemos a nós próprios que seria realmente muito bonito se houvesse um Deus, criador do mundo e Providência bondosa, se houvesse uma ordem moral universal e uma vida no além, mas é muito estranho que tudo isso seja da maneira como temos de desejar que seja. E seria ainda mais esquisito se nossos antepassados, pobres, ignorantes e sem liberdade, tivessem encontrado a solução de todos esses difíceis enigmas do mundo.


Psicanálise e Religião, Erich Fromm


O problema da religião não se resume ao problema de “Deus”, mas principalmente ao problema do homem nas suas relações consigo mesmo e com o outro. O mais importante é reconhecer se a atitude religiosa é “honesta” e genuína, e se concorre para seu pleno desenvolvimento e felicidade, ou se equivale à idolatria, permanecendo o ser humano em um estado de alienação e aniquilamento da sua própria individualidade.


O estudo do homem permite reconhecer que a necessidade de um sistema comum de orientação e de um objeto de devoção está profundamente enraizada nas condições da existência humana. Neste sentido, o ser humano não pode escolher entre ter ou não ter ideais, pois todos os homens são idealistas, mas o homem é “livre” para escolher entre os vários tipos de ideais. Pode escolher devotar-se ao culto de uma força exterior autoritária, ou pode preferir cultivar a razão e o desenvolvimento interior.
Espero que você tenha apreciado a leitura, e mesmo não concordando com as ideias apresentadas, submeta-as à reflexão. Freud se empenhou em tentar nos explicar, inaugurou uma escola de pensamento que pudesse legitimar e dar inteligibilidade a temas inauditos. É preciso reconhecer e retribuir seu esforço com um mínimo de introspecção e máximo de ação. Falar consigo mesmo ouvindo o próximo, olhar para dentro de si através do olhar de fora - do outro -, mas atenção, Freud não estava falando de likes e selfies. O ponto é outro, e atenção de novo, o custo dessa operação interna é alto. Há uma óbvia tensão aporística em jogo que só pode ser resolvida pela maturidade e autonomia, com todos os efeitos colaterais implicadose é aí que mora o problema! Você sabe do que estou falando, não preciso repetir. 


Para encerrar com uma singela reverência ao "Pai" da Psicanálise, tomo emprestada e faço minha a frase extraída de Eneida, de Vigílio (Livro VII, verso 312), a qual Freud usou como epígrafe em uma de suas obras:


Flectere si nequeo superos, Acheronte movebo
Se não posso mover os céus, moverei o inferno


Acheronte é o rio do inferno, Caronte é o barqueiro, A tradução da frase é: Se não posso mudar o acima, mudarei o abaixo. Se não me tocam todas as virtudes, livrem-se-me as falhas. Se não me é dado ser maior, que não seja menor. Se não posso ascender, que não caia. Na próxima postagem, a nau de Caronte nos levará, com todas as cores e dores, ao mais tenebroso abismo da experiência humana. Aguarde.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

ALÉM DA ALMA
Parte 4

Estamos perto do final da série, e reitero a recomendação: se você não leu os textos anteriores, faça-o, para absorver o conjunto da obra. São textos curtos de de fácil compreensão. Nesta penúltima parte, a questão em pauta trata das forças pulsionais que encorpam as crenças religiosas, ainda que tais pulsões se processem pelo poder dos desejos mais antigos sempre presentes no tempo histórico da humanidade, que atravessa uma penosa jornada de amadurecimento inteiramente dependente do amparo paterno. Um rito de passagem para a maturidade que vai muito além da alma.



Acho que preparamos suficientemente a resposta a ambas as perguntas. Ela se apresenta quando atentamos para a gênese psíquica das ideias religiosas. Estas, que se apresentam como proposições, não são produto da experiência ou resultados finais do pensamento; são ilusões, são realizações dos desejos mais antigos, mais fortes e mais prementes da humanidade, e o segredo de sua força está na força desses desejos. Já sabemos que a apavorante impressão do desamparo infantil despertou a necessidade de proteção – proteção através do amor –, que é satisfeita pelo pai; a percepção da continuidade desse desamparo ao longo de toda a vida foi a causa de o homem se aferrar à existência de um outro pai – só que agora mais poderoso.

Através da ação bondosa da Providência divina, o medo dos perigos da vida é atenuado; a instituição de uma ordem moral universal assegura o cumprimento da exigência de justiça que com tanta frequência deixou de ser cumprida na cultura humana; o prolongamento da existência terrena através de uma vida futura prepara o quadro espacial e temporal em que essas realizações de desejo devem se consumar. As respostas de questões enigmáticas para a curiosidade humana, como as da origem do mundo e da relação entre o físico e o psíquico, são elaboradas sob os pressupostos desse sistema; para a psique individual, significa um imenso alívio que os conflitos da infância que se originam do complexo paterno, nunca inteiramente superados, lhe sejam tomados e levados a uma solução aceita por todos.

Quando digo que tudo isso são ilusões, preciso delimitar o significado da palavra. Uma ilusão não é o mesmo que um erro, e ela também não é necessariamente um erro. A opinião de Aristóteles de que os insetos se desenvolvem a partir de restos, sustentada ainda hoje pelo povo ignorante, era um erro, e, do mesmo modo, a opinião de uma geração anterior de médicos de que a tabes dorsalis (do latim – problema de coordenação motora provocado por uma alteração degenerativa da medula espinhal, geralmente causada pela sífilis) era consequência de excessos sexuais. Seria abusivo chamar esses erros de ilusões.

Em contrapartida, foi uma ilusão de Colombo achar que tinha descoberto um novo caminho marítimo para as Índias. A parcela de seu desejo nesse erro é bem evidente. Pode-se chamar de ilusão a afirmação feita por certos nacionalistas de que os indo-germânicos são a única raça humana capaz de cultura, ou a crença, que apenas a psicanálise destruiu, de que a criança é um ser sem sexualidade. É característico da ilusão o fato de derivar de desejos humanos; nesse aspecto, ela se aproxima da ideia delirante psiquiátrica, mas, abstraindo da complicada construção desta, também dela se diferencia. Destacamos como essencial na ideia delirante a contradição com a realidade; a ilusão não precisa ser necessariamente falsa, quer dizer, ser irrealizável ou estar em contradição com a realidade. Uma mocinha plebeia, por exemplo, pode ter a ilusão de que um príncipe virá buscá-la. É algo possível; já aconteceram alguns casos desse tipo. Que o Messias venha e funde uma Idade de Ouro é muito menos provável; conforme a posição pessoal daquele que a julga, ele classificará essa crença como ilusão ou como análoga a uma ideia delirante.

Exemplos de ilusões que tenham se mostrado verdadeiras não são fáceis de achar. Porém, a ilusão dos alquimistas de poder transformar todos os metais em ouro poderia ser uma dessas. O desejo de possuir muito ouro, tanto ouro quanto possível, se encontra muito arrefecido por nossa compreensão atual das condições da riqueza; contudo, a química não julga mais impossível uma transformação dos metais em ouro. Portanto, chamamos uma crença de ilusão quando se destaca em sua motivação o cumprimento de desejo, ao mesmo tempo em que não levamos em conta seu vínculo com a realidade, exatamente do mesmo modo que a própria ilusão renuncia a suas comprovações.

Se, depois de nos orientarmos, nos voltarmos outra vez às doutrinas religiosas, podemos repetir: todas são ilusões, são indemonstráveis, e ninguém pode ser obrigado a tomá-las por verdadeiras, a acreditar nelas. Algumas são tão inverossímeis, se encontram de tal modo em contradição com tudo que descobrimos arduamente sobre a realidade do mundo, que podem ser comparadas – considerando devidamente as diferenças psicológicas – às ideias delirantes. É impossível julgar o valor de realidade da maior parte delas. Assim como são indemonstráveis, também são irrefutáveis. Ainda sabemos muito pouco para nos aproximarmos delas criticamente. 



A Civilização e os seus Descontentamos, Europa-América, 2005.

O homem comum entende como sendo a sua religião um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explica os enigmas deste mundo com uma perfeição invejável, e que, por outro, lhe garante que uma Providência atenta cuidará da sua existência e o compensará, numa futura existência, por qualquer falha nesta vida. o homem comum só consegue imaginar essa Providência sob a figura de um Pai extremamente elevado, pois só alguém assim conseguiria compreender as necessidades dos filhos dos homens ou  enternecer-se com as suas orações e aplacar-se com os sinais dos seus remorsos.

Tudo isto é tão manifestamente infantil, tão incongruente com a realidade, que para aquele que manifeste uma atitude amistosa para com a humanidade é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de estar acima desta visão de vida

É ainda mais humilhante descobrir como é grande o número de pessoas, hoje em dia, que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável, e, no entanto, tendam defendê-la sucessivamente, numa série de lamentáveis atos retrógrados. Gostaríamos de pertencer ao número dos crentes, para podermos advertir os filósofos que tentam preservar o Deus da religião substituindo-o por um princípio impessoal, obscuro e abstrato, e dizemos: "Não usarás o nome de  Deus em vão!". Alguns dos grandes homens do passado fizeram o mesmo, mas isso não serve de justificação para nós; sabemos porque é que tiveram que o fazer.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

CREDO QUIA ABSURDUM?
Parte 3

Freud segue analisando o universo religioso sob a ótica psicanalítica, sem descurar dos aspectos culturais, sociais e históricos. Cabe trazer um novo trecho do Prefácio para clarear algumas possíveis zonas de sombra:


Ao escrever sobre religião naquele momento específico da sua obra, Freud luta para estabelecer a psicanálise enquanto campo de saber que formula uma concepção de aparelho psíquico, que por sua vez fornece a base de uma nova terapêutica para o sofrimento mental humano. O sofrimento mental humano não é nem o produto de forças exteriores, como a religião faz acreditar, nem o produto de lesões corporais ou de heranças familiares, como a medicina fazia crer até então. É na história singular de cada homem, em conjunção com as forças pulsionais que habitam seu corpo e inscritas na constituição de seu psiquismo, que encontramos as razões para o sofrimento psíquico que se expressa através de seu corpo e de sua alma.


Agora é preciso mencionar duas tentativas que dão a impressão de um empenho obstinado em fugir ao problema. Uma delas, de natureza forçada, é antiga; a outra, sutil e moderna. A primeira é o credo quia absurdum do padre da Igreja*. Isso significa que as doutrinas religiosas escapam às reivindicações da razão, que estão acima dela. Deve-se perceber a sua verdade interiormente, não é preciso compreendê-las. Só que esse credo é interessante apenas como confissão; como imperativo, não possui qualquer obrigatoriedade. Sou obrigado a acreditar em qualquer absurdo? Em caso negativo, por que justamente nesse? Não há instância alguma acima da razão. Se a verdade das doutrinas religiosas depende de uma vivência interior que a ateste, o que fazer com as muitas pessoas que não têm semelhante vivência rara?

Pode-se exigir de todos os homens que empreguem o dom da razão que possuem, mas não se pode erigir uma obrigação que seja válida para todos sobre um motivo que existe apenas para bem poucos. Se alguém obteve a convicção inabalável na verdade real das doutrinas religiosas graças a um estado extático que o impressionou profundamente, que importa isso ao outro? A segunda tentativa é a da filosofia do “como se”. Ela afirma que em nossa atividade intelectual abundam suposições cuja falta de fundamento, cujo absurdo até, reconhecemos inteiramente. São chamadas de ficções, mas, por variados motivos práticos, teríamos de nos comportar “como se” acreditássemos nelas.

Tal seria o caso das doutrinas religiosas em razão de sua incomparável importância para a conservação da sociedade humana. Essa argumentação não está muito longe do credo quia absurdum. Penso, porém, que a reivindicação do “como se”¹ é de um tipo que só filósofos podem fazer. O homem que não seja influenciado em seu pensamento pelas artes da filosofia nunca poderá aceitá-la; para ele, a questão está liquidada com a confissão de absurdo, de irracionalidade. Ele não pode ser obrigado, precisamente ao tratar de seus interesses mais importantes, a renunciar às certezas que costuma exigir em todas as suas atividades habituais.

Recordo-me de um de meus filhos, que se destacou precocemente por uma insistência especial na objetividade. Quando se contava uma história às crianças, que a escutavam atentamente, ele vinha e perguntava: “Essa história é verdadeira?”. Depois que se respondia que não, ele se afastava com uma cara de desdém. É de se esperar que a humanidade logo passe a se comportar da mesma maneira em relação aos contos da carochinha religiosos, a despeito da intercessão do “como se”.

Atualmente, porém, ela ainda se comporta de modo bem diferente, e, em épocas passadas, apesar de sua indiscutível carência de comprovação, as ideias religiosas exerceram sobre ela a mais forte influência. Esse é um novo problema psicológico. Deve-se perguntar: em que consiste a força interna dessas doutrinas, a que circunstâncias devem a sua eficácia, que é independente de reconhecimento racional?


* Freud alude a Tertuliano (c.160 - c. 220), teólogo romano, um dos primeiros autores cristãos, apologético do cristianismo. A frase não se encontra em nenhuma obra sua, ms é atribuída a ele, e seu significado não é apenas "creio embora seja absurdo", mas "creio porque é absurdo", fazendo frente às heresias gnósticas: "Sem hesitações contrapomos  aos adulteradores da nossa doutrina o argumento preliminar da prescrição, em nome do qual proclamamos como única regra de verdade aquela que nos foi transmitida por Cristo mediante seus apóstolos., das quais é fácil constatar o quão tardios são estes discursos contestadores". (Cf. Giovanni Reale & Dario Antiseri, "História da Filosofia Patrística e Escolástica". Paulus, 2005, p. 78).

¹ Espero não cometer nenhuma injustiça se atribuo ao filósofo do “como se” uma perspectiva que também não é alheia a outros pensadores. (Cf. Hans Vaihinger, A filosofia do “como se”, 8ª ed, 1922, p. 68): “Incluímos no âmbito das ficções não apenas operações teóricas, indiferentes, mas também formações conceituais que foram imaginadas pelos homens mais nobres, às quais o coração da parte mais nobre da humanidade está afeito e que esta não se deixa arrebatar. E de modo algum queremos fazer isso – como ficção prática, deixamos que tudo isso subsista, mas como verdade teórica, perece.”


As Palavras de Freud. Cia. das Letras, 1998.

(...) No que diz respeito à proteção prometida pela religião aos seus adeptos, penso que nenhum de vós consentiria em subir para um automóvel cujo condutor declarasse não querer incomodar-se com as determinações que regulamentam a circulação para obedecer apenas aos ímpetos exaltantes da sua própria fantasia.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019


O ESPÍRITO, A PSIQUE
Parte 2

Nesta segunda parte do capítulo V de "O Futuro de uma Ilusão", Freud discorre sobre as relações da religião com o espiritismo e como este tenta se sustentar nas proposições daquela. Freud escreveu esta obra em 1927 e é um clássico absolutamente atemporal. Um mergulho nas profundezas abissais da psique à procura de si mesmo. Há semelhanças originais entre espírito e psique: De forma resumida, mas objetiva: Espírito, do verbo latino spirare, do grego pneuma - sopro, alento, aquilo que vivifica, intelecto - em geral o significado predominante na filosofia moderna e contemporânea, bem como na linguagem comum (Cf. Abbagnano). Psique, do grego psychē - sopro, inspiração (in spirare), mente, "alma da vida", alento!



Quando perguntamos sobre o fundamento da pretensão de que se acredite nelas [as ideias religiosas], recebemos três respostas que se harmonizam notavelmente mal entre si. Em primeiro lugar, merecem crédito porque nossos ancestrais já acreditavam nelas; em segundo lugar, possuímos provas que nos foram transmitidas precisamente dessa época antiga, e, em terceiro lugar, é absolutamente proibido questionar essa comprovação. No passado, esse atrevimento era punido com os mais severos castigos, e ainda hoje a sociedade vê com desagrado que alguém o renove. Esse terceiro ponto precisa despertar as nossas mais fortes reservas.

A única motivação de semelhante proibição só pode ser o fato de que a sociedade conhece muito bem o caráter duvidoso da pretensão que reclama para suas doutrinas religiosas. Caso contrário, ela certamente colocaria o material necessário, com a maior boa vontade, à disposição de todo aquele que busca formar a sua própria convicção. Por isso, passamos ao exame dos dois outros argumentos com uma desconfiança difícil de apaziguar.

Devemos acreditar porque nossos ancestrais acreditaram. Esses nossos antepassados, porém, eram muito mais ignorantes do que nós; eles acreditavam em coisas que hoje nos são impossíveis de aceitar. Manifesta-se a possibilidade de que as doutrinas religiosas também possam ser desse tipo. As provas que nos deixaram estão registradas em escritos que trazem, eles próprios, todos os sinais de serem indignos de confiança. São contraditórios, retocados e falsificados; quando relatam comprovações efetivas, eles próprios carecem de comprovação. Não ajuda muito afirmar que suas formulações, ou apenas seus conteúdos, têm origem na revelação divina, pois essa afirmação mesma já é uma parte daquelas doutrinas cuja credibilidade deve ser investigada, e nenhuma proposição pode provar a si mesma.

Chegamos assim ao estranho resultado de que precisamente as comunicações de nosso patrimônio cultural que poderiam ter para nós o maior dos significados, às quais cabe a tarefa de nos esclarecer os enigmas do mundo e nos reconciliar com os sofrimentos da vida – de que precisamente elas possuem a mais fraca comprovação. Não poderíamos nos decidir a aceitar um fato para nós tão indiferente quanto o de que as baleias parem seus filhotes em vez de colocar ovos se ele não fosse melhor demonstrável. Esse estado de coisas é por si só um problema psicológico bastante notável. E que ninguém acredite que as observações anteriores acerca da indemonstrabilidade das doutrinas religiosas contenham algo novo.

Ela foi percebida em todas as épocas, e certamente também pelos antepassados que legaram tal herança. É possível que muitos deles tenham nutrido as mesmas dúvidas que nós, porém se encontravam sob uma pressão forte demais para que ousassem expressá-las. E, desde então, um número incontável de homens se atormentou com as mesmas dúvidas, que queriam sufocar porque se julgavam obrigados a crer; muitos intelectos brilhantes sucumbiram a esse conflito, e muitos caracteres sofreram danos em razão dos compromissos em que buscavam uma saída.

Se todas as provas apresentadas em favor da credibilidade das proposições religiosas provêm do passado, é natural verificar se o presente, que pode ser julgado com mais acerto, também pode oferecer tais provas. Se, dessa forma, se conseguisse colocar a salvo de dúvidas mesmo que apenas uma única parte do sistema religioso, o todo ganharia extraordinariamente em credibilidade. É aqui que entra a atividade dos espíritas, que estão persuadidos da continuidade da alma individual e que pretendem nos demonstrar que essa proposição da doutrina religiosa é isenta de dúvidas.

Infelizmente, não conseguem refutar o fato de as aparições e as manifestações de seus espíritos serem apenas produtos de sua própria atividade psíquica. Eles evocaram os espíritos dos maiores homens, dos mais destacados pensadores, mas todas as manifestações e notícias que deles receberam foram tão tolas, tão inconsolavelmente ocas, que não se pode acreditar em outra coisa senão na capacidade dos espíritos de se adaptarem ao círculo de pessoas que os invoca.

[continua na próxima semana]


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Psicanálise e Religião, Erich Fromm

As religiões autoritárias estimulam a dependência humana. É fato que o homem está sujeito à morte, ao envelhecimento e à doença, mas uma coisa é reconhecer a dependência do homem e suas limitações, e outra é estimular essa dependência e cultuar as forças que escapam ao seu controle. Compreender realisticamente, e nas justas proporções as limitações humanas faz parte essencial da sabedoria adulta, mas adorar essas limitações constitui atitude masoquista e autodestrutiva.