Obras

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

CORPO DE ILUSÕES
Parte 1

Quanto mais diversifico minhas leituras, mais consigo compreender o mundo em que vivo, quem somos e porque somos o que somos. Por isso, quero compartilhar algumas páginas de uma obra de Freud, "O Futuro de uma Ilusão" (LP&M, 2010), escolhendo os capítulos V e VI justamente por serem a base de tudo o que este blog produziu nesses anos, principalmente as últimas edições: a necessidade de se ter mestres, gurus, deuses, líderes, sacerdotes, demiurgos. E extraterrestres, por que não?

Quero chamar sua atenção para o fato de que o assunto 'religião' é só um pretexto para trazer Freud; o tema de fundo que interessa é a necessidade, a dependência de crenças, sua genealogia e desdobramentos. Mesmo que Freud não detenha a verdade última, sua análise precisa ser considerada. Reflexões e enunciados de outros expoentes engrossam o caldo. Apesar de trazer apenas dois capítulos, a compreensão do seu pensamento não fica comprometida. Você pode até não concordar com suas proposições, contestar e rejeitá-las, mas não poderá negar-lhe o mérito do pioneirismo, a coragem de pensar o que ninguém havia pensado antes e abrir as portas a reflexões mais atuais que nunca.

Antes de entrarmos no texto freudiano, que não é complicado nem hermético mas pede atenção, um trecho do Prefácio escrito por Renata Cromberg é muito bem-vindo:


Em O futuro de uma ilusão, Freud procura analisar a origem da necessidade do ser humano de ter uma crença religiosa na sua vida. Apesar de Freud respeitar o fenômeno religioso como manifestação cultural e manifestação de fé singular calcada nos sentidos, ele tenta desmontá-la enquanto forma de conhecimento do mundo por considerá-la a origem da alienação, da superstição, além de um fenômeno calcado na imaginação. Freud se aproxima muito do filósofo Espinosa ao procurar esclarecer e liberar o ser humano no intuito de ajudá-lo na compreensão e na transformação dos seus afetos para que ele não se torne submisso a opressões reais e imaginárias, dentro e fora de si.

Boa leitura.

Retomemos o fio da investigação: qual é, pois, o significado psicológico das ideias religiosas? Como podemos classificá-las? Não é fácil, de modo algum, responder a essa questão imediatamente. Depois de rejeitar diversas formulações, nos deteremos nesta: as ideias religiosas são proposições, são enunciados acerca de fatos e circunstâncias da realidade externa (ou interna) que comunicam algo que o indivíduo não encontrou por conta própria, e que reivindicam que se creia nelas. Visto que informam sobre aquilo que mais nos importa e mais nos interessa na vida, elas gozam de alta consideração. Quem delas nada sabe é deveras ignorante; quem as incorporou aos seus conhecimentos pode se considerar muito enriquecido.


Obviamente, há muitas dessas proposições sobre as coisas mais variadas deste mundo. Cada lição escolar está cheia delas. Tomemos a de geografia. Lá ouviremos que Constança se localiza junto ao lago de mesmo nome. Uma canção de estudantes acrescenta: “E quem não crer, que vá lá ver”. Estive lá, casualmente, e posso confirmar que a bela cidade se encontra às margens de um vasto lago que todos os habitantes dos arredores chamam de Lago de Constança. Agora estou plenamente convencido da veracidade dessa afirmação geográfica. Isso me faz lembrar de uma outra experiência, bastante notável.

Eu já era um homem maduro quando pisei pela primeira vez a colina da acrópole de Atenas, em meio às ruínas do templo e com vista para o mar azul. À minha felicidade se misturava um sentimento de espanto, que me sugeriu a seguinte interpretação: “Então é realmente como aprendemos na escola! Como deve ter sido débil e superficial a crença que adquiri na verdade real do que foi ouvido naquele tempo se hoje posso ficar tão espantado!” Mas não quero dar ênfase excessiva à significação dessa experiência; há ainda uma outra explicação possível para o meu espanto, que não me ocorreu na ocasião, cuja natureza é inteiramente subjetiva e está ligada à singularidade do lugar. 

Todas essas proposições, portanto, reivindicam a crença em seus conteúdos, mas não sem fundamentar sua pretensão. Elas se apresentam como o resultado abreviado de um longo processo de pensamento baseado na observação e, certamente, também na dedução; e a quem tiver o intuito de refazer esse processo por conta própria, em vez de aceitar seu resultado, elas mostram o caminho. Quando o conhecimento anunciado pela proposição não é evidente, como no caso de afirmações geográficas, também se acrescenta sempre a sua proveniência. Por exemplo, o conhecimento de que a Terra tem a forma de uma esfera; como provas disso, são aduzidos o experimento de Foucault com o pêndulo, o comportamento do horizonte e a possibilidade de circunavegá-la. Visto que é impraticável, conforme reconhecem todos os interessados, enviar todos os escolares em viagens de circunavegação, a escola se contenta em deixar que seus ensinamentos sejam aceitos de “boa-fé”, sabendo, porém, que o caminho para a convicção pessoal permanece aberto. Tentemos medir as proposições religiosas com o mesmo critério.

[continua na próxima semana]




Resposta à Pergunta:  O que é o Iluminismo?, Immanuel Kant.

A preguiça e a covardia são as causas por que os homens, em grande parte, após a natureza os ter há muito liberado do controle alheio, continuem, no entanto, de boa vontade, menores durante toda a vida; e, também, por que a outros se torna tão fácil assumirem-se como seus tutores. É tão cômodo ser menor. Não me é forço pensar quando posso simplesmente pagar'outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa, é que os tutores de boa vontade tomaram a superintendência deles.

É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tornou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de ser servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer um a tal tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes, do maus uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua.

Mesmo quem deles se soubesse só daria um salto inseguro sobre o mais pequeno fosso, porque não está habituado a este movimento livre. São, pois,  muito poucos apenas os que conseguiram, mediante a transformação do seu espírito, arrancar-se à menoridade e iniciar então um andamento seguro. Mais ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for dada liberdade.

Com efeito, sempre haverá alguns que pensam por si, mesmo entre os tutores estabelecidos da grande massa que, após terem arrojado de seu jugo da menoridade, espalharão à sua volta o espírito de uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem para por si mesmo pensar.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

VOCÊ PENSA QUE PENSA?

O assunto "opinião pública" volta à baila por estar diretamente ligado a tudo aquilo que você pensa, ao que pensa que pensa, às ações e respostas que dá ao mundo. Todos nós estamos sujeitos a uma avalanche de notícias, informações, opiniões e ideias onde nem sempre é possível distinguir a verdade  da mentira. Até onde podemos confiar sabendo de manipulações, distorções e falácias em todos os setores da sociedade e do Estado, na publicidade, na propaganda, nas redes e na opinião pública - ou "senso comum"? Estamos vivendo a praga das fake news onde todos dizem o que bem entendem, do jeito que querem e sem entender nada do que estão a dizer. Não pense que você está imune a este flagelo. E quando falo em Estado, me refiro aos três poderes e a um "quarto poder" para onde os demais convergem, de uma forma ou de outra - a grande imprensa.

Que a mídia subverte e (re)direciona a informação todo mundo sabe, ninguém duvida e ninguém contesta. É um "poder" paralelo que elege governantes com a mesma rapidez com que os destrona quando não lhe convém, que planta mentiras e enterra verdades, gera lendas e crenças, fortalece boatos, cria mitos e inventa fatos. Não estou demonizando os veículos de comunicação e seus agentes, mas a estrutura - a super estrutura - midiática tem sim esse perfil. Para o rebanho desordenado - a massa baudrillardiana - aplicam-se filtros na fabricação de consenso para uma lavagem cerebral sofisticada da realidade. Exagero? Veja o que disse o veterano jornalista americano Walter Lippmann em 1920 (note, há quase um século):
A manipulação consciente e inteligente das opiniões e hábitos organizados da massa é um aspecto crucial de um sistema democrático. Cabe às "minorias inteligentes" executar essa manipulação das atitudes e opiniões das massas.
Vou dar um exemplo banal de como sua mente é embaralhada, entorpecida e conduzida de modo tão sutil que você nem percebe que não está pensando: O noticiário da TV. Diversas informações são dadas simultaneamente - a fala do apresentador, a cena do fato (em looping), outro ângulo da mesma cena, a fala do repórter local; no rodapé,  as chamadas - título da notícia, cotação da bolsa, decretos do governo, clima, câmbio, etc. Impossível apreender tudo. Outro exemplo: Após os jogos da Copa na Rússia, a mesa de debates se torna uma zona de conflito audiovisual: Seis participantes falam ao mesmo tempo enquanto uma janela mostra repetidamente os principais lances do jogo; ao lado, na vertical, ficha técnica do jogo e no rodapé, uma tarja em movimento informa os resultados da rodada e as negociações futebolísticas do momento. Moral da história, você assiste tudo em estado cataléptico. Você não precisa pensar porque nem absorveu a tônica dos comentários mas foi afetado psicologicamente pela ruído de fundo do debate. Isto se tornou tão normal que já nem damos conta que entramos na corredeira dos acontecimentos. 

A cultura de massa, ou cultura popular, tem no entretenimento seu principal produto de modo a aliciar, seduzir, induzir e adestrar o público através da espetacularização do cotidiano, formando padrões hegemônicos de pensamento e de comportamento, levantando um véu de alienação, levando-o a identificar-se com as representações sociais ou ideológicas nelas presentes. Para muitos autores, a simbiose homem-máquina (tecnologia, imagem, redes, mundo virtual) nos torna precursores de uma sociedade tautista - tautológica e autista,  uma espécie de solilóquio coletivo.

Nessa sociedade do espetáculo, os mecanismos de controle da informação se incumbem dos arranjos noticiosos em todos os campos sociais - artístico, econômico, político, esportivo, religioso, com ênfase hoje na violência, no erotismo, na banalidade e no terror. Nesse contexto, o "disco voador", com viés de chacota disfarçada, tem presença certa tanto quanto temas exóticos como o sobrenatural, a mediunidade e os mistérios em geral, por exemplo. Você acredita em alienígenas não porque acredita de fato, mas porque foi adestrado a acreditar - as "provas são incontestáveis". No fundo, você nunca mergulhou no assunto mas passa a acreditar porque "todo mundo acredita" e não quer ficar fora do circuito. Isso vale para todo o resto. Eis a menina dos olhos da mídia em busca da audiência contemplativa, alienada e imbecilizada. 

É aqui que entram em jogo interesses de todo tipo, onde se definem as estratégias de edição e divulgação dos fatos, retransmitindo os sentimentos e as expectativas da sociedade, conduzindo-a ideológica e culturalmente, confirmando o que dizia Umberto Eco: "O homem morre quando o veículo de massa triunfa". Ele nunca erra o alvo. Uma vez fisgado, o sujeito não precisa pensar. A bem azeitada engrenagem do poder age conforme a teoria hipodérmica - a agulha fina inocula seu conteúdo estupidificante tão rápido quanto indolor. O mundo nunca foi dócil com você; ele te recebeu com um tapa no traseiro e continua te espancando até hoje, tanto que você já nem percebe, nem se incomoda, não sente, não protesta e não reage. 

Essa cultura de massa - que molda a opinião pública - é duramente atacada por críticos consagrados como Noam Chomsky, Edgar Morin, Pierre Bourdieu e muitos outros, que acusam os meios de comunicação de serem cada vez mais  subservientes a uma diretriz inimiga da palavra, da verdade e dos significados reais da vida: "Mercadoria ordinária agindo na superfície como barbitúricos, ou mistificação deliberada, desviando o foco para longe da essência dos fatos".

"Cultura é um conjunto de normas, símbolos e imagens que estruturam os instintos e orientam as emoções, fornecendo pontos de apoio imaginários à vida prática e pontos de apoio práticos à vida imaginária", diz Morin.. Para estes veículos, o indivíduo é mero vetor de consumo, dotado de uma mentalidade mediana e notória dificuldade de entender questões minimamente complexas. Em outras palavras, é a depredação da cultura, a anulação da inteligência, a degradação do conhecimento, da moral, da ética. Ética? Ora, a ética...

Agora, pegue tudo isso que você leu,  junte com os textos de A cultura da idiotia,  A dimensãosocial da palavraA espiral do silêncio e A realidade do prazer que a coisa toda fica cristalina. Dedique um sincero esforço nessa leitura. A verdade é que estamos inteiramente à mercê dos fios condutores de um sistema sem ética, sem trégua, que impede nossa capacidade de discernimento, corrói e compromete o capital cognitivo e impõe visões e versões com códigos falsos, deixando-nos a céu aberto sob o jugo de uma complexa e vigorosa doutrinação de convicções da qual não temos nenhum controle. Ainda que necessário e salutar, um olhar mais crítico em relação à sociedade é cada vez mais raro. Esse olhar, cruel por ser realista, permite uma autoanálise bastante fértil de como estamos nos conduzindo, definindo nossas práticas, nossos hábitos e nossos pensamentos, seja como sociedade, seja como indivíduos. 

A imprensa renuncia seu papel de formadora cultural. Os poderes renunciam seu papel de formadores de uma sociedade estruturalmente madura. O cidadão renuncia seu papel de interlocutor de seus próprios interesses e convicções. A quem interessa uma sociedade mal formada e desinformada, pulverizada, passiva, sem autônoma e sem poder decisório? A quem interessa não ter que dar respostas? Responda você. Bourdieu é de uma contundência visceral: "É necessário interrogar-se sobre essa ausência de interrogações. (...) Os mais bem sucedidos efeitos ideológicos são aqueles que não precisam de palavras, e não pedem mais que um silêncio cúmplice".

A saída é usar os mesmos instrumentos de que somos vítimas: Buscar a informação na matriz, selecionar as fontes responsáveis, filtrar dados, aplicar a lógica no exame das questões, ir além do aparente, pensar em tudo que está sendo absorvido. Não basta ler este blog, por exemplo, é preciso confrontá-lo, avaliar o conteúdo, questionar, comprovar fontes. Pensar faz toda a diferença - é o único motor transformador capaz de nos livrar do enredamento e do condicionamento cuidadosamente programados de nossa vida sem o nosso consentimento. É uma relação de forças internas da nossa consciência contra a dinâmica repetitiva e repressiva que dificulta questionar coisas que realmente importam. O filósofo Luiz Felipe Pondé, sagaz observador do cotidiano, faz uma leitura certeira expondo a insustentável pobreza do ser:
A delicadeza, a sofisticação da alma, o amor ao detalhe e a vontade de entender não são atributos das multidões, e aqui reside grande parte de toda a miséria moderna: ser um mundo de grandes números, dedicado a muitos idiotas.
A leitura deste post não se encerra na última linha. Reflita bem sobre tudo, de verdade. Não se deixe levar pelas primeiras impressões da notícia, pela "guerra dos mundos" midiáticos e menos ainda pela caótica e paranoica "rede de intrigas" da malha virtual. Tenha muita cautela na hora de escolher seu canal de informação e não se precipite em emitir opiniões sem cercar-se do conhecimento real dos fatos. Não se engane, aprenda a pensar por si só sem cair na onda do ouvi dizer, fulano falou, deu na TV... Não bastasse a pós-verdade, temos agora que lidar com a "auto-verdade" - pessoas despreparadas cultural e intelectualmente usando a web para despejar uma verborragia irresponsável e delinquente, num assomo de prepotência e narcisismo.

Prometeu roubou o fogo dos deuses - o conhecimento - e o deu ao homem para que ele conduzisse a sua vida com sabedoria e coragem. Não deixe essa chama apagar-se, use-a para iluminar o caminho. Inteligência é um bem valioso demais para ser desperdiçado. Quem não usá-la não pode reivindicar autonomia. 




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CHOMSKY, N. Para entender o Poder. Bertrand Brasil, 2005.
BAUMAN, Z. A Cultura no Mundo Líquido Moderno. Zahar, 2013.
BOURDIEU, P.  O Poder Simbólico. Edições 70, 2017.
LIPPMANN, W. Opinião Pública. Vozes, 2008.
MORIN, E. Cultura de Massa no Século XX. Forense Universitária, 2007.
BARROS Fº, C. Comunicação na Polis. Vozes, 2002.
LE BON, G. As Opiniões e as Crenças. Ícone, 2002.
PONDÉ, L. F. Contra um Mundo Melhor: Ensaios dos afetos. Texto, 2010.

sábado, 5 de janeiro de 2019

MENTES EM CATIVEIRO
Nun ist die luft von solchem spuk so voll, dass niemand weiss, wie er ihn meiden soll.
O ar está tão cheio de assombrações que ninguém mais sabe como evitá-las (tradução livre).
Fausto, de Goethe

Semanas atrás você leu aqui algo que me deixou pensativo desde então: Confiança perversa no próprio carcereiro. É uma daquelas frases que, em poucas palavras, tem o condão de resumir um conjunto de proposições e nos levar a densas reflexões, no caso, sobre o comportamento humano. "Confiança perversa" pode ser entendida como a crença inabalável em um único sistema de ensinamento, doutrina, ideologia ou filosofia de qualquer natureza, onde é proibido o contraditório, onde não se levantam dúvidas ou questionamentos sobre os preceitos fundadores e onde não se tolera oposição às "certezas pétreas". Essa overdose, ou intoxicação doutrinária, é nomeada narcose social


Na medicina, mais exatamente na Psiquiatria, narcose diz respeito a perda de sentidos, a anestesia, adormecimento ou entorpecimento sem que haja necessariamente qualquer lesão orgânica. Ela é resultado de um processo inconsciente de interrupção doe contato com o mundoprovocando uma completa distorção na percepção da realidade, um enfraquecimento das funções da autoestima (ego) em razão da imaturidade, fragilidade e impotência do selfimplicando numa perda de fluidez entre o contato e o afastamento da realidade. Nesse contexto, narcose social se refere aos agentes (seitas, partidos...) que submetem ao indivíduo uma pesada e contínua carga de fundamentos ideológicos. Com velada dominação psicológica sobre a insegurança, o desamparo e a vulnerabilidade manifestas do indivíduo, oferecem - manipulam -, em troca sessa fidelização compulsória, dessa confiança perversa, providências de caráter duvidoso. 

Não se pode permitir que oráculos ineptos apontem os rumos de nossa vida quando mal sabem conduzir a própria, nem que estafetas do além desrespeitem a memória dos mortos com mensagens inexistentes, ou que avatares inaptos, narcísicos e mercenários vendam impunes espiritualidade ordinária. Isso vale para governantes canalhas que enganam com trapaças e retórica falaciosa, e ainda líderes, pastores, clérigos, messias, sacerdotes e demiurgos cretinos. Inclua-se seitas, divindades, templos, instituições, facções, grupos, sociedades, classes. É essa gente que mantém as mentes em cativeiro. Chame como quiser - mercado da esperança, comércio espiritual, império das ilusões...

Falando sério,  para o dia de amanhã o que você prefere: consultar a cotação do dólar, o clima e o trânsito na cidade, as últimas medidas do governo e o saldo bancário, ou em que posição Júpiter estará em relação a Sagitário, se sua avó falecida há 28 anos "está bem do outro lado" ou se seu anjo da guarda estará de plantão? Você pode até escolher tudo isso junto, mas nunca vai saber se o lote de crenças funciona na prática. Basta lembrar o exemplo do espiritualista que, quando o bicho pega, esquece as "dimensões superiores" e se agarra rapidinho ao bom e velho mundo das coisas reais. Depois, claro, creditará ao "espiritual" a boa sorte alcançada. É a gangorra psíquica da vida cotidiana. Em certos casos, torna-se um dolorido conflito existencial pelo despreparo para enfrentar uma realidade que não negocia, que joga duro, primeiro bate e depois pergunta; valores contrários entram em choque, incertezas dobram de tamanho, o que estava fissurado desmorona, o que era pedra vira fumaça.

É possível traçar algumas linhas de comparação com a Síndrome de Estocolmo, que é quando a vítima se afeiçoa pelo opressor - ou carcereiro, tanto faz. Perceba a sutil semelhança. De acordo com a Psicanálise, o que ocorre é uma resposta psíquica, uma estratégia ilusória da psique para se proteger da realidade violenta e perigosa que lhe é imposta. Estamos falando, de um lado, de sobrevivência psíquica, e de outro, de sobrevivência física. Em ambos os casos estamos falando de dependência, portanto, o "refém" verá sempre a mesma paisagem pela única janela que dispõe, e terá sempre o mesmo cardápio, todos os dias. A complexidade deste tópico em especial é gigantesca, diria inesgotável. Nem mesmo Freud foi capaz de esgotar o assunto. Ainda assim, pretendo voltar ao assunto porque ele (me) produz um fascinante aprendizado.

Fausto tem razão, as fantasmagorias estão por toda a parte, e pior, multiplicam-se e acumulam-se nos guetos sinistros da escuridão humana. Se não há como evitá-las, ao menos temos como nos prevenir. Basta um pouco mais de luz e razão.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

CONTRADICÇÃO

Quando publiquei os textos em que o Sr. Däniken foi alvo da crítica, não esperava que o tema fosse prosperar, mas, graças àquele leitor atento e de boa cultura que enviou uma tréplica, me vi estimulado a prosseguir. De saída, admito que os exemplos dados ao discordar sobre a demanda não foram felizes, embora eu tenha entendido o seu pensamento. Ele tem total razão: entre bandidos e vítimas, só estas ficam no prejuízo; entre gurus e devotos, todos ganham (sem entrar no mérito de quem ganha o quê) porque um procura pelo outro, um precisa do outro. O que está em pauta agora é a outra ponta deste arco, justamente os admiradores, os fanáticos, os devotos. Tenho escrito sobre isso por vários ângulos, diversas abordagens, trazendo obras e autores da melhor qualidade. Mas sempre fica uma brecha a ser explorada. Vejamos o que temos hoje.

O leitor começa citando um trecho de Simona Argentieri em Ambiguidade (Rocco, 2011): "Cada ser humano, na verdade, tem uma profunda necessidade de pertencer a alguém e a alguma coisa (uma nação, uma raça, um clube de futebol, um partido, uma igreja...)". Eu sigo a partir das reticências - ...uma tribo, um grupo de whatsapp, uma rede - qualquer coisa com que possa se identificar. A autora prossegue: "(...) e apesar das declarações oficiais de desejo de liberdade, nos níveis mais profundos, temos ainda a necessidade oposta de obedecer a um líder, a um chefe que tranquilize as nossas partes infantis e dependentes". Eu poderia indicar vários posts nessa mesma linha de raciocínio - A dor da liberdade é um deles. Simona , 78 anos, é psicanalista italiana, autora de várias  obras além da citada.

Aqui ela é direta: "Em situações extremas e catastróficas (...), regredir à ambiguidade constitui uma formidável defesa a serviço da vida, que permite uma espécie de "confiança perversa" no próprio carcereiro, uma aceitação interior paradoxal, não conflitual, de uma realidade externa intolerável". 

O anjo sorridente de face rosada da fantasia afaga o coração e conforta o espírito, enquanto a Quimera da realidade sangra os olhos e lacera a carne, porque é cruelmente mais verdadeira e convincente. Para evitar o conflito com essa "realidade externa intolerável", o indivíduo recorta a parte que não lhe convém e coloca outra em seu lugar - a sua realidade - idealizada, só imaginariamente realizável.

Ambiguidade, do latim ambiguitas - equívoco, incerteza, duplicidade, mas pode chamá-la também de contradição, hipocrisia, cinismo, mentira, falsidade, incoerência e, como mostra o título, contradicção - dizer uma coisa e fazer outra. Isso explica o comportamento nas duas pontas: de um lado, figuras como Däniken que mentem e enganam dissimulando suas reais intenções, e de outro, o fiel que deposita confiança perversa para se desviar da realidade intolerável a que vive submetido.

É como o espiritualista de ocasião que repudia o materialismo e o ceticismo da patuleia até o ponto em que, diante de uma "situação extrema" como enfermidade grave, por exemplo, substitui de imediato os tratamentos alternativos (curas espirituais, medicina ayurvédica, homeopatia, naturopatia, terapia holística, terapia quântica, florais, chás, infusões...) pela medicina tradicional materialista com seu arsenal de bisturis, drogas, enxertos, agulhas, tubos, cateteres, próteses, transplantes e terapias químicas. Depois, são e salvo, agradece aos mentores espirituais por guiarem a mão do cirurgião, que, por sinal, era de Câncer cm ascendente em Touro, budista e vegano! Alguma dúvida que estamos diante de um ser fragmentado, dividido, assombrado, incerto e vagueante?

Ainda não li o livro (pretendo fazê-lo), mas considerando que Simona segue a linha freudiana, seu discurso dialoga também com Melanie Klein, que nivela a infância (do latim in fans - incapaz de falar) no mesmo patamar em que se inscreve o homem primitivo, fazendo coro com Freud: "Compreendemos como o homem primitivo tem necessidade de um deus como criador do universo, como chefe de seu clã, como protetor pessoal (...) Um homem dos dias posteriores comporta-se da mesma maneira. Também ele permanece infantil e tem necessidade de proteção, inclusive quando adulto; pensa que não pode passar sem apoio de seu deus". E Freud segue dizendo que "A questão da angústia constitui um ponto no qual convergem os mais diversos e importantes problemas e um enigma cuja solução irá projetar mais luz sobre toda nossa vida psíquica".

Para finalizar, reiterando que o amigo leitor tem razão, repito uma frase que já escrevi e falei muitas vezes: Sempre haverá espetáculos medíocres enquanto houver plateias medíocres a lhes aplaudir. Ainda há muita demanda, de fato. Respeito o direito de cada um acreditar em quem quiser e no que quiser - bruxas e milagres, aliens e anjos, astros e pedras. A este blog cumpre informar, esclarecer, alertar, prevenir sobre aqueles não só iludem a boa-fé como prostituem-na com farsas, patifarias e parlapatices. Como o Sr. Däniken e similares. O mundo padece de adultos infantilizados e carece de gente responsável. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

ENTERREM SEUS MORTOS, DEUSES!

Bronze, s/n s/d
Cortesia Matteo Pugliese

A postagem anterior sobre deuses "ressuscitados" gerou o comentário interessante de um leitor. Na verdade, ele se refere ao personagem da matéria, o pseudo tudo Erich von Däniken, "um picareta de sucesso internacional", segundo ele. Acho que vale a pena continuar o assunto.

O leitor tem razão ao dizer que Däniken teve tempo e espaço para para divulgar suas bobagens "apenas para os sinceros de coração", ou seja, somente para pessoas desinformadas, crédulas, ingênuas, predispostas a aceitar os fatos sem questionamento.
E ele concorda também que "ainda teremos que aturar toda uma chusma de vendedores
e evacuadores de mitos e enganos por muito tempo". Você tem razão, caro leitor, mas, se eu não estiver errado - penso que não estou - essa credulidade inocente vem decrescendo, paulatinamente, mas vem. A malha de informação, a facilidade de acesso ao conhecimento, o desmascaramento de patifes tornou-se prática corrente, e não estou falando só de políticos, celebridades, "mestres", religiosos e outras figuras.

Mas o leitor há de me permitir discordar em um ponto, embora entenda o sentido de sua colocação. Diz ele: "Penso que o personagem em tela (e seus similares) é refém da demanda, o que atenua seu dolo". Não sei se concordo, por uma questão de lógica: Se as pessoas que circulam pelas praças são potenciais vítimas de assalto, o bandido que as assalta terá sua pena atenuada por elas estarem lá? O trombadinha que rouba o motorista no sinal deve ter sentença branda porque a vítima deveria andar com o vidro do carro levantado? O Sr. Däniken et caterva não são reféns da demanda, agem porque são intrinsecamente inescrupulosos, planejam so modus operandi com total clareza dos atos em todas as etapas, da falsa pesquisa à "venda" do produto. O Sr. Däniken nunca pesquisou nada e se aventurou pelo mundo "evacuando" bravatas com a maior desfaçatez, divertindo-se às mossas custas. Refém da demanda? O problema todo é que as pessoas acreditam a mentira, evitam a verdade, ignoram o certo e valorizam o errado. Não pode dar certo. 

Tenho reiteradamente escrito aqui sobre questões de ética, moral e responsabilidade, requisitos que obviamente inexistem em Däniken e "similares". A propósito, e não é propaganda porque ainda é muito cedo para isso, estamos preparando um artigo que trata justamente dessa questão, muito oportuna, diga-se, sobre deuses e simulacros como representações para uma realidade imaginária. Simulacros? No foco do estudo, gurus, médiuns e astrólogos, mas vale também para guias, profetas, xamãs, ayatollah, rabino, mulá, curandeiros, mestres, líderes espirituais, videntes, "contatados", clérigos, pastor, ministroenfim, todos aqueles que, de alguma forma, com discursos tão vazios quanto suas cabeças, exercem um oportunista e narcísico poder de sedução sobre pessoas por si só fragilizadas e vulneráveis, como "mediadores" entre o divino e  o humano, ou, se preferir, entre o sagrado e o profano.

Agradeço ao leitor pela oportunidade de estender algumas linhas sobre o tema. Volto a dizer que desconheço o alcance deste blog, seu poder de penetração nas redes, se gera alguma conversa em roda de bar, em reunião de amigos ou na mesa de jantar. Tudo o que sei é que faço a minha parte da melhor forma possível, do jeito que sei fazer. Se você, leitor, repercute as ideias aqui trabalhadas com seus amigos, colegas e familiares, então posso pressupor - e desejar - que uma "força-tarefa" invisível se forme para além das paredes que me cercam e para dentro do universo infinito que há por trás da tela à minha frente. Se assim for, então, um dia, não haverá demanda alguma que faça o Sr. Däniken e seus asseclas ressuscitarem novamente. Os deuses que os enterrem.

sábado, 15 de dezembro de 2018


OS DEUSES NÃO ESTAVAM MORTOS?

Acho que você percebeu a referência irônica com a famosa frase de Nietzsche "Deus está morto". Neste caso, estou falando dos deuses mesmo, aqueles, inventados lá pelos anos 1970 com a expressão que ficou célebre: "Deuses astronautas". E não é que foram ressuscitados? Voltou a circular por terras brasileiras o "escritor" Erich von Däniken, principal divulgador da fantasiosa teoria de antigas civilizações alienígenas no nosso planeta em tempos remotos. Fantasiosa e falaciosa, para dizer o mínimo. Däniken foi agora ressuscitado pela mídia, participando de colóquios e outros eventos. A história é mesmo cíclica e parece que não aprende com os erros do passado.


A febre dos deuses astronautas contagiou o mundo há quase cinco décadas. Dezenas de obras foram escritas, seminários, congressos, documentários, entrevistas, autores surgiram da noite para o dia, todos "descobrindo" alguma coisa nova como nunca antes. Então houve uma avalanche de "Pedras de Ica", "Lousa de Palenque", artefatos, desenhos, ruínas, monumentos, templos, pirâmides, instrumentos, pinturas, sítios arqueológicos, naves, textos "decodificados", uma quantidade de baboseiras sem fim, tanto quanto os flibusteiros que inauguravam a linha da "ufoarqueologia" - estudos voltados à pré-história que sugeriam a presença de seres extraterrestres no passado. 

Nunca houve visitantes ou civilizações alienígenas "avançadíssimas" no passado ou em qualquer outra época no curso da história. Tudo não passa de delírio, desvario, invenções fabulosas e imaginação fértil daqueles que carecem de leitura, saber científico, sobriedade, responsabilidade e senso crítico.  O que estes "pesquisadores" fizeram foram inferências totalmente anacrônicas, interpretando os fatos dentro da realidade da sua época, e não da realidade do período das respectivas obras. É mais fácil, se não podem ser provadas, também não podem ser desmentidas. Ou não podiam. Com tantos deuses na vitrine, esqueceram-se do "deus das lacunas", ou "argumento da ignorância", uma falha discursiva que ocorre quando uma questão é respondida com explicações que não podem ser verificadas, assentando-se na irracionalidade, na mística, na falácia ou no sobrenatural, supostamente incompreensíveis ao leigo. Ou seja, você pode "ler" os sinais do jeito que bem entender que ninguém vai contrapor. Os tempos mudaram, mas eles petrificaram como as pedras que pesquisam. Para concluir, sem meias palavras, trata-se de má-fé e sensacionalismo barato em nome de interesses escusos.

Alguns desses autores formaram uma linha de frente - Zecharia Sitchin, Robert Charroux, Peter Kolosimo, W. Raymond Drake, além de Däniken, que jogou gasolina na fogueira dos egos com o best-seller "Eram os deuses astronautas?", e as labaredas desse inferno torram a nossa paciência até hoje. O que antes era um debate polêmico plausível hoje virou sinônimo de insanidade. Mas voltemos ao ponto.

Os deuses nunca foram astronautas assim como Däniken nunca foi pesquisador de raiz. Ele nunca teve preparo científico para sustentar suas posições mirabolantes, nunca teve refinamento crítico para questionar as fontes primárias nem inteligência suficiente para perceber as besteiras que diz. Simplesmente aproveitou um filão pouco explorado, enfileirou ideias, empilhou aqui e ali algumas peças, coletou dados sem filtros prévios e se pôs a publicar livros e sair por aí vendendo suas teorias delirantes. Comercialmente foi um achado, encheu as burras de dinheiro e se deu bem. Toda essa patuscada cabia no bonde da história naquela época. Aliás, cabia de tudo. E constato, com pesar e sem surpresa, que colegas continuem incensando o Sr. Däniken mesmo mumificado como seus deuses.

Däniken, um hoteleiro suíço com veia aventuresca, foi desmentido inúmeras vezes sobre as suas descobertas e expedições, que ele mesmo confessou tê-las inventado para "ilustrar" e "motivar" a leitura de suas obras. Ele nunca esteve nos lugares que alegou ter estado, nunca pesquisou tumbas e ruínas que descreve em seus livros, nunca esteve com os cientistas que disse ter estado. Ou seja, nunca chegou nem perto de ser arqueólogo. Foi condenado e cumpriu prisão em três oportunidades, acusado de vários crimes: fraude, peculato, falsificação, falsidade ideológica e furto. No julgamento, o laudo da avaliação psiquiátrica apontou que o réu era mentiroso contumaz e um psicopata criminal. Däniken admitiu ter recorrido ao que chamou de "efeitos dramáticos" para defender seus argumentos por julgar "atos lícitos para um escritor".

Que ironia, os "viajantes do passado" desmascarando o "viajante" do presente. A Senhora Verdade, quando posta a nu, não poupa castigar os penitentes. Quando Carl Sagan declara "Não conheço livros recentes tão cheios de erros lógicos e factuais como os trabalhos de von Däniken"¹, é caso para se pensar. Lamento pelos colegas que o bajulam, mas eu não posso condescender com velhacos.

Às portas de entrar na terceira década do século 21, o mundo já não venera os deuses do passado, muito menos os deuses astronautas. O mundo rejeita o Sr. Däniken e seu sequioso séquito. Se ele precisa de dinheiro para sobreviver e pagar suas contas, que vá vender miniaturas Páscoa, reproduções das pinturas rupestres em toalhinhas de café, réplicas de alienígenas para decoração, pedras de Ica como peso de papel. Temos coisas mais importantes a fazer do que dar ouvidos a vigarices de quinta contadas por gente de segunda. Alguém precisa avisar o cidadão que seus deuses estão mortos antes que ele lhes faça companhia.

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https://www.amazon.com/The-Space-Gods-Revealed-Theories-Daniken/dp/0064650928/ acessado em 14/12/2018
¹ "I know of no recent books so riddled  with logical and factual  errors as the works of von Daniken" In STORY, Ronald. The Space-gods Revealed. Harper & Brothers Pub., 1977.
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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018


A VERDADE NUA
La vérité qui sort de ton puits*
Jean-Léon Gérôme
Óleo s/tela, France, 1896

O texto que trago hoje é uma parábola judaica de autoria desconhecida, do século 19. É um bom momento para se refletir sobre os artifícios de sedução da Mentira, em contraste com o estado puro da Verdade.


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Conta-se que um dia, a Mentira e a Verdade se conheceram. A Mentira era uma mulher belíssima, sedutora, afável, de sorriso fácil e voz suave, pele alva e macia. A Verdade, por sua vez, também tinha um belo rosto, maduro, de traços mais rudes marcados pelo tempo, voz serena e firme e olhos negros profundos.
Nesse encontro, A Mentira disse à Verdade:
– Bom dia, dona Verdade, que dia lindo, que luz maravilhosa!
Desconfiada, ciosa de seu caráter, a Verdade foi conferir; olhou para o alto e viu que o Sol reinava absoluto num céu azul sem nuvens. e que vários pássaros cantavam numa algaravia sem fim. Tendo se assegurado de que era realmente um dia esplendoroso, respondeu à Mentira:
– Bom dia, senhora Mentira, tem razão, temos um belo dia a desfrutar!
– E está muito calor também, não acha?, indagou a Mentira.
E a Verdade concordou, vendo que a Mentira estava sendo sincera.
A Mentira, então, num gesto de amizade, convidou a Verdade a banharem-se no poço do jardim. Tirou a roupa, pulou na água e disse:
– Venha, dona Verdade, a água está uma delícia.
Sentindo-se convencida diante de um convite tão gentil, a Verdade despiu-se e entrou no poço, constatando que de fato a água estava limpa e refrescante. Pouco depois, a Mentira saiu e rapidamente vestiu-se com as roupas da Verdade, fugindo sorrateiramente. Surpresa e indignada, a Verdade tentou alcançá-la mas já era tarde, ela desaparecera na floresta. Recusando-se a usar as roupas da Mentira para não manchar a sua reputação, e como não tinha do que se envergonhar, decidiu andar desnuda pelas ruas.
Porém, ao depararem com a Verdade nua, as pessoas não a encararam, desviando olhar com raiva e desprezo. Enquanto isso, a Mentira, vestida como Verdade, desfilava cheia de graça, cortejada e seguida por toda a gente, a todos enfeitiçando com seus sortilégios. A Verdade, sentindo-se preterida e ignorada, voltou ao poço para esconder-se e de lá só sair só quando fosse preciso.
É mais fácil aceitar a Mentira com ares de Verdade do que encontrar a Verdade nua.
A Verdade sai do poço armada de seu chicote para punir a humanidade.

La Vérité sortant du puits armée de son martinet pour châtier l'humanité

sexta-feira, 23 de novembro de 2018


PENSAR PARA MUDAR, MUDAR PARA CRESCER

O Bobo ao Rei Lear: Pobre Rei, envelheceu antes de ficar sábio!

O título de hoje parece conselho de auto-ajuda, mas está longe disso. Ao longo de uma vida nós passamos por várias e graduais mudanças de toda natureza - física, mental, emocional, intelectual, mas nem sempre as últimas acompanham a primeira. De acordo com estudos sobre psicologia comportamental, está acontecendo exatamente isso - o homem agindo cada vez mais como bebê chorão, mimado e carente, e não há nada mais melancólico que um adulto infantilizado, deslocado no tempo, retardado nas atitudes. Se você tem prestado atenção ao que vem sendo escrito aqui, sabe que tenho tocado nesse ponto com incansável insistência, porque a idiotia está crescendo em escala mundial em todos os estratos sociais ocupando todos os espaços Se a estupidez é uma enfermidade coletiva contagiosa, a inteligência é uma virtude pessoal intransferível.

Pensadores de primeira grandeza e de vários matizes estão preocupados com esta situação e alertam para o naufrágio social. Enquanto eles estão numa ilha de lucidez e sabedoria, nós afundamos num oceano de loucura e ignorância. Bauman diz que a nossa sociedade se liquefaz - eu diria vaporiza -, outros falam em avanço da mediocridade, cultura em declínio e assim por diante. Há quase um século Freud acendia sua lamparina para nos avisar que teríamos turbulência pela frente se não aprendêssemos a reconhecer nossas fraquezas e limitações. Optamos por focar na escuridão. Depois dele, outros soltaram a voz, gastaram tintas, tocaram trombetas. Em vão. Não ouvimos ninguém, não vemos nada, não falamos com coerência, esquecemos tudo o que aprendemos, quando aprendemos. Continuamos tolos incuráveis. 
Se pensar dói, como dizia Fernando Pessoa, pensar em mudar torna-se um martírio insuportável, mesmo que represente crescer, amadurecer. Ele dizia também que, ao compreender o pensamento do outro, eu me torno ele, e só assim posso concordar ou discordar de mimDe qualquer modo será, sempre, um aprendizado. Pensar não é uma opção, é dever, é saber, e saber é poder, Não ignore o poder do saber, o poder de mudar. Não pensar é manter a mente em permanente estado de suspensão. A discussão toda vai a patamares muito além de um simples olhar psicológico ou antropológico. Começa pelo fato de estarmos inegavelmente sozinhos no cosmo, solidão essa que amedronta e angustia, como afirma o antropólogo Ernest Becker:
A necessidade de significância cósmica é um dado antropológico estrutural diretamente ligado ao temor da aniquilação pela morte. Não queremos admitir que estamos sozinhos e que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um sistema de ideias e poderes que nos sustenta e no qual estamos mergulhados.

Erich Fromm ratifica esse diagnóstico ao enfatizar que o homem não pode prescindir da ilusão de um deus protetor que o ampara nessa solitude cósmica, por sentir-se como a criança distante da casa paterna. Isso é tão profundamente verdadeiro que ele mesmo dá a chave para a mudança: O verdadeiro sentido do desenvolvimento humano consiste em sobrepujar essa fixação infantil. Mais direto impossível.

Você sabe que poderíamos ficar horas escrevendo sobre o tema, mas devo me restringir a poucos autores, o suficiente para dar um norte na reflexão. Parece que estamos presenciando um diálogo ao vivo quando Lacan corrobora Fromm: Para que a criança atinja o nível da realidadeela deve deixar o modo imaginário da visão de si e dos outros, e utilizar o modo simbólico. Outro direto no queixo. Como falamos recentemente sobre o papel dos contos de fadas na construção do imaginário infantil, e a representação do pensamento mágico influente na formação do adulto, fico por aqui. Junte tudo e o circuito se fecha.

Se reunirmos muito do que já foi escrito a respeito, a convergência vem de todas as direções. O homem vive na infância (cósmica e terrena) e não sairá dela, não haverá tempo para amadurecer. Faz parte do universo infantil o doce e encantado mundo da magia, da ilusão, da fantasia e da falta de comprometimento e responsabilidade com a vida, e o homem se apega a ela à margem do real, negando-o permanentemente de todas as formas: Quando projeta um futuro imaginário - utopia; quando se fixa no passado idealizado - retrotopia; quando crê na proteção de entes sobrenaturais - ufotopia. Ele ignora que o real é insubstituível e que em algum momento vai bater de cara com ele. Poderá ser tarde, e vai doer. 

O anjo de face rosada da fantasia afaga o coração e conforta o espírito, mas a Quimera da realidade faz sangrar o coração e rasga a carne , por isso é cruelmente mais verdadeira e convincente.

Tocqueville disse em algum momento que quando as velhas gerações se vão, as novas herdam seus vícios. O avô dos meus filhos, um homem de bastante leitura, dizia a mesma coisa, a seu modo e com peculiar sotaque: No satisfechos con nuestros errores, los ampliamos y los transmitimos a nuestros hijos. Quando o homem vive dentro de uma ficção, ele não a reconhece com tal, como na fábula dos dois peixinhos que já contei aqui. Ficção? O que é isso?

Mudar é uma atitude sempre surpreendentemente engrandecedora, renova o ar, troca a zona de conforto por horizontes sem fim, extermina ranços. Optar pela realidade áspera da vida é um desafio para gente grande, não para fracos e covardes. Não mudar é estar pronto para o desmanche e ser atropelado pelo ritmo incontrolável e inapelável das transformações. Mudar pode doer, não mudar mata. Essa reforma íntima só vale para quem está pronto. Para ajudar nessa reflexão, encerro com um extrato do pensamento do filósofo Clóvis de Barros Filho, conciso e cirúrgico:


Reinventar-se para se manter vivo. A reinvenção de si deve respeitar as características individuais e as exigências específicas do cenário em que se vive, um processo que gera uma equação de grande complexidade, que zomba de qualquer fórmula pronta. Com certeza, se a vida tem alguma chance de dar certo, é só com quem vive no comando. Terceirizar as decisões da vida, entregar as escolhas da própria trajetória a quem quer que seja - profetas ou gurus -não dá certo, a não ser para os profetas e os gurus. Terceirizar a vida é uma forma de escravidão. Tendo essa lucidez, não estando empalhado no mundo, o sujeito tem a oportunidade de diagnosticar as condições ideais da própria reinvenção. O risco é de permanecer, e permanecer acreditando ser num mundo que deixa de ser a cada segundo, é proporcionar para si as condições de um distanciamento progressivo da realidade, portanto, de uma desvalorização inapelável de si mesmo.


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FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização. Penguim Companhia, 2011.
BAUMAN, S. Retrotopia. Vozes, 2017.
_________. O Mal-estar da Pós-modernidade.  Zahar, 1999.
DALRYMPOLE, T. Podres de Mimados. É Realizações, 2015.
BECKER, E. A Negação da Morte. Record, 2008.
FROMM, E. Psicanálise e Religião. Livro Ibero Americano, 1966.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018


VOCÊ ESTÁ QUANDO?

Não, a pergunta não está errada, é um arranjo: Você está quando? Novamente me inspiro na excelente série Westworld devido à complexidade da trama, tecida pelos fios das ciências sociais e da psicologia do comportamento. O humano em xeque. Você está quando? é uma variação da pergunta da personagem que perde a noção de qual tempo está vivendo - Eu estou quando? Uma indagação instigante. A narrativa não transcorre num tempo único linear, mas em várias timelines simultâneas e entrelaçadas. Para ilustrar, imagine-se percorrendo um labirinto de espelhos onde cada imagem sua refletida o coloca em tempos existenciais diferentes! Múltiplos "você" num só lugar ao mesmo tempo, mas em épocas distintas. É nesse enredamento espaço-temporal que Westworld desenvolve sua história. É por onde vamos caminhar agora.

Eu sei que você responderá que vive no seu tempo, ligado nos acontecimentos, no jogo político, na agitação urbana e mundial, etc., mas não é disso que estou falando. O ponto é outro. Todos nós vivemos em duas linhas do tempo: a do corpo físico, do cotidiano, do trabalho, do lazer, do relógio, enfim... e a outra, a mental, aquela que orienta a escolha dos valores, que indica as ações nas quais acreditamos, o sentido das crenças, a visão de mundo e muito mais. É essa que me interessa.

Já vai longe o tempo das fadas, magos e bruxas; astrólogos, cartomantes, profetas, gurus e oráculos são tão anacrônicos quanto lobisomem, sereias, sílfides, faunos, anhos, zumbis e vampiros, uma constelação de personagens que ou pertencem ao folclore ou inspiram o cinema, assim como alienígenas, monstros e super-heróis são um rico filão para a ficção científica. Cristais e pirâmides viraram objetos de decoração; superstições, simpatias, rezas e mandingas alimentam crédulos, inseguros, carentes e a próspera indústria de quinquilharias e penduricalhos.

Não guarde sementes de romã na carteira, elas secam e não atraem dinheiro algum. Trabalhar e poupar são mais eficazes. Não se pode mais correr atrás de utopias e plantar delírios; não reze para seu filho ir bem nas provas - faça-o estudar! Não espere que os deuses acabem com os problemas do mundo - quem os criou que os resolva. É triste constatar que tanta gente esclarecida ainda caia nessa esparrela de inferno astral, comunicação com espíritos, anjos da guarda, energias cósmicas e todas essas coias que habitam a esfera do pensamento mágico. Deixe os devaneios para artistas, escritores e poetas.

Crendices, fantasmas e presságios povoaram a vida dos nossos avós - dos nossos avós, mas o tempo agora é outro. O saber e a informação estão disponíveis em todos os lugares a qualquer hora, um clique e o mundo é todo seu. A ciência derruba preconceitos, desvenda mistérios, vai à raiz em busca de conhecimento para entregá-lo em bandeja de prata a você. Não há mais lugar para a ignorância, o retrocesso e o obscurantismo. Não se pode mais viver fechado em cárceres mentais alienantes. O real que bate à nossa porta o faz com a força de um furacão, mas não enfrentá-lo e esconder-se atrás de entidades abstratas é sinal claro de frouxidão e imaturidade. Crianças podem não querer crescer mas adultos precisam crescer. Os sonhos de infância dormem aconchegados num recanto da memória e da história, e lá devem ficar. 

Refugiar-se no passado é negar o agora, é encontrar-se em perpétuo deslocamento, fora do tempo - acronia, portanto, entrevado no marco zero da existência - atopia. Pendurar-se nos fios imaginários de uma dimensão supra-real é expor, a um só tempo fraqueza estrutural, insegurança psíquica, embotamento da análise crítica, miopia intelectiva, heteronomia, resignação, desorientação, covardia e apequenamento do espírito. Não é essa a essência genuína do Ser, mas é a do sujeitoaquele que se sujeita, se curva, ajoelha, obedece, conforma.

Não pense antiquado, não viva conceitos ultrapassados, não se desconecte com a autêntica experiência de viver o presente. Quem caminha por mundos paralelos - o real e o imaginário, o concreto e o fictício - não caminha por nenhum, não sai do lugar. Quem não se projeta no mundo real se perde nos ventos de um mundo inexistente. Agora que você entendeu tudo, a pergunta é mais direta: O tempo mental no qual você vive está no compasso do mundo à sua frente? Acho que deu para perceber que por trás dessa pergunta e nas entrelinhas do texto há um convite à reflexão. Você está quando?