Obras

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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

SINAPSES DIGITAIS

Sinapses digitais? Sim, não é teoria delirante muito menos ficção, é pesquisa científica de quase uma década que corre o mundo e começa a dar os primeiros resultados. Trata-se de um neologismo que procura explicar o que está acontecendo com nosso cérebro a partir das interações com o universo digital. Sim, sua massa cinzenta está mudando e você nem percebe. E isso é bom ou ruim? Depende de como se olha a questão. De saída, é claro que os benefícios da tecnologia digital são extraordinários, promovendo a difusão do saber a patamares inimagináveis. Porém, no outro prato dessa balança, há aspectos relacionados diretamente ao uso desse instrumento que têm um peso considerável na construção do conhecimento. É o que contém esse prato que nos interessa, baseado nos estudos em curso, na literatura que crescente, nos debates, fóruns e na justa preocupação dos especialistas.

A dinâmica da tecnologia digital está assentada na velocidade da resposta de dados, na capilaridade e volume de informação, que provoca o estrangulamento dela mesma como resultado da produção irrefreável de conteúdo ausente de filtros e critérios. A primeira constatação empírica que se tem é que o sujeito perde a capacidade de apreensão total desse conteúdo, atenção fragmentada e dispersa, desconexão seletiva da realidade, rejeição à leitura de textos mais complexos e, principalmente, incapacidade de reflexão profunda e prolongada.

O que preocupa de fato vem agora. Você leu aqui que está havendo um emburrecimento generalizado, que jovens estão desprezando a literatura de conteúdo e que a capacidade de pensar está esvaziando em todos os estratos, dado que se verifica desde os anos 1980 com crescimento nas últimas duas décadas, coincidindo com a consolidação da internet. Os trabalhos mostram que há uma nova  geração de crianças incapazes de pensar por si próprias, e mais que isso, o ingresso excessivo mo mundo virtual pelos jovens e adultos altera a química cerebral, fazendo com que haja uma regressão cognitiva e uma infantilização comportamental. O cérebro é extremamente sensível ao ambiente, reagindo, modificando e ajustando-se a ele continuamente, diz a neurocientista Susan Greenfield da Oxford University. Sua colega neurocientista, a americana Maryanne Wolf, afirma que As pessoas estão percebendo que algo nelas está mudando, que é o seu poder de leitura”. 

Para Maryanne, uma das razões para essa mudança está no uso das telas - celulares, tablets, e-books - em tempo quase integral, cirando novos hábitos no processamento das informações que lemos. A leitura de múltiplos textos em tela no lugar da página impressa faz com que “passemos os olhos” muito superficialmente, esfacelando nossa capacidade de entender ou fazer uma análise crítica de argumentos mais complexos, ou ainda de estabelecer empatia com pontos de cista contrários. Tudo isso se reflete, segundo a autora, na performance profissional, na vida social, nas escolhas que fazemos o tempo todo. Impacta, também, na comunicação, no patrimônio cognitivo, na percepção da sutilezas linguísticas, na construção de simbolismos, na captura das estrelinhas e na elaboração de pensamentos originais - os insights.

A sua (dela) especialidade são os processos cognitivos e letramento, e ela é taxativa ao afirmar que nosso cérebro não é programado para interpretar letras e números, um aprendizado que se estruturou ao longo do tempo, cerca de 6.000 anos atrás, ao contrário da visão e da linguagem oral. Cada leitura, sem exceção, requer seu tempo específico de absorção e entendimento. Uma frase, um parágrafo, uma página, um capítulo, um livro, todos pedem atenção, reflexão e compreensão integradas. Quanto maior o texto , menor o tempo de compreensão profunda, daí os tweets serem a ferramenta mais usada no mundo da comunicação coletiva. A preocupação  da autora é fundamentalmente com as crianças, os novos leitores, os leitores digitais. Que tipo de leitores estamos formando? Se perdermos gradualmente a capacidade de examinar como pensamos, perdemos também a de examinar serenamente o que pensam aqueles que nos governam”, alerta Maryanne.

Um elemento importante detectado pelas pesquisas é a diminuição na capacidade de memória, desde os dados mais simples como telefones, datas e nomes, aos mais complexos. A comunicação digital provocou um empobrecimento da redação, do vocabulário, da leitura e da interpretação de textos, logo, da compreensão da realidade. O virtual, certo ou errado, assumiu o papel central das experiências reais, do entendimento do mundo. A informação multiplicada se sobrepõe à reflexão, a imagem à palavra, o que não é ao que é, o impessoal ao presencial. O bônus” da individualidade tem o ônus do isolamento. A contradição: o surgimento de grupos ou tribos dos igualmente isolados. 

A combinação individualismo-solidão implica combustão espontânea: estou só e preciso ser visto. Como um náufrago, lanço mensagens engarrafadas na esperança de ser lido, ouvido e achado (amado?).  A cacofonia babélica é ensurdecedora. Se o sujeito passa o tempo todo ocupado em exibir-se para seu público-alvo imaginário, é razoável supor que seu cérebro esteja estacionado na mesma proporção. A impaciência para se obter o máximo de informação desmantela a leitura crítica e consequentemente de se chegar ao conhecimento efetivo. Maryanne novamente: Deixamos de estar profundamente engajados no que estamos fazendo, o que torna mais improvável que sejamos transportados para um entendimento real dos sentimentos e pensamentos do outro”.

E o que afinal sinapses têm a ver com aprendizado? Aprender é uma função complexa que implica modificações neurológicas celulares e eletroquímicas. A formação de uma sinapse está intimamente ligada à capacidade de aprendizagem e na interação com o lugar, pois as estruturas do sistema nervoso processam as informações criando, fortalecendo ou enfraquecendo as sinapses. Treino, memorização e constância de uma dada habilidade estimulam sinapses e aumentam a qualidade no processamento da ação. O contrário é igualmente válido, se uma habilidade é pouco explorado, a tendência será as sinapses perderem ritmo, desempenho e função até desaparecerem. Aí as s cavernas nos esperam de volta.




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Maryanne Wolf, O Cérebro no Mundo Digital. Contexto, 2019.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020


À PROCURA DE UM ROSTO

Junte o que dizem Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo, Theodore Dalrymple em Podres de Mimados, Gilles Lipovetsky em A Era do Vazio e Jean Baudrillard em A Ilusão Vital e O Paroxista Indiferente, e, de quebra, o “mundo líquido” de Bauman, só para ficar nos mais contemporâneos, e você terá a exata noção do que é uma geração de gente ressentida, egoísta, infantilizada, desregrada, insensível, desnorteada, desinformada e não pensante, verificável a qualquer tempo e lugar. O que sustenta esse corpo é o tripé formado pelo individualismo, narcisismo e exibicionismo midiático. O que se constata é que a sociedade atual se organiza através da lei da renovação acelerada, centrada na efemeridade e no apetite pela novidade,  tendo como signos a sedução, a indiferença e o consumismo, principalmente. Parece que estou sendo repetitivo em relação a posts anteriores, e estou mesmo.

Lipovetsky concebe o poder pela sedução manipulada pela informação, multiplicação e ampliação do leque de opções hedonistas à disposição do sujeito consumidor. A indiferença é constituinte da personalidade pós-moderna não pela falta, mas justamente pelo excesso de escolhas, determinado pela apatia e desapego do indivíduo. O  interesse de hoje amanhã não será. Desaparecem os vínculos com os valores morais e sociais tradicionais, a preocupação com a res publica – a coisa pública, a sociedade, o próximo. A deserção generalizada com a esfera coletiva abre espaço para o narcisismo despontar onde o ambiente privado passa s ser o centro, sem limites. 

Nessa sociedade metamórfica, o indivíduo está submerso em seu universo particular de subjetividades, representações e experiências, resultando um rearranjo nas relações entre pessoas, entre elas e o mundo e na visão de si mesmas. Para Debord, “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre sujeitos, mediada pela imagem”. Para Baudrillard, a imagem não passa de um simulacro. Outro ponto de consenso é a pós-modernidade trazendo um novo quadro de desigualdades e formas de dependência, fazendo surgir um personagem – o hiper narciso –, engajado muito mais em práticas grupais na busca de prazeres efêmeros como fuga da dor da solidão e da finitude.  

Debord condena esse espetáculo desmedido da imagem, a alienação e a massificação banal (encenação), enquanto a imagem hiper-real  – o virtual mais real que o real – de Baudrillard atesta a desrealização do mundo e o fim do “in-divíduo” – o não divisível. É aí que a imagem tem função gregária, gerando laços sociais e criando micro grupos, circunstanciais, transitórios, superficiais e convenientes, de pessoas com a mesma (des)identidade que vivem uma sucessão de instantes eternos assentados no prazer. Sendo a imagem um simulacro, uma ilusão, o que está lá já não está mais lá, é só um instante fugaz do passado enquadrado pelo presente.

Não estou mais falando de fanatismo e barbarismo, mas daquilo que pode ser a sua semente e seu nutriente. Estou falando do narcisismo extremado do sujeito que só quer – na verdade precisa –  aparecer, ser visto, filmado, fotografado, incensado, sair do anonimato e da total irrelevância pra um protagonismo infantil e banal. Quer ser celebridade, expor o que pensa ser seu rosto ou será solenemente ignorado, sucumbindo na solitária, pobre e falsa imagem de si. Estou falando do jovem que ameaça matar inocentes apenas para “fazer história na comunidade”, ciente que a mídia se encarregará de fazer repercutir o espetáculo da insanidade.

Estou falando da garota que expõe glúteos e outras anatomias com a “sensualidade” de um prostíbulo; estou falando do imbecil rancoroso que destila preconceito e hostiliza o outro com calúnias, leviandades, intolerância, crispação, ódio e impropérios gratuitos. Umberto Eco sangra a ferida ao dizer que a internet alçou o idiota da aldeia a porta-voz da verdade. Nelson Rodrigues, muito antes dele já dizia, cáustico, que a tragédia virá quando os imbecis se darem conta de que são maioria. A marcha dos irresponsáveis está em curso. Quando tudo é vaidade, o que sobra é silêncio.

Estou falando dos medíocres que, em nome de sua ideologia, arreganham os caninos, babam e mordem, incentivando ferocidade e baderna; estou falando dos celerados que desafiam gangues rivais para um suicida confronto de forças. Estou falando do sujeito que, nada tendo a dizer ou mostrar, exibe sua absoluta nulidade com opiniões vãs, taras, futilidades, obsessões e estupidez. O bem se manifesta sob uma fina camada de cultura, portanto, externo ao homem; o mal é matéria bruta visível, inerente ao homem. Qual face está lá, a higienizada das redes ou a nua, sem retoques? Dê uma espiadela no panorama do mundo e a resposta salta. 

O problema não está na rede, mas no uso que se faz dela, uma  criatura de um só corpo, múltiplos olhos e infinitas vozes. Uma vez investindo exclusivamente em si e em interesses pessoais, caem por terra as relações humanas, o afeto da presença, a empatia, o debate renovador e o diálogo produtivo. Nessa contrição do ser, a tendência é sentir-se cada vez mais só e vazio por não saber desprender-se de si. Por faltar-lhe um rosto, procura-o em vão nesse mar de falsos espelhos que é a sua tribo, um exército de clones entreolhando-se capturados no tempo. Eis aí o comportamento de manada tantas vezes citado aqui. Quanto mais o gueto cresce, mais o rosto desaparece. Quanto mais o sujeito se quer diferente, mais igual aos diferentes será; sendo sempre ele mesmo, será diferente por não encontrar outro igual. Então terá seu rosto.

domingo, 12 de janeiro de 2020

A INSUSTENTÁVL FRAQUE
A INSUSTENTÁVEL FRAQUEZA DO SER
Há um cansaço da inteligência abstrata,
e é o mais horroroso dos cansaços.
Não pesa como o cansaço do corpo,
nem inquieta como o cansaço do saber.
É um peso da consciência do mundo,
um não poder respirar da alma.
Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)


A trilogia sobre opiniões e crenças terminou, é certo, mas não poderia deixar de trazer, uma vez mais, em continuidade, a voz de Freud sobre a questão, de tão fundamental e necessária. Ele dissecou de tal forma as entranhas psíquicas do ser que seu repertório é imenso, e seu estudo sobre religião e sistema de crenças não envelhece nunca. Para ele, a religião não é detentora do monopólio das construções ilusórias do homem, mas contribui majoritariamente para manter as crenças ativas. Segundo Morano, O segredo de sua força [religião], como no sonho, reside exclusivamente na força do desejo da qual derivam.” Lembro sempre que os sublinhados são destaques meus.

Do ponto de vista freudiano, a crença religiosa, ou as crenças de modo geral, no ponto em que projeta desejos ao mundo exterior, o mundo real, e gera ilusões contrárias a essa realidade, transforma-se numa demência de caráter alucinatório. Orar torna-se um solilóquio, um diálogo de cegos em que o transcendente é o próprio sujeito, encarcerado em seus desejos mais temidos e ocultos. A caracterização da crença (todo ato religioso em essência) como quadro ilusório é exatamente por gerar uma realidade completamente avessa erguida sobre os próprios desejos dos quais não encaramos de forma consciente. Tal irracionalidade ocorre porque o inconsciente não conhece contradições, como nos sonhos. Tudo que lá acontece é perfeitamente natural, coerente, faz sentido.


Freud considerava a magia, o medo, a fantasia, o desejo, a poesia, o devaneio, o sonho como fases formadoras do sistema de crenças, entendendo serem a magia e a feitiçaria elementos que mantinham ativo tal  sistema. O homem cria a magia como forma de se impor sobre o mundo, as forças da natureza, o universo, os animais, as doenças, os homens. Ademais, ele trata da onipotência do pensamento como uma ilusão em relação ao mundo externo, como já se disse, o desejo de que o mundo seja o que se deseja que seja:
A primeira imagem que o ser humano formou do mundo - o animismo - foi psicológica. Não precisou, então, de base científica, uma vez que a ciência só começa depois de ter-se dado conta de que o mundo é desconhecido e que, por conseguinte, tem-se de procurar meios para conseguir conhecê-lo.
Freud vê o homem alimentando a crença onde a fantasia é uma força maior que a da mente que a cria, identificando troca tanto nos seres humanos primitivos quanto nos neuróticos, o que propõe a compreensão de que, nos dois sistemas de crença, a fuga do real tem certo limite ligado ora ao desejo de se situar no mundo, ora ao desejo de fuga desse mundo, característica típica do homem modernoO psicanalista vienense aborda três crenças importantes presentes no animismo: 1) o povoamento do mundo com seres espirituais bons e maus; 2) são a causa dos fenômenos; 3) somos povoados desses espíritos. Isso indica que sua visão sobre o animismo revela que os elementos que criamos para nos situarmos não precisam necessariamente serem verdadeiros nem lógicos, e não é pelo fato de se usar tais elementos que estamos perto ou longe da neurose: “Essas almas que vivem nos seres humanos podem deixar suas habitações e emigrar para outros seres humanos; são o veículo das atividades mentais e são, até certo ponto, independentes de seus corpos”.

Todos sabemos que a compreensão da obra de Freud não é fácil, em absoluto, e que é preciso muitos anos de dedicação exclusiva a tal empreendimento. Logo, entendo que o texto de hoje, apesar de necessário, é torturante em sua complexidade. Não estou livre desse martírio. Talvez o próprio Freud possa nos ajudar:
Quando o indivíduo em crescimento descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre, que nunca poderá passar sem proteção contra estranhos poderes superiores, empresta a esses poderes as características pertencentes à figura do pai; cria para si próprio os deuses a quem teme, a quem procura propiciar e a quem, não obstante, confia sua própria proteção.
O desejo surge na teoria psicanalítica como propulsor da atividade humana, e, manifestado de diversas formas, é especificamente na maneira como  se manifesta no sonho que poderá nos servir de base para compreender como ele se coloca nas outras esferas da vida. Sonhar, diz Freud, é realizar um desejo alucinatoriamente. Um desejo inconsciente, não podendo manifestar-se de forma desperta, se utiliza do estado de relaxamento da vida onírica para ter voz. A psicanálise mostrou que existem conflitos internos no próprio sujeito em distintas instâncias psíquicas o tempo todo. Dessa forma, desejos que pertencem ao sistema inconsciente estão lá por não poderem ter acesso à consciência. Não podendo se manifestar, deslocam-se e condensam-se numa mudança de foco por meio associativo, transferindo sua representação na vida consciente para uma imagem, por exemplo.

Concluindo, até onde me foi possível depreender, as crenças humanas - ainda que ilusões - se formaram de modo natural no curso de um longo processo histórico de identificação de si e do mundo, que estabeleceu regras e o sentimento de esperança, proteção, segurança e sentido existencial. Esperança da imortalidade, proteção contra as tormentas da vida, segurança contra as ameaças naturais. Cada um de nós possui seus credos - verdades que se inventa, cria sonha, projeta, desejando que sejam verdadeiras. Os pressupostos religiosos não mais dizem a uma realidade óbvia de transcendência, mas antes, a uma expressão deformada de desejos inconscientes. É nesse ponto que ilusão e crença se aproximam e se unem. Freud inaugurou uma escola de pensamento, alçando o homem a um ser pensante de si mesmo, e isso tem um peso incalculável. Para muitos, um peso insustentável.


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Carlos Dominguez Morano, Crer Depois de Freud, Loyola, 2014.
Sigmund Freud, Totem e Tabu. Cia das Letras, 2006.
_______. O Futuro de uma Ilusão. LP&M, 2010,

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

FANTASMAS DA ESPERANÇA

“A razão pode provocar o desejo de crer, porém, nunca terá a força de fazer crer.” Nesta última parte da nossa conversa, mais uma vez a palavra de Le Bon serve de roteiro. No post Nascido para o saberDante canta em um dos versos aquilo que deveria ser essência do ser: ... feitos para praticar a virtude e aprender a conhecer. Não aprendemos a lição. Então, seguimos com o pensador francês no intuito de trazer novas luzes. No post citado, o Espiritismo foi alvo do debate, atiçando os guardiães da doutrina. Deixemos que Le Bon retome a palavra.


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Perante os progressos das ideias científicas, a crença na magia se afigurava destruída. Os feiticeiros, despojados do seu prestígio, só achavam crédito em algumas aldeias obscuras. Mas o amor ao mistério, as necessidades religiosas que uma fé muito antiga alimentava mal, a esperança de sobreviver ao túmulo, são sentimentos tão vivos que não poderiam morrer. A magia antiga devia, ainda uma vez, reaparecer, mudando de nome sem sofrer notável modificação. Chama-se hoje ocultismo de espiritismo, os áugures se denominam médiuns, os deuses inspiradores de oráculos se intitulam espíritos, as evocações dos mortos têm o nome de materialização.

Durante muito tempo a nova crença foi desdenhada pelos sábios; mas, há uns vinte anos* que assistimos a este fenômeno muito imprevisto: eminentes professores tornam-se convencidos adeptos de todas as formas de magia. Assim, reputados antropologistas, como Lombroso, afirmam que evocaram as sombras dos mortos e com elas conversaram; ilustres químicos, como Crookes, dizem ter vivido meses com um espírito que diariamente se materializava e desmaterializava, professores de filosofia célebres, como Richet, declaram ter visto um guerreiro de capacete surgir espontaneamente do corpo de uma menina, físicos distintos, como d’Arsonval, referem que um “médium pode fazer variar, à vontade e de um modo considerável, o peso de um objeto”. Vemos, enfim, ilustres filósofos, como o sr. Boutroux, dissertarem em brilhantes conferências sobre os espíritos, as comunicações sobrenaturais, e afirmarem que “a porta subliminal é a abertura pela qual o divino pode penetrar na alma humana.

É certo que outros sábios, igualmente ilustres, rejeitam essas observações, atribuíveis, no seu conceito, a simples alucinações, e eles se indignam contra o que chamam retorno às formas mais baixas da feitiçaria e da superstição. A fim de mostrar a ilimitada credulidade de certos sábios eminentes, desde que penetram no domínio da crença, vou escolher o fenômeno ocultista mais estudado por eles, o que é denominado das materializações. Veremos reputados fisiologistas admitir, sem hesitação, que um ser vivo se pode constituir instantaneamente com os seus ossos, as suas artérias, os seus nervos, em uma palavra, com todos os seus órgãos. Naturalmente, as explicações dos espíritas sobre tal assunto são bastante confusas e variam com a imaginação de cada autor. Cumpre unicamente reter que do corpo de um ente vivo poderia instantaneamente surgir outro ser, possuindo os mesmos órgãos e não o seu simples aspecto.

Observa-se o papel da sugestão e do contágio mental nos maravilhosos fenômenos que se prendem à magia e na sua influência sobre os espíritos mais eminentes.  As ilusões de que foram vítimas os sábios dedicados ao estudo dos fenômenos espíritas mostram que os métodos de investigação, utilizáveis no domínio do conhecimento, já não o são no terreno da crença. Observa-se também que os crentes nos fenômenos ocultistas afirmam que eles não se podem reproduzir à vontade, não se achando, por conseguinte, submetidos a nenhum determinismo. As potências superiores criadoras de tais fenômenos não obedecem aos nossos caprichos. Júpiter lança o raio quando lhe apraz, Netuno desencadeia as tempestades sem atender ao desejo dos navegantes.

Em história, o método de estudo é o testemunho. Em matéria científica, a experiência e a observação servem de guia. Ora, para os fenômenos ocultistas, o primeiro método consiste em rejeitar inteiramente o testemunho e lembrar que a observação, assim como a experiência, são unicamente utilizáveis em circunstâncias excepcionais. Eliminados o testemunho e a observação como meio de estudo, resta a experiência. Um erro muito generalizado é o que consiste em imaginar que um sábio, distinto na sua especialidade, possui por essa única razão uma aptidão particular na observação dos fatos alheios a essa especialidade, principalmente aqueles em que a ilusão e a fraude desempenham um papel preponderante. Vivendo na sinceridade, habituados a crer no testemunho dos seus sentidos, completados pela precisão dos instrumentos, os sábios são, na realidade, os homens mais facilmente iludíveisOs fenômenos do espiritismo não poderiam, portanto, ser eficazmente observados por sábios. Os únicos observadores competentes são os homens habituados a criar ilusões e, por conseguinte, a desvendá-las, isto é, os prestidigitadores.


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Encerro a série com  a historiadora Mary Del Priore ao dizer que, ainda no século 19, o antropólogo brasileiro Arthur Ramos escrevia: “O Brasil vive impregnado de magia. Nós, brasileiros, ainda vivemos sob o domínio do mundo mágico, impermeável em muito ao influxo de uma verdadeira cultura”. Sua fala não envelheceu. Nesse sentido, Del Priore sublinha:
Sim, pois a mentalidade mágica e a crença no sobrenatural acompanhavam e envolviam as ideias, as ciências e as letras. Não à toa, essa literatura de sensação enchia as noites dos que acreditavam que, no contexto da fé, o sobrenatural era coisa normal. (...) O que se convencionou chamar de sobrenatural, maravilhoso ou fantástico revela, na realidade, atos de fé. (...) Crenças são capazes de exprimir a humanidade na sua mais profunda e intensa medida. Passados séculos, muitos desses objetos de fé e convicção continuam aí, jovens, oxigenados, vivos. Ninguém procura explicá-los. Eles são recebidos como uma mensagem na qual se lê toda a onipotência e as marcas da intervenção de Deus, ou de deuses, em nosso mundo.
Outros autores seguem a mesma trilha e eu poderia trazê-los aqui em contribuição, não apenas sobre o espiritismo como também o misticismo, o sobrenatural e o mágico. Fica para outro momento. Em plena ebulição tecnológica de um mundo digital, ainda não nos livramos das fantasmagorias ancestrais. Talvez a explicação esteja nas palavras da historiadora ao mencionar as mudanças sociais e culturais na virada do século 19 para o 20, a belle époque. Sua argumentação é longa e esclarecedora, abrangendo todo o leque do sobrenatural, sendo a leitura da obra altamente recomendada. A seguir, dois breves trechos:
A modernidade dos bondes, da luz elétrica e do telefone trazia também uma resistência às mudanças. Vivia-se o que um historiador denominou de “a revolta contra a razão”. Em revanche, recorria-se ao fantástico e ao imaginário popular, recheado de fadas, demônios e aparições. A literatura escapista transportava para outro mundo, onde o sobrenatural dava as cartas. Nele, nada causava espanto ou surpresa. Tudo era possível!
No universo sobrenatural, “mortos-vivos”, espíritos ou fantasmas fazem parte do cenário desde a Antiguidade e a Idade Média. Eles atravessaram os séculos invadindo a literatura romântica, fantástica e gótica. Emergiram de castelos assombrados por fantasmas e vampiros, todos eles atores de uma cultura que acreditava em sua existência. Hoje fazem parte do cinema e dos quadrinhos. E também das pesquisas nas áreas de parapsicologia e metapsicologia. Empurrado para a marginalidade ou a clandestinidade, o sobrenatural progrediu. 
Uma última frase de Le Bon sacramenta o vão esforço do conhecimento: “Os convictos permanecerão convictos, e os críticos continuarão críticos. Nos domínios da fé, a razão não intervém”. Por fim, acrescento que na próxima semana trarei de volta Freud, absolutamente imprescindível na sequência da reflexão.

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Mary Del Priore, Do Outro Lado. Planeta, 2014.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019


FOLHAS SECAS

“Suficientemente repetida, a afirmação acaba por criar, primeiramente, uma opinião e, mais tarde, uma crença. A repetição é o complemento necessário da afirmação. Uma opinião qualquer universalmente aceita constituirá sempre, para a multidão, uma verdade”. Mais um argumento de Le Bon, de quem estamos compilando uma série de conceitos expostos em As Opiniões e as Crenças como base para nossas reflexões. Os  sublinhados são meus.


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O problema do estabelecimento e da propagação das opiniões, e sobretudo das crenças, apresenta aspectos tão maravilhosos que os sectários de cada religião invocam a sua origem e a sua difusão como provas de uma procedência divina. Observam também que essas crenças são adotadas a despeito do mais evidente interesse daqueles que as aceitam. Compreende-se, por exemplo, sem dificuldade, que o Cristianismo se haja propagado facilmente entre os escravos e todos os deserdados, ao quais prometia uma felicidade eterna. Mas, que forças secretas podiam determinar um cavalheiro romano, um personagem consular, a despojar-se dos seus bens e afrontar vergonhosos suplícios, para adotar uma religião nova e vedada pelas leis? Seria impossível evocar a fraqueza intelectual dos homens que voluntariamente se submetiam a tal jugo, porquanto, desde a antiguidade até aos nossos dias, se têm observado os mesmos fenômenos nos espíritos mais cultos.

Uma teoria da crença pode unicamente ser viável quando fornece a explicação de todas essas coisas. Deve, sobretudo, fazer compreender como sábios ilustres e reputados pelo seu espírito crítico aceitam lendas cuja infantil ingenuidade desperta o sorriso. Mas como, nos nossos dias, em meios sobre os quais a ciência projeta tanta luz, não se acham essas mesmas crenças inteiramente desagregadas? Por que as vemos nós, quando por acaso se desagregam, originar outras ficções, maravilhosas, como prova a propagação das doutrinas ocultas, espirituais etc., entre sábios eminentes? A todas essas perguntas deveremos, igualmente, responder.

Tudo quanto é aceito por um simples ato de fé deve ser qualificado de crença. Se a exatidão da crença é verificada mais tarde pela observação e a experiência, cessa de ser uma crença e torna-se um conhecimento. Crença e conhecimento constituem dois modos de atividade mental muito distintos e de origem muito diferentes: A primeira é uma intuição inconsciente provada por certas causas independentes da nossa vontade; a segunda representa uma aquisição consciente, edificada por métodos exclusivamente racionais, tais como a experiência e a observação. Foi somente numa época adiantada da sua história que a humanidade, imersa no mundo da crença, descobriu o conhecimento. Quando aí se penetra, reconhece-se que todos os fenômenos atribuídos outrora às vontades de seres superiores se apresentavam sob a influência de leis inflexíveis.

Desde que os assuntos sobre os quais se quer raciocinar caem no campo da crença, a reflexão perde o seu poder crítico. Uma lógica afetiva demasiada leva a ceder sem reflexão a impulsos frequentemente funestos. Uma lógica mística excessiva suscita as exigências religiosas, dominadas pela preocupação egoísta da sua salvação, e sem utilidade social. Uma lógica coletiva exagerada promove a predominância dos elementos inferiores de um povo e o conduz à barbárieA força dos fanáticos reside precisamente na rigorosa obediência ao seu ideal perigoso.Uma lógica racional em demasia provoca a dúvida e a inação.

Sendo lenta e penosa a elaboração de um julgamento, o homem se contenta, em geral, com as primeiras impressões, isto é, com as sugestões da simples intuição. Abandonar-se a elas sem exame, como muitas vezes se procede, é atravessar a vida na persuasão de um erro. Elas só têm, efetivamente, por sustentáculo, simpatias e antipatias instintivas que nenhuma razão ilumina. É, entretanto, sobre bases tão frágeis que, às mais das vezes, se edificam as nossas concepções do justo e do injusto, do bem e do mal, da verdade e do erro.

Tão irredutível quanto a necessidade de crer, a necessidade de explicações acompanha o homem desde o berço até ao túmulo. Ela contribuiu para criar os seus deuses e diariamente determina a gênese de numerosas opiniões. Essa necessidade intensa facilmente se satisfaz. As respostas mais rudimentares são suficientes. Sempre ávido de certezas definitivas, o espírito humano guarda muito tempo as opiniões falsas fundadas na necessidade de explicações e considera como inimigos do seu repouso aqueles que as combatem. O principal inconveniente das opiniões baseadas em explicações errôneas é que, admitindo-as como definitivas, o homem não procura outras. Supor que se conhece a razão das coisas é um meio seguro de não a descobrir.

A ignorância da nossa ignorância tem retardado de longos séculos os progressos das ciências e ainda, aliás, os restringe. A sede de explicações é tal que sempre foi achada alguma para os fenômenos menos compreensíveis. Os elementos constitutivos da nossa existência pertencem, como sabemos, a três grupos: vida orgânica, vida afetiva, vida intelectual. A necessidade de crer alia-se à vida afetiva. Tão irredutível quanto a fome ou o amor ela é, frequentemente, tão imperiosa. Constituindo uma invencível necessidade da nossa natureza afetiva, a crença não pode, e nisso é como um sentimento qualquer, ser voluntária e racional. A inteligência não a forma nem a governa.

Confinado num deserto, privado de qualquer símbolo, o crente mais convicto veria rapidamente declinar a sua fé. Se, entretanto, anacoretas e missionários a conservam, é porque incessantemente releem os seus livros religiosos e, sobretudo, se sujeitam a uma multidão de ritos e de preces. A obrigação para o padre de recitar diariamente o seu breviário foi imaginada pelos psicólogos que conheciam bem a virtude sugestiva da repetição. Nenhuma fé é durável se dela se eliminam os elementos fixos que lhe servem de apoio. Um Deus sem tempestades, sem imagens, sem estátuas, perderia logo os seus adoradores.

O nosso máximo esforço de independência consiste em opor, por vezes, um pouco de resistência às sugestões ambientes. A grande massa nenhuma resistência opõe e segue as crenças, as opiniões e os preconceitos do seu grupo. Ela lhe obedece sem ter mais consciência do que a folha seca arrastada pelo vento

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A exemplo da edição passada, retomamos Freud quando diz que a infância humana está plena de ilusões como parte fundamental do processo de amadurecimento. Como seres dependentes da proteção paterna, deparamos com um universo de frustrações inevitáveis. O ingresso no mundo adulto nos põe frente a frente com uma realidade que constrange os desejos mais essenciais. Saímos da esfera infantil de tudo pode” (onipotência dos pensamentos) para uma realidade que nos obriga ceder em nossas próprias vontades; é o que  Freud chama mudança de foco do princípio do prazer para o princípio de realidade, tema extremamente importante na sua metapsicologia e que já foi trazido neste blog.

Amadurecer, emancipar-se, crescer, significa tornar-se um ser sociável perante regras e imposições que se opõem aos desejos individuais. Desse modo, a religião aparece como incentivadora da manutenção de uma realidade que não se aproxima da racional para o sujeito, garantindo” recompensas numa vida futura: A imortalidade, instante modelar de um desejo humano projetado numa realidade exterior que se legitima pelo supremo poder da Providência Divina.
Acolhemos as ilusões porque nos poupam sentimentos desagradáveis, permitindo-nos em troca gozar satisfações. Portanto, não devemos reclamar se, repetidas vezes, essas ilusões entrarem em choque com alguma parcela da realidade e se despedaçarem contra ela.
O modelo proposto por Freud de como se processa a atuação psíquica inconsciente é a chave para entender as manifestações da vida consciente. Os sonhos são a porta de acesso a este modo peculiar de funcionamento. Partindo da interpretação onírica de como os mecanismos inconscientes atuariam, Freud pode abordar a grande produção da cultura humana. Ele praticamente dedicou toda a sua obra na concepção de que o modo como atuariam as estruturas inconscientes seria a senha para compreender as manifestações mitológicas, as motivações filosóficas e a religião.

[continua]

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S. Freud, Considerações atuais sobre a guerra e a morte. Cia das Letras, SP. 2013.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

VENTANIA

“Que importa o saber se a demanda é por crença?” “Crença e opinião sempre se sobrepõem ao conhecimento”. Estas duas frases do pensador francês Gustave Le bon (1841-1931), fundador da Psicologia Social, são a chave para entender algumas de suas obras, referências obrigatórias nessa área na hora de abordar o assunto. Essa breve introdução é o gancho para o que iremos debater a partir de agora  crenças e opiniões , temas recorrentes por aqui porque o blog funciona como um bom boticário, gotejando pacientemente a substância até ser absorvida pelo corpo. Isso se deve dada a ventania causada pelos últimos posts, que parece ter incomodado alguns, o que não é surpresa.

O recado dado em Ficar ou Fazer aborreceu o leitor, que me excluiu da sua rede de contato desde então e aparentemente não tem acessado o blog. Não é a primeira vez que sou excluído por dizer a verdade, não será a última. Foi dito, na ocasião, que haveria uma tentativa de debate, que se confirmou, apesar do jovem demonstrar clareza de raciocínio, desenvoltura na argumentação, lucidez e ponderação. Seu gesto comprova o que foi colocado no último post, que inteligência não combina com crença. O exemplo se aplica a outros, mas não a todos. Há quem conviva com as divergências, ouve, dialoga, procura formas de entendimento, como a leitora espírita que, mesmo discordando do texto, não arrefeceu a crença nem estremeceu no afeto. Alguns trechos pinçados da obra de Le Bon, As Opiniões e as Crenças (1895) ajudam a caminhar pelos meandros do comportamento humano e conhecer a psicologia das massas. Uma obra atualíssima, indispensável e esclarecedora. A partir daqui, a palavra é dele. Os sublinhados são meus. Preparei uma trilogia para expor razoavelmente a questão, longe de esgotá-la.

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O problema da crença, por vezes confundido com o do conhecimento é, entretanto, muito distinto dele. Saber e crer são coisas diferentes, que não têm a mesma gênese. A sua solução dá-nos a chave de muitas questões importantes. Como, por exemplo, se estabelecem as opiniões e as crenças religiosas ou políticas? Por que se observam, simultaneamente, em certos espíritos, ao lado de elevadíssima inteligência, superstições muito ingênuas? Por que é tão fraca a razão para modificar as nossas convicções sentimentais? Sem uma teoria da crença, essas questões e muitas outras ficam insolúveis. Somente com o auxílio da razão, não poderiam ser explicadas. O domínio da crença sempre pareceu repleto de mistérios. É por isso que os livros sobre as origens da crença são tão pouco numerosos, ao passo que são inúmeros os que se referem ao conhecimento.

As raras tentativas empreendidas no sentido de elucidar o problema da crença bastam, aliás, para mostrar que ele tem sido pouco compreendido. Aceitando a velha opinião de Descartes, os autores repetem que a crença é racional e voluntária. Um dos objetivos desta obra será precisamente mostrar que ela não é voluntária nem racional. A idade moderna contém tanta fé quanto tiveram os séculos precedentes. Nos novos templos pregam-se dogmas tão despóticos quanto os do passado, e eles contam fieis igualmente numerosos.

Os velhos credos religiosos que outrora escravizavam a multidão são substituídos por credos socialistas ou anarquistas, tão imperiosos e tão pouco racionais como aqueles, mas não dominam menos as almas. A igreja é substituída muitas vezes pela taverna, mas aos sermões dos agitadores místicos que aí são ouvidos, atribui-se a mesma fé. A fé num dogma qualquer é, sem dúvida, de um modo geral, apenas uma ilusão. Cumpre, contudo, não a desdenhar. Graças à sua mágica pujança, o irreal torna-se mais forte do que o real. Uma crença aceita dá a um povo uma comunhão de pensamentos de que se originam a sua unidade e a sua força. Sendo o domínio do conhecimento muito diverso do terreno da crença, opô-los um ao outro é inútil tarefa, embora diariamente tentada. Um dos mais constantes caracteres gerais das crenças é a sua intolerância. Ela é tanto mais intransigente quanto mais forte é a crença. Os homens dominados por uma certeza não podem tolerar aqueles que não a aceitam.

As leis que regem a psicologia da crença não se aplicam somente às grandes convicções fundamentais, que deixam uma marca indelével na trama da história. São também aplicáveis à maior parte das nossas opiniões quotidianas relativamente aos seres e às coisas que nos cercam. A observação mostra que, na sua maioria, essas opiniões não têm por sustentáculos elementos racionais, porém elementos afetivos ou místicos, em geral de origem inconsciente. Se nós as vemos discutidas com tanto ardor, é precisamente porque elas pertencem ao domínio da crença e são formadas do mesmo modo. As opiniões representam, geralmente, pequenas crenças, mais ou menos transitórias.

Seria, pois, um erro supor que se sai do terreno da crença, quando se renuncia às convicções ancestrais. Sendo as questões suscitadas pela gênese das opiniões da mesma natureza que as relativas à crença, devem ser estudadas de modo análogo. Muitas vezes distintas nos seus esforços, crenças e opiniões pertencem, no entanto, à mesma família, ao passo que o conhecimento faz parte de um mundo inteiramente diverso. Como se explica esse estranho poder das crenças? De quais elementos psicológicos surgem esses mistérios? 


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A Psicanálise, com Freud, ilustra de modo eloquente que o ser humano é um animal de ilusões, um corpo desejante que tem, como constituintes da sua própria condição, carência e vazio. Em vista disso, ilusões e fantasias estão sempre à mão a preencher esses vácuos na construção dos mais “elevados” edifícios da cultura humana. Para Freud, a experiência religiosa, a fé, é uma forma compensatória e salvacionista ante um mundo real perverso, onde a religião acaba por se tornar uma neurose coletiva:
[...] aquilo que o homem comum entende como sua religião, o sistema de doutrinas e promessas que de um lado lhe esclarece os enigmas deste mundo com invejável perfeição, e de outro lhe garante que uma solícita Providência velará por sua vida e compensará numa outra existência as eventuais frustrações desta (...) Essa Providência o homem comum só pode imaginar como um Pai grandiosamente elevado. Apenas um ser assim é capaz de conhecer as necessidades da criatura humana, de ceder a seus rogos e ser apaziguado por seus arrependimentos. Tudo isso é tão claramente infantil, tão alheio à realidade, que para alguém de atitude humanitária é doloroso pensar que a grande maioria dos mortais nunca se porá acima desta concepção de vida. Ainda mais vergonhoso é constatar que um bom número de contemporâneos, embora percebendo como insustentável essa religião, procuram defendê-la palmo a palmo, numa lamentável retirada.
[continua]

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Sigmund Freud, Por que a Guerra? Cia. das Letras, São Paulo, 2013.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

EM BUSCA
NASCIDO PARA SABER
Fatti non foste
Bronze, 2016 
Matteo Pugliese


Considerate la vostra semenza: fatti non foste a
viver come bruti, ma per seguir virtù e conoscenza.
Reflete sobre vossa origem: não haveis sido feitos
para viver como animais, mas para praticar
a virtude e aprender a conhecer.
Inferno, Canto 26 
Dante

Sempre que um leitor se manifesta sobre meu texto, eu prontamente respondo para que todos acompanhem. Isso mostra que os leitores estão atentos aos assuntos propostos e, apesar de concordarem com a argumentação, não deixam de dar opiniões pertinentes, via de regra complementares sobre tópicos que ampliem o debate. As questões trazidas em cima do último post, embora sejam parecidas, pedem abordagens distintas. A chave para entender o problema está na inteligência.

O primeiro ponto diz respeito aos “mercadores de ilusão”, sujeitos que exploram a boa-fé alheia, a ingenuidade e a falta de conhecimento do público sobre assuntos nos quais se julgam especialistas, quando não passam de amadores, entusiastas, diletantes aventureiros, mas é verdade também que, como diz o leitor, é a demanda que determina a oferta”, no que está certíssimo. Eu nunca disse o contrário e só não entro nesse aspecto por julgar óbvio demais: só há vendedores porque há compradores! Se você quiser um perfume à base de lágrimas de castor da Manchúria, ou um Toscano Sassicaia safra 1996, com certeza encontrará quem os tenha. Digo com frequência uma frase que resume tudo: Haverá sempre oradores medíocres enquanto houver plateia medíocre a lhes aplaudir. Se há compradores, há vendedores.

O outro assunto trazido por uma leitora é mais complexo e mais delicado, uma vez que, adepta do espiritismo, sente-se desconfortável com as críticas. Nesse quesito, trata-se de , terreno que mexe fundo com suscetibilidades. Complexo e delicado porque, mais uma vez, tônica deste blog, estamos falando da fragilidade do ser, da sua covardia intrínseca, seus medos existenciais, sua incompreensão sobre a vida e a morte e a imperiosa necessidade de crer em algo que o transcenda, que esteja acima do seu entendimento para se tornar uma âncora. Em última instância, a crença em espíritos, vida após a morte, reencarnação e temas afins não passa de estratégia psíquica para ocultar o terrível temor da finitude. É claro que os defensores da doutrina negarão firmemente esse fato, recorrendo aos ensinamentos dos espíritos, às “indiscutíveis” mensagens psicografadas e outras “evidências” como provas inegáveis da existência do “outro lado”. Reitero uma velha expressão: servidão voluntária. Reitero outra: quem vive ajoelhado desconhece a própria estatura. A leitora alega, em favor de sua convicção, que na instituição que frequenta não há charlatães, ao contrário, são pessoas de bom nível cultural, e que
A doutrina espírita vem ocupando a grade curricular das universidades e sendo defendida por gente para lá de instruída, ex-reitor de universidade, médicos, juízes, professores muito conceituados.
Eis um aspecto importante a ser discutido. Ingenuamente, recorre-se ao argumentum magister dixit - apelo à autoridade ou argumento de autoridade, uma falácia lógica utilizada recorrentemente para evocar a reputação de alguma autoridade buscando validar um argumento - que não o é de fato -, um expediente equivocado por apoiar-se tão somente na credibilidade do personagem e não nas razões que sustentam sua proposição. Ainda mais no âmbito da investigação de uma realidade que transcende a experiência sensível, portanto, incapaz de oferecer fundamento científico legítimo, o que se tem são meras opiniões, calcadas em subjetividades que não podem se converter em argumentos.

Tais opiniões, sistematicamente repetidas, tornam-se doxas - crenças comuns ou opiniões populares - e depois, dogmas, que não permitem discussões e que, por isso mesmo, emolduram a zona de conforto do sectário. Alguém “instruído”, seja médico, professor ou juiz, não implica que esteja imune a crenças pessoais. Uma pessoa pode ser muito culta e acreditar em discos voadores, ter vasto saber filosófico e afirmar que a Terra é plana. Veremos adiante que informação e conhecimento não têm ligação com inteligência. Além disso, espiritismo não integra nenhuma grade curricular universitária, apenas é objeto de interesse de núcleos específicos de estudo e pesquisa. A complexidade do tema vai muito além destas poucas linhas.

Numa era em que a informação preenche de forma  agressiva todos os espaços e ao alcance dos dedos, é paradoxal, condenável e injustificável que o conhecimento esteja sendo posto de lado em prol de um imediatismo consumista irrefreável. Dito de outro modo, o homem não se dedica mais à reflexão prolongada do todo, ao amadurecimento das questões, à análise critica, à dialética refinada, exercendo o “qualquer coisa serve” desde que atenda às suas necessidades. Informação e conhecimento não produzem inteligência, que é inata ao ser: ou o sujeito é inteligente ou jamais será. Há muita gente iletrada, não instruída, que demonstra inteligência no trato da vida, enquanto que muitos ditos intelectuais carecem desse atributo. Há, claro, os que são eruditos e muito inteligentes.

Filosoficamente, inteligência é a capacidade de aprender, ter a real percepção das coisas do mundo e daquilo que é, saber encontrar soluções, ter consciência de si. Para Platão, inteligência é a esfera do conhecimento que compreende a ciência e a dianoia - conhecimento prévio, intuitivo. Dianoia - grego  dia noien, que pode significar, de modo mais profundo, pensamento, escuta, silêncio, poiesis. O prefixo dia - entre, através de, por meio de, junta-se a logos - dia-logo. Dialogar não é escutar em silêncio o outro? Ainda segundo Platão, inteligência opõe-se a crença

De fato, só informação não basta, é preciso aprender a conhecer e isso compete à inteligência, à consciência (latim conscius - saber o que fazer, e sciens - conhecimento obtido pela leitura, estudo e erudição). São poucos os que conseguem concatenar as duas coisas. Já que fomos feitos para o saber, a rota de fuga da desinformação, que leva à incompreensão, a opiniões insustentáveis na origem e à leitura distorcida dos fatos passa pelos caminhos do conhecimento, da consciência, da reflexão e da inteligência.