“Suficientemente repetida, a afirmação acaba por
criar, primeiramente, uma opinião e, mais tarde, uma crença. A repetição é o
complemento necessário da afirmação. Uma opinião qualquer universalmente aceita
constituirá sempre, para a multidão, uma verdade”. Mais um argumento de Le Bon, de quem estamos compilando uma série de conceitos expostos em As Opiniões e as Crenças como base para nossas reflexões. Os sublinhados são meus.
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O problema do estabelecimento e da propagação das
opiniões, e sobretudo das crenças, apresenta aspectos tão maravilhosos que os
sectários de cada religião invocam a sua origem e a sua difusão como provas de
uma procedência divina. Observam também que essas crenças são adotadas a
despeito do mais evidente interesse daqueles que as aceitam. Compreende-se, por
exemplo, sem dificuldade, que o Cristianismo se haja propagado facilmente entre
os escravos e todos os deserdados, ao quais prometia uma felicidade eterna.
Mas, que forças secretas podiam determinar um cavalheiro romano, um personagem consular,
a despojar-se dos seus bens e afrontar vergonhosos suplícios, para adotar uma religião
nova e vedada pelas leis? Seria impossível evocar a fraqueza intelectual dos
homens que voluntariamente se submetiam a tal jugo, porquanto, desde a antiguidade
até aos nossos dias, se têm observado os mesmos fenômenos nos espíritos mais
cultos.
Uma teoria da crença pode unicamente ser viável
quando fornece a explicação de todas essas coisas. Deve, sobretudo, fazer
compreender como sábios ilustres e reputados pelo seu espírito crítico aceitam
lendas cuja infantil ingenuidade desperta o sorriso. Mas como, nos nossos dias, em meios sobre os quais a ciência
projeta tanta luz, não se acham essas mesmas crenças inteiramente desagregadas?
Por que as vemos nós, quando por acaso se desagregam, originar outras ficções,
maravilhosas, como prova a propagação das doutrinas ocultas, espirituais etc.,
entre sábios eminentes? A todas essas perguntas deveremos, igualmente,
responder.
Tudo quanto é aceito por um simples ato de fé deve
ser qualificado de crença. Se a exatidão da crença é verificada mais tarde pela
observação e a experiência, cessa de ser uma crença e torna-se um conhecimento. Crença e conhecimento constituem dois modos de
atividade mental muito distintos e de origem muito diferentes: A primeira é uma
intuição inconsciente provada por certas causas independentes da nossa vontade;
a segunda representa uma aquisição consciente, edificada por métodos
exclusivamente racionais, tais como a experiência e a observação. Foi somente
numa época adiantada da sua história que a humanidade, imersa no mundo da crença,
descobriu o conhecimento. Quando aí se penetra, reconhece-se que todos os fenômenos
atribuídos outrora às vontades de seres superiores se apresentavam sob a influência
de leis inflexíveis.
Desde que os assuntos sobre os quais se quer
raciocinar caem no campo da crença, a reflexão perde o seu poder crítico. Uma lógica afetiva demasiada leva a ceder sem
reflexão a impulsos frequentemente funestos. Uma lógica mística excessiva
suscita as exigências religiosas, dominadas pela preocupação egoísta da sua
salvação, e sem utilidade social. Uma lógica coletiva exagerada promove a
predominância dos elementos inferiores de um povo e o conduz à barbárie. A força dos fanáticos reside precisamente na
rigorosa obediência ao seu ideal perigoso.Uma
lógica racional em demasia provoca a dúvida e a inação.
Sendo lenta e penosa a elaboração de um
julgamento, o homem se contenta, em geral, com as primeiras impressões, isto é,
com as sugestões da simples intuição. Abandonar-se a elas sem exame, como
muitas vezes se procede, é atravessar a vida na persuasão de um erro. Elas só
têm, efetivamente, por sustentáculo, simpatias e antipatias instintivas que
nenhuma razão ilumina. É, entretanto, sobre bases tão frágeis que, às mais das
vezes, se edificam as nossas concepções do justo e do injusto, do bem e do mal,
da verdade e do erro.
Tão irredutível quanto a necessidade de crer,
a necessidade de explicações acompanha o homem desde o berço até ao túmulo. Ela
contribuiu para criar os seus deuses e diariamente determina a gênese de
numerosas opiniões. Essa necessidade intensa facilmente se satisfaz. As
respostas mais rudimentares são suficientes. Sempre ávido de certezas
definitivas, o espírito humano guarda muito tempo as opiniões falsas fundadas
na necessidade de explicações e considera como inimigos do seu repouso aqueles
que as combatem. O principal inconveniente das opiniões baseadas em explicações
errôneas é que, admitindo-as como definitivas, o homem não procura outras.
Supor que se conhece a razão das coisas é um meio seguro de não a descobrir.
A
ignorância da nossa ignorância tem retardado de longos séculos os progressos
das ciências e ainda, aliás, os restringe. A sede de explicações é tal que
sempre foi achada alguma para os fenômenos menos compreensíveis. Os elementos constitutivos da nossa existência
pertencem, como sabemos, a três grupos: vida orgânica, vida afetiva, vida
intelectual. A necessidade de crer alia-se à vida afetiva. Tão irredutível quanto
a fome ou o amor ela é, frequentemente, tão imperiosa. Constituindo uma
invencível necessidade da nossa natureza afetiva, a crença não pode, e nisso é
como um sentimento qualquer, ser voluntária e racional. A inteligência não a
forma nem a governa.
Confinado num deserto, privado de qualquer
símbolo, o crente mais convicto veria rapidamente declinar a sua fé. Se,
entretanto, anacoretas e missionários a conservam, é porque incessantemente
releem os seus livros religiosos e, sobretudo, se sujeitam a uma multidão de
ritos e de preces. A obrigação para o padre de recitar diariamente o seu
breviário foi imaginada pelos psicólogos que conheciam bem a virtude sugestiva
da repetição. Nenhuma fé é durável se dela se eliminam os elementos fixos que
lhe servem de apoio. Um Deus sem tempestades, sem imagens, sem estátuas,
perderia logo os seus adoradores.
O nosso máximo esforço de independência consiste
em opor, por vezes, um pouco de resistência às sugestões ambientes. A grande
massa nenhuma resistência opõe e segue as crenças, as opiniões e os preconceitos
do seu grupo. Ela lhe obedece sem ter mais consciência do que a folha seca
arrastada pelo vento.
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A exemplo da edição passada, retomamos Freud quando diz que a infância humana está plena de ilusões como parte fundamental do processo de amadurecimento. Como seres dependentes da proteção paterna, deparamos com um universo de frustrações inevitáveis. O ingresso no mundo adulto nos põe frente a frente com uma realidade que constrange os desejos mais essenciais. Saímos da esfera infantil de “tudo pode” (onipotência dos pensamentos) para
uma realidade que nos obriga ceder em nossas próprias vontades; é o que Freud chama mudança de foco
do princípio do prazer para o princípio de realidade, tema extremamente importante na sua metapsicologia e que já foi trazido neste blog.
Amadurecer, emancipar-se, crescer, significa tornar-se um ser sociável perante regras e imposições que se opõem aos desejos individuais. Desse modo, a religião aparece como incentivadora da manutenção de uma realidade que não se aproxima da
racional para o sujeito, “garantindo” recompensas numa vida futura: A imortalidade, instante modelar de um desejo humano projetado numa realidade exterior que se legitima
pelo supremo poder da Providência Divina.
Acolhemos as ilusões porque nos poupam sentimentos desagradáveis, permitindo-nos em troca gozar satisfações. Portanto, não devemos reclamar se, repetidas vezes, essas ilusões entrarem em choque com alguma parcela da realidade e se despedaçarem contra ela.O modelo proposto por Freud de como se processa a atuação psíquica inconsciente é a chave para entender as manifestações da vida consciente. Os sonhos são a porta de acesso a este modo peculiar de funcionamento. Partindo da interpretação onírica de como os mecanismos inconscientes atuariam, Freud pode abordar a grande produção da cultura humana. Ele praticamente dedicou toda a sua obra na concepção de que o modo como atuariam as estruturas inconscientes seria a senha para compreender as manifestações mitológicas, as motivações filosóficas e a religião.
[continua]
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S. Freud, Considerações atuais sobre a guerra e a morte. Cia das Letras, SP. 2013.
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