Obras

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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

MISSA DOS EXCLUÍDOS-

O que há de bom ou mau em qualquer crença,
"qualquer" é o modo como se crê.
O bem ou o mal estão no psiquismo
do crente, não na crença.
Fernando Pessoa

Uma vez conhecida a complexa dimensão e a real natureza humana diante desse emaranhado de sentimentos e alternâncias, e para que o ser não sucumba à dor da sua precariedade, é de se supor que devam existir pontos de ancoragem que o auxiliem na travessia desse mar bravio chamado vida. Existem, mas, para saber quais são, devemos recuar um pouco na história. O totemismo é o primeiro deles, pois o totem indica o fenômeno presente em todos os povos primitivos de transformar uma coisa (natural ou artificial) em emblema do grupo social e em garantia da sua solidariedade. Este tema já foi trazido aqui e não há porque retornar (PrimitivaMente Moderna), por isso vou me ater somente ao principal.

O totemismo é um sistema organizador de clãs, tribos e sociedades, pela crença no parentesco entre o grupo e seu tomem como elemento mágico aplacador de algumas incertezas, e desfazer temores e ansiedades quando a ciência é incapaz de aquietar os espíritos primitivos. Assim, os aspectos religiosos/mágicos assumem papel relevante como fontes primárias de conhecimento e especulação, e ordenadores da m oral.  É Durckheim quem diz que os primeiros sistemas de representações que o homem produziu do mundo e de si mesmo são de ordem religiosa. Isso é importantíssimo considerar. Nesse caso, o totemismo é fundamentalmente um elemento distintivo de identidade de um gruo, exercendo a função de unidade e coesão como representação de uma “divindade física – patriarca, líder –, ou espiritual – entes da natureza. O homem depende integralmente dessa instrução religiosa como legisladora da sua sobrevivência espiritual e emocional. Por que a crença religiosa é necessária? Freud investigou: 
As ideias religiosas são proposições, enunciados acerca de fatos e circunstâncias da realidade externa (ou interna) que comunicam algo que o indivíduo não encontrou por conta própria, e que reivindicam que se creia nelas. Visto que informam sobre aquilo que mais nos importa e mais nos interessa na vida, elas gozam de alta consideração. Quem delas nada sabe é deveras ignorante; quem as incorporou aos seus conhecimentos pode se considerar muito enriquecido.
Entretanto, quando a religião também não é suficiente, outras crenças sobem ao pedestal, mesmo ilusórias e dessacralizadas: deuses, anjos, espíritos, astros, oráculos, pastores, cristais, mestres e também alienígenas. Se tais figuras trazem conforto e apoio espiritual ao homem, ele as acolhe e nega tudo o que contrarie seu pensamento ou de sua tribo, turma, grupo ou crença. Daí para o corpo-a-corpo, metafórico ou literal, basta uma faísca. Estamos falando de uma geração de mimados, infantis, acovardados, vítimas de uma sociedade desestruturada a caminho do desastre.

Essa vitimização é parte da “liturgia da exclusão” e produz retração, empobrecimento intelectivo, ausência de cognição lógica, esquiva das reflexões e da crítica, pressa nas respostas. Há um claro declínio cultural sistêmico patrocinado pela bolha epistêmica, pelo viés de confirmação, pela câmara de eco, pela ilusão de profundidade explicativa e pela sala de espelhos, tudo já discutido aqui. O homem está acuado em seu porão num estado anímico de desorientação e esquizofrenia. Esse não lugar no mundo e desbordamento da realidade aniquila a alteridade em seu sentido mais profundo. Você pode fugir da realidade, mas não pode se esconder dela. Dalrymple afirma que as fronteiras entre civilização e barbárie estão se desfazendo muito rapidamente. Estamos no rumo de uma civilização da barbárie.

Esse recolhimento do sujeito ao seu próprio útero, ao eu universo de convicções, se traduz no que ficou conhecido como servidão voluntária ou confiança perversa no carcereiro. Tal condição remete o ser à ambiguidade como recurso de preservação da vida, uma aceitação natural ainda que pareça paradoxal. Podemos substituir homem primitivo por imaturo que no fundo é a mesma coisa.

Ainda sobre ambiguidade, Wilfred Bion observa que nossa mente trabalha como um pêndulo em instâncias psíquicas distintas entre os estados neurótico e psicótico, entre aspectos infantis e adultos e entre elementos sadios e patológicos. Mais ambíguo impossível. Esse balanço caracteriza a mente multissensorial e multidimensional, lidando com as realidades interna e externa conforme o tipo predominante de funcionamento mental, ou seja, na dinâmica psíquica há uma atividade operando neuroticamente e outra psicoticamente. Freud nos dá as chaves definitivas para se entender o homem: 
Compreendemos como o homem primitivo tem necessidade de um deus como criador do universo, como chefe de seu clã, como protetor pessoal (...) Um homem dos dias posteriores comporta-se da mesma maneira. Também ele permanece infantil e tem necessidade de proteção, inclusive quando adulto; pensa que não pode passar sem apoio de seu deus (...) A questão da angústia constitui um ponto no qual convergem os mais diversos e importantes problemas e um enigma cuja solução irá projetar mais luz sobre toda nossa vida psíquica.
Retomando Kant, o homem só pode alçar à sua autonomia pelo esclarecimento, pela superação da minoridademas, inepto que é, está preferindo o caminho inverso ao falsear a história, ao depredar a cultura, dilapidar o saber, sepultar valores pétreos como  ética e responsabilidade, ao abolir o diálogo. Com certeza há de pagar um alto imposto pela sua insanidade. Para quem não se pauta pela razão, qualquer reza serve. Gosto quando Jung diz: “Quem olha para fora, sonha, quem olha para dentro desperta”. Imagine então olhar para si mesmo e despertar... de um pesadelo. É oque vem por aí no último capítulo da série.

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Émile Durckheim. As Formas Elementares da Vida Religiosa. Martins Fontes, 2003.
Claude Lévi-Strauss. A noção de estrutura e etnologia; Raça e  História; Totemismo hoje. Abril Cultural, 1980.
________. O Pensamento Selvagem. Papirus, 1989.
J. G. Frazer. O Ramo Dourado. Circulo do livro, 1978.
Lucien Lévy-Bruhl. A Mentalidade Primitiva. Paulus, 2017.
Jared Diamond. Colapso. Record, 2007.
Nicola Abbagnano. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes, 2007.
Bronislaw Malinovski, B, Magia, Ciência e Religião Edições 70, 1984.
Theodore Dalrymple. Nossa Cultura... ou o que restou dela.  É Realizações, 2015.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019


RAZÃO & DESRAZÃO
A mente é o seu próprio lugar,
e dentro de si pode fazer
do inferno um paraíso,
do paraíso um inferno.
Paraíso Perdido 

John Milton, 1667

Caminhando 100 anos mais, encontramos outro gigante da Filosofia Social, David Hume, um empirista radical, cético, que levou a investigação da mente às últimas consequências com seu ambicioso “Tratado da Natureza Humana”. Crítico de Descartes em relação ao “Eu”, que ele via como uma invenção, e também dos dogmas religiosos, concebia o ser não mais que um ajuntamento de sensações desordenadas, onde a razão era incapaz de orientá-lo nas decisões mais complexas, restando apenas as noções de prazer e dor como balizadores de sua conduta. Essa posição dura lhe custou dissabores, comprometendo sua carreira acadêmica. Porém, assim como outros grandes, seu pensamento ainda hoje é ponto de partida para profundas reflexões. Uma indagação sua é desconcertante e intrigante: Qual é o conteúdo da consciência que se oculta sob as palavras? É um desafio e tanto que poucos ousam responder.

O trabalho de Hume inspirou seu contemporâneo Kant. Reconhecidamente o mais importante nome da filosofia ocidental, Kant conseguiu reunir o racionalismo de Descartes ao empirismo de Hume, propondo um sistema que ficou conhecido como a “revolução copernicana na filosofia”, ao situar o indivíduo como parte integrante do conhecimento e não mais como uma tabula rasa.

Kant dizia que todo conhecimento tem origem nos sentidos, mas defende que o homem tem sim uma razão – a razão pura – que interpreta os dados recebidos. Ele tinha preocupação com a ética e a moral nas ações e relações humanas, e postulava que o mais nobre valor moral do caráter está em fazer o bem por dever, não por um desejo mesquinho. Vale dizer, Kant rompia também com a ideia medieval de que a razão, associada à fé, conduzia o espírito humano a níveis mais elevados. O filósofo prussiano separou a fé da razão, discordando de que a metafísica fosse uma ciência.

Com isso, a Teologia via suas bases sofrerem um abalo considerável, porquanto Kant demonstrava a fragilidade de uma metafísica especulativa incapaz de dar suporte às ações humanas. Na sua argumentação, ele propõe como base para a fé um senso moral inato ao homem – o imperativo categórico – fundamentado na “razão pura” independente dos sentidos. Para ele, o caráter pode ser tanto físico quanto moral; o primeiro define o homem como um ser sensível ou natural, enquanto o segundo é o que o distingue como ser racional dotado de liberdade, um ser autopoético.

As guerras que marcaram o século 20 provocaram o desencantamento do mundo em filósofos sensíveis como Hanna Arendt, Sartre e Lévinas, obrigando-os à revisão dos seus conceitos de maldade inerente ao homem. Havia um consenso de que o indivíduo era inteiramente responsável pelos seus atos, e que, através deles, construía seu caráter – sua essência. A fórmula discursiva do existencialismo ateu de Sartre advoga que a existência precede a essência e que por essa razão estamos condenados a ser livres; condenados porque nos criamos a nós próprios (a autopoiese), e livres porque, uma vez atirados ao mundo, tornamo-nos responsáveis pelos nossos atos, bons ou maus, não podendo jamais responsabilizar os outros  quaisquer outros, inclusive Deus  pelas consequências.

Não muito distante desse pensamento está Emmanuel Lévinas, para quem o homem é a própria alteridade, mas acredita ser seu pensamento absoluto e soberano em relação aos outros. Lévinas não limita sua observação somente aos crentes e religiosos, estendendo seu raciocínio a todos, indistintamente, já que cada um tem seu modo particular de pensar o mundo e seus princípios de fé. Ele entende que isso faz florescer o pensamento totalitário, uma aberração da inteligência que gera o sofrimento, a guerra e o fim da moral e da ética. O mistério da crueldade e da violência está ligado ao pensamento totalizante, que coloca o seu pequeno mundo de crenças como devendo ser o de todos.

A pensadora Hanna Arendt desenvolveu todo o seu discurso político-filosófico nos conceitos do mal e da violência com base nos paroxismos da experiência totalitária. No seu entender, a doutrina totalizante é mais opressora que a escravidão e a tirania, mais destruidora que a miséria econômica e o expansionismo territorial. Ao costurar o mal ao vazio reflexivo, ela propõe uma possível explicação para a violência do homem contemporâneo: ela se viabiliza na banalidade, na injustiça e nas práticas radicais de fúria contra minorias  imigrantes, mulheres, índios, negros, crianças, homossexuais, idosos, credos diferentes e até a natureza. Maldade e violência não é só agressão física, é misoginia, homofobia, pedofilia, desonestidade, truculência, estupidez, hipocrisia.

Traçando um paralelo entre o desenvolvimento da civilização e o amadurecimento libidinal do sujeito, Freud ressalta que quando se inicia um estágio civilizatório, deve-se renunciar à pressão dos instintos, mesmo que se pague um alto preço. A “besta selvagem” que são os impulsos de natureza “bárbara” precisa ser domesticada em benefício da preservação da sociedade. O processo de sublimação das pulsões  – motor da marcha civilizatória  exige sacrifício ao prazer imediato.

Tendo por parâmetro os impactos da guerra, Theodor Adorno vê na barbárie a falência da racionalidade, o que explica como foi possível se chegar ao extermínio absurdo do homem pelo homem  auge da bestialidade. Para ele, mundo abstrato, corpo-máquina e indiferença afetiva são algumas características próprias do adoecimento do contato, do desaparecimento do rosto, da crise da presença:
Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontram atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização – e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes  ao conceito de civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza.
Adorno não está só nessa avaliação áspera sobre o homem, a realidade, a sociedade, a civilização ou a própria humanidade. Você, que está acompanhando esta série, e tem lido ao longo de meses muitas abordagens no mesmo tom, deve ter percebido que o alerta vem soando há tempos  - 2.000 anos, pelo menos - e em todas as direções, mas a surdez é absoluta e a cegueira, contagiante. Sei que você dirá que, mesmo assim, sobrevivemos a tantas catástrofes. É verdade, mas não creio que nossos antepassados tivessem planejado este futuro (presente) para nós, e se estamos sentindo na carne os efeito desse não planejamento, e se temos (temos?) condições de fazer a coisa certa para os nossos filhos e netos, é melhor fazer agora, porque a missa dos excluídos vê crescer seu público. Que pode se tornar maioria. É o que teremos na próxima semana.

Nota: Sobre a edição passada, um assíduo leitor destacou uma frase e engatou uma pergunta. Considerei importante e preparei um texto a respeito, que será publicado no final da série, como um complemento. Peço que aguarde.

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Theodor Adorno, Max Horkheimer. Dialética do esclarecimento. Zahar, 1985.
David Hume. Tratado da Natureza Humana. Ed. Unesp, 2009. 
Emmanuel Lévinas. Entre Nós: Ensaios sobre a alteridade. Vozes, 2005.
Jean-Paulo Sartre. O Existencialismo é um Humanismo. Brasiliense, 1978.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

CIVILIZARBÁRIE-3

No século 5 da era cristã, Santo Agostinho foi um dos primeiros a delinear nossa verdadeira identidade, inquieto que era quando tratava de compreender a condição humana. Não apenas ele é um legítimo representante do espírito de uma época em que se discutia a relação entre fé e razão, como também seu pensamento influenciou fortemente toda uma corrente de filósofos e humanistas sobre a Questio Dei, sendo considerado aquele que simboliza o nascimento da Era Medieval, plantando as sementes filosóficas da civilização ocidental. Santo Agostinho estava em busca da verdade e da luz espiritual. Para ele, o homem é um ser degenerado, perturbado e pecador em sua essência sendo confrontado desde o nascimento com as coisas desse mundo, mundo que é matéria de expiação, sofrimento e dor como fontes de angústia e desespero:
Nesta lamentável inquietação dos espíritos decaídos, que, despidos da veste de tua luz, manifestam as próprias trevas, mostras claramente a grandeza de tua criatura racional; na busca da felicidade, ela só se sacia com tua grandeza, onde encontra repouso – pois que ela não pode bastar-se a si própria. Porque tu, Senhor, iluminarás nossas trevas. De ti vêm nossas vestes de luz, e nossas trevas serão como o sol do meio-dia.
Antes dele, Sócrates já andava às voltas com a investigação acerca do homem, e reconhecia que, nada sabendo sobre si mesmo, não poderia avaliar a questão em toda a sua profundidade. Heráclito (540-470 a.C.) propunha a mutabilidade constante do homem, o que dificultava conhecer a sua natureza, mas é com Platão que o homem é colocado no centro da Filosofia. Depois de Santo Agostinho, poucos se dedicaram a esmiuçar nossas entranhas pela mesma ótica por estarem sob as leis da Igreja e dos preceitos da fé cristã. A questão entre fé e razão só voltaria ao debate com Santo Tomás de Aquino mil anos depois.

No início do século 16, quem toma a palavra é Niccolò Machiavelli. Sua consagrada obra ainda é objeto de estudos e interpretações na Academia por ser um tratado ímpar sobre o Poder, o que ele faz do homem e o que este faz daquele. Ademais, seu discurso disseca sem hipocrisia, cinismo ou ingenuidade o mundo como ele é e o homem como ele é. Por isso mesmo, um autor central para se entender, sem ilusões, as engrenagens que movem o planeta. Para este filósofo e historiador florentino, a maneira pela qual o homem conduz a política é espelho de sua natureza violenta, perversa e traiçoeira, porque o Poder, acima de qualquer outra coisa, assim o demonstra. Mesmo se dizendo cristão, Machiavelli não se ilude com a religião nem com o homem, para quem, sempre que possível, agirá segundo as fraquezas de seu espírito – covardia, dissimulação, crueldade, falsidade. Definitivamente, não estamos bem na foto.

Machiavelli não era o único a pensar dessa maneira, mas morar em Florença, berço do Renascimento e centro culturalmente efervescente, colaborou muito para propagar suas ideias. Ao comentar sua obra, o filósofo Maurice Merleau-Ponty assevera que “O realismo de Maquiavel¹ desmonta concepções clássicas de um homem virtuoso, e isso alterará os modos de compreensão do poder”. Um dos aspectos fundamentais da política é a aparência do ser, conforme afirma o autor florentino:
A natureza dos homens faz com que eles se maravilhem com o que veem, mesmo quando enganados, e geralmente o são, pois os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, pois todos podem ver, mas poucos são os que sabem sentir. (...) O vulgo é levado pelas aparências e pelos resultados dos fatos consumados, e o mundo é constituído pelo vulgo.
No século seguinte é o trabalho de Thomas Hobbes que sobressai nas discussões sobre o estado de  natureza, cuja  obra, Leviatã, torna-se um marco. Também ele segue a linha dos autores mencionados ao afirmar que o homem é “utilitarista, egoísta e interesseiro”, com predisposição para a explosão – o ser em sua “natureza bruta”,  sem lapidações sociais; cruel, possessivo, beligerante, age a ponto de matar em defesa de sua fé, muitas vezes com requintes de crueldade e sadismo.

O princípio do prazer faz o indivíduo desobedecer questões éticas e morais para atingir o pleno gozo de seus objetivos. Fato é que a busca do prazer está em rota de colisão com a realidade porque, quanto mais esse desejo aflora, mais diminui a capacidade de pensar, ponderar, deliberar. Para o homem, segundo Hobbes, pessoas e coisas têm o mesmo valor como meros instrumentos manipuláveis em benefício próprio. Jean-Jacques Rousseau dirá isso de forma diferente e com maior ardência ao comparar pessoas a bovinos: “Eis assim a espécie humana dividida em rebanhos de gado, cada qual com seu chefe a guardá-la a fim de a devorar”.

Devo ressaltar que foram levados em conta o ambiente histórico de cada autor, que certamente os influenciou na construção das ideias. Ocorre que tais obras são tão  densas, reformadoras  e inspiradoras, que se tornaram,  de certo modo,  fundadoras das Ciências Políticas e Sociais da nascente Era Moderna. A leitura hobbesiana nos põe a pensar que Leviatã, em última análise, somos nós e não apenas o Estado. Se o inferno são os outros, como dizia Sartre, então os outros somos nós também. O inferno somos todos, construindo uma civilização que, em algum momento, não se diferenciará mais da barbárie, será a civilizarbárie. Na próxima semana veremos a distância entre os homens de razão e a desrazão dos homens.


¹ Como critério pessoal, tenho adotado, para autores estrangeiros, a grafia do nome próprio no idioma natal,; no caso de citação ou obra publicada, mantenho como tiver sido empregado.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

QUEM HABITA A SUA PELE? - 2

Quando traçamos a linha do tempo da humanidade, verificamos que todas as tribos, clãs, sociedades e civilizações desenvolveram sua ciência, sua cultura e sua tecnologia próprias, estruturalmente semelhantes ao que se observa no mundo atual. A diferença está em nossa cultura revestida por uma finíssima pele de “modernidade”, que oculta a face primal instintiva de sobrevivência, dominação, força e medo, este como base das pulsões religiosas impregnadas na experiência humana.

Falar em eclipse da razão, dissensão a alteridade e autoverdade é insuficiente para abarcar toda a matéria, por isso é preciso tocar em alguns pontos capitais, ainda que brevemente. As grandes narrativas do passado deram lugar às micro narrativas, isto é, abandonaram-se os projetos de futuro, o ideário social e o comprometimento coletivo em nome de um imediatismo obsessivo e uma nova proposta individual de verdade – a autoverdade: O que se diz, o que se faz, defende e acredita é o texto final para promover a adesão grupal. Disso resulta a dissensão da alteridade, ou seja, o outro só me é útil se e enquanto alinhado com meus propósitos, se não, ignoro, desprezo ou elimino, metafórica ou literalmente.

O sujeito só ouve a si e quer que só a sua voz seja ouvida. Solipsismo compartilhado, lógica burra, monólogo de surdos. Temos aí a diluição dos princípios culturais, éticos e morais, a vida tratada como coisa, clivagem psíquica, distrato social, ruptura dos afetos, colapso da base educacional, eclipse da razão. Trata-se da retomada do estado de natureza do animal humano, de barbárie, enfim. Todo processo civilizatório é também  um processo de barbárie, assinala Walter Benjamin. Pergunto o inverso: Toda barbárie é também um processo de incivilidade? Claro que sim. Se o processo civilizatório é contínuo, a barbárie também é, portanto inevitável, e hoje muito mais midiática, muito mais expositiva e estarrecedora do que jamais foi, ainda que em contextos diferentes. Precisamos entender melhor seu pensamento, bastante atual.

Benjamin (1892-1940) foi um influente pensador alemão do início do século 20 com olhar bem pessimista sobre o futuro, com base nos aspectos políticos, históricos, econômicos e culturais da sociedade. Para ele, é preciso cortar o pavio antes que a faísca atinja a dinamite. No seu entender, a revolução tecnológica na virada do século 19 para o 20 modificou o papel da cultura de massa, dos meios de comunicação e da produção cultural, influenciando na percepção e na assimilação do público, gerando novas formas de mobilização social e contestação política. Percebeu a semelhança com a virada do 20 para o 21? Sua análise estava correta e continua valendo.

Segundo esse filósofo e ensaísta alemão, a tecnologia desenfreada e invasiva substitui as relações interpessoais, fazendo com que o sujeito perca a sensibilidade da experiência direta, autêntica, original. Esse declínio perceptiva torna-o incapaz de apreender as mudanças do ambiente, levando-o a um estado de nudez interior e impedimento da capacidade de comunicação. Tal pobreza da experiência tem consequências. Seu pensamento está aqui resumido ao máximo, pelas razões que você já sabe: 
Ele deseja libertar-se de toda experiência, aspira a um mundo em que possa assentar tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa resultar disso (...) Sim, é preferível confessar que essa pobreza não é mais privada, mas de toda a humanidade. Surge, assim, uma nova barbárie. 
Que estamos envolvidos por uma imagosfera asfixiante também não há nenhuma dúvida; a imagem tornou-se mais importante que o real, em qualquer circunstância. Vivemos um jogo de aparências onde imperam mentira, hipocrisia, falsidade, fake news, turbinadas pelas redes sociais em todas as plataformas numa multiconectividade avassaladora, um lugar simbólico de não pertencimento. Vários estudos apontam os danos dessa imersão desordenada no universo virtual mais real que o real: Desconstrução e reconstrução identitária, narcisismo compulsivo, fuga por inadaptação à realidade, hipervalorização progressiva do repertório imaginário, autocomiseração, imaturidade, covardia. Covardia moral neurótica, como diz Freud. Essa radiografia pode parecer, num primeiro olhar, devastadora de nossas melhores virtudes, quando é, de fato, retrato fiel, porque o exame crítico é e deve ser inelutavelmente rigoroso, imune a paixões, se quiser desvelar a face humana sem maquiagem. A pergunta-chave desta série, Quem habita a sua pele?”, traz uma resposta irrefutavelmente assustadora: Há uma besta-fera enjaulada faminta por um pedaço de carne, que não a sua.

Ainda dentro do ambiente digital, a celeridade e elasticidade de informação geralmente sem filtro atropela a reflexão e a interpretação judiciosa dos fatos; Mark Bauerlein chama de “gratificação instantânea”, resultando na perda de contexto e historicidade, na atrofia de ideias e aporte contínuo de conflitos. Seu estudo é um recorte bastante sintonizado com os de países como Holanda, Dinamarca, China, Portugal, Espanha e Inglaterra, por exemplo, num total de 14 levantamentos independentes. É quase um consenso global.

Uma das conclusões apresentada nestes trabalhos é que a juventude de maneira geral, mas em especial a americana, perdeu totalmente o interesse pelos livros, pela literatura e pelo saber amplo; os estudos indicam ainda que esse decréscimo de inteligência começou a ser demarcado a partir dos últimos 40 anos, crescendo no início deste século, período em que a internet conquistou seu espaço. Não é mera coincidência. A correlação é inegável, segundo o consenso dos autores, que encontra eco nos trabalhos da neurocientista britânica Susan Greenfield, da Oxford University, para quem o admirável mundo novo digital está alterando significativamente e de forma inédita o nosso cérebro. Por óbvio, nossas atitudes, por óbvio, nossa auto-imagem. Aonde tudo isso nos leva? Semana que vem eu conto. Não perca o fio.

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BAUERLEIN, M. The Dumbest GenerationTarcher/Penguin, 2017.
GRENFIELD, S. The Private Life of the Brain. Penguim, 2002.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

PÁSSAROS SOTURNOS

Por que subitamente essa inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam,
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
dizem que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros, o que será de nós?
Ah, eles eram uma solução . 
À espera dos bárbaros
Konstantinos Kaváfis (1863-1933)



Nota importante: Um leitor fez uma observação sobre a edição passada que cabe comentar. Assim como é mínima a distância entre fanatismo e loucura, é tênue também a linha que divide o fanatismo da farsa, da vigarice, da picaretagem, como ele disse. Tem razão, mas preferi não entrar nesse tópico, assim como não falar do fanático “da moda”, o sujeito que entra com volúpia na temática do momento sem ter noção do que está fazendo ali, pelas razões mais diversas, principalmente “aparecer” nas mídias, sentir-se no mundo já que, de outra forma, seria olimpicamente ignorado. Esse é o narcisismo extremado abrindo passagem a pontapés, literalmente. Pauta a caminho.


•••

Nas últimas três edições tratei do fanatismo em suas várias facetas, e o que você lerá agora e nas próximas semanas analisa a advertência feita por Morin – o temor da barbárie através dos seus operadores: dominação, conquista, fanatismo e intolerância. A literatura é farta, vem de longa data e aumenta à medida que se observam estas indesejáveis aves de maus presságios pairando ameaçadoramente sobre nós. Algumas já pousaram. Com elas, as distopias saem da ficção para o mundo real. O outro se torna um predador camaleônico e móvel que nos assombra a cada manhã. Não precisa ser um outro qualquer, desconhecido e distante, pode ser qualquer um – vizinho, porteiro, passageiro ao lado, amiga, policial, namorado, professor... A barbárie é a extrapolação do fanatismo, a irrupção explosiva e sangrenta da natureza humana crua.

Como você percebeu, vamos desviar do tema habitual porque trata-se de uma reflexão fundamental para se compreender um pouco melhor o momento que vivemos. Vamos falar do eclipse da razão, da dissensão da alteridade e autoverdade como versão contemporânea do estado de natureza. Como sempre, complexidade será a tônica. Recomendo enfaticamente que não disperse nem interrompa a leitura.

Pretendo mostrar da maneira mais clara possível que diversos fatores entrelaçados contribuem para criar um quadro de permanente tensão social, com contornos de uma barbárie em trânsito, através do ressurgimento do estado de natureza do homem. Quero mostrar também que os princípios religiosos estão sendo subvertidos para outras formas de crenças pessoais dessacralizadas, que assumem a função de guias morais individuais e coletivos com forte tônus extremista. A argumentação se constrói e se legitima pela literatura que vai da Antiguidade aos autores do nosso tempo, pela vivência pessoal e exame atento do cotidiano, local e global, produzindo uma crítica dura e sólida com inflexões densas acerca da “natureza bruta do animal humano”. 

O primeiro ponto é que essa “natureza bruta” se mantém viva e inalterada apesar do polimento cultural, social e científico que se produziu na espécie ao longo da história. Este estado de natureza o impede de ver a realidade como ela é, gerando, em decorrência, uma cizânia psíquica entre o real e o imaginário, entre verdade e ficção – vetores inconciliáveis do conflito existencial, da perda identitária e das pulsões de morte. O segundo [ponto] é mostrar que a única solução possível estaria na religião, sendo, ela mesma, porém, também uma ilusão. E, por fim, apontar as possíveis causas e os descaminhos pelos quais o homem decidiu trilhar. No cerne dessa experiência caótica os valores essenciais para a integridade constitutiva do ser estão lentamente se extinguindo: ética e moral. Então não há saída para essa tragédia anunciada? Saída há, mas não creio que será posta em prática, porque nunca foi.

Não há dúvidas de que o mundo passa por um dos períodos mais turbulentos já vividos desde a metade do século 20, com transformações profundas sem precedentes em velocidade e alcance. Política, economia, religião, ciência, arte, educação, cultura, justiça, esporte, tecnologia, relações humanas, comportamento, nada escapa ao abraço ardiloso dessa Quimera voraz insaciável. Pensadores, eruditos, filósofos, cientistas sociais, todos aglutinam o “mal-estar da civilização” de  Freud com a “sociedade do espetáculo” de Debord e os “tempos líquidos” de Bauman para compor um quadro amplo de investigação. Se a soma destes rótulos nos dá uma pista, então estamos dentro de uma sociedade emocional e intelectualmente desequilibrada, desajustada, doente, castrada dos ideais e utopias que um dia sonhou. Se antes o futuro era um farol iluminador, o presente se mostra um balé de sombras fugidias no fundo de uma nova caverna platônica.

Conhecemos (mesmo?) todos os efeitos colaterais desse estado de tensão em que nos metemos, e entender as causas exige um saber multiplicado e multiplicador. Apesar de vivermos uma notável era de avanço científico-tecnológico, com promessas de um futuro rico, temos uma contradição interna insolúvel: Continuamos visceralmente presos a uma mentalidade primitiva mítico-religiosa e ao pensamento mágico/místico ancestral de veneração ao sobrenatural. Não se trata da mentalidade primitiva dada pela psicologia de W. Bion, nem do pensamento selvagem trazido pela por Lévi-Strauss, mas da natureza humana inscrita nas Confissões de Santo Agostinho, nas sociologias d’O Príncipe de Machiavelli e nas páginas de Hobbes, Hume, Kant e Sartre, entre outros notáveis. Para entendê-los, ou ao menos absorver parte de suas ideias, sua mente precisa estar livre dos ranços e vícios com que a cultura popular nos condiciona permanentemente.


Para fechar esta primeira parte necessariamente introdutória e abrir caminho para as próximas, pense sobre o poema de Kaváfis. Se o outro pode tudo, eu também não posso? Sem ele, sei quem sou? Se nossas diferenças são tão iguais, quem é o bárbaro, aquele que deve ser excluído ou aquele que o quer excluir? E, para constar, bárbaro, do latim brabus, do grego bárbaros: Na Grécia antiga, bárbaro era o não grego, ou não helênico: o estrangeiro, estranho, de fora, que não fala a mesma língua, logo, o incivilizado, inculto, “invasor” não no sentido de conquistador, mas daquele que “invade nossa vida e nossos costumes”. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

FANATISMO DE PEDRA

Que o fanatismo fossiliza o ser nós já vimos, e também que pode ser diagnosticado como doença, e que em ambos os casos só o conhecimento “cura”. Pergunto: O fanático quer ser “curado”? Trocaria a pobre ração pelo banquete de saberes? Se disporia a remover o cabresto encilhado e explorar outras possibilidades? Pouco provável, o ele já foi contaminado pelo vírus do radicalismo. O fanatismo, sabemos também  – e como –, cega a razão, bloqueia o diálogo, dificulta as relações, desagrupa o sujeito da sociedade para reagrupá-lo em um microcosmo identitário. Há uma ínfima distância entre o fanatismo doente e a loucura, a psicopatia. É uma questão de tempo, não de espaço. Também sabemos em quais terrenos o fanatismo se propaga com força mortal: religião, política e esporte, e “mortal” não é figura de linguagem, a história tem nos mostrado isso com todas as dores, cores e odores. O fanatismo não tem freios para potencializar o irracional, como alerta o neurocientista Oliver Sacks:
Uma atmosfera profundamente supersticiosa e delusória também pode favorecer alucinações geradas por estados emocionais extremos, e essas alucinações podem afetar comunidades inteiras. (...) Temos descrições pormenorizadas de alucinações características desses dois estados — alucinações que, em alguns casos, assumiram proporções epidêmicas e foram atribuídas às artes do demônio ou seus lacaios, mas que hoje podemos interpretar como efeitos de sugestão ou até de tortura em sociedades nas quais a religião descambou para o fanatismo.  
Kant também se debruçou sobre a questão do fanatismo e sua proximidade com a loucura. Há um desvario mo modo de compreender certas ideias que produzem tais discursos - o metafísico, o místico, o fanático. Neles está o “desvairado” que se vale de conceitos sem qualquer significado efetivo que dizem respeito a objetos imaginários como se fossem reais. No primeiro caso está o sujeito inventivo com grande produção de fantasia graças à sua imaginação, mas de boa índole e dotes morais preservados. Já o fanatiker eleva aquele entusiasmo ao paroxismo com alto risco de perigo iminente. O o filósofo alemão procura explicar tal fato como um fenômeno da imaginação, uma perturbação no cérebro ou no sistema nervoso. Ele entende que tal explicação só pode se dar através do entendimento de seu significado nos seus diferentes contextos –religioso, científico, ético, etc., ou em termos médico-psiquiátricos como uma disfunção da própria natureza humana.
O problema da limitação do conhecimento ao campo dos objetos, segundo Kant, tem a função de evitar a loucura do pensamento. A razão, dentro do seu âmbito de conhecimento, muitas vezes se vê atormentada pelas questões que não pode resolver, explicar ou evitar impostas pela sua natureza, porque ultrapassam as suas possibilidades. Desse modo, adota obscuridades, contradições, erros e devaneios sem poder discerni-los, justamente por estarem além da experiência objetiva. O palco dessas incertezas chama-se metafísicapresunção da razão ou opinião ilusóriaKant assevera que só a crítica pode cortar pela raiz o fanatismo e a superstição, que se tornam nocivos e perigosos. O processo crítico tem a função terapêutica de expurgar os dogmatismos como desvarios ou discursos de loucura. Só lembrando que crítica, do grego kitikós , é cortar, separar, analisar, decidir, julgar..
Pelo olhar psicanalítico, todo fanatismo tem estreita relação com a fuga da realidade e precede à loucura se o fanático abdicar da sua inteligência, da sua moral e da sua ética. O problema da crença não é a crença em si, mas a inquestionabilidade do seu método, e o seu método está na “certeza” promulgada pelo discurso monológico repetitivo e doutrinário, como uma forma de reação recalcada no inconsciente.
Mesmo reconhecido como um distúrbio psíquico, o fanatismo tem o seu próprio sistema lógico, e quando esse sistema apresenta “mau funcionamento”, é sintoma que a Psiquiatria diagnosticará como loucura ou psicose. Freud, contudo, diz que aquilo que o psicótico paranoico vivencia na própria pele, o parafrênico o faz na pele do outro. Com isso, somos levados a pensar que o fanatismo está mais para a parafrenia (demência precoce, esquizofrenia) que para a paranoia:
Na produção de uma fantasia de desejos e alucinações, ele apresenta traços parafrênicos, enquanto que, na causa ativadora, no emprego do mecanismo da projeção, no desfecho, exibe um caráter paranoide. A análise das parafrenias, como sabemos, tornou necessária a inserção de um estádio de narcisismo, durante o qual a escolha de um objeto já se realizou, mas esse objeto coincide com o próprio ego do indivíduo.
Pudemos, assim, apresentar o fanatismo em suas três instâncias: como um cárcere mental que recolhe o sujeito à aridez do lugar, dando-lhe apenas uma fenda na parede por onde olhar a única paisagem de um mundo acanhado, circunscrito ao alcance de sua já estreia visão. A seguir, a infecção do estado psíquico com a invasão das quimeras e fantasias do imaginário que o fazem perder o contato com a realidade, ou seja, nem fenda mais existe. Por fim, o estágio final da sua ascensão delirante, irracional e ilusória na “certeza de uma missão divina” tutelada por entidades metafísicas para além da compreensão do homem, exceto a dele e de seus seguidores. É quando entramos no sombrio domínio das perturbações mentais – paranoia, loucura, parafrenia, esquizoidia e outras.
Penso que ficou clara a heteronomia do sujeito, isto é, sua completa subserviência a um poder externo obscuro, a incapacidade de reflexão crítica e desobediência a regras éticas, que resultam irresponsabilidade e conduta amoral. É da natureza humana: a razão inclina-se intrínseca e perigosamente para um estado próximo ao delírio, construindo doutrinas metafísicas e autoritárias de ordem delirante, sem sustentação racional e objetiva. Quanto mais o fanatizado se abastece de uma pretensa divindade, mais esvaziado de si mesmo. Quanto mais se curva ao sacerdote², menos ereto anda. Quanto mais pensa ser o centro do universo, mais à margem vive. Quanto mais crê elevar-se aos céus, mais próximo está do malebouge. Quanto mais poder julga possuir, mais esquálido é. Quanto mais se supõe na transcendência, mais doente se torna.
O tema fanatismo acaba aqui, porém, à medida que se agrava resulta consequências nefastas, projetando um rumo civilizatório de espectro assustador. O fanatismo é uma caldeira de alta pressão, passou do ponto, bum! O que virá nas próximas edições não se trata em absoluto de um argumentum ad metum – argumento do medo, “balada do terror” ou a sinfonia do apocalipse. Trata-se sim de um incisivo e cirúrgico exame crítico da realidade feito pelos mais seminais pensadores. Assunto gravíssimo, para gente adulta e corajosa, não chorona, e, de certa forma, também um alerta para as gerações que estão a caminho. 
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¹ ParafreniaTermo que designa certas psicoses crônicas disruptivas como a paranoia, que implica o empobrecimento intelectual de evolução para a demência. Aproxima-se da esquizofrenia pelas construções delirantes com bases paranoicas. É uma expressão em desuso, restrita à Psiquiatria clássica. Freud acabou substituindo o termo pelas concepções de esquizofrenia.
² É significativo verificar que a função original do sacerdote era “oferecer as vítimas em sacrifício às divindades”! Do latim sacer – sagrado e dos, dotis – dotes, bens, doação, entrega.
Oliver Sacks: A Mente Assombrada Cia. das Letras. 2013.
Vários. Revista Filosófica de Coimbra. v. 19, nº 37, 2010.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

FANATISMO DOENTE

Mais uma vez, o post anterior também repercutiu, e não poderia ser diferente porque o problema é mais sério do que aparenta, e os leitores perceberam isso. O psiquiatra Fernando Neves, Professor do Departamento de Saúde Mental da Universidade Federal de Minas Gerais afirma que, de maneira geral, quando alguém defende fervorosamente um único argumento para sua crença, ele não admite outros pontos de vista, o que pode se tornar um hábito de vida a partir dos fundamentos que ela mesma cria, que nem fundamentos são. Para a psicóloga Ana Maria Franqueira, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, o sentimento exacerbado de fanatismo – que pode inclusive desconsiderar a própria família e amigos – é um distúrbio psicológico diagnosticado quando o sujeito age de acordo apenas com a emoção, em detrimento da razão.

O fanático não percebe que passou dos limites devido o composto irracional que prevalece: o radicalismo, como sinônimo de extremismo. Ainda de acordo com a especialista, esse é o traço psicológico que se desenvolve ao longo do tempo, possivelmente ligado a baixa autoestima, a ausência de identidade, imaturidade, insegurança, desequilíbrio emocional e solidão, o que o faz procurar e unir-se a grupos de mesma ideologia onde se fortalecem mutuamente.

Os estudos de  psicopatologia sobre o fanatismo crescem em escala planetária. A falta de uma crença raciocinada e da razão – maturidade psicológica – contribui para a instabilidade emocional e os estados psicopatológicos do fanatismo, que multiplicam-se fora de controle. O fanatismo traz em si um aspecto narcísico camuflado no ego, dificultando a convivência, a comunicação e as relações sociais. É importante ressaltar outro fator fundamental – a sedução – que, assim como toda crença, tem  sua matéria-prima na irracionalidade. A sedução tem um componente “mágico” que engana através de um jogo de aparências; do latim seductio, seducere  separar, por à parte, desviar – que preenche um vazio imediato e constrói, pelo imaginário, a sensação íntima de pertencimento no mundo. Separar o quê? Freud explica mais adiante.

A narrativa do fanatismo é unidirecional, dogmática, intolerante, agressiva, obsessiva, doutrinária e rígida, sobressaindo pelo sectarismo irredutível. O subterrâneo desse comportamento não esconde o substrato religioso impregnado no imaginário – a “doença religiosa”, viciante, disruptiva e destrutiva pelo excesso. Nesse sentido, voltando ao ponto que originou esta série, não exagerei ao dizer que aquele indivíduo pode, em algum momento, julgar-se  “eleito” pelos deuses astronautas com a missão de esclarecer a humanidade. Não seria o primeiro, não faltam elementos para isso e, conhecendo o histórico, bem provável acontecer. E a pergunta segue em aberto: É caso para tratamento psiquiátrico ou ação penal?

Para alguns especialistas, a função das experiências místicas  – e o contato/abdução é uma delas – é ajudar no exercício de uma construção identitária e de um estímulo existencial. Quaisquer que sejam os dogmas que orbitam na vida do indivíduo, são como um motor que o impulsiona a persistir em sua caminhada, e a gerenciar questões psicológicas através de liturgias cerimoniaisÉ o que parece ser no caso em análise construção identitária – ufólogo; liturgias – palestras, artigos, fóruns; protagonismo – contatos, sequestros, mensagens, missão”.

Atenção agora. De acordo com Freud, a psicose (o fanatismo é um desequilíbrio psíquico) encontra um modo de ser trabalhada através de instrumentos culturais como religião e arte. Esse movimento tem o objetivo de escapar de uma realidade insatisfatória em busca de um mundo mais agradável através da fantasia, podendo, assim, evitar entrar em contato com os processos psíquicos que causam sofrimento, e agir sobre práticas culturais aceitáveis. As questões sobre superstição e crença e suas funções psíquicas são recorrentes nos estudos freudianos e junguianos, entre outros. A expressão inaugurada por Freud  – sublimação – remete à ideia de que uma atividade socialmente admissível [ufologia] possibilita ao sujeito [ufólogo] externar o seu âmago, caracterizando-o em ações culturais como música, pintura, arte, literatura, poesia, ou pela devoção a figuras sobrenaturais (sublinhados e colchetes meus). 

O deslocamento dessa instância psíquica, normalmente inconsciente, é exposto através desse mecanismo que ajuda no processo de administração desses conteúdos. Embora Freud não cite, não parece fora de contexto incluir as liturgias referidas como parte da a atividade demiúrgica de certos atores.

A superstição, a crença, a fantasia, o delírio e o fanatismo podem ter ligação com o conceito de doença, quando analisadas pela ótica de uma determinada categoria. Como o sujeito organiza sua agenda a partir de atos relacionados aos dogmas que segue, denota certa estranheza quando convive em uma sociedade mais heterogênea. Sugiro acessar a série postada neste blog que traz os capítulos 5 e 6 da obra “O Futuro de uma Ilusão”, de Freud: Corpo de ilusõesO Espírito, a psiqueCredo quia absurdumAlém da alma;  Em nome do Pai.

Jung ressalta que, “Devido ao seu parentesco com as coisas físicas, os arquétipos quase sempre se apresentam em forma de projeções, e quando estas são inconscientes, manifestam-se nas pessoas com quem se convive, subestimando ou sobre-estimando-as, provocando desentendimentos, discórdias, fanatismos e loucuras de todo tipo”. Autores representativos como MacKay e Le Bon, no século 19, categorizaram o “comportamento de manada” das massas como focos de frustração e loucura em larga escala. O fanatismo é a força ilusória dos fracos, e o único contra-ataque possível está no conhecimento. na formação e informação, no estudo, ponderação e senso crítico. Edgar Morin demonstra grande preocupação, que é nossa também: “A primeira forma de barbárie que nos ameaça é a da doutrinação, da conquista, do fanatismo e da intolerância”. Não é apenas uma opinião, é uma advertência. Estamos mais próximos disso do que se pensa. Falaremos disso em breve.

Como adendo, cabe mencionar que o fanático, nesse estágio de idolatria doentia pelo seu objeto de fascinação, fica vulnerável à ação de outros agentes externos de dependência como fármacos, drogas e álcool, por exemplo. Esses agentes produzem um efeito narcotizante que afeta o sistema nervoso central, inibe processos cognitivos lógicos, reforça o individualismo. Demais sintomas são alucinações, confusão espaço-temporal, estados delirantes e outros transtornos (psicose exotóxica); adicionalmente, encurtam a distância entre o sujeito e sua crença  o “ente sagrado”, amplificando os níveis de confiança, plenitude e prazer por essa pseudo proximidade, aliviando tensões e ansiedades, fazendo-o esquecer problemas, medos, frustrações e responsabilidades da vida prática, ainda que temporariamente por serem meros paliativos.

Na próxima e última parte da série, visitaremos o fanatismo fora dos padrões sociais aceitáveis em condutas que agridem não só a ética como põem em risco a integridade física dos cidadãos e a do próprio fanático. Neste ponto, a análise deixa de ser dos âmbitos da medicina, da antropologia e da sociologia para ser jurídica e criminal. O fanático passa a ser um perigo potencial para si e para a sociedade.