Obras

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segunda-feira, 29 de agosto de 2016


O Labirinto Humano - o "xis" da questão



Ao visitar meu irmão há quase um ano, em Portugal, num dado momento da esperada reunião familiar regada a muita pizza e vinho, o assunto girou em torno do meu posicionamento frente ao “disco voador”. A conversa atiçou a chama da curiosidade quando fui questionado por ter mudado radicalmente de opinião em tão pouco tempo. Explico: como ele não acompanhou minha trajetória de pesquisa ao longo dos anos, surpreendeu-se me ver contradizendo tudo aquilo em que acreditava antes. Esse "pouco tempo", na verdade, corresponde a pouco mais de 30 anos, desde quando ele mudou-se para aquele país. Esse hiato temporal ficou eclipsado no reencontro e o passado tornou-se um mero "ontem". 

A explicação dada naquela noite cabe agora àqueles que talvez também pensem da mesma forma, e quem sabe ainda possa servir de modelo de conduta aos mais novos. Longe de fazer uma autobiografia, vou apenas pontuar o que considero relevante para a questão.

A primeira década - 1971-80 - foi investida em leitura e aprendizado, assistir congressos e seminários, fazer amigos no meio e conversar com pesquisadores. Como todo jovem interessado, acreditava que os discos pudessem de fato existir porque tudo me levava a crer nisso. Na década seguinte, entrei de corpo e alma já como ufólogo atuante, passando a ver e viver de perto o ambiente e os bastidores da pesquisa ufológica. Estando dentro da coisa, imaginei que encontraria as respostas que procurava, mas me enganei. Foi quando percebi que “pesquisa” não se justificava nem no nome. Fui tomado por um desconfortável sentimento de decepção e frustração.

O que houve? Não havia, como nunca houve, método, rigor, isenção, autocrítica, reflexão, discernimento, disciplina, ponderação, conhecimento do objeto de estudo, e tal não poderia haver! O objeto do estudo não existe! Como pesquisar algo se não tenho esse algo para pesquisar? Como investigar aquilo de que não tenho a menor ideia do que é? Se esse algo só se entrou em cena porque alguém o viu manifestar-se, é evidente que esse alguém passe a ser o objeto primário da pesquisa! Para mim passou a ser a prioridade da pesquisa, e isso mudou todo o cenário de fundo.

Em grande medida, a inépcia e a imperícia dos ufólogos são de tal ordem que tipificam muito mais uma caricatura de pesquisa do que um procedimento cuidadoso conduzido por pessoas habilitadas. As exceções que realmente  pensam o fenômeno cabem num elevador. Além disso, entendi também que, desde o início, eu estava lá não para provar a existência dos objetos ou para confirmar minhas crenças, mas para conhecer, investigar e esclarecer os fatos à luz da razão e de um conhecimento de base científica. É claro que cometi erros porque aceitei as regras do jogo, mas logo que me dei conta dessa irreflexão coletiva, tirei meu barco desse rio, que se mostrava inavegável.

Quando me tornei articulista da revista Planeta naquele período (1980-90), usei o espaço para expressar minha justa preocupação, com matérias do tipo “Fraudes, misticóides, depoimentos imprecisos: obstáculos para um estudo mais preciso”¹; “Testemunhos ufológicos: o fator básico”²; em outra mídia,  contundência: “Um pouco mais de seriedade, por favor!"³, e assim por diante. Era o meu cartão de visita.

Martelando nessa tecla, percebi que estava pregando no deserto e angariando desafetos, porque meu discurso contrariava conveniências, vantagens e interesses alheios. Diante disso, e por me sentir andando em círculos, portanto, sem novos horizontes,  decidi sair do circuito para ir mais fundo na questão. Um vastíssimo campo se abriu. O turning point foi marcado com a publicação da Planeta Especial Ovnis4 no ocaso daquele período, escrita integralmente em parceria com Lúcio Manfredi. Foram 20 anos de gradual amadurecimento, pacientemente lapidado a custa de muita reflexão e genuíno desejo de saber. Era a transição entre um modelo fracassado de entender o fenômeno e a aposta segura em outra via de acesso a ele. Os desdobramentos e o resultado dessa mudança nos anos seguintes você saberá na próxima semana.




Planeta Ufologia 115-A, abril  1982.
Planeta Ufologia 143-B, dezembro  1984.
Realidade Fantástica, Agosto 1983.
Planeta Especial Ovnis, junho 1989.

sábado, 20 de agosto de 2016

...e a Nau lançou-se ao oceano do conhecimento


Peço licença para fugir do tema habitual deste blog, porque quero compartilhar com você um pouco dos momentos agradáveis desta sexta, 19, quando do lançamento de Naus da Ilusão. Foi uma boa oportunidade para rever alguns amigos, no acolhedor ambiente do Museu do Crédito Real, localizado na região central da cidade.

O Museu do Crédito Real abriga parte importante do acervo da República


A boa cobertura da imprensa atraiu pessoas interessadas em em debater o tema, conversar com o autor, trocar ideias, expor suas opiniões e confrontar  suas crenças.

A Dra.  Rita Dornellas recebe dedicatória do autor.

O autor ladeado pelos amigos Prof. Emerson Sena da Silveira, autor do prefácio, e Prof. Matheus Carvalho.


Conversar com o historiador Rômulo Marcos é aprender o tempo todo.



O jornalista Renato Dias recebido por Reis e sua mulher Izaura Rocha




Um Vin d'honoeur deu um toque descontraído ao ambiente, proporcionando horas de boa conversa.


Por fim, torno público um agradecimento especial ao Prof. Roberto Dilly, Diretor do Museu, que de forma muito gentil e generosa disponibilizou o Salão Nobre e outras dependências da instituição. para que o evento se realizasse com pleno sucesso. Agradeço também convidados que deram o prazer de sua companhia, e também aos que, impossibilitados de comparecer pelos mais diversos motivos, tiveram a preocupação e a delicadeza de comunicar sua ausência com mensagens de carinho e apoio. Aos que levaram a obra, meu sincero desejo de que ela possa surpreendê-los.






sábado, 13 de agosto de 2016


O extraterrestre no divã. Nem Freud explica


Imagine a cena, hoje. Freud em seu gabinete tomando notas no tablet enquanto aguarda o próximo paciente. De repente, uma criaturinha cabeçuda e esverdeada abre suavemente a janela da sala e diz, em perfeito alemão: "- Com licença, Dr. Freud, podemos conversar? Estou com um probleminha." Atônito, incrédulo, Freud titubeia, engasga, mas resolve atender seu inusitado visitante, afinal, é uma oportunidade única de aprendizado clínico.

- Sabe o que é 'seu' Freud, estou há tanto temo por aí, fui fotografado, fiz selfie, dei rasantes em aeroportos e bases militares, provoquei blackouts em cidades inteiras, muitos programaram encontros comigo, fui perseguido por aviões, deixei marcas no chão, cheguei até a sofrer um acidente...
- Hum hum.
- Peguei um monte de gente para conhecer meu planeta, algumas vezes à força, reconheço; dei voltas com elas em torno da Terra, conversamos, fizemos amizade, dei souvenirs. Uma de nossa gente até se envolveu com um brasileiro, mas acho que a coisa não rolou, não pintou clima, sei lá...
- Hum hum
- Doutor, já fizeram muitos filmes a meu respeito, virei celebridade, escreveram centenas de livros, blogs, todo dia tem congresso, seminário, palestra, seriados, programas, entrevistas e documentário na TV. Muita gente ganha dinheiro em meu nome. Mando mensagens telepáticas, psicografadas, espirituais, gravadas, viva voz, de tudo quanto é jeito. Dizem que fizeram autópsia em um dos nossos, mas sacho meio estranha essa história.
- !
- Li outro dia que são milhares de associações de pesquisa, centros, grupos privados e oficiais; artigos são escritos, teses, dissertações, ensaios acadêmicos, mas esses aí falam que eu não existo, que é coisa da cabeça das pessoas, que é tudo imaginação, fantasia... um apadrinhado seu andou dizendo que eu sou assim uma espécie de mito, coisa de arquétipo, inconsciente, não entendi direito...
- Eu sei de quem você está falando...
- Então, como estava dizendo, depois de tudo isso, muitos ainda não acreditam em mi, quer dizer, em nós. Não sei mais o que fazer, sinto que estou passando por uma profunda crise existencial, 'seu' Freud. Acho que estou à beira de um ataque de nervos. O que o senhor acha, tenho cura?
- Deveras interessante seu caso meu rapaz, sem dúvida, mas terei que consultar meus colegas, trocar ideias, rever a literatura, sabe como é... volte daqui a alguns anos-luz para uma nova sessão. Quem sabe eu possa te explicar.

Bem humorada na forma, esta breve ficção traz um interessante ponto para discussão. Para que servem os grupos de pesquisa, se o que dizem pesquisar não se deixa ser pesquisado? Outro dia um amigo informou que seu grupo completou um quarto de século de existência. Muitos outros igualmente comemoram suas efemérides. Sim e...? Que resultados concretos trouxeram? Nenhum, nada, zero, traço, nem fumaça fizeram. Esse amigo disse que seu grupo "estava sem atividade por falta de casuística ufológica". Emblemático, não? Não havendo disco voador na praça, pesquisar o quê? Nosso extraterrestre no divã deve estar mesmo com uma tremenda dor de cabeça. Ninguém o vê mesmo om todas aquelas peripécias.

É isso que venho tentando mostrar todos esses anos. É isso que as pessoas, e os ufólogos em particular, ainda não entenderam. O ufólogo não pesquisa o disco voador, ele apenas documenta quem alega ter visto um. Da mesma forma, o pesquisador do paranormal também não investiga o 'fantasma', mas o sujeito que diz tê-lo visto. Nenhum deles tem o objeto da pesquisa porque tal objeto não existe! Por que é tão difícil entender isso? A esmagadora maioria dos que participam dessas sociedades e centros de pesquisa é formada por crédulos e entusiastas, que estão lá para colecionar fotos de discos voadores como "prova definitiva" de sua existência. Se não houver fotos, casos ou "contatos", não terão o que fazer! Suas salas e ‘garagens’ ficarão às moscas. Não é incrível? 

E não vamos esquecer aqueles que estão convencidos de que os ETs não se mostram abertamente para "não causar pânico na população", ou porque "uma revelação dessas acabaria com as instituições religiosas" e coisas do tipo. Pela mesma razão, afirmam que governos e Vaticano sabem, mas escondem toda a verdade sobre eles. Devo informar que quem defende tal “teoria da conspiração” não faz a menor ideia do que está dizendo, vivendo num mundo de ilusão e da mais fantasiosa ficção. São eles que deveriam ir para o divã.

Agora, imagine se nos próximos anos a casuística minguar de vez, se os discos voadores nunca mais retornarem ao planeta, o que será desse pessoal? Sugestão: Que tal ler um pouco mais, estudar um pouco mais, pensar um pouco mais? Poucas coisas libertam tanto quanto o conhecimento, ele faz a diferença entre a vida e a morte, entre a ação e a paralisia, entre a autonomia e a servidão.

Já me perguntaram o que fazer para ser um ufólogo. Difícil responder. Se eu indicar seguir o caminho que fiz, levará anos para chegar aonde cheguei, e o que as pessoas querem é o prato pronto, tipo leia isto ou faça aquilo e você será um ufólogo. Não é assim que funciona, não há fórmulas nem regras, não é receita de bolo. Ler de tudo um pouco é fundamental, mas não suficiente. No ritmo alucinante em que vivemos, paciência e dedicação estão fora do mapa. Só funcionam se o objetivo é olímpico, e olhe lá.


Vejo a Ufologia com os dias contados, em franco declínio, ao menos essa que aí está: canhestra, paleolítica, paralítica, falaciosa, idiotizante, com elevado grau de demência. Exagero? Pois não é que um parlamentar siderado vindo sabe-se lá de que planeta apresentou uma proposta para regulamentar a "profissão" de ufólogo? É caso para psiquiatria. Sei que minhas palavras não surtirão nenhum efeito e se perderão no vazio. Sei que muitos darão de ombros e seguirão em frente, impassíveis. Sei, por fim, que nenhum grupo fechará suas portas porque são eles que precisam justificar sua existência, senão, quem notará que existem?

sábado, 6 de agosto de 2016


Um mito moderno? Não, um mito pós-moderno
Parte V (final): Com a palavra, Jung


Como vimos desde o início desta série, Jung foi pioneiro ao estender uma ponte, entre o campo fértil do conhecimento e o pântano sombrio da crendice e da ingenuidade (ingenuidade é uma face da ignorância). Qualquer estudo sério que pretenda explicar ou esclarecer determinados fatos e construído sobre bases consolidadas, não pode ser desvalorizado nem ter sua legitimidade questionada.

Jung só se manifestou após ouvir especialistas, colher depoimentos, ler algumas obras específicas sobre o assunto, tomar notas em sua clínica psicanalítica, traçar paralelos e submeter análises comparativas em campos do seu domínio. Isso consumiu tempo e se tornou uma referência na área. Extraio de sua obra trechos que mostram a profundidade do seu raciocínio. Cumpre ressaltar que ele não ignorava os dados factuais do fenômeno, mas não tinha capital suficiente para dar um parecer final, deixando isso a cargo dos mais capacitados. O que trago é só um aperitivo, mas de leitura fundamental.

Lamentavelmente, não me foi possível compilar, em dez anos de dedicação ao assunto, uma quantidade suficiente de observações que permitissem estabelecer conclusões mais confiáveis. Por isso, tive que me contentar em esboçar pelo menos algumas diretrizes de procedimento, para futuras investigações.
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Não é a presunção que me impele, mas sim a minha consciência médica que me aconselha a cumprir com o meu dever de preparar aqueles poucos que podem me ouvir para os acontecimentos que estão reservados à humanidade, e que significam o fim de um éon (era).
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O método de amplificação que usei para a interpretação do significado revelou-se frutífero, tanto no material histórico, quanto no material recente. Este método permite a conclusão - ao que me parece - bastante segura de que nos meus exemplos manifesta-se de forma unânime um arquétipo conhecido como central, que eu denominei o si-mesmo. Isto acontece, através dos tempos, em forma de uma epifania que vem do céu, cuja natureza, em muitos casos, é caracterizada como antagônica, ou seja, como fogo e água, de acordo com o "escudo de Davi" [estrela de 6 pontas], que é constituído de ▲ = fogo e ▼= água. A "sextidade" é um símbolo da totalidade: quatro como divisão natural do círculo, e dois, como eixo vertical (zênite e nadir); portanto, uma imagem da totalidade espacial.
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Um objeto deste tipo desafia, como nenhum outro, a fantasia consciente e inconsciente. Uma produz suposições especulativas e estórias inventadas, e a outra fornece o fundo mitológico que faz parte destas observações excitantes.

Já que os corpos redondos e luminosos que aparecem no céu são considerados como visões, não podemos deixar de interpretá-los como quadros arquetípicos. Isto significa que eles são projeções automáticas, involuntárias, baseadas no instinto; imagens que tampouco podem ser menosprezadas como se não tivessem sentido, ou como se fossem pura coincidência, como outras manifestações ou sintomas psíquicos.


Quem dispõe dos necessários conhecimentos históricos e psicológicos sabe que os símbolos circulares, o "rotundum" em linguagem alquimista, desempenharam um papel significativo em todo lugar e em todos os lado do já mencionado símbolo da alma. A antiga afirmação diz: "Deus est circulus cuius centrum est ubique, cuius circumferentia vero nusquam" (Deus é um círculo cujo centro está em todo lugar, cuja circunferência, porém, em nenhum lugar). "Deus" e sua "omniscientia", "omnipotentia" e "omnipraesentia", um έν τò παν (Uno, o cosmo) é o símbolo da totalidade por excelência, um redondo, um completo, um absoluto.

Epifanias deste tipo estão, na tradição, muitas vezes ligadas ao fogo e à luz. Por isso, ao nível da Antigüidade, os OVNIs podem ser facilmente entendidos como "deuses". Eles são manifestações de impressionante totalidade, cuja simples "circularidade" representa propriamente aquele arquétipo que, conforme a experiência, desempenha o papel principal na Unificação de opostos, aparentemente incompatíveis, e que por esse mesmo motivo corresponde, da melhor forma, a uma compensação da dissociação mental da nossa época.

Além disso, ele desempenha, entre outros arquétipos, um papel especialmente significativo, sendo ele, principalmente, o ordenador de situações caóticas e o que proporciona à personalidade a maior unidade e totalidade possíveis. Ele cria a imagem da grande personalidade do homem-deus, do homem primordial ou anthropos, de um chen-yen, de um Elias que invoca o fogo do céu, que sobe ao céu num carro de fogo e é um predecessor do Messias, a figura dogmaticamente definida de Cristo e - last not least - do cádi islâmico, o esverdeante, que por sua vez é um paralelo de Elias, a peregrinar como o cádi pela terra como personificação de Alá.
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O OVNI fornece o motivo para a manifestação dos conteúdos psíquicos latentes. A respeito dele, só sabemos, com alguma certeza, que possui uma superfície que é vista com os olhos e que, ao mesmo tempo, rebate um eco de radar. Todo o resto é, em princípio, tão inseguro que deve ser considerado como conjetura improvável, ou seja, como boato, enquanto não se possa conseguir mais dados a seu respeito.
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Apenas para dar um pouco mais de calor, reproduzo um trecho dessa obra: "Aqui devo observar que, mesmo se os OVNIs fossem reais, as projeções psíquicas que lhes correspondem não são propriamente causadas por eles, e sim, apenas motivadas. Afirmações míticas desta espécie existiram sempre, com ou sem OVNIs. Todavia, antes das observações, ninguém teve a ideia de associar umas com as outras. A afirmação mítica baseia-se, em primeiro lugar, na constituição particular do substrato psíquico, do inconsciente coletivo, cuja projeção sempre existiu."

Esteja certo de que Jung não tem a palavra final, mas soube usá-la com singular riqueza. Pisou solo virgem e inóspito abrindo caminho a golpes de foice. Quem incorporar o mesmo espírito explorador deve se empenhar para alargar a trilha. Não tenho foice, me viro com canivete de segunda, certo de que o caminho está sob intensa claridade.

Se o fenômeno é ou não um mito, só o tempo dirá. Os instrumentos de reflexão e de pesquisa estão postos à mesa, e outros mais virão. Pressinto que você esteja prestes a perguntar: "E daí, e se for um mito? E se o disco voador for apenas uma ilusão, uma quimera, um delírio? O que importa? O que muda na minha vida?" Bem, nesse caso, tudo o que posso dizer é que a resposta já está em você, sempre esteve. É o que Jung diz aí em cima. É uma questão de escolha, sem negociação: continuar sonhando ou despertar. Independente da escolha, haverá um ônus.

sábado, 30 de julho de 2016


Um mito moderno? Não, um mito pós-moderno
Parte IV: as funções do mito



Mais uma vez começo perguntando: É possível a ressurgência de um mito nos moldes dos antigos? A "era dos mitos" é coisa do passado? Campbell entendia que as informações provenientes de tempos imemoriais têm relação com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, construíram civilizações e formaram religiões através dos séculos. Mas eles não "existem desde sempre", não "ocorrem o tempo todo"? Foi o que disseram Campbell e Armstrong no post anterior, lembra? Se eles estiverem certos, e penso que sim, então a resposta pode ser "sim" para a primeira pergunta e "não" para a segunda?

Para outros, os mitos contemporâneos implicam uma atitude substituinte, para preservar a consciência mítica (que na verdade nunca desapareceu, apenas ficou eclipsada pela modernidade científica) e fazer com que os vínculos com o sagrado permaneçam habitando os recônditos da psique. Já tratei disso - o processo de desmitificação, a perda dos conteúdos simbólicos, no capítulo II desta série, lembra disso também? Para conduzir essa tarefa, os mitos assentam-se em quatro funções fundamentais, a saber, conforme Campbell:

Mística (ou metafísica) - Cuida dos mistérios da vida, da maravilha que é o mundo, do nosso deslumbramento com o universo, com o fantástico, o mágico, o inexprimível, o transcendente. "Os mitos abrem o mundo para a dimensão do mistério, para a consciência do mistério que subjaz a todas as formas. Se isso lhe escapa, você não tem uma mitologia".

Cosmológica - é a ligação que a ciência faz com o cosmo através, de novo, com os mistérios desse cosmo, com a origem da vida e do mundo, por extensão, da nossa origem.

Sociológica - a organização do indivíduo, da sociedade, o suporte e a aferição de uma ordem e dos valores sociais, morais e culturais. A importância dessa função se revela nos rumos atuais de nossa civilização, do nosso mundo.

Pedagógica (ou psicológica) - a mais importante, que todo indivíduo precisaria se relacionar, porque indica a vida que se dever levar, em qualquer circunstância. Saber lidar com as concepções de vida e de morte, a finitude e a imortalidade. Face o seu caráter sagrado, o mito produz uma equilibração psíquica.

E você perguntará: O que as funções do mito têm a ver com o fenômeno Óvni? Qual a relação? A função do "mito" ufológico é nos levar a repensar nosso papel no mundo e no universo, inclusive a ver esse mesmo mundo com os olhos do outro; dessa forma, ele no revela, dando à nossa existência seu real significado. Ele faz com que nos entendamos com a história pregressa para saber como construir o futuro. O mito não está no objeto da mensagem, e sim no modo como ele a expressa, isso é o mais importante. Só é possível compreender a função do mito na sociedade contemporânea, se entendermos o significado e o valor que tinha para as sociedades ancestrais, sua força litúrgica, sua configuração religiosa e sua dimensão espiritual.

O fenômeno Óvni igualmente nos estimula pensar sobre a transcendência, os mistérios da vida, desvela nossos medos, faz refletir sobre a origem de tudo; ele é o espelho fiel do que somos e, principalmente, nos aponta o caminho para o que precisamos e deveríamos ser. Mudar, entretanto, é algo que, definitivamente, não faz parte dos planos do homem. Quem se deita à sombra reclama quando o sol muda de lugar.

"A necessidade de significância cósmica é um dado antropológico estrutural diretamente ligado ao terror da aniquilação pela morte. Não queremos admitir que estamos sozinhos, e que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um sistema de ideias e poderes no qual estamos mergulhados, e que nos sustenta". Essa fala de Becker, já trazida aqui antes, é oportuna para concluir nosso raciocínio. O fenômeno Óvni vem ao encontro desse desejo, pela sua 'materialidade' e proximidade. Fazer "contato" com um ser "superior", em "carne o osso", é uma experiência inexprimível, e o homem jamais abrirá mão dessa possibilidade, ainda que utópica, ainda que quimérica, ainda que irrealizável. Na verdade, já se disse aqui também, nada mais é que a busca da imortalidade.



PS: Se você não entendeu o porquê da ilustração ao alto (Blade Runner), me escreva. Ela é essencialmente mitológica, assim como todo o filme.
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BECKER, Ernest. A Negação da Morte. Record, 1991.
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Paz & Terra. 1980.
MORIN, Edgar. O Paradigma Perdido: a natureza humana. Publ. Euro-América. 1973.
________. O Homem e a Morte. Imago. 997.
OTTO, Rudolf. O Sagrado. Vozes. 2007.






domingo, 24 de julho de 2016


Um mito moderno? Não, um mito pós-moderno
Parte III: a estrutura do mito


Colocar a palavra estrutura na mesma pauta de mito evoca de imediato a figura ubíqua e centenária de Claude Lévi-Strauss. Desde muito cedo, ainda em idade pré-escolar, ele percebeu que poderia ler qualquer coisa, desde que houvesse uma "semelhança estrutural" por trás da palavra, e a partir daí, ele deslocou o mesmo princípio para os mitos. Dizia ele que nenhum mito existe isoladamente, isto é, nenhum deles pode ser interpretado se a análise não abranger os demais. Do mesmo modo, isso digo eu, o fenômeno Óvni não pode ser compreendido se a análise não integrar as demais esferas do conhecimento.

O estruturalismo é amplamente utilizado em praticamente todos os campos do conhecimento - Linguística, Psicologia, crítica literária, Filosofia, Antropologia e Psicanálise, por exemplo, como modelo de inteligibilidade. A noção central do estruturalismo, por si autoexplicativa, é a da estrutura entendida como um todo, no qual as partes só adquirem sentido em relação umas às outras, ou seja, pela sua interdependência e mútua cooperatividade.

Importante ressaltar que o estruturalismo não é um método estático e imutável e muito menos linear, ao contrário, ele se modifica e se reinventa pelos signos que dele são extraídos e pelas interpretações e leituras que deles são feitas. Nesse particular, Umberto Eco entendia que um signo vai muito além de estar no lugar de outra coisa, "mas ele é aquilo que sempre nos faz conhecer algo mais". Tal como ocorre na prática psicanalítica, as entrelinhas, os interstícios, os espaços e os 'silêncios' dos signos revelam muito mais do que supomos saber. Você está me acompanhando?

Lévi-Strauss comparava os sistemas mitológicos à organização cósmica, onde o centro do "corpo" multidimensional se mantém estável e equilibrado, enquanto as bordas se espraiam, se misturam e se confundem. A questão é: Seria a estrutura do fenômeno Óvni homóloga à do mito? Entendo que o mesmo se dá na formação da "galáxia ufológica": enquanto os campos limítrofes se desorganizam e se desalinham, o núcleo se mantém intacto. Se o mito é multidimensional, o fenômeno é polimorfo. 

O meio utilizado para esse estudo é o da hermenêutica ufológica, derivado da técnica psicológica criada por Jung para o estudo dos sonhos, mitos, contos de fadas, obras de arte e demais produtos do inconsciente - a amplificação. Essa técnica consiste em determinar os mitologemas¹ básicos em uma dada estrutura, comparando-os com outras configurações em que estes mitologemas apareçam, e dedicando uma cuidadosa consideração ao contexto em que tal aparecimento se dá. O fenômeno Óvni só pode ser compreendido se tomado em sua totalidade e comparado-o com outras totalidades que permitam interpretá-lo. É exatamente o que Lévi-Strauss fala sobre o mito.

Tanto os mitos quanto o fenômeno são eventos prodigiosos (latim prodigium - profecia, predição), excepcionais (de exceção), contendo vínculos estreitos com o sagrado (latim sacer - à parte, afastado). Podemos dizer que são a expressão simbólica de forças vivas superiores atuando no inconsciente. Campbell dizia que "Mito é algo que nunca existiu, mas que existe desde sempre". Karen Armstrong faz eco: "Mito é um evento que, em certo sentido, ocorreu só uma vez, mas que acontece o tempo todo". No escopo do fenômeno, o indivíduo, ao passar pela experiência mítica do "contato", sente-se privilegiado, "escolhido", destacado da sociedade, apartado, ou, na linguagem ufológica, abduzido (latim ab ducere - afastar, tirar, levar para fora).

Outro ponto em comum é a linguagem. A narrativa mítica e a casuística ufológica apresentam semelhanças na deficiência linguística, originária de uma debilidade inerente à própria linguagem. Ambas, a seu modo e na sua estética, tratam de uma manifestação de natureza mítico-religiosa - deuses, heróis, entes supranaturais e superiores. A respeito da linguagem, Cassirer diz que "Toda designação linguística é essencialmente ambígua, e nesta ambiguidade das palavras está a fonte primeva de todos os mitos."

A imanência da religião na base do mito é a chave para compreender seu significado e o que ele representa para a vida humana. Longe de esgotar esta análise, a estrutura religiosa presente no mito não está ausente no fenômeno, se entendermos o sentido subjetivo do estatuto religioso: O reconhecimento da existência de um poder ou poderes que nos transcendem; O sentimento de dependência a esse poder; O desejo ou a necessidade de qualquer forma de contato ou de relação com esse poder. Todo esse rico emaranhado de proposições nos empurra de maneira quase impositiva para a ideia de um 'envoltório mítico' - Bertrand Méheust² chama de gangue mythique, encapsulando o fenômeno Óvni.



1 Mitologemas são núcleos de significado de um mito. Podem ser psicológicos,                      sociológicos ou históricos, mas geralmente são combinações entre eles.
2  Professor de Filosofia e PhD em Sociologia pela Sorbonne. Autor de Science Fiction et       Soucoupes Volantes (Rennes, Terre de Brume, 2007), entre outros.

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AZEVEDO, Ana V. Mito e Psicanálise. Jorge Zahar. 2004.
CAMPBELL, Joseph. Mitologia na Vida ModernaRosa dos Tempos. 2002.
CASSIRER, Ernst. Linguagem e Mito. Perspectiva. 1992.
ECO, Umberto. Semiótica e Filosofia da Linguagem. Ática, 1991.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Martins Fontes, 1992
______. Aspectos do Mito. Edições 70, 2000.
FROMM, Erich. Psicanálise e Religião. Ibero Americano, 1966.
LÉCI-STRAUSS, Claude. Mito e Significado. Edições 70, 1987.



LEIA ABAIXO SINOPSE DA OBRA RECÉM LANÇADA  NAUS DA ILUSÃO


sábado, 16 de julho de 2016

Naus da Ilusão
Uma análise transdisciplinar
sobre a crença em "discos voadores"


Lastreado por densa e extensa bibliografia no campo das ciências sociais e das humanas, e em mais de quatro décadas de prática investigativa, estudos e permanente análise, Carlos Reis investe contra o senso comum e a cultura plantada em torno principalmente do "disco voador", em uma abordagem inédita, corajosa e surpreendente.

Para o autor, no cerne deste trabalho, este e outros temas de iguala natureza são signos de representações contemporâneas, integrando um complexo sinérgico de crenças, lendas, fantasias e superstições,as muletas metafísicas,  através do qual o homem se escora para eclipsar seus medos ontológicos e depositar suas mais quiméricas esperanças.

Como aporte para a argumentação central, um panteão de autores e pensadores de larga envergadura dialoga com a história e a cultura, as estruturas narrativas, as instâncias religiosas, a ficção e o imaginário no cenário da pós-modernidade, construindo sólidas pontes entre o fértil campo acadêmico e um pântano sombrio cercado de mistificação, preconceito e ignorância.

Tendo a condição e a natureza humanas como vetores dessa dialética, foi tecida uma malha de trama profunda e complexa - uma tapeçaria persa, como dito no prefácio -. que encaminha deduzir, de modo consistente e contundente, o que o "disco voador" representa para o homem em sua busca de compreensão do mundo, de si mesmo e do significado de sua própria existência. Pensamentos e textos extraídos de páginas da literatura universal pontuam pela obra, enriquecendo as reflexões do leitor.

A obra está à venda exclusivamente no link abaixo.
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segunda-feira, 11 de julho de 2016



Um mito moderno? Não, um mito pós-moderno
Parte II: para que serve o mito


Torno interrogação a afirmativa do título: para que serve o mito? Com tantas definições entre muitas que não desembarcaram aqui, uma boa reflexão se faz necessária para entender para que ele serve. Foi nos mitos que Jung encontrou a matéria prima para analisar os mistérios da alma, os eventos anímicos e os arquétipos: "Nos mitos e nos contos de fada, como no sonho, a alma fala de si mesma e os arquétipos se revelam em sua combinação natural como formação, transformação, eterna recriação do sentido eterno".

Para ele, o homem primitivo é de tal subjetividade que seu conhecimento da natureza é essencialmente a linguagem do processo anímico inconsciente.  "Ele simplesmente ignora que a alma contém todas as imagens das quais surgiram os mitos, e que nosso inconsciente é um sujeito atuante e padecente, cujo drama o homem primitivo se encontra analogicamente em todos os fenômenos grandes e pequenos da natureza". Jung desmembra o que Freud resume numa só frase - "O homem não é senhor em sua própria casa".

A mitologia é uma expressão do inconsciente coletivo, diz Jung, e, como tal, a pesquisa se desenrola em torno do indivíduo, pois sempre trata de certas formas representativas complexas, os arquétipos, como ordenadores inconscientes das representações. O mito tem a função de intermediar a relação da vida consciente com  a vida inconsciente, estabelecendo conexões com a memória arquetípica. Para que o mito cumpra essa função, ele precisa ser ritualizado, vivenciado, experienciado. 

Joseph Campbell via o mito como uma forma de expressão necessária e universal dentro do estágio inicial do desenvolvimento intelectual humano, quando acontecimentos inexplicáveis eram atribuídos à intervenção direta dos deuses. O que o mito faz é apontar o transcendente para além do fenômeno. Mircea Eliade, por sua vez, diz que viver o mito representa uma experiência verdadeiramente religiosa, distante da vida cotidiana, profana, ordinária. Essa religiosidade está no fato de ao se reatualizar os eventos fabulosos, assiste-se novamente às obras criadoras dos entes sobrenaturais.

Não poderia faltar o pensamento de Umberto Eco, que, de alguma forma, sempre esteve às voltas com os mitos ao longo de sua obra. Ele definia o mito como uma identificação do objeto com uma somatória de finalidades não muito claras, expressão de um conjunto de tendências, desejos, solicitações e temores particulares candentes do indivíduo. Em outras palavras, um mito para cada um de nós. Ao mesmo tempo, sem contradição, sem conflito e sem dores, vivemos em permanente processo de desmitificação, de diluição do repertório simbólico enraizado no inconsciente.

Não é difícil identificar alguns agentes dessa desmitificação: a tecnologização e a cientificação dominantes (e aceleradas) dos novos tempos, a perda da autêntica religiosidade (não estou falando de religião), a total ausência de introspecção, a paralisação dos mecanismos autorreguladores do pensamento: Não interessa como a coisa funciona, basta que funcione. E rápido. O caminho não é apreciado, chegar ao destino é o que importa. E rápido.

Essa modesta mas rica coletânea de saberes (os ausentes são em maior número) conta ainda com Ernst Cassirer, para quem o mito não se refere, necessariamente, a uma realidade objetiva, podendo ser a uma realidade interna, abstrata, conceitual, emocional. O mito não fala uma linguagem comum, mas por símbolos e metáforas, uma linguagem de correspondências, não de referências. Antes de seguir adiante, quero confessar que não resisti à tentação de destacar em itálico várias dessas passagens, mesmo confiando plenamente na sua capacidade de percepção e apreensão das sutilezas contidas nas palavras. É um recurso válido para redobrar sua atenção.

O último membro desse 'colegiado' é Vicente Ferreira da Silva, e sua voz ecoa com força: "O mito persiste no imaginário dos homens, com suas dúvidas e a confiança cega que eles depositam em algo com poder de orientar suas vidas. Esse poder indefinido não é apenas uma divindade no sentido da mitologia clássica, mas será sempre um poder que transcende o limite físico e o entendimento dos homens". Tomado o conjunto das exposições e a de Jung como guia, a "utilidade" do mito está em agir como elemento mediador e unificante dos conteúdos psíquicos, arquetípicos e simbólicos.

É fundamental ter isso bem claro, e ao amplificar e transportar para o estudo ufológico profundo, a correlação surge inevitável. O método da amplificação no discurso junguiano se caracteriza por promover associações da consciência ante uma determinada imagem, conteúdo ou símbolo, num movimento circular em torno do ponto a ser explorado: "A amplificação consiste simplesmente em estabelecer paralelos". Jung esclarece ainda que "Qualquer estudo simbólico  leva em conta duas vertentes: a individual - as impressões pessoais do sujeito, e a coletiva - o repertório de arquétipos da humanidade."

Para encerrar, mas sem descer a detalhes posto que será discutido adiante mais a fundo, Campbell discorre sobre as quatro funções essenciais do mito: a mística, a cosmológica, a sociológica e a mais importante, segundo ele, a pedagógica. São cenas do próximo capítulo. Fiquei devendo porque o mito é  pós-moderno: essa é a expressão que batiza o período contemporâneo, assim entendido a partir de segunda metade do século 20, exatamente quando, ora veja, a Ufologia ganhou o mundo (veja o post anterior das "coincidências"). Podemos chamar também de neomodernismo, modernidade tardia, hipermodernidade. Se Jung estivesse publicando hoje seu livro, provavelmente empregaria uma dessas terminologias para o título.



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CAILLOIS, Roger. O Mito e o Homem, Edições 70, 2001.
CAMPBELL, Joseph. O Vôo do Pássaro Selvagem. Ensaios sobre
          a universalidade dos mitos Rio de Janeiro. Rosa dos Tempos. 1997.
ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. Perspectiva, 1970.
ELIADE, Mircea. Aspectos do Mito. Edições 70, 1986.
JUNG. Carl G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Vozes, 2000.
_______. Símbolos da Transformação. Vozes, 2008.


domingo, 3 de julho de 2016


Um mito moderno? Não, um mito pós-moderno
Parte I: O que é mito


O tema que você lerá nas próximas semanas não é novo, ao contrário, alguém semeou a ideia há quase 60 anos. Esse alguém foi Carl G. Jung, que, mesmo pondo em risco sua reputação profissional, colocou toda a sua experiência e conhecimento a serviço de uma análise complexa, e por isso mesmo, como confessa, incompleta.  Assim, em 1958, publicou "Um Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu", no qual faz uma longa imersão no continente psicológico e mítico do fenômeno Óvni.

Desde então, o conhecimento na área cresceu de maneira exponencial, e a revisão do tema mostra que ele não envelheceu, permanece mais atual que nunca. Ao que tudo indica, o sábio de Viena tinha razão: o fenômeno Óvni pode mesmo ser um mito moderno, ou, talvez mais apropriadamente, pós-moderno. Não antecipe conclusões sem antes fazer uma leitura atenta.

Mencionar mito dentro do assunto "disco voador" provoca duas reações opostas: indiferença ou inconformismo. A primeira parte do princípio de que quem fala em mito não sabe o que está dizendo, e a segunda parte do princípio de que quem fala em mito não sabe o que está dizendo. É isso mesmo, ambas as reações, embora contrárias, causam o mesmo sentimento de repúdio e aversão, sendo o primeiro, discreto, o segundo, mais explícito. Faltam informação, reflexão, cautela na hora da de lançar um olhar crítico mais profundo.

Como essa abordagem é mais que polêmica, é espinhosa, ampla, profunda, complexa e atrelada a outros campos, ela será dividida em tantos capítulos quantos forem necessários para proporcionar uma base de entendimento, mesmo sabendo que ficará incompleta, por óbvio. De antemão informo que Jung e suas obras não foram e nem poderiam ser as únicas fontes desse estudo, que não só mantém seu curso como é abastecido permanentemente por outras letras e outras vozes.

A ideia é esclarecer o que é o mito, para que serve, qual ou quais são suas funções, sua estrutura e significado, por que considero o fenômeno um mito e por que pós-moderno. Será um desafio monumental sintetizar o assunto, mas farei um esforço sincero para torná-lo compreensível. Se discordar com o que está sendo exposto, não o faça sem ponderação. Empreenda também um esforço para considerar a real possibilidade de estar diante de um mito em andamento.

Mito, do grego mythós, significa a palavra, o verbo, a explicação do cosmo, do mundo, da vida; sendo polissêmico, permite várias interpretações, mas não admite simplificações. Resumindo no limite do razoável, ele pode ser entendido como uma narrativa de significação simbólica referente a aspectos da condição humana. Importante guardar e assimilar essa definição, ainda que abreviada. Os processos de encantamento e simbolização do mundo passam, obrigatoriamente, por essas narrativas fabulosas.

Vale acrescentar o que Rubem Alves entendia por mito, que dá tons líricos e suaves num primeiro olhar, porém é de uma profundidade singular: "Mitos são histórias que delimitam os contornos de uma grande ausência que mora em nós." Memorize esse enunciado também. Campbell postulava que mito era a busca de sentido da vida, ou, da experiência de estar vivo.Um verniz poético que dá brilho à verdade. Ausência, nostalgia, saudade, vazio, como queira, o mito encerra um desejo, a necessidade de algo inexprimível à razão, a tentativa de voltar às raízes, às nossas origens ou da origem de tudo. Pode ser a também a procura de um conhecimento ou de um acontecimento, ou tudo junto.

O mito, o sonho e a imaginação fazem parte da dimensão simbólica da experiência humana, sendo a expressão transpessoal - universal - daquilo que é representado no nível pessoal do sonho, entendendo-se por sonho, neste caso, como a totalidade do sujeito na esfera de sua existência. O mito repousa na memória arquetípica da humanidade.

Embora Barthes entenda que tudo possa se constituir num mito a partir da fala, "É a história que transforma o real em discurso. É ela e só ela que comanda a vida e a morte da linguagem mítica." O que Barthes define como mito é o instrumento através do qual um produto histórico, humano, é convertido em uma natureza simulada:
Uma prestidigitação inverteu o real, esvaziou-o de história e encheu-o de natureza, retirou às coisas o seu sentido humano, de modo a fazê-las significar uma insignificância humana. A função do mito é evacuar o real: literalmente, o mito é um escoamento incessante, uma hemorragia ou, se se prefere, uma evaporação; em suma, uma ausência sensível.

Para o filósofo Vicente Ferreira da Silva, o mito não é simples palavra ou narrativa literária, mas uma presença real e efetiva dos deuses e da manifestação divina, remetendo a uma série de fatos extra-humanos, uma referência memorizadora e histórica. Não há ambiguidade, contradição ou paradoxo no mito: esse é o seu princípio -transformar a história em natureza, e a natureza não é ambígua nem contraditória e muito menos paradoxal. Observe a representação mítica abaixo, o ouroboro - símbolo da eternidade, contínuo recomeço, totalidade, completude, individuação (Jung), e compare com a figura central na cena de Prometheus acima. O mito continua abrigado, aquecendo, vivo e atuante no inconsciente. Tenha isso em mente.

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BARTHES, Roland. Mitologias. Bertrand Brasil, 1993.
CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. Palas Athena, 1990.
CASSIRER, Ernst. Linguagem e Mito. Perspectiva, 1992.
JUNG, Carl G. Um Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu. Vozes, 1991.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e Significado. Edições 70, 1987.
MORAIS, Régis de (org). As Razões do Mito. Papirus, 1988/
REIS, Carlos. Reflexões sobre uma Mitopoética. LPBooks, 2011.
ROCHA, Everardo. O que é Mito, Brasiliense, 1985.







domingo, 26 de junho de 2016


Não é coincidência, é consequência


A análise comparativa abaixo intenta demonstrar que a Ufologia não foi obra do acaso nem surgiu de uma suposta e precipitada visão de "pratos voadores". Não. Ela estava incubando no inconsciente, aguardando o momento para invadir o cotidiano da pessoas e de lá nunca mais sair. Era só uma questão de tempo, e ele veio. Para desenhar o disco voador, ligue os pontos.

1938
Ano em que o mundo assistiu incrédulo o irromper de uma nova guerra, duas décadas depois de terminada uma que deixara cicatrizes profundas. O hálito da morte voltava ser sentido, sem sentido. 
Orson Welles, ator, cineasta e roteirista, leva ao ar sua peça radiofônica "Guerra dos Mundos", baseada no clássico homônimo da ficção científica (1898) de H. G. Wells. Resultado: pânico generalizado, suicídios, saques, fuga em massa nas cidades 'invadidas' pelos marcianos conforme as "agências internacionais" noticiavam os ataques em massa. Era sintoma evidente da tensão que pairava no ar e prenúncio do que poderia ocorrer em caso caso de ameaça real. Esse medo nunca mais nos abandonou.

1945/50
Nos estertores da guerra, um saldo terrível: milhões de mortos, economia falida, escombros, banhos de sangue, terra arrasada, horizontes esfumaçados, literal e figurativamente. Temor, insegurança, desconfiança, futuro indefinido, falência das instituições, Igreja e esperança na berlinda.
Surgiam os primeiros "sinais celestes", bólidos e luzes estranhas que riscavam o espaço despertando medo e curiosidade. Forças miliares alertas temendo ataques de surpresa. Escritórios são criados para investigar e acompanhar de perto estas presenças inesperadas e indesejadas. Guerra dos mundos ainda presente no imaginário

1950/1960
No período do pós-guerra começam a germinar nos Estados Unidos os primeiros sinais de um movimento que se disseminaria por todo o globo - a contracultura, com atos de contestação e rebeldia contra o establishment. Revolução artística, social e cultural, 'sexo drogas e rock'n roll', juventude transviada, hippies. A literatura e o cinema de ficção científica ganham impulso vertiginoso, surge a New Age e o florescer das filosofias e doutrinas orientais, xamanismo, medicina alternativa, práticas divinatórias, anjos, esoterismo e ocultismo de toda espécie, cristais, gurus, florais e um diversificado parque temático.

Nesse contexto, a Ufologia pega carona (ou é cooptada), entronizando os "irmãos cósmicos" como guardiães e protetores da humanidade. Proliferam os contatos com entidades "superiores", seres 'iluminados', avatares de uma nova consciência planetária. 'Mensagens' de extraterrestres advertindo sobre nossas experiências atômicas inundam o planeta, assim como seitas e movimentos messiânicos e milenaristas.

1960/1980
A Nova Era ganha mais adeptos e mais espaço, multiplicam-se as mudanças de paradigmas como a proteção ao meio ambiente, desenvolvimento de técnicas de autocura, alimentação natural, sociedades alternativas, convivências comunitárias e um autêntico carnaval da alma místico. Sociólogos se debruçam nos livros tentando prognosticar os rumos de 'nova sociedade. Um incipiente campo de estudos na área das ciências sociais chama a atenção do mundo acadêmico - o imaginário, e novas teses sobre o comportamento humano começam a surgir, enriquecidas com a participação de outras disciplinas. A ficção científica de qualidade conquista definitivamente o cinema e a literatura, tendo como foco os aliens, e os seriados de TV são sucesso absoluto de público, vitaminando a imaginação e as certezas de que não estamos sós no universo.

A Ufologia registra aumento das observações de Óvnis com as 'ondas' nos continentes americano e europeu. Mais e mais "contatos" e "sequestros" são registrados, entupindo os arquivos privados e oficiais, encorpando as estatísticas e as convicções dos ufólogos. Grupos de pesquisa e associações, com seus boletins e publicações artesanais surgem às centenas em todo o mundo, estimulando a imaginação alheia. Sobe a temperatura da febre ufológica e seu arsenal de ideologias.

Seria conclusão natural interpretar estes eventos como simples coincidência, acontecimentos casuais, arranjos fortuitos de situações aleatórias que, de alguma forma, se conectam e se fundem, mas são explicações reducionistas e muito simplórias, próprias da falta de uma reflexão mais profunda.
Meu estudo (lembrando que aqui é só uma pincelada) mostra que as ligações são tão complexas, tão imbricadas entre si e com desdobramentos que vão além das fronteiras primárias, que é praticamente improvável que todas estas conexões contenham mera simultaneidade.

Poderíamos ainda considerar a possibilidade de serem ocorrências sincrônicas, sem vínculos entre si. Entretanto, ao longo de sua vasta obra, Jung foi lapidando e polindo seu entendimento sobre sincronicidade, e um extrato dessa ideia é um dado a ser analisado: "A sincronicidade designa o paralelismo de espaço e de significado dos acontecimentos psíquicos e psicofísicos que nosso conhecimento científico até hoje não foi capaz de reduzir a um princípio comum. (....) Em princípio, é impossível descobrir uma conexão causal recíproca entre os acontecimentos paralelos, e é justamente isso que lhes confere o seu caráter casual. A única ligação reconhecível e demonstrável é o seu significado comum".  Meu itálico sugere pensar nisso com carinho.

O panorama geral de um momento particular da história humana mostra que nunca tantas e tão profundas mudanças foram sentidas a um só tempo. Esse "momento particular", como vimos, iniciou em meados do século passado. Se, fizermos as conexões corretas, e estiverem mesmo corretas, podemos ver que uma situação é decorrência da outra, ou seja, o surgimento da Ufologia deu-se em razão do estado de saúde do mundo naquele instante. Mera especulação? Absolutamente não.

O diagnóstico elaborado por pensadores notáveis, homens de ciência, filósofos, sintetizado em frases curtas, é inquietante: geração de surdos, massa amorfa indistinta, diluição das identidades, império do efêmero, fim das utopias,  era do vazio, surto de apatia da massa, são algumas reflexões que nomeiam nossa atual civilização. Em três palavras: volátil, voraz e vulnerável. O que a Ufologia tem a ver com isso? Absolutamente tudo, mas agora é com você, ligue os pontos e tire suas conclusões. Eu já tirei a minha. O 'disco voador" vai aparecer de corpo inteiro em sua mente.

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AMARRAL, Leila. Carnaval da Alma: comunidade, essência e sincretism na Nova Era. Vozes, 2000.
BLOOM, Harold. Presságios do Milênio: anjos, sonhos e
           imortalidade. Objetiva, 1996.
CAMPBELL, Joseph. A Extensão Interior do Espaço Exterior. Campus, 1991.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Contraponto, 2000.
DURAND, Gilbert. A Imaginação Simbólica. Edições 70, 1993.
MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, Ciência e Religião. Edições 70. 1984.
JUNG, Carl G. Sincronicidade. Vozes, 2000.





domingo, 19 de junho de 2016


Olhando  o disco pelo buraco da fechadura


Ao longo dos meus anos de estudos sobre o tema "disco voador", pude observar que a equação central que acirra o debate gira em torno de se acreditar ou não no fato. De um lado, os que creem piamente, tendo ou não qualquer relação direta com o fenômeno. Nessa conta estão ufólogos, contatados e abduzidos, e aqueles que acreditam baseados em divagações que remetem aos escritos bíblicos do tipo "Na cada de meu Pai há muitas moradas" (João:XIV), ou em vagas suposições - "Se a Terra é habitada, por que não milhares de outros planetas?" Na outra ponta estão os que rejeitam sumariamente essa possibilidade, mesmo sem qualquer leitura a respeito. Não aceitam e ponto final, mas não têm argumentos para contrapor aqueles. Já escrevi sobre isso em posts anteriores.

Devo informar aos litigantes - crédulos e céticos - que ambos estão errados em suas posições, e por uma razão em comum: falta de conhecimento sobre o tema que permita travar uma discussão inteligente, sensata e produtiva, especialmente os ufólogos, que julgam conhecer a matéria mas que, em realidade, são tão ignorantes quanto qualquer outro fora da sua trincheira. Ninguém sabe coisa alguma sobre o assunto, que inclui este escriba, obviamente, com a diferença nobremente socrática de que sei que nada sei, mas com esforço sincero para tentar compreender, a partir de outros enfoques.

Se tudo for uma questão de interpretação, e é bem possível que seja, então devemos prestar atenção a Lacan, quando diz que toda interpretação é tão justa e verdadeira, tão obrigatoriamente justa e verdadeira, que não se pode saber se respondem ou não a uma verdade. O que ele quer dizer com isso? Que qualquer um pode ter razão em sua exposição, mas o que determina para onde a verdade se inclin aestá na fundamentação na qual o argumento se assenta e se sustenta: solidez, amplitude e credibilidade formam o tripé que dá força e segurança na formulação do pensamento.

O semiólogo Umberto Eco sempre teve muita preocupação e critério ao tratar da interpretação, tanto para o texto escrito como para a análise de um dado acontecimento, usando a hermenêutica como instrumento de reflexão. É o ponto que nos interessa. A hermenêutica pode ser entendida como a ciência do processo interpretativo. Na prática,  ela é utilizada a partir do momento em que existam formas de comunicação simbólica. Algumas vozes de peso entendem que o cenário contemporâneo é, por excelência, uma "era hermenêutica". Parece desnecessário dizer que a Ufologia, e tudo que lhe diga respeito é, passado o filtro, essencialmente simbólica.

Afirmar a intentio operis - a intenção da obra (ou do fato) é, para Eco, seu propósito fundamental. Está se falando, de certo modo, de traduzir o que está expresso na linguagem e na estrutura do objeto - texto, fala ou evento: "Como provar uma conjectura da intentio operis?  A única maneira é verificá-la a partir do texto enquanto conjunto coerente." Eco ressalta que a ideia, na verdade, vem de S. Agostinho (De Doctrina Christiana): "Qualquer interpretação dada de certa parte de um texto poderá ser admitida se confirmada por - e deverá ser rejeitada se for contrariada por - uma outra parte do mesmo texto."

Estou certo de que o leitor já plantou a semente da mensagem, já entendeu a "moral da história". A rigor, tudo o que temos feito é olhar o fenômeno pelo buraco da fechadura, e quando fazemos isso, obrigatoriamente fechamos um olho, e a visão que temos do outro lado é incompleta, fragmentada, portanto, insuficiente. Não temos a visão do todo, só parte dele. É para isso que somos dotados de dupla visão, para termos a correta e a mais ampla perspectiva do mundo.

Ficamos tão deslumbrados com os mistérios que há do lado de lá, tão seduzidos, iludidos e embriagados com seu fulgor, que nos esquecemos de olhar para dentro de nós, para esse ser tão enigmático quanto indecifrável, pulsante e desejoso de novas descobertas. Sem ter consciência do que somos, nos aventuramos como ontonautas* com temor e desconfiança pelos mares do inconsciente. Tateamos o universo exterior em busca de respostas, sem perceber que elas estão dentro de nós. É o universo que nos revela, e não o contrário. Os mistérios de lá são os mesmos de cá, só precisamos saber fazer as perguntas certas.

* Navegantes de si mesmo
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ECO, Umberto. Os Limites da Interpretação. Perspectiva, 1995.
LACAN, Jacques. O Seminário - livro 1. J. Zahar, 1986.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Vozes, 2005.





segunda-feira, 13 de junho de 2016


Será que o tempo existe mesmo?


Pode parecer um tanto descabido discutir se o tempo existe o não, mas não deixa de ser um notável exercício de reflexão. Na verdade, especular sobre este tema leva a aspetos cosmológicos e cosmogônicos, à origem e finitude da vida e até à criação dos deuses. Não é pouca coisa. Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Newton, Einstein, Heidegger, Sartre, toda essa turma de filósofos, cientistas e doutores, em todos os tempos o tempo todo, dedicaram um tempo considerável pensando sobre o assunto. Seria desumano discorrer sobre cada um dos conceitos destes luminares, mas é possível elucubrar um pouco em cima de suas ideias.

Raciocinemos, pois: Se a eternidade é um "tempo sem fim", cabe perguntar: Teve um começo? O que nunca começou, existe? Vejamos de outro modo. Sabemos que passado e futuro não existem, são construções psicológicas, logo, só resta o presente, o imediatamente agora, mas quanto tempo dura esse 'agora imediato'? Não dura nada, menos que uma nanofração de um milionésimo de segundo. Como pode existir algo que não dura nada, não pode ser medido, está no ponto do indivisível?

Se a medição do tempo foi uma necessidade humana para estabelecer regras de ordenação do mundo, o que acontece quando essas regras deixam de existir? O sonho, obra do inconsciente, não obedece a nenhuma regra, aliás, sua regra é não ter regras, articula-se aleatória e maravilhosamente caótico, isto é, atópico: tempo algum e lugar nenhum, outro tempo e outro lugar e qualquer tempo e qualquer lugar.

Experiências com pessoas mantidas isoladas, sem nenhum contato com o mundo exterior e sem reguladores de qualquer espécie, mostraram que elas perdem completamente seus referenciais de tempo, não sabendo distinguir o dia da noite. O metabolismo se reorganiza, os ritmos circadianos se ajustam, os ciclos vitais (alimentação, excreção, sono) adaptam-se às circunstâncias. Para essas pessoas, de algum modo o tempo deixou de existir mesmo que "passem o tempo" fazendo alguma atividade.

Se está difícil acolher uma ideia tão complexa, vamos pensar de modo inverso. Consideremos o tempo não como uma 'seta' apontando para a frente e você caminhando por ela, mas como uma instância absoluta, estática, imutável. Como diriam os antigos filósofos, "o tempo não passa, ele é", ou seja, não flui, não vai a lugar algum. Imagine o tempo como a parte submersa do oceano, sem medidas, não dimensional; a vida é essa bolha de ar que surge do nada, um sopro que flutua frágil até se apagar.

É evidente que estamos subjugados por esse algo que não existe, irreal, algo que criamos e agora inelutavelmente acorrentados. Se pensar bem, presos também a uma miríade de coisas esculpidas pelo espírito, irrigadas e perpetuadas pelo medo, pelo vazio existencial e pelo desejo inextinguível de eternidade.
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AGOSTINHO, Santo. Confissões, livros X e XI.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Vozes. 1997.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Vozes. 2005.
BOUTANG, Pierre. O Tempo. Difel. 2000.
ARIÈS, Philippe. O Tempo da História. Francisco Alves. 1986.



sábado, 4 de junho de 2016


Viagem no tempo só na ilha da fantasia


O tema desta semana está dividido em duas partes: a primeira trata da total impossibilidade de viagem no tempo, e a segunda, que o tempo, em certo sentido, não existe. Você deve estar pensando como assim, o tempo não existe, esse cara pirou! Calma, lembre-se, esta é uma janela de reflexão, não de piração.

Nada de física, mecânica quântica, relatividade e espaço-tempo; nada de divisão histórico-geológica do tempo conforme Braudel, nada de Einstein, Hawking ou qualquer outro gênio da espécie. Também não vou discorrer sobre concepções religiosas dos doutores da Igreja. Vou, tão somente, pensar livremente a partir da lógica e do racionalismo filosófico, afinal, "livre pensar é só pensar" como costumava dizer Millôr Fernandes. Melhor assim, pensar livre de réguas e dogmas cerceadores, imperativos e doutrinários.

Obviamente, passo longe da Ufologia e seus delírios lisérgicos de que os discos, com sua 'avançada tecnologia', fazem longas travessias interestelares através dos famigerados buracos negros, estilingues gravitacionais, janelas dimensionais ou túneis temporais. Isso sim é muita piração para o meu gosto, assim como também é inútil debater sobre a Teoria das Cordas, os universos paralelos ou os Buracos de Minhoca (Pontes de Einstein-Rose), meras especulações, conjecturas e devaneios que não se mostram minimamente aplicáveis. Quem é do ramo sabe bem disso.

Imaginemos, só parta ilustrar, que você entre numa 'máquina do tempo', agende uma data no passado (ou futuro) e zás! Lá está você na sua festa de aniversário de cinco anos, com os dedos lambuzados de brigadeiro apagando velinhas. Ou, no sentido inverso, em estado senil e terminal num leito de hospital. Acha mesmo possível tal cenário? Não lhe parece por demais absurdo, no estrito sentido da razão? É uma boa história para Hollywood, não para a vida real.

Pois é assim que a maioria das pessoas imagina uma viagem no tempo. Ainda que hipoteticamente fosse possível, o que aconteceria se você chegasse antes de nascer? Ou o que garante que você irá se encontrar com você no futuro caso tenha morrido durante a viagem? Certamente a engenhoca iria irromper vazia lá seja onde for, porque você terá sido sugado para o vácuo absoluto. Ou ainda, se a máquina "pifar" no curso da viagem? Bem, nesse caso, você ficará vagando congelado por todo o sempre na singularidade do espaço-tempo.

O exemplo dado foi deliberadamente pobre, infantil até, para mostrar que, se com essa concepção rudimentar a viabilidade da viagem é zero, quanto mais complexa for [a concepção] mais impossível se torna [a viagem]. Será sempre um delicioso exercício ficcional, só isso, mais nada. Qualquer argumento que pretenda ter um suporte teórico sólido, pode ter certeza, é tão sólido quanto um castelo de cartas.

Existem formas mais simpáticas de se viajar no tempo: olhe para o céu estrelado e lá está o passado, milhões de anos atrás. Mergulhe na memória e se veja comemorando seus cinco anos. Olhe para sua filha, hoje adulta, e seus olhos continuarão vendo aquela linda garotinha de tranças no seu primeiro dia de escola. De todo modo será, sempre, uma viagem virtual. Talvez você queira falar sobre os videntes, profetas e oráculos, que 'preveem' o futuro ou 'conhecem' o passado. Sobre esses mercadores de ilusão falarei qualquer dia destes.

Na próxima semana vou tratar sobre o tempo propriamente dito, ainda sob o olhar da filosofia porque, afinal, ela é a mãe de todo o saber. Se o tempo não existe, a viagem nele também não. Mas vou viajar no tempo e antecipar alguns tópicos. Que tal pensar que o tempo não passa, mas que ele é estático? Quando ainda não havia nada, havia tempo? Se eternidade é o tempo sem fim, ele teve um começo? E o tempo do sonho, que tempo é? 

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HAWKING, Stephen. Uma Nova História do Tempo. PocketOuro. 2008.
BRAUDEL, Fernand. Escritos Sobre a História. Perspectiva. 1992.