Obras

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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

FANATSMO PRISIONEIRO
Imagem: Zenith, bronze, 2010
               Matteo Pugliese

A postagem anterior –  A ópera dos corvos –  escrita com necessária acidez, trouxe comentários de consenso porque, de fato, o comportamento exacerbado de alguns espelha um fanatismo que ultrapassa os limites do razoável. É disso  que vamos falar – fanatismo, como quer que se manifeste – na política, na religião, no esporte. Trata-se de um tema complexo que vai além do campo das Ciências Sociais, exigindo leitura atenta e reflexão permanente. Ademais, é assunto muito atual nestes tempos estranhos de polarização acirrada, autoverdade, enfrentamento e esfacelamento da ética. O alvo de nossa crítica tem sido as crenças pertencentes ao universo do pensamento mágico e ficcional, 
quando no limiar da irracionalidade, o fanatismo: fantasmas, espíritos, anjos, deuses, crendices, superstições e extraterrestres.

Contudo, você sabe que neste blog não dá para aprofundar a discussão como seria desejável, operando mais como um candeeiro a alumiar caminhos, como sempre digo, ou plantar sementes aqui e acolá esperando que germinem em terras férteis. Então, dividi o tema em três partes de modo a proporcionar ao menos um ponto de partida para sua análise, longe de esgotar o assunto. Não ousaria ir além do que a minha experiência permite, recorrendo à literatura e aos conhecedores onde o meu saber esbarrou na ignorância. Espero que os amigos psicanalistas e psicólogos e de outras áreas que estejam lendo este artigo possam dar suas contribuições –  e correções –  se assim julgarem cabíveis.

O que me levou a abordar este tema teve sua origem no post referido, quando certo ufólogo, para sustentar e justificar suas crenças pessoais, decidiu envolver seus dois filhos, um deles adolescente, na tramoia mentirosa e abominável de se colocarem como vítimas de uma abdução alienígena. Sem dúvida, uma atitude que expõe seu caráter – ou a falta dele – desprezível, desregrado e comezinho. As semelhanças com os 
mercadores de ilusão não são coincidências. Como não sou da área médica nem jurídica, pergunto: Uma conduta dessa natureza não caracterizaria um grave transtorno mental ou um ato criminoso? Deixo a palavra com os especialistas.

Fanatismo vem do latim aefanum – templo, santuário, empregado a partir do século 18 para “indicar o estado de exaltação de quem se crê possuído por Deus e, portanto, imune ao erro e ao mal
 (Abbagnano:427). Logo, fanático expressa a convicção de quem fala em nome de um princípio absoluto, seja divindade, líder, poder, seita ou igreja, pretendendo que suas palavras também sejam absolutas. Fanático é traduzido como vigilante, guardião, serviçal, servo, lacaio, escravo do templo e, por extensão, das suas crenças. Estamos falando de um estado psíquico de devoção cega e inflexível que, em grande parte, flerta com o delírio, impossibilitando o diálogo. O fanático tem seu mundo próprio apartado da realidade.

No caso da Ufotopia, centro dessa conversa, seu arcabouço contém os princípios de uma religião embora não seja uma salvo casos muito específicos. Dito de outra forma, o fanático está absolutamente seguro de que suas ideias estão certas, são únicas, verdadeiras e indiscutíveis. Seu trabalho é convencer a qualquer custo aquele que não crê em sua verdade, em certa medida visto não como opositor, mas inimigo a ser (a)batido. O fanático acredita em qualquer mentira que reforce sua crença, e qualquer fala contrária, por mais racional e científica, será sempre hostilizada, devendo os descrentes ser combatidos ou eliminados como “solução final”. A mentira anda de mãos dadas com a crença falsa. 
O que o fanático não percebe é o quanto ele está fossilizado no tempo e no espaço, ajoelhado de costas para o mundo. Quem se posta de joelhos desconhece a própria estatura. 

Paradoxalmente, para mentir, o mentiroso conhece a verdade justamente para poder desmenti-la, invertê-la e distorcê-la. Diz Cassorla:

Defrontamo-nos com aspectos perversos, diferentes dos ingênuos e psicóticos, em que erros de percepção redundam em falsidades. O ingênuo acredita que o Sol gira em torno da Terra. O psicótico afirma que está sendo perseguido. Ambos não estão mentindo.

Quem induz deliberadamente seus filhos a cooptarem numa farsa, comete uma delinquência moral e ética condenável, revelando-se covarde, indecente, de espírito torpe e mente deformada. Veja o que diz Le Bon:

Os resíduos ancestrais formam a camada mais profunda e mais estável do caráter dos indivíduos e dos povos. É pelo seu “eu” ancestral que um inglês, um francês, um chinês, diferem tão profundamente. Mas, a esses remotos atavismos sobrepõem-se elementos suscitados pelo meio social (casta, classe, profissão, etc.), pela educação e ainda por muitas outras influências. Eles imprimem à nossa personalidade uma orientação assaz constante.

O fanático “são”, do bem, demonstra entusiasmo pelo seu objeto de adoração, paixão pelo time de futebol, admiração pelo líder político, devoção pelo santo, amor pelo ídolo com moderação e equilíbrio, sem danos a terceiros. Tenho amigos fanáticos pelo seus clubes, outro que ainda coleciona tudo sobre Ayrton Senna e assim por diante, mas sabem ser críticos e dosar seus apegos. Porém, transposta essa fronteira, o caso se torna patológico e com consequências, como veremos em  nosso próximo encontro.

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Nicola Abbagnano: Dicionário de Filosofia.
Ronaldo Brum: Fanatismo - Um Estudo Psicológico. Letra & Vida, 2007.
Jaime Pinsky e Carla Bazzanesi Pinsky: Faces do Fanatismo. Contexto, 2015.
Roosevelt Cassorla: "Notas sobre fanatismo e mentira". Soc. Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
Sigmund Freud: Totem e tabu e outros trabalhos. Obras Completas, Vol. XIII. Rio de Janeiro: Imago.
_______. O Ego, o Id e outros trabalhos. Obras Completas, Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago.
Carl J. Jung. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
_______. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis, 1980.

sexta-feira, 26 de julho de 2019


ÓPERA DOS CORVOS


Deu na imprensa: “Força Aérea dos EUA diz que defenderá Área 51 de tentativa de invasão convocada por Facebook”¹. Num primeiro momento, não pretendia perder meu precioso tempo com tamanha bobagem, porém, dois outros desatinos ainda piores obrigaram me manifestar. Vamos a eles.

Para quem não sabe, “Área 51” designa um complexo militar instalado no Estado de Nevada de uso restrito das Forças Amadas, que serve como campo de testes e desenvolvimento de projetos secretos militares – armamento, aeronaves, veículos, etc. No final dos anos 1940, ganhou notoriedade devido a notícias fantasiosas de que o governo americano estaria escondendo destroços de naves e corpos alienígenas, ligados ao que ficou conhecido como “Caso Roswell”

Desde então, ufólogos, curiosos, entusiastas e fanáticos tentam a todo custo desvendar o mistério daquela base americana para “revelar ao mundo sua verdadeira finalidade”. Agora surge essa iniciativa estapafúrdia parida nas redes sociais. Só há três saídas possíveis: 1) Por se tratar de uma área de segurança máxima, os invasores serem rechaçados com força proporcional, com graves consequências; 2) Os tontos de ocasião serem bem recebidos, convidados a conhecer parte das instalações, ganhando, como presente de boas vindas, cópias de relatos embolorados e fotos antigas desfocadas em valor  algum de “discos voadores” – acervo excedente ali guardado por falta de espaço em outros prédios. 

Por último, diante das alternativas 1 e 2, os bobos agentes da baderna (que parece chegar a meio milhão de patetas) não se darão por vencidos, esbravejando tolices tais como “acobertamento de informação”, “ocultação de provas” ou “conspiração contra a verdade” e outras do gênero. Já vimos isto por aqui quando, há alguns anos, uma turba de patafísicos* exigiu do governo brasileiro a liberação de documentos sobre Óvnis. O que a tropa obteve foi um punhado de material pífio copiado de algum Arquivo X jogado num porão qualquer, ma suficiente para os tolinhos jactarem-se pela gloriosa conquista. Faça sua aposta. É esperar para ver.

Não há data limite para o fim da ignorância e da canalhice

Outro assunto que ganhou espaço foi uma tal “data limite” profetizada, segundo alguns, por ninguém menos que Chico Xavier. O conteúdo da “profecia” é uma mixórdia de disparates em um roteiro rocambolesco, num verdadeiro festim de aberrações: guerra nuclear, espiritismo, transição planetária, cataclismos, candomblé, Jesus Cristo, potentados celestiais e, claro, extraterrestres. 

Consta que o dito médium teria confidenciado a amigos próximos que, em 1969, por ocasião da chegada do homem à Lua, “Ocorrera uma reunião com as potências celestes de nosso sistema solar para verificar o avanço da sociedade terrena. Decidiram, pois, conceder à humanidade um prazo de 50 anos para que evoluísse moral e espiritualmente e convivesse em paz, sem provocar uma terceira guerra mundial”². Em outras palavras, se a humanidade não se autodestruísse via terceira guerra, ela entraria numa nova era de júbilo, glória e evolução. Esse prazo expirou em 20 de julho e, como se deve ter notado, o mundo não acabou, ou seja, a partir de agora, vamos todos ao infinito e além”, como diria o personagem de Toy Story. Evolução moral e espiritual? A quem querem enganar? Pensam que somos todos imbecis? Isso não passa de uma  farsa criminosa, propaganda enganosa de um documentário chulo cujos produtores estão associados a ufólogos e adeptos da crença extraterrestre!

O terceiro ato da ópera dos aloprados, diretamente ligado ao fato anterior, diz respeito ao editor de uma conhecida revista brasileira de ufologia, que teria sido sequestrado por extraterrestres! Este mesmo senhor, certa feita, informou ter extraído um chip do nariz, certamente implantado por alienígenas, mas que o perdera acidentalmente! Que pena. Suspeita-se, ainda, que ele esteja envolvido na farsa de supostos círculos (crop circles) descobertos em lavouras de trigo no Brasil, que seriam mensagens de civilizações extraterrestres! E agora, dias atrás, retornando de um Encontro de Ufologia na cidade de Peruíbe (São Paulo) em que se tratou também, oportuna e convenientemente, da “data limite”, ele, seus filhos e amigos teriam sido abduzidos por criaturas do espaço! É muita desfaçatez. Só falta este indivíduo se autoproclamar um demiurgo ungido pelos extraterrestres com a nobre missão de conduzir a humanidade ao seu venturoso futuro. Não duvido que o faça, e se o fizer, terá de ficar sob tratamento psiquiátrico para o bem dessa mesma humanidade.

O que mais posso dizer? No primeiro caso, a horda de  irresponsáveis está fazendo das redes um instrumento de extermínio da ética e destruição do bom senso, em um bunker de idiotice e irracionalidade. A burrice perde a vergonha quando o corvo canta de galo pensando ser pavão. Essa turma ainda não se deu conta do efeito bumerangue das redes e da exposição ao ridículo a que está sujeita. Quanto ao conteúdo, sem comentários. No segundo caso, uma comédia de horror. Trazer Chico Xavier pensando dar peso e credibilidade a um despautério em forma de profecia é imoral, uma falácia perigosa, ordinária e grotesca. Um tiro no pé. Entenda como quiser. O terceiro episódio é de uma vigarice exemplar. Em todos, o que há de fato são delírios, insânia, mentira, desvario e impostura. Entendeu agora? 

Estou preocupado – mas não surpreso – que o ser humano esteja emburrecendo tão rapidamente, voltando às suas origens, ao estado de natureza  primitivo, estúpido e selvagem. Os três eventos reforçam isso – incapacidade de reflexão, empobrecimento moral e intelectual, falta de senso crítico e desrazão, sinais inequívocos de um notório conflito psíquico: bípede falante agindo como quadrúpede fungante. Ou o contrário. Já escrevi muito disso aqui antes e não serei repetitivo. A preocupação é real porque este é o Zeitgeist – o espírito da época, o sinal dos tempos no qual a humanidade está inexoravelmente mergulhada. Não diga que não avisei.

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* Patafísica - ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções.
¹ https://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2019/07/forca-aerea-dos-eua-diz-que-defendera-area-51-de-tentativa-de-invasao-convocada-pelo-facebook.shtml
² http://www.e-farsas.com/chico-xavier-previu-que-dia-20-de-julho-de-2019-sera-a-data-limite-para-a-humanidade.html

terça-feira, 16 de julho de 2019

 
APENAS UM PONTO



Após uma pausa necessária, cujos motivos explicarei em outro momento, este blog volta ao circuito, com uma diferença – sua periodicidade não será mais semanal, mas apenas quando assuntos realmente relevantes justificarem sua publicação e o debate. Assim, recentemente, uma amiga enviou um vídeo intitulado “Pálido ponto azul”, produzido a partir do livro homônimo de Carl Sagan publicado em 1994. Extraí o áudio na íntegra para uma oportuna reflexão, lembrando que é apenas um recorte da obra. Sagan se inspirou quando, ao passar pela órbita de Saturno, a nave Voyager fotografou a Terra distante 1,4 bilhão de quilômetros. Fiz pequenos ajustes para adequar a narração ao texto escrito.Um pouco de lirismo vai bem nos dias atuais.
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A espaçonave estava bem longe de casa, e eu pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazê-la dar uma última olhada em direção de casa. De Saturno, a Terra parecia muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe. Nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um pixel solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a nave avistaria – planetas vizinhos, sóis distantes, mas, justamente por causa dessa impressão de nosso mundo assim revelado, valeria a pena ter tal fotografia.

Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da Antiguidade clássica que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmo circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava a nossa primeira chance, e talvez a última nas próximas décadas.

Então, aqui está! A Terra parece que está apoiada em um raio de sol como se houvesse alguma coisa especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente ótico. Não tem sinal nenhum de humanos nessa foto, nem nossas mudanças da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com o nacionalismo não aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num solitário torrão de rocha e metal.

Olhe novamente para esse ponto: ele é nosso lar, ele xsomos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas, a totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas. Cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada jovem casal apaixonado, cada pai e mãe, cada criança esperançosa, cada inventor e explorador, cada educador, político corrupto, superstar, “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, num grão de poeira suspenso em um raio de Sol.

A Terra é um minúsculo palco em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infligidas pelos habitantes em um canto desse pixel nos quase imperceptíveis habitantes de algum outro canto, ou quão frequentemente são seus mal-entendidos, sua ânsia por se matarem, o quão fervorosamente eles se odeiam.

Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em sua glória e triunfo, pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginária auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no universo é desafiada por esse pálido ponto de luz. Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica.
Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão não há nenhum indício que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nós mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta a vida. Não há outro. Não há lugar algum, pelo menos no futuro próximo, em que nossa espécie possa imigrar. Visitar, talvez, assentar-se, não. Gostando ou não, por enquanto, a Terra é onde temos de ficar.

Tem-se falado da Astronomia como uma experiência criadora de firmeza e humildade. Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que essa imagem distante de nosso pequeno mundo. Ela enfatiza a nossa responsabilidade de tratarmos mais amavelmente uns aos outros, de preservar e acarinhar o único lar que conhecemos – esse pálido ponto azul.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

O VÍRUS DA LINGUAGEM

Da simbiose ao parasitismo é um pequeno passo.
A palavra agora é um vírus.
O vírus da gripe pode ter sido uma vez uma célula pulmonar saudável.
Agora é um organismo parasita que invade e danifica os pulmões.
A palavra pode ter sido uma célula neural saudável.
É agora um organismo parasita que invade e danifica o sistema nervoso central.
A linguagem é um vírus
William Burroighs, 1994

O que inspirou o texto de hoje foi a manifestação de uma amiga ao relatar o debate havido entre ela e um seu amigo. Achei que valia a pena trazer o tema para cá. Uma das armadilhas do pensamento é a contralógica, argumento que parece correto num primeiro momento mas que, na verdade, parte de pressupostos construídas pelo avesso. É um sofisma,  raciocínio ou retórica que induz ao erro pela aparente lógica, mas seu arcabouço de fundamentos é inconsistente, falho, incorreto e enganoso. Isso geralmente ocorre quando se trata de um argumento utilitarista, ou seja, é conveniente pensar dessa forma porque apresenta uma conclusão supostamente "indiscutível".

Um exemplo clássico é o argumento da "pluralidade de mundos habitados", usado para justificar a nossa própria existência: "Não é possível que na vastidão do universo só a Terra seja habitada"; "Deus não fez o universo tão grande só para nós" e assim por diante. Mesmo que não haja o menor sinal de vida no cosmo, a argumentação persiste.
Atenção, é bastante possível que a vida pulse em todo o universo, seja ela de que tipo for, mas ao se falar em pluralidade de mundos habitados está-se sugerindo vida igual a nossa, ilação pura, devaneio, sem qualquer base científica ou lógica. Além de querer justificar a vida na Terra, pretende-se também legitimar os "discos voadores, seres alienígenas, civilizações longevas e avançadas"... fantasia, ficção, delírios.

Outro discurso que se ouve amiúde e falsamente científico é quando se diz que "Se nós viajamos pelo espaço, por que eles, com tecnologia tão mais avançada, não poderiam vir até aqui?" Vários erros numa só frase, uma simplificação que omite muitos elementos: O primeiro está no desconhecimento do assunto: nós não viajamos pelo espaço, só chegamos até a Lua, o resto são sondas que ou vagam espaço afora ou pousaram em planetas próximos, ou chocaram-se com eles. O segundo erro está em afirmar que eles - plural - estão por aí, indicando a crença absoluta em alienígenas. Por último, a suposição extraída da ficção científica de que tais civilizações possuem uma "tecnologia avançada"! 

Um raciocínio equivocado, quase falacioso, porquanto embora pareça verdadeiro, assenta-se em pressupostos falsos que induzem ao erro. Mesmo uma falácia pode ser tão bem arquitetada que se torna convincente, persuasiva. No debate citado acima, minha amiga, ao se declarar ateia, seu interlocutor retrucou dizendo que "ao negar a existência de deus, ela estaria admitindo a sua existência". Não poderia haver distorção maior de pensamento. A tréplica foi letal: "Neste caso, a mesma proposição seria válida para o coelhinho da Páscoa, a fada dos dentes e o papai Noel!". Parece que a conversa não prosperou.

A falácia é um truque de linguagem sutil, intencional, de uso corrente na política e por aquele que pretende ludibriar a fé alheia ou levar vantagem argumentativa, sem qualquer preocupação com a construção lógica. Certas falácias estão de tal forma cristalizadas, são tão repetidas e consagradas que raramente têm sua falsidade reconhecida, e isso é ainda mais notável no campo religioso e nas crenças em geral. Muitas dessas falácias apelam para a convocação de massa: "Milhões de pessoas acreditam em discos voadores, e você?", ou recorrem à tradição: "A astrologia é uma arte divinatória praticada há milhares de anos no Oriente, não há como refutá-la."

O antídoto para a contralógica, a falácia, o sofisma, está na honestidade intelectual, no apego à verdade e aversão à mentira, sabendo discernir uma da outra; está na reflexão profunda contínua, na capacidade de ouvir e ir à essência dos fatos. Está no desassombro com o imaginário e na coragem frente à realidade, na isenção ideológica, na autonomia e independência intelectual.

sábado, 30 de março de 2019


TERRA DE INSANOS


O texto de hoje é transcrição integral da coluna de Joel Pinheiro da Fonseca, publicado na Folha de São Paulo em 12/03/2019. A matéria tem tudo a ver com a tônica deste blog, além remeter ao post Stultifera Navis, tanto que o título originalmente pensado para o post de hoje era Circulus Stultorum - Círculo de tolos. "Terra de insanos" é mais contundente. O texto é tão claro e tão óbvio que dispensa comentar, nada diferente do que você está acostumado a ler aqui, só que agora por outras letras. Os sublinhados são links originais. O cardápio é variado - uma crença esdrúxula, teoria da conspiração, mania persecutória, defesa em bloco, lógica torta, rejeição social... um banquete para a Psicanálise, a Psicologia do Comportamento, Neurociências e, em casos mais graves, Psiquiatria. Na sequência, por oportuno, resenha de matéria veiculada no blog Factor 3024 de Alejandro Agostinelli acerca de um "contatado" brasileiro que apresenta uma "nova e revolucionária" teoria, a da Terra... convexa, segundo o parlapatão, ensinada pelos seus "amigos alienígenas". (Tradução livre).

O leque de crenças toscas e absurdas inclui, além da Terra plana alvo da matéria, Terra oca, discos voadores, fadas, anjos, espíritos, simpatias, superstições, cristais e muito mais. Toda crença é um areal movediço do qual só se escapa se alguém jogar uma corda. Repito, este blog se propõe ser um candeeiro iluminando o caminho para longe deste charco. As escolhas que fazemos determinam o mundo em que queremos viver.

A Terra não é plana, mas...
Joel Pinheiro da Fonseca
Economista, mestre em filosofia pela USP


documentário "A Terra é Plana" (Behind the Curve, Daniel J. Clark,2018), disponível no Netflix, mão apenas sacia nossa curiosidade mórbida por um movimento de crenças bizarras (no caso, de que nosso planeta não é uma esfera e sim um disco). Ele nos mostra a dimensão política da crença humana e o quão pouco somos guiados pela razão. No Brasil, ainda podemos considerar a esfericidade da Terra como uma verdade óbvia. Podemos buscar entender os terraplanistas, portanto, sem levar a sério o mérito de suas teses. Se eles crescem e se organizam,  não é pela racionalidade dos argumentos. A especulação tem que estar em algum outro mecanismo psicológico, que guardará lições sobre muitos outros movimentos. Primeiro ponto provável: as redes sociais foram condição necessária para o terraplanismo florescer. Nelas, pessoas comuns podem gerar seu conteúdo e chegar a milhões de outras sem passar por nenhum crivo da ciência institucional. Comunidades se formaram e se retroalimentam, fortalecendo o sentido de uma causa comum e convertendo pessoas que, não fosse pelas redes, jamais questionariam o formato da Terra 

Segundo ponto: os terraplanistas falam a língua do homem comum, enquanto a linguagem dos cientistas lhes é inacessível. Science just throws math at us, diz um dos expoentes do movimento, contando vantagem. E ele está certo. Alguns dos cientistas ouvidos pelo documentário, por sua vez, lutam para não transparecer o óbvio desprezo que sentem pelo terraplaniusmo, o que só fortalece nos membros o sentimento de que o sistema os persegue.

Afinal, é impossível acreditar que a Terra é plana sem, ao mesmo tempo, acreditar que toda a comunidade científica, as universidades, o governo e a mídia estão metidos numa conspiração para nos enganar sistematicamente. Sendo assim, nenhum argumento vindo da comunidade científica será persuasivo. As crenças humanas não se destinam apenas a conhecer a verdade, cumprem também uma função social de coesão geral e sentido de pertencimento. Somos apresentados a pessoas que se sentiam sozinhas e excluídas. Em muitos casos, o terraplanismo só acentuou o isolamento da família, mas apresentou uma comunidade  na qual se sentem valorizadas e na qual têm o reconhecimento que lhes era negado.

Pois as energias dos terraplanistas não estão no debate científico. Seus olhos brilham é com a política:
querem ocupar espaços (no currículo da educação pública, por exemplo) e se fazer ouvir. Organizam eventos, militam nas redes militam nas redes, veem-se como um coletivo em uma luta heroica contra um inimigo maligno. Ninguém se convence racionalmente de que a Terra é plana e por isso passa a rejeitar o sistema. O messianismo é justamente o inverso: a pessoa já queria, por algum motivo, rejeitar o sistema e, para isso, o argumentos baratos fornecem uma justificativa fácil. Não são, nisso, menos racionais do que nós. Afinal, não temos a prova da maior parte de nossas crenças  (entre elas, a esfericidade da Terra); elas dependem de nossa confiança nas instituições que nos rodeiam. É isso que está em jogo.

Limitar a expansão de seitas em um mundo no qual a informação circula livremente (e é bom que circule, não queremos voltar atrás) é um dos desafios deste século. O terraplanismo exige um salto de fé tão grande que provavelmente encontrará limites naturais. Comunidades de crenças menos absurdas embora também falsas podem ir mais longe e fazer estragos maiores.


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O dia em que silenciaram Urandir, o pregador da Terra convexa
Alejandro Agostinelli

"O congresso não permite esse tipo de estultície". Com estas palavras. o presidente do Congresso Nacional do Paraguai, senador Silvio Ovelar, impediu que o palestrante fizesse sua apresentação na sala Bicameral, em 14 de março último. O sujeito em questão era o brasileiro Urandir Fernandes de Oliveira, conhecido no meio ufológico quando se disse amigo do extraterrestre "Bilu", em 2010. Anos antes, Urandir havia sido condenado por vários delitos - fraude imobiliária, falsidade ideológica e curandeirismoou seja, um vigarista contumaz. O blog faz um apanhado sobre sua trajetória ilícita:


Ao longo dos anos, o desdobramento daqueles que buscavam se relacionar com os presumíveis ocupantes de discos voadores ou "irmãos espaciais" se espalhou, tanto que os cientistas sociais o consideram um movimento religioso em si mesmo. A natureza dessas associações tende a ser homogênea; eles são quase sempre inspirados pelo Espiritismo Cristão, Teosofia ou baseados em ideias de ufologia e ficção científica. A criatividade religiosa brasileira acrescenta uma vantagem de heterogeneidade: no país vizinho há comunidades lideradas por contatados cuja trajetória, doutrina e experiências recebem todo tipo de influências. Na cultura mágica religiosa brasileira existe pelo menos uma versão derivada de cada denominação. Há um discurso evangélico, outro católico, oriental, gnóstico e africanista, quando não são sincretismos que retrabalham as mais diversas visões de mundo. A mesma "ufologia científica" brasileira admite a espiritualidade como uma corrente legítima de pesquisa. Essa mistura de busca espiritual e científica faz parte da paisagem religiosa brasileira, o desrespeito pela diversidade religiosa, sexual e cultural está na agenda do dia do mais alto poder do Estado.


O blog traz um extenso levantamento biográfico, as atividades do farsante, vídeos das "performances paranormais" e outros documentos como, por exemplo, o depoimento de Elaine Sabaliauskas, ex-secretária e ex-namorada de Urandir: "Tudo tem um preço para ele; quando ele faz seus truques, ele só pensa em ficar com o dinheiro das pessoas. Agora [em 2000] está vendendo terras, mas os compradores não têm a escritura. Como ele está sempre cercado por seus homens, ninguém pode questioná-lo". Felizmente desta vez sua farsa não foi adiante porque as autoridades paraguaias foram bem mais sensatas e inteligentes que as brasileiras. Leia a matéria, o link está aí. Este assunto é grave, e voltarei a ele em outro momento, mas se quiser ler algo, vá em Tambores batem, bonecos dançam.


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https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joel-pinheiro-da-fonseca/2019/03/a-terra-nao-e-plana-mas.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=compfb

http://factorelblog.com/2019/03/14/el-dia-que-urandir-no-predico/

sábado, 16 de março de 2019

PRIMITIVA MENTE MODERNA

A despeito de vivermos uma notável era de desenvolvimento tecnológico e científico, continuamos essencialmente presos ao pensamento primitivo mítico-religioso. Não há nenhum paradoxo nisso, ao contrário, basta seguir a linha do tempo da humanidade e veremos o quão isso é verdadeiro. Todas as tribos, sociedades e civilizações, em todos os tempos, desenvolveram suas ciência e sua tecnologia específicas, estruturalmente nada diferentes do que se observa no mundo contemporâneo. Nossa mente atual está envolta por uma finíssima película de "modernidade" que esconde (esconde?) uma inegável conduta primal instintiva de sobrevivência, dominação e medo, este como base da religião a partir do totemismo, impregnado na experiência humana. Observe as imagens do ontem e do hoje e tente negar que continuamos primitivos e identificados com nossos totens modernos. No fundo, só mudou a estética. 


     O pensamento mágico que legisla práticas sociais, ritualísticas e religiosas está vivo nas sociedades contemporâneas.
Só mudam a forma e a linguagem.

Uma explicação bastante resumida do totemismo e do pensamento mágico (mítico-religioso) poderia ser dada, mas é importante ressaltar que são muitos os autores e as interpretações; ainda que divergentes e contestadas, de algum modo se complementam. "O totem indica o fenômeno presente em todos os povos primitivos de transformar uma coisa (natural ou artificial) em emblema do grupo social e em garantia da sua solidariedade" (Abbagnano, p.863). Durkheim é enfático: "Eis no que consiste realmente um totem: é a força material sobre a qual se representam para a imaginação, através de toda sorte de fatos heterogêneos, essa substância imaterial, essa energia difusa, único objeto do outro" (p. 240). Eu me atreveria classificar o totem em três níveis: físico, metafísico e simbólico, mas falarei sobre isso em outro momento.


Frazer, Lévi-Strauss e outros entendem que, ao fundamentar o totemismo como um sistema, surge a explicação sobre a organização de clãs, a atribuição de emblemas animais ou vegetais aos clãs e a crença num parentesco entre o clã e seu totem. Para Malinowski, nas questões relativas ao totemismo e à magia, o importante está em perceber o que os nativos efetivamente fazem, como dão significado à vida e como agem. São os imponderáveis da vida cotidiana. Lévi-Strauss demonstra a relação entre ausência técnica e aspectos mágicos. Esse pressuposto, já levantado por Frazer, é que na ausência da ciência, o elemento aplacador de algumas incertezas entre os nativos seria a magia, recorrendo a ela para evitar ou desfazer temores. Você já leu algo semelhante por aqui, e não estávamos falando de totemismo.

Desse modo, dirá Lévi-Strauss, a dimensão mágica existente na relação dos homens com seus objetos se dá quando a técnica é incapaz de aquietar os espíritos dos primitivos. Desculpe repetir, mas isso você também já leu aqui. É nesse ponto em que a dimensão religiosa e mágica tem destaque com sentido prático: "Todos os ritos e práticas mágicas se reduziriam para o homem a um meio de abolir ou atenuar a ansiedade que ele sente ao atacar empreendimentos cuja saída é incerta. A magia teria, assim, uma finalidade prática e afetiva" (p. 147), grifo meu. Nesse sentido, como forma de elaboração sobre o mundo, os aspectos religiosos têm papel relevante porquanto se apresentariam como fontes primárias de conhecimento e especulação, no entender de Durkheim: "Os primeiros sistemas de representações que o homem produziu do mundo e de si mesmo são de origem religiosa” (p. 37).

O totem, ou o totemismo, é fundamentalmente um elemento distintivo de identidade do grupo, exercendo a função de unidade e coesão como representação de uma 'divindade' física - o patriarca ou o líder do clã, ou espiritual - entes da natureza. Essa posição obviamente lhe outorga um caráter eminentemente sagrado, portanto mítico e místico. Além do aspecto legislador, com práticas e ritos bem definidos e intransgressíveis, os aspectos religioso, mítico e místico/mágico apresentam-se como ordenadores moral; a consagração do totem é um jeito de representar a imortalidade do espírito. Você percebe que não há mudanças significativas no comportamento, nas atitudes e forma de pensar, e nos objetos de adoração nos dias atuais. O cenário "moderno" tecno-científico e uma cultura dita "civilizada" não ocultam o que podemos chamar de "natureza" humana: matar por um pedaço de pão, meio metro de terra ou um ideologia. Mata-se pelo prazer de matar, por esporte, diversão, ódio e psicopatias diversas, coisas que só o animal humano é capaz de fazer.

Vários estudos* apontam o que já se percebe há tempos: a infantilização geral que permeia toda a sociedade numa dimensão anda difícil de ser mensurada. É só olhar em volta. O homem contemporâneo se identifica e se fecha naquilo que lhe traz conforto e segurança emocional - sua "tribo" -, e se "ofende" quando algo não está de acordo com a sua maneira de pensar, de agir, de ser - vestuário, alimentação, sexualidade, política, etnia, religião, ideologia... Não se trata mais de simples polarização ou litígio entre duas zonas de conflito, mas de várias zonas e vários conflitos. Não havendo entendimento, razoabilidade, tolerância, inteligência, o clima será de hostilidade, truculência, tensão, extremismo, enfrentamento, a exemplo do que acontece quando crianças disputam um brinquedo. É a chamada geração "mimimi", geração do "choro" - mimados, ressentidos, ofendidos -, "vítimas" de uma sociedade emocionalmente desestabilizada, ou, como dizem os autores, uma geração a caminho do fracasso.

Pode-se fazer um prognóstico preocupante não muito longe da realidade: retrocesso, empobrecimento intelectivo, falta de lógica e clareza das ações, urgência de resultados (imediatismo), incúria de reflexões. Já falamos disso aqui: Há uma queda cultural orgânica patrocinada pela bolha epistêmica, pelo viés de confirmação, pela câmara de co, pela ilusão de profundidade explicativa e pela sala de espelhos. É o homem acuado em sua caverna num estado anímico de insegurança e esquizofrenia. Se você acha que a minha macro percepção da realidade é perversa, olhe em volta. Eu olho, e o que vejo para além das aparências e da superfície, sem filtros ou desvios, é um cenário contaminado, contagioso e progressivo de insensatez, ignorância e degradação moral que me assusta, num amálgama de pesar, vergonha e repúdio. O totemismo vive na esteira de una mentalidade assombrada, mítica, mística e infantil.

Essa ignorância do e no mundo aniquila a alteridade em seu sentido mais profundo, destroçando a ética e responsabilidade individual. O futuro é sombrio. Para o e crítico social Theodore Dalrymple - ele não é o único -, as fronteiras entre civilização e barbárie estão se esfacelando muito rapidamente, e não há como não concordar, basta olhara em volta, de novo. Penso que ele concordaria comigo se eu acrescentasse que está se desenhando uma "civilização da barbárie"terrível oxímoro -, desregrada e atomizada, que é brutalmente mais grave. Continue olhando em volta, os sinais estão claros por toda a parte. A temperatura está subindo e não é de aquecimento global que estamos falando.

Da mais remota tribo à mais poderosa nação do planeta, das legiões romanas às células terroristas, da mais pura tradição indígena ao mais explícito exibicionismo de narcisismo exótico; dos antigos rituais fúnebres às liturgias missais modernas, e dos rituais xamânicos, oferendas e cerimônias aos cultos divinatórios, feitiçarias e invocações místicas, o ser humano não mudou nada. Permanecemos sendo uma espécie "desconhecida", volátil e frágil, cada vez mais tão frágil que a segunda causa de morte no mundo é a depressão, só perdendo para intercorrências cardíacas. Cérebro e oração não andam lá muito bem e a tendência é piorar. Como nos alerta o dramaturgo e poeta romano Publius Terentius (195-185 a.C.), Homo sum, nihil humani a me alienum puto. Sou humano, e nada do que é humano me é estranho.


    O pensamento primitivo de supremacia, força, poder e distinção atravessa história.  Só mudam a forma e a linguagem

*Autores como Jonatham Haidt (NY University), Greg Lukianoff (Stanford Law School), Frank Furedi (Kent University), entre outros, fizeram pesquisas de largo espectro e publicaram a respeito da infantilização mas universidades e suas consequências em perspectiva global: The Codling of the American Mind: How good intentions and bad ideas are setting up a generation for faiulure. Haidt & Lukianoff, Penguin, 2018.



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DURKHEIM, E. As Formas Elementares da Vida Religiosa. Martins Fontes, 2003.
LÉVI-STRAUSS, C. A noção de estrutura e etnologia; Raça e  História; Totemismo hoje. Abril Cultural, 1980.
________. O Pensamento Selvagem. Papirus, 1989.
FRAZER, J. G. O Ramo Dourado. Circulo do livro, 1978.
LÉVY-BRUHL, L. A Mentalidade Primitiva. Paulus, 2017.
DIAMOND, J. Colapso. Record, 2007.
ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes, 2007.
MALINOWSKI, B, Magia, Ciência e Religião Edições 70, 1984.
DALRYMP[LE, T. Nossa Cultura... ou o que restou dela.  É Realizações, 2015.

sexta-feira, 8 de março de 2019


-8 MALEBOLGE
Ilustração: La barque de Dante (ou Dante et Virgile au enfers), óleo s/lona, Eugène Delacroix, 1822, Musée du Louvre

Encontram-se os Poetas no oitavo círculo, chamado Malebolge, o qual é dividido em dez compartimentos concêntricos. Em cada um deles é punida uma espécie de pecadores, condenados por malícia ou fraude.

Assim se abre o Canto 18 da Commedia (séc. 14), épico teológico do poeta florentino Dante Alighieri - il sommo poeta, um dos cânones da literatura ocidental. Somente no século 16 a obra foi rebatizada La Divina Commedia por iniciativa do também poeta florentino Giovanni Boccaccio. Nesse ponto da jornada, Dante e seu guia, o poeta romano Virgílio, encontram-se no portal do oitavo e penúltimo círculo (vale, penhasco, borda) do inferno, o Malebolge, destinado aos seres mais desprezíveis. Mas eles são tantos que este vale precisou ser dividido em dez fossos cercados por muros de pedra, cada um deles com distintos tipos de condenado. O texto ilustra e justifica o martelo crítico deste blog a alguns integrantes dessa súcia que você vai reconhecer. Dante não esqueceu ninguém: larápios, falsificadores, traidores, velhacos, tiranos, vigaristas, mistificadores, gananciosos, proxenetas, pervertidos, mercenários, promíscuos, facínoras, e ainda incluiu Papas, reis, rainhas, políticos, imperadores, cardeais, filósofos, poetas, etc.


Caronte, Salvador Dali, aquarela, 1960

Em linguagem mais contemporânea mesclada com expressões originais, que pouco mudaram nestes sete séculos, iremos a bordo na barca de Caronte que nos levará aos abismos mais profundos e sombrios para vermos de perto uma pequena parte desse Reino das Trevas com as "imagens pétreas" que se entranharam em nossa cultura e nosso inconsciente. Não se deixe medrar ante o odor repugnante dos rios de sangue, nem pelas súplicas, urros, tormentos, gemidos e gritos lancinantes de dor e desespero; não cerre os olhos à visão aterradora de corpos decompostos, mutilados, inchados, retorcidos, deformados, despedaçados e calcinados, sempre renascidos após devorados pelos vermes para um novo ciclo de torturas, pois logo à entrada lê-se a inscrição:


Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate
Abandonai toda esperança, vós que entrais
La Porte de l'Enfer, Rodin, 1917


Primeiro fosso: Lá estão alcoviteiros e rufiões que exploram as paixões alheias a serviço de seus próprios interesses. Como pena, são continuamente açoitados pelos demônios para satisfazem seus apetites de toda natureza, principalmente sexuais.

Segundo fosso: Aqui estão os aduladores e as mulheres lisonjeiras chafurdando no esterco por se aproveitarem das necessidades dos homens, através da fala maliciosa que deturpa o entendimento das coisas. Estão mergulhados nas próprias fezes, vômitos e secreções que espalharam pelo mundo.

Terceiro fosso: Eis os simoníacos - traficantes do sagrado, hereges, magos, blasfemos, que transgridem e conspurcam os ensinamentos da Igreja.. São enterrados nus, de cabeça  para baixo - batismo invertido - com as pernas ardendo nas labaredas.

Quarto fosso: Encarceram-se os impostores que se dedicam às artes divinatórias; sua punição é ter o rosto torcido para trás, impedidos de olharem para a frente e forçados a caminhar ao reverso. Suas lágrimas escorrem pelas costas e nádegas como castigo por ousarem predizer o futuro, atributo que cabe somente a Deus.

Quinto fosso: Submersos em um lago de piche fervente, debatem-se os corruptos e os trapaceiros, traidores da confiança dos homens. Os que tentam colocar a cabeça para fora são torturados ou lacerados pelos demônios. Estão em poços ocultos, tais como suas tramoias feitas às escondidas.

Sexto fosso: Vestidos com reluzentes e vistosos mantos estão os hipócritas; suas vestes escondem pesada armação de chumbo. Se não sentiram peso na consciência no ato das suas vilanias, sentem-no agora ao arrastar grossos trajes de falso brilho que descarnam seus corpos.

Sétimo fosso: Aqui estão encerrados os ladrões, picados por serpentes peçonhentas; répteis e cães famintos devoram-lhes as carnes e roubam suas tripas e traços humanos, como fizeram com suas vítimas, apoderando-se do que não lhes pertencia por meio da violência e do terror.

Oitavo  fosso: É onde são punidos os falsos conselheiros, envoltos por chamas em oceanos de lava e fustigados por tempestades de raios, por arquitetarem a fraude e a calúnia. "O fogo que os atormenta oculta os conselheiros da fraude, pois seu mal foi cometido escondido. Por pecarem com a língua, sua fala só passa pela língua furtiva da chama".

Nono fosso: Estão confinados os semeadores da discórdia, maledicentes, infames. São atravessados por espadas nas partes do corpo representativas da discórdia perpetrada: cabeças, membros, genitais; língua e orelhas são cortadas, as vísceras expostas, os olhos vazados. São os criadores de cismas religiosos, incentivadores de conflitos sociais e instigadores de desavenças familiares.

Décimo fosso: Destinado aos falsificadores. São punidos com terríveis flagelos, tendo o corpo coberto por chagas pútridas, pestes, lepra, úlceras, sarna, doenças e loucura, representando tudo o que de falso fizeram: remédios, alimentos, obras, moedas, objetos, etc. São os prevaricadores, alquimistas, mentirosos e falsários. Sues corpos estão ocos, putrefatos e fétidos.



Notas......................
Commedia - Do grego Komoidía, de kômos (festa) e oidós (cantor); grupos encenavam curtas peças teatrais e declamavam sátiras de costumes e políticas. Com Dante, a Commedia ganhou o significado de "poema alegórico", diferente da 'comédia' como a conhecemos hoje. A Commedia representa a trajetória humana rumo ao paraíso, por isso Divina. Dante pulsa, mais vivo e necessário do que jamais esteve. Ele mesmo noz diz que importante é ler o que está oculto na polissemia poética das palavras, chave iniciática para o rito de purificação. Sua opus maximum vai além da mera descrição do báratro, é antes a autêntica e cristalina radiografia do humano. Em meio a densa escuridão, Dante consegue nos iluminar pelo melhor caminho.

Malebolge é nome composto criado por Dante a partir de male + bolgia, ou, "bolsão do mal", "vala maldita", ou ainda cavidade, fosso, cova, poço, caverna. Para alguns autores, na Antiguidade havia um gigante horrendo de três cabeças e três troncos até o quadril, uma criatura de natureza tripla: do homem, da serpente e do escorpião - clara alusão à própria fraude. Dante o transformou num monstro fantástico de corpo único como personificação de tudo o que há de malévolo no mundo.



Pimps et Séducteurs, 1892, Gustave Doré


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Henry R. Loyn. Dicionário da Idade Média, Zahar, 1991.
Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, José Olympio, 1988.