Obras

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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

CONSCIÊNCIA COM CIÊNCIA
Um exército de cervos liderado por um leão

é muito mais assustador que um exército
de leões comandado por um cervo.
Plutarco (46 d.C. - 120)

Há pouco mais de dez anos, mais exatamente em agosto de 2009, lançávamos nosso A Desconstrução de um Mito, cujo subtítulo, proposto pelo coautor Rodrigues, Porque os discos voadores podem não existir, denotava postura cautelosa, deixando em aberto a possibilidade de estarmos errados. Rodrigues mantém a crença de que um irrisório percentual de fenômenos possa ter uma explicação dessa natureza, enquanto que, no meu entender, se houver alguma resposta, ela virá de outras fontes. Por que estou tocando messe assunto? Porque, passada uma década, a obra ainda incomoda o leitor, fazendo-o balançar em suas crenças na pluralidade de mundos habitados, visitantes extraterrestres e todas as ilusões que integram o universo supranatural. Naturalmente, Desconstrução desperta o repúdio dos ufólogos.

Sobre isso, recentemente um leitor manifestou-se a Rodrigues deveras perturbado com a leitura da obra. Em mensagem pessoal, escreveu: O livro é muito bom, mas dá uma sensação terrível de que estivemos perdendo tempo nos dedicando a algo que só existe em nossas mentes. Sensação terrível é emblemático, por mostrar que este leitor tem consciência da magnitude do problema, e que está inclinado a reorganizar sua visão sobre o tema. Daí o post ter a participação do colega, e foi necessário ser um pouco mais extenso que o habitual; pedimos compreensão, pois sua leitura é fundamental.


Quando colocamos na mesa o que possa ser contrário às nossas crenças e preferências, estamos usando um método eficaz para combate de nosso viés de confirmação. Um viés de confirmação é preferir, durante décadas, com afinco e de maneira heroica, a hipótese de que Óvnis sejam, necessariamente, “naves extraterrestres”, e quando se analisa e discute casos ufológicos, faz-se de tudo para que a crença seja confirmada. Neste caso, não se busca o que realmente possa se aproximar da verdade, mas sim, luta-se pela verdade desejada, – a autoverdade.

Foi este nosso objetivo na obra: O que pode ser contrário à existência do próprio fenômeno, o sentido inverso daquilo em que ufólogos  acreditam e a incipiente ideia de sua origem, tudo exemplificado pelo comportamento dos próprios pesquisadores. Ou seja, apresentamos o contraditório para que houvesse um mínimo de seriedade, bom senso e imparcialidade. Se não for assim, não se faz ciência, ainda mais em um ambiente onde imperam e proliferam delírios, falácias, exotismos, fantasia, farsa, fabulações, fanatismo e conspiranoias”, e onde também não se faz o menor esforço para acabar coma a pecha de pseudo ciência. Um exemplo disso vem a seguir.

Dias atrás, certo ufólogo desandou a promover palestras falsamente científicas anunciando “surpreendentes revelações” sobre Marte, a partir da sua interpretação das fotos obtidas pela NASA: fósseis alienígenas, formações rochosas insinuando ruínas de alguma civilização tecnologicamente avançada(?). Quem leu os posts Fanatismo doentio e Fanatismo de pedra perceberá que o sujeito se encaixa em um destes estágios, quiçá no segundo. E mais, o texto abaixo (na íntegra e com os erros originais) é parte da divulgação dos eventos anunciados (sublinhado nosso):
Mas as grandes revelações desse evento, mais uma vez documentadas nas fotos oficiais da agência espacial, que serão mostradas estão associadas as descobertas feitas pelo conferencista sobre o que esta acontecendo nesse momento no Planeta Vermelho, e o que foi descoberto sobre a vida no planeta na atualidade!!!
O palestrante está a par do que ocorre em Marte neste momento! O palestrante acusa (desde sempre) governos e instituições de acobertamento e conspirações de silêncio e desinformação e outros desvarios. O palestrante tira conclusões totalmente descabidas sem o menor pudor e sem conhecimento técnico sobre qualquer coisa. O palestrante faz ilações estapafúrdias e desconexas, ligando a possível existência de vida microbiana há bilhões de anos a “civilizações avançadas”. O palestrante deve ter ficado exposto a altas doses de Arquivo X” e outras ficções, e agora vive um permanente transtorno dissociativo da realidade. Enfim, o palestrante é só mais um aventureiro, desinformado e despreparado, incapaz de apreender as questões mais complexas que vão muito além do seu precário perímetro intelectual.


Um procedimento totalmente equivocado é o de interpretar de forma deturpada as declarações dos homens de ciência para atender interesses escusos. Há poucos dias, um site de ufologia noticiou que o físico Michio Kaku teria dado declarações em favor da hipótese extraterrestre dos Óvnis. Quando, no entanto, se comparam trechos da sua manifestação, evidentemente pinçados de maneira tendenciosa, a notícia passa a ser visivelmente contraditória, e chega a ser incrível que seu redator não tenha percebido o absurdo do raciocínio, a lógica inversa do cientista: “É dos militares provar que os UFOS não são dronesÉ quase certo que sua consciência sem ciência  –  a do redator – não tenha percebido mesmo.

Só a partir dos dados coletados pelas experiências individuais e coletivas é que podemos inferir outras possibilidades. Nesse sentido, Edgar Morin, em Ciência com Consciência, propõe alguns imperativos que podem ajudar aos leitores a refletirem sobre um novo modelo de pensamento: Conhecer para conhecer, que deve triunfar, para o conhecimento, sobre todas as proibições e tabus que o limitam. Ademais, os princípios clássicos de explicação indicam que a complexidade dos fenômenos se esclarece a partir de preceitos simples  separação, redução – retirando o observador da observação. A experiência deve ser objetiva, independente do observador. Ao observar um objeto, o sujeito se insere na linguagem deste objeto, passando a fazer parte dele como sua extensão.

Se o nosso conhecimento sobre este objeto é nulo, nossa interpretação será subjetiva, portanto, igualmente nula. É o caso citado acima, uma consciência sem ciência que traz consequência: O sujeito fala sem ter a mundivisão do problema, a visão crítica do mundo, o olhar grande angular na análise profunda em busca da verdade pelo conhecimento e do conhecimento pela verdade.  Ainda Morin:
Vemos que o próprio progresso do conhecimento científico exige que o observador se inclua em sua observação, o que concebe, em sua concepção, que o sujeito se reintroduza de forma autocrítica e autorreflexiva em seu conhecimento dos objetos.
Com raríssimas exceções, autocrítica e autorreflexão inexistem. Ainda que a ciência tenha um lado positivo e um negativo, essa dicotomia deve acabar para dar lugar à compreensão da ambivalência e da complexidade que se situam no cene da ciência. Os pesquisadores do passado eram amadores, simultaneamente filósofos e cientistas. Hoje, a exigência do saber se concentra na transdisciplinaridade. O problema supõe não só a reforma das estruturas do próprio conhecimento como também da consciência. De nada adianta a ciência avançar em várias frentes se a consciência estanca onde lhe é confortável e conveniente. Uma consciência parada no passado não tem como alcançar o presente.

Nesse aspecto nós jamais nos acomodamos com o saber adquirido porque buscamos, incansavelmente, chegar ao âmago das questões até onde é possível chegar ou nossas aptidões permitirem. Seria cômodo fincar nosso discurso em algum pedaço de terra à sombra e não ter de passar pela sensação terrível de reformular todo o pensamento à revelia. Preferimos acompanhar a correnteza do mundo a beber de águas paradas. Mesmo sendo clichê, o conhecimento é inegociável. E a frase de Marx vem sob medida nesse contexto: “Se a aparência e a essência fossem a mesma coisa, a Ciência seria inútil”. Alguma dúvida?

Quais são os limites da nossa consciência, do conhecimento, da racionalidade? Até onde podemos chegar? Jamais saberemos se não tentarmos avançar mais e mais. Todo o esforço do saber só terá utilidade se pudermos abarcar os fenômenos e os objetos em sua integralidade e complexidade. Um desafio colossal sem garantia de êxito. Nenhuma resposta simplista será satisfatória. Como dar conta da do mundo e da vida ambivalente seguindo por uma única via? O que é certo hoje poderá não sê-lo amanhã. Só há dois caminhos possíveis: Ou afundamos no lodaçal da obscuridade e ignorância ou nos conduzimos pelas luzes da razão. Já passou da hora de olharmos para o que não está lá e enxergar o que está aqui.

Em outra obra, Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, Morin expõe toda a sua experiência nesse campo ao afirmar que o conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão, seu calcanhar de Aquiles: “O maior erro é subestimar o problema do erro; a maior ilusão é subestimar o problema da ilusão. Reconhecer ambos é ainda mais difícil, porque ambos parasitam a mente e não se reconhecem como tais”. Ideal seria transcrever toda essa obra dado o volume de conceitos e proposições que o autor consegue trazer em tão poucas páginas. Não é à toa que o núcleo do seu pensamento repousa na complexidade - do mundo, da vida, do homem.  Talvez uma frase sua possa sintetizar o coração do problema: “A projeção de nossos desejos ou de nossos medos e as perturbações mentais trazidas por nossas emoções multiplicam os riscos dos erros e das ilusões”.

Eis o ponto cardeal na análise de qualquer tema: reconhecer o erro e a ilusão, adotar o senso crítico e o espírito cético como balizadores de um conduta maura pautada pela sobriedade dentro da própria definição de ciência: conhecimento. Firmar posturas inflexíveis não é inteligente. Crítica e ceticismo são princípios imprescindíveis no pensamento científico. Quando um dos lados se coloca irredutível nas suas crenças, portanto subjetividades, não há entendimento, só debate estéril em tom de polêmica.

Quem tem conhecimento tem autonomia, projeto, norte, ética, critérios, estímulos, atitude, repertório, respostas, ideias. Quem não tem vagueia pelo limbo. Quem tem o saber tem guarda-chuva, quem não tem fica molhado. Quem tem conteúdo produz, transforma, liberta, renova, encanta, multiplica, mas incomoda, quando provoca sensações terríveis.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

SER, OU NADA SER
Wotan jazia adormecido nas montanhas
até que os corvos anunciaram o nascer do dia.³

Como prometido, no curso da série sobre barbárie, no post Civilizarbárie um leitor destacou uma frase¹ e indagou: “Algo como um apocalipse mítico?” Respondo agora. Não, não se trata de um apocalipse mítico. A dúvida procede, mas primeiro é preciso entender o que ele quis dizer com “apocalipse mítico”. Me parece claro que ele traduz apocalipse por “fim do mundo” como, aliás, é entendido na cultura popular, porém, seu real sentido é revelação”, do grego apo kalyptó  descobrir o que está oculto, conhecer, desmascarar, revelar, desvendar. O que está oculto?

Nós herdamos a cultura apocalíptica desde a Idade Média e nunca mais nos livramos dela pela força do cristianismo. Ao longo da história, temos nos embriagado pelas imagens demoníacas,  abismos terrenos, dragões, monstros, espadas flamejantes, hydras, medusas e gente expurgada ardendo nas labaredas infernais. Com estética refinada, estas imagens transformaram o que era medonho em beleza sedutora, dando certa dignidade no contexto da criação. É dessa forma que, segundo nos diz Umberto Eco, tais figuras são ao mesmo tempo temidas e amadas, belas e horrendas, sagradas e profanas  “simbólico-diabólicas”*, mantidas não muito distantes pelo fascínio que exercem, pelo mistério de sua deformidade exuberante. Haveria nelas uma espécie de identificação velada, um reconhecer-se” dissimulado? Quem habita a sua pele?

O que está oculto? O que pode ser tão devastador que prenuncie o fim do mundo?Quem revelará o quê? Sem dúvida, a conotação intrinsicamente religiosa está presente na questão se nos remetermos ao Apocalipse de São João, um dos últimos e mais influentes livros do cânone bíblico. Para alguns reformadores da Igreja, como Lutero, a obra é mítica pela sua narrativa simbólica. Ela teria que ser escrita para que as anteriores tivessem algum sentido. 
Apocalipse traz uma representação na qual nenhum detalhe é poupado, o que permitiu que o imaginário ligado a esse livro bíblico, principalmente aquele que faz referencia ao Juízo Final e ao Inferno, proliferasse nas abadias românicas e nas catedrais góticas, nas iluminuras e nos afrescos durante toda a Idade Média. Essa representação recordava ao fiel, dia após dia, as penas que esperavam pelos pecadores no pós morte.²
Como adendo, numa breve digressão, outro campo que explora à exaustão o desastre final são as obras distópicas da ficção científica. Junte os dois  ficção e religião, a escatologia e a salvação  e eis a fagulha que incendeia os movimentos milenaristas. A ficção se apropria dos antigos mitos e os reveste de uma exterioridade tecnológica que os torna oportunos e palatáveis para uma época como a nossa, plena de tecnicismo e grandes inquietações, exercendo forte influência no psiquismo, no simbólico e no imaginário. A partir destes sublinhados, pode-se inferir qualquer coisa sobre o apocalipse –Juízo Final, acerto de contas, hecatombe planetária, vinda do anticristo e dos quatro cavaleiros ceifadores.

O imaginário popular atira para todos os lados na tentativa de descobrir o que é afinal o apocalipse: O terceiro segredo de Fátima traria essa desafortunada revelação do fim da Igreja; as viradas dos milênios prefigurariam grandes tragédias, segundo os profetas de ocasião. As duas grandes guerras também alimentaram a desesperança de que o fim estava próximo, e até aos discos voadores foram atribuídos sinais do céus anunciadores do fim dos tempos. Bobagens intermináveis.

Não foram poucos os autores que se empenharam ao exame do Apocalipse sob todos as perspectivas  religião, psicanálise, simbolismos, mitos, antropologia, sociologia. De certa forma, todos desembocam no mesmo ponto de origem  o homem! Surpreso? Esperava algo diferente? O apocalipse seria o humano? Por que não? Se você ainda tem dúvida depois de tudo o que leu, principalmente nas últimas semanas, então vamos pensar juntos.

Estou fortemente propenso a pensar que Dante não descreveu o ser humano em sua inteireza na Commedia. Não. Ele concebeu seu Inferno em covas escalonadas e lá despejou toda sorte de malfeitores com suas mazelas, ignomínias e expiações sim, mas creio que impôs limites à sua própria criação, consciente ou não. Commedia não só é a melhor descrição do inferno como também, e principalmente, pela lógica,  da nossa terrível natureza. Talvez ele soubesse que o ser humano é muito pior do que aparenta, e preferiu abrandar sua narrativa a arrepende-se por ir tão mais longe. Ou tão mais fundo. Sabíamos das punições, agora sabemos a razão delas: O apocalipse somos nós, cada um de nós. Repito a frase do post anterior: Depende do que você quer ser. Eis a questão: O que você quer ser?

A revelação está em nós, o encontro com a Besta é o encontro consigo próprio. É quando as máscaras caem, as armaduras se rompem, os escudos se quebram. Quem revela o quê? O homem revela o homem, e só ele pode fazer isso. Não é pela forma das sombras que se encontra a origem da luz? E, quando você pensar que chegou ao mais negro de si mesmo, acredite, não terá chegado nem à metade! Peguei pesado? Diga isso a Freud (sublinhado meu):
Os instintos não se deixam reprimir; e seria ingênuo pensar que, caso sejam reprimidos, deixem de existir. A única coisa que se pode conseguir é fazê-los retroceder do plano consciente ao inconsciente; porém, neste caso, eles se acumulam perigosamente deformados no fundo do espírito, e em sua constante fermentação, dão origem a inquietações nervosas, perturbações e doenças.
Acho que não preciso traduzir “inquietações nervosasperturbações e doenças, preciso? Você tem noção disso. mas quanto de ciência há em sua consciência? Como o título do post foi inspirado em Shakespeare, é com ele que encerro sobre Esta consciência, que faz de todos nós, covardes”. A conversa não termina aqui, vem mais nas próximas semanas, no mesmo tom.


Nota: Sobre o caso do figurão do governo que tentou matar um juiz relatado na edição passada, apesar de nada ser, o sujeito fez escola! Agora foi a vez de um procurador da Fazenda atentar contra a vida de uma juíza que sequer conhecia, atingindo-a de raspão. Aos brados, enalteceu o tal procurador da República como “exemplo a ser seguido”. Se essa é a lógica da insanidade, então há algo de muito podre no reino da mente. Os ventos gelados da tempestade estão soprando forte, mas você só vai senti-la realmente quando respingar em sua vida.

* Do grego sym ballein – unir, ligar; dia ballein – separar, apartar.
___________
¹ (...) construindo uma civilização que, em algum momento, não se diferenciará mais da barbárie, será a civilizarbárie.
² Raquel F. Parmegiani, O apocalipse e o imaginário do medo nas iluminuras medievais. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História. São Paulo, julho 2011.
³ Wotan - Na mitologia germânica, o poderoso deus das tormentas, equivalente a Odin na mitologia escandinava e Zeus na grega.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

POÉTICA DO PESADELO-6


A taxonomia humana nos define como animais da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas, família dos hominídeos, gênero humano, espécie sapiens. Em alguns milhões de anos, o desenvolvimento natural da espécie processou ajustes e adaptações profundas e singulares que nos destacaram substancialmente dos demais seres: habilidade manual (polegar opositor flexível), equilíbrio esquelético e andar ereto são algumas delas, mas é no cérebro a magistral diferença, a estrutura mais impactante que fez com que saíssemos definitivamente das cavernas e da árvore genealógica dos primatas para construirmos o ramo independente da cultura – fala, linguagem, pensamento abstrato, numerosidade, lógica, altruísmo, etc.

Morin levanta questões aparentemente antitéticas: o homem não é constituído por camadas distintas, uma biomaterial e outra psicossocial, mas por uma totalidade biopsicossociológica. Ele rejeita a cisão entre biologia (ciência natural) e antropologia (ciência social), entendendo que a chave da cultura encontra-se na nossa natureza, e a chave da nossa natureza na cultura, ou seja, o homem, desde sempre, “reescreveu-se” continuamente como um ser profundamente original, mas sem um propósito definido: uma unidade na diversidade, a diversidade na unidade.

Se a biologia, com sua concepção “estreita e hermética”, e a antropologia com sua concepção “insular e sobrenatural” são em si insuficientes para descrever o ser, Morin propõe uma teoria aberta baseada na auto-organização e na lógica da complexidade, preferindo chamar de “homem insular”, porque suas conexões não eram consideradas, porém, ele deve ser visto como produto de um sistema que ele chama de policêntrico – nem só biológico nem só cultural, mas um sistema aberto, peninsular

O inventário dos arrazoados todos que foram trazidos até você, a despeito de uma produção gigantesca ter ficado de fora por razões óbvias, em conjunto com a observação atenta do momento atual em todas as esferas, permitem considerações críticas e objetivas, sem julgamentos. Minha visão de mundo depara com uma realidade que confere legitimidade ao proposto aqui e ao olhar dos autores citados, qual seja, o de um estado de natureza em erupção, fora do controle das instituições e sem qualquer perspectiva de uma normalidade minimamente aceitável. Estudos europeus e americanos¹ revelaram o diagnóstico alarmante de que a humanidade está se tornando menos inteligente, se preferir, mais burra, o que significa que uma aluvião de tragédias parece iminente e inevitável. A malha social está se rasgando. Em 1973, Horkheimer já demonstrava essa preocupação:
A razão jamais digeriu verdadeiramente a realidade social, mas hoje está tão completamente expurgada de quaisquer tendências ou preferências específicas que renunciou por fim, até mesmo a tarefa de julgar as ações e o modo de vida do homem. Entregou-se à sanção suprema aos interesses em conflito aos quais nosso mundo parece estar realmente abandonado. O resultado disso é o desterro da razão .
 Antes dele, em 1930, Freud apontava tais sintomas expressando seu temor:
O elemento de verdade por trás disso tudo, elemento que as pessoas estão tão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo.
O homem nunca soube quem ou o que é, e nunca saberá, porque ele é, literalmente, o desdobramento contínuo de uma complexidade sempre inacabada, de subjetividades e contradições internas. Não compreende o significado da vida e desconhece seu lugar e seu papel no jogo cósmico. A religião não lhe dá respostas por ser pura ilusão, e a ciência, quando faz, levanta novas indagações. Entre rezar e pensar, entre ilusão e real, o que você acha que ele prefere? O que você prefere?

O homem não suporta e não consegue sublimar a orfandade, o desamparo e a angustiante miséria existencial. Suas muitas marcas de nascença se transformaram em chagas profundas que nunca cicatrizaram, determinando os traços constitutivos do ser: idiossincrático, heterônomo, amoral e aético; irreflexivo, perverso, covarde, infantil e ressentido. Desejante, fraturado, perdido na solidão e no silêncio, um grande vazio dentro de outro ainda maior. Anthropos sapiens que leva nas costas um cadáver postergado pelas savanas em meio a uma pletora de signos.

A barbárie que nos ameaça não vem de fora, vem de dentro, com as faces da Quimera – violenta e traiçoeira – e não veremos Belerofonte cavalgando Pégasos vindo nos salvar. Apocalipse? Talvez, depende do que você quer ser. Não entendeu? Quando um médico que, em princípio, se propõe a salvar vidas, por convicções políticas extremadas aplaude um alto membro do Governo que confessa tentar matar um ministro do Judiciário, então a barbárie já começou. Isto não é ficção, saiu nas redes. “Nada do que é humano me surpreende”(Terentius). Entendeu agora? Semana que vem tratamos disso.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

MISSA DOS EXCLUÍDOS-

O que há de bom ou mau em qualquer crença,
"qualquer" é o modo como se crê.
O bem ou o mal estão no psiquismo
do crente, não na crença.
Fernando Pessoa

Uma vez conhecida a complexa dimensão e a real natureza humana diante desse emaranhado de sentimentos e alternâncias, e para que o ser não sucumba à dor da sua precariedade, é de se supor que devam existir pontos de ancoragem que o auxiliem na travessia desse mar bravio chamado vida. Existem, mas, para saber quais são, devemos recuar um pouco na história. O totemismo é o primeiro deles, pois o totem indica o fenômeno presente em todos os povos primitivos de transformar uma coisa (natural ou artificial) em emblema do grupo social e em garantia da sua solidariedade. Este tema já foi trazido aqui e não há porque retornar (PrimitivaMente Moderna), por isso vou me ater somente ao principal.

O totemismo é um sistema organizador de clãs, tribos e sociedades, pela crença no parentesco entre o grupo e seu tomem como elemento mágico aplacador de algumas incertezas, e desfazer temores e ansiedades quando a ciência é incapaz de aquietar os espíritos primitivos. Assim, os aspectos religiosos/mágicos assumem papel relevante como fontes primárias de conhecimento e especulação, e ordenadores da m oral.  É Durckheim quem diz que os primeiros sistemas de representações que o homem produziu do mundo e de si mesmo são de ordem religiosa. Isso é importantíssimo considerar. Nesse caso, o totemismo é fundamentalmente um elemento distintivo de identidade de um gruo, exercendo a função de unidade e coesão como representação de uma “divindade física – patriarca, líder –, ou espiritual – entes da natureza. O homem depende integralmente dessa instrução religiosa como legisladora da sua sobrevivência espiritual e emocional. Por que a crença religiosa é necessária? Freud investigou: 
As ideias religiosas são proposições, enunciados acerca de fatos e circunstâncias da realidade externa (ou interna) que comunicam algo que o indivíduo não encontrou por conta própria, e que reivindicam que se creia nelas. Visto que informam sobre aquilo que mais nos importa e mais nos interessa na vida, elas gozam de alta consideração. Quem delas nada sabe é deveras ignorante; quem as incorporou aos seus conhecimentos pode se considerar muito enriquecido.
Entretanto, quando a religião também não é suficiente, outras crenças sobem ao pedestal, mesmo ilusórias e dessacralizadas: deuses, anjos, espíritos, astros, oráculos, pastores, cristais, mestres e também alienígenas. Se tais figuras trazem conforto e apoio espiritual ao homem, ele as acolhe e nega tudo o que contrarie seu pensamento ou de sua tribo, turma, grupo ou crença. Daí para o corpo-a-corpo, metafórico ou literal, basta uma faísca. Estamos falando de uma geração de mimados, infantis, acovardados, vítimas de uma sociedade desestruturada a caminho do desastre.

Essa vitimização é parte da “liturgia da exclusão” e produz retração, empobrecimento intelectivo, ausência de cognição lógica, esquiva das reflexões e da crítica, pressa nas respostas. Há um claro declínio cultural sistêmico patrocinado pela bolha epistêmica, pelo viés de confirmação, pela câmara de eco, pela ilusão de profundidade explicativa e pela sala de espelhos, tudo já discutido aqui. O homem está acuado em seu porão num estado anímico de desorientação e esquizofrenia. Esse não lugar no mundo e desbordamento da realidade aniquila a alteridade em seu sentido mais profundo. Você pode fugir da realidade, mas não pode se esconder dela. Dalrymple afirma que as fronteiras entre civilização e barbárie estão se desfazendo muito rapidamente. Estamos no rumo de uma civilização da barbárie.

Esse recolhimento do sujeito ao seu próprio útero, ao eu universo de convicções, se traduz no que ficou conhecido como servidão voluntária ou confiança perversa no carcereiro. Tal condição remete o ser à ambiguidade como recurso de preservação da vida, uma aceitação natural ainda que pareça paradoxal. Podemos substituir homem primitivo por imaturo que no fundo é a mesma coisa.

Ainda sobre ambiguidade, Wilfred Bion observa que nossa mente trabalha como um pêndulo em instâncias psíquicas distintas entre os estados neurótico e psicótico, entre aspectos infantis e adultos e entre elementos sadios e patológicos. Mais ambíguo impossível. Esse balanço caracteriza a mente multissensorial e multidimensional, lidando com as realidades interna e externa conforme o tipo predominante de funcionamento mental, ou seja, na dinâmica psíquica há uma atividade operando neuroticamente e outra psicoticamente. Freud nos dá as chaves definitivas para se entender o homem: 
Compreendemos como o homem primitivo tem necessidade de um deus como criador do universo, como chefe de seu clã, como protetor pessoal (...) Um homem dos dias posteriores comporta-se da mesma maneira. Também ele permanece infantil e tem necessidade de proteção, inclusive quando adulto; pensa que não pode passar sem apoio de seu deus (...) A questão da angústia constitui um ponto no qual convergem os mais diversos e importantes problemas e um enigma cuja solução irá projetar mais luz sobre toda nossa vida psíquica.
Retomando Kant, o homem só pode alçar à sua autonomia pelo esclarecimento, pela superação da minoridademas, inepto que é, está preferindo o caminho inverso ao falsear a história, ao depredar a cultura, dilapidar o saber, sepultar valores pétreos como  ética e responsabilidade, ao abolir o diálogo. Com certeza há de pagar um alto imposto pela sua insanidade. Para quem não se pauta pela razão, qualquer reza serve. Gosto quando Jung diz: “Quem olha para fora, sonha, quem olha para dentro desperta”. Imagine então olhar para si mesmo e despertar... de um pesadelo. É oque vem por aí no último capítulo da série.

_________________
Émile Durckheim. As Formas Elementares da Vida Religiosa. Martins Fontes, 2003.
Claude Lévi-Strauss. A noção de estrutura e etnologia; Raça e  História; Totemismo hoje. Abril Cultural, 1980.
________. O Pensamento Selvagem. Papirus, 1989.
J. G. Frazer. O Ramo Dourado. Circulo do livro, 1978.
Lucien Lévy-Bruhl. A Mentalidade Primitiva. Paulus, 2017.
Jared Diamond. Colapso. Record, 2007.
Nicola Abbagnano. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes, 2007.
Bronislaw Malinovski, B, Magia, Ciência e Religião Edições 70, 1984.
Theodore Dalrymple. Nossa Cultura... ou o que restou dela.  É Realizações, 2015.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019


RAZÃO & DESRAZÃO
A mente é o seu próprio lugar,
e dentro de si pode fazer
do inferno um paraíso,
do paraíso um inferno.
Paraíso Perdido 

John Milton, 1667

Caminhando 100 anos mais, encontramos outro gigante da Filosofia Social, David Hume, um empirista radical, cético, que levou a investigação da mente às últimas consequências com seu ambicioso “Tratado da Natureza Humana”. Crítico de Descartes em relação ao “Eu”, que ele via como uma invenção, e também dos dogmas religiosos, concebia o ser não mais que um ajuntamento de sensações desordenadas, onde a razão era incapaz de orientá-lo nas decisões mais complexas, restando apenas as noções de prazer e dor como balizadores de sua conduta. Essa posição dura lhe custou dissabores, comprometendo sua carreira acadêmica. Porém, assim como outros grandes, seu pensamento ainda hoje é ponto de partida para profundas reflexões. Uma indagação sua é desconcertante e intrigante: Qual é o conteúdo da consciência que se oculta sob as palavras? É um desafio e tanto que poucos ousam responder.

O trabalho de Hume inspirou seu contemporâneo Kant. Reconhecidamente o mais importante nome da filosofia ocidental, Kant conseguiu reunir o racionalismo de Descartes ao empirismo de Hume, propondo um sistema que ficou conhecido como a “revolução copernicana na filosofia”, ao situar o indivíduo como parte integrante do conhecimento e não mais como uma tabula rasa.

Kant dizia que todo conhecimento tem origem nos sentidos, mas defende que o homem tem sim uma razão – a razão pura – que interpreta os dados recebidos. Ele tinha preocupação com a ética e a moral nas ações e relações humanas, e postulava que o mais nobre valor moral do caráter está em fazer o bem por dever, não por um desejo mesquinho. Vale dizer, Kant rompia também com a ideia medieval de que a razão, associada à fé, conduzia o espírito humano a níveis mais elevados. O filósofo prussiano separou a fé da razão, discordando de que a metafísica fosse uma ciência.

Com isso, a Teologia via suas bases sofrerem um abalo considerável, porquanto Kant demonstrava a fragilidade de uma metafísica especulativa incapaz de dar suporte às ações humanas. Na sua argumentação, ele propõe como base para a fé um senso moral inato ao homem – o imperativo categórico – fundamentado na “razão pura” independente dos sentidos. Para ele, o caráter pode ser tanto físico quanto moral; o primeiro define o homem como um ser sensível ou natural, enquanto o segundo é o que o distingue como ser racional dotado de liberdade, um ser autopoético.

As guerras que marcaram o século 20 provocaram o desencantamento do mundo em filósofos sensíveis como Hanna Arendt, Sartre e Lévinas, obrigando-os à revisão dos seus conceitos de maldade inerente ao homem. Havia um consenso de que o indivíduo era inteiramente responsável pelos seus atos, e que, através deles, construía seu caráter – sua essência. A fórmula discursiva do existencialismo ateu de Sartre advoga que a existência precede a essência e que por essa razão estamos condenados a ser livres; condenados porque nos criamos a nós próprios (a autopoiese), e livres porque, uma vez atirados ao mundo, tornamo-nos responsáveis pelos nossos atos, bons ou maus, não podendo jamais responsabilizar os outros  quaisquer outros, inclusive Deus  pelas consequências.

Não muito distante desse pensamento está Emmanuel Lévinas, para quem o homem é a própria alteridade, mas acredita ser seu pensamento absoluto e soberano em relação aos outros. Lévinas não limita sua observação somente aos crentes e religiosos, estendendo seu raciocínio a todos, indistintamente, já que cada um tem seu modo particular de pensar o mundo e seus princípios de fé. Ele entende que isso faz florescer o pensamento totalitário, uma aberração da inteligência que gera o sofrimento, a guerra e o fim da moral e da ética. O mistério da crueldade e da violência está ligado ao pensamento totalizante, que coloca o seu pequeno mundo de crenças como devendo ser o de todos.

A pensadora Hanna Arendt desenvolveu todo o seu discurso político-filosófico nos conceitos do mal e da violência com base nos paroxismos da experiência totalitária. No seu entender, a doutrina totalizante é mais opressora que a escravidão e a tirania, mais destruidora que a miséria econômica e o expansionismo territorial. Ao costurar o mal ao vazio reflexivo, ela propõe uma possível explicação para a violência do homem contemporâneo: ela se viabiliza na banalidade, na injustiça e nas práticas radicais de fúria contra minorias  imigrantes, mulheres, índios, negros, crianças, homossexuais, idosos, credos diferentes e até a natureza. Maldade e violência não é só agressão física, é misoginia, homofobia, pedofilia, desonestidade, truculência, estupidez, hipocrisia.

Traçando um paralelo entre o desenvolvimento da civilização e o amadurecimento libidinal do sujeito, Freud ressalta que quando se inicia um estágio civilizatório, deve-se renunciar à pressão dos instintos, mesmo que se pague um alto preço. A “besta selvagem” que são os impulsos de natureza “bárbara” precisa ser domesticada em benefício da preservação da sociedade. O processo de sublimação das pulsões  – motor da marcha civilizatória  exige sacrifício ao prazer imediato.

Tendo por parâmetro os impactos da guerra, Theodor Adorno vê na barbárie a falência da racionalidade, o que explica como foi possível se chegar ao extermínio absurdo do homem pelo homem  auge da bestialidade. Para ele, mundo abstrato, corpo-máquina e indiferença afetiva são algumas características próprias do adoecimento do contato, do desaparecimento do rosto, da crise da presença:
Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontram atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização – e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes  ao conceito de civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza.
Adorno não está só nessa avaliação áspera sobre o homem, a realidade, a sociedade, a civilização ou a própria humanidade. Você, que está acompanhando esta série, e tem lido ao longo de meses muitas abordagens no mesmo tom, deve ter percebido que o alerta vem soando há tempos  - 2.000 anos, pelo menos - e em todas as direções, mas a surdez é absoluta e a cegueira, contagiante. Sei que você dirá que, mesmo assim, sobrevivemos a tantas catástrofes. É verdade, mas não creio que nossos antepassados tivessem planejado este futuro (presente) para nós, e se estamos sentindo na carne os efeito desse não planejamento, e se temos (temos?) condições de fazer a coisa certa para os nossos filhos e netos, é melhor fazer agora, porque a missa dos excluídos vê crescer seu público. Que pode se tornar maioria. É o que teremos na próxima semana.

Nota: Sobre a edição passada, um assíduo leitor destacou uma frase e engatou uma pergunta. Considerei importante e preparei um texto a respeito, que será publicado no final da série, como um complemento. Peço que aguarde.

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Theodor Adorno, Max Horkheimer. Dialética do esclarecimento. Zahar, 1985.
David Hume. Tratado da Natureza Humana. Ed. Unesp, 2009. 
Emmanuel Lévinas. Entre Nós: Ensaios sobre a alteridade. Vozes, 2005.
Jean-Paulo Sartre. O Existencialismo é um Humanismo. Brasiliense, 1978.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

CIVILIZARBÁRIE-3

No século 5 da era cristã, Santo Agostinho foi um dos primeiros a delinear nossa verdadeira identidade, inquieto que era quando tratava de compreender a condição humana. Não apenas ele é um legítimo representante do espírito de uma época em que se discutia a relação entre fé e razão, como também seu pensamento influenciou fortemente toda uma corrente de filósofos e humanistas sobre a Questio Dei, sendo considerado aquele que simboliza o nascimento da Era Medieval, plantando as sementes filosóficas da civilização ocidental. Santo Agostinho estava em busca da verdade e da luz espiritual. Para ele, o homem é um ser degenerado, perturbado e pecador em sua essência sendo confrontado desde o nascimento com as coisas desse mundo, mundo que é matéria de expiação, sofrimento e dor como fontes de angústia e desespero:
Nesta lamentável inquietação dos espíritos decaídos, que, despidos da veste de tua luz, manifestam as próprias trevas, mostras claramente a grandeza de tua criatura racional; na busca da felicidade, ela só se sacia com tua grandeza, onde encontra repouso – pois que ela não pode bastar-se a si própria. Porque tu, Senhor, iluminarás nossas trevas. De ti vêm nossas vestes de luz, e nossas trevas serão como o sol do meio-dia.
Antes dele, Sócrates já andava às voltas com a investigação acerca do homem, e reconhecia que, nada sabendo sobre si mesmo, não poderia avaliar a questão em toda a sua profundidade. Heráclito (540-470 a.C.) propunha a mutabilidade constante do homem, o que dificultava conhecer a sua natureza, mas é com Platão que o homem é colocado no centro da Filosofia. Depois de Santo Agostinho, poucos se dedicaram a esmiuçar nossas entranhas pela mesma ótica por estarem sob as leis da Igreja e dos preceitos da fé cristã. A questão entre fé e razão só voltaria ao debate com Santo Tomás de Aquino mil anos depois.

No início do século 16, quem toma a palavra é Niccolò Machiavelli. Sua consagrada obra ainda é objeto de estudos e interpretações na Academia por ser um tratado ímpar sobre o Poder, o que ele faz do homem e o que este faz daquele. Ademais, seu discurso disseca sem hipocrisia, cinismo ou ingenuidade o mundo como ele é e o homem como ele é. Por isso mesmo, um autor central para se entender, sem ilusões, as engrenagens que movem o planeta. Para este filósofo e historiador florentino, a maneira pela qual o homem conduz a política é espelho de sua natureza violenta, perversa e traiçoeira, porque o Poder, acima de qualquer outra coisa, assim o demonstra. Mesmo se dizendo cristão, Machiavelli não se ilude com a religião nem com o homem, para quem, sempre que possível, agirá segundo as fraquezas de seu espírito – covardia, dissimulação, crueldade, falsidade. Definitivamente, não estamos bem na foto.

Machiavelli não era o único a pensar dessa maneira, mas morar em Florença, berço do Renascimento e centro culturalmente efervescente, colaborou muito para propagar suas ideias. Ao comentar sua obra, o filósofo Maurice Merleau-Ponty assevera que “O realismo de Maquiavel¹ desmonta concepções clássicas de um homem virtuoso, e isso alterará os modos de compreensão do poder”. Um dos aspectos fundamentais da política é a aparência do ser, conforme afirma o autor florentino:
A natureza dos homens faz com que eles se maravilhem com o que veem, mesmo quando enganados, e geralmente o são, pois os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, pois todos podem ver, mas poucos são os que sabem sentir. (...) O vulgo é levado pelas aparências e pelos resultados dos fatos consumados, e o mundo é constituído pelo vulgo.
No século seguinte é o trabalho de Thomas Hobbes que sobressai nas discussões sobre o estado de  natureza, cuja  obra, Leviatã, torna-se um marco. Também ele segue a linha dos autores mencionados ao afirmar que o homem é “utilitarista, egoísta e interesseiro”, com predisposição para a explosão – o ser em sua “natureza bruta”,  sem lapidações sociais; cruel, possessivo, beligerante, age a ponto de matar em defesa de sua fé, muitas vezes com requintes de crueldade e sadismo.

O princípio do prazer faz o indivíduo desobedecer questões éticas e morais para atingir o pleno gozo de seus objetivos. Fato é que a busca do prazer está em rota de colisão com a realidade porque, quanto mais esse desejo aflora, mais diminui a capacidade de pensar, ponderar, deliberar. Para o homem, segundo Hobbes, pessoas e coisas têm o mesmo valor como meros instrumentos manipuláveis em benefício próprio. Jean-Jacques Rousseau dirá isso de forma diferente e com maior ardência ao comparar pessoas a bovinos: “Eis assim a espécie humana dividida em rebanhos de gado, cada qual com seu chefe a guardá-la a fim de a devorar”.

Devo ressaltar que foram levados em conta o ambiente histórico de cada autor, que certamente os influenciou na construção das ideias. Ocorre que tais obras são tão  densas, reformadoras  e inspiradoras, que se tornaram,  de certo modo,  fundadoras das Ciências Políticas e Sociais da nascente Era Moderna. A leitura hobbesiana nos põe a pensar que Leviatã, em última análise, somos nós e não apenas o Estado. Se o inferno são os outros, como dizia Sartre, então os outros somos nós também. O inferno somos todos, construindo uma civilização que, em algum momento, não se diferenciará mais da barbárie, será a civilizarbárie. Na próxima semana veremos a distância entre os homens de razão e a desrazão dos homens.


¹ Como critério pessoal, tenho adotado, para autores estrangeiros, a grafia do nome próprio no idioma natal,; no caso de citação ou obra publicada, mantenho como tiver sido empregado.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

QUEM HABITA A SUA PELE? - 2

Quando traçamos a linha do tempo da humanidade, verificamos que todas as tribos, clãs, sociedades e civilizações desenvolveram sua ciência, sua cultura e sua tecnologia próprias, estruturalmente semelhantes ao que se observa no mundo atual. A diferença está em nossa cultura revestida por uma finíssima pele de “modernidade”, que oculta a face primal instintiva de sobrevivência, dominação, força e medo, este como base das pulsões religiosas impregnadas na experiência humana.

Falar em eclipse da razão, dissensão a alteridade e autoverdade é insuficiente para abarcar toda a matéria, por isso é preciso tocar em alguns pontos capitais, ainda que brevemente. As grandes narrativas do passado deram lugar às micro narrativas, isto é, abandonaram-se os projetos de futuro, o ideário social e o comprometimento coletivo em nome de um imediatismo obsessivo e uma nova proposta individual de verdade – a autoverdade: O que se diz, o que se faz, defende e acredita é o texto final para promover a adesão grupal. Disso resulta a dissensão da alteridade, ou seja, o outro só me é útil se e enquanto alinhado com meus propósitos, se não, ignoro, desprezo ou elimino, metafórica ou literalmente.

O sujeito só ouve a si e quer que só a sua voz seja ouvida. Solipsismo compartilhado, lógica burra, monólogo de surdos. Temos aí a diluição dos princípios culturais, éticos e morais, a vida tratada como coisa, clivagem psíquica, distrato social, ruptura dos afetos, colapso da base educacional, eclipse da razão. Trata-se da retomada do estado de natureza do animal humano, de barbárie, enfim. Todo processo civilizatório é também  um processo de barbárie, assinala Walter Benjamin. Pergunto o inverso: Toda barbárie é também um processo de incivilidade? Claro que sim. Se o processo civilizatório é contínuo, a barbárie também é, portanto inevitável, e hoje muito mais midiática, muito mais expositiva e estarrecedora do que jamais foi, ainda que em contextos diferentes. Precisamos entender melhor seu pensamento, bastante atual.

Benjamin (1892-1940) foi um influente pensador alemão do início do século 20 com olhar bem pessimista sobre o futuro, com base nos aspectos políticos, históricos, econômicos e culturais da sociedade. Para ele, é preciso cortar o pavio antes que a faísca atinja a dinamite. No seu entender, a revolução tecnológica na virada do século 19 para o 20 modificou o papel da cultura de massa, dos meios de comunicação e da produção cultural, influenciando na percepção e na assimilação do público, gerando novas formas de mobilização social e contestação política. Percebeu a semelhança com a virada do 20 para o 21? Sua análise estava correta e continua valendo.

Segundo esse filósofo e ensaísta alemão, a tecnologia desenfreada e invasiva substitui as relações interpessoais, fazendo com que o sujeito perca a sensibilidade da experiência direta, autêntica, original. Esse declínio perceptiva torna-o incapaz de apreender as mudanças do ambiente, levando-o a um estado de nudez interior e impedimento da capacidade de comunicação. Tal pobreza da experiência tem consequências. Seu pensamento está aqui resumido ao máximo, pelas razões que você já sabe: 
Ele deseja libertar-se de toda experiência, aspira a um mundo em que possa assentar tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa resultar disso (...) Sim, é preferível confessar que essa pobreza não é mais privada, mas de toda a humanidade. Surge, assim, uma nova barbárie. 
Que estamos envolvidos por uma imagosfera asfixiante também não há nenhuma dúvida; a imagem tornou-se mais importante que o real, em qualquer circunstância. Vivemos um jogo de aparências onde imperam mentira, hipocrisia, falsidade, fake news, turbinadas pelas redes sociais em todas as plataformas numa multiconectividade avassaladora, um lugar simbólico de não pertencimento. Vários estudos apontam os danos dessa imersão desordenada no universo virtual mais real que o real: Desconstrução e reconstrução identitária, narcisismo compulsivo, fuga por inadaptação à realidade, hipervalorização progressiva do repertório imaginário, autocomiseração, imaturidade, covardia. Covardia moral neurótica, como diz Freud. Essa radiografia pode parecer, num primeiro olhar, devastadora de nossas melhores virtudes, quando é, de fato, retrato fiel, porque o exame crítico é e deve ser inelutavelmente rigoroso, imune a paixões, se quiser desvelar a face humana sem maquiagem. A pergunta-chave desta série, Quem habita a sua pele?”, traz uma resposta irrefutavelmente assustadora: Há uma besta-fera enjaulada faminta por um pedaço de carne, que não a sua.

Ainda dentro do ambiente digital, a celeridade e elasticidade de informação geralmente sem filtro atropela a reflexão e a interpretação judiciosa dos fatos; Mark Bauerlein chama de “gratificação instantânea”, resultando na perda de contexto e historicidade, na atrofia de ideias e aporte contínuo de conflitos. Seu estudo é um recorte bastante sintonizado com os de países como Holanda, Dinamarca, China, Portugal, Espanha e Inglaterra, por exemplo, num total de 14 levantamentos independentes. É quase um consenso global.

Uma das conclusões apresentada nestes trabalhos é que a juventude de maneira geral, mas em especial a americana, perdeu totalmente o interesse pelos livros, pela literatura e pelo saber amplo; os estudos indicam ainda que esse decréscimo de inteligência começou a ser demarcado a partir dos últimos 40 anos, crescendo no início deste século, período em que a internet conquistou seu espaço. Não é mera coincidência. A correlação é inegável, segundo o consenso dos autores, que encontra eco nos trabalhos da neurocientista britânica Susan Greenfield, da Oxford University, para quem o admirável mundo novo digital está alterando significativamente e de forma inédita o nosso cérebro. Por óbvio, nossas atitudes, por óbvio, nossa auto-imagem. Aonde tudo isso nos leva? Semana que vem eu conto. Não perca o fio.

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BAUERLEIN, M. The Dumbest GenerationTarcher/Penguin, 2017.
GRENFIELD, S. The Private Life of the Brain. Penguim, 2002.