Obras

Obras

sábado, 29 de outubro de 2016


Praia é abatedouro de filósofos

carlosalbertoreis51@gmail.com



Como anunciei semana passada, vou filosofar mais um pouco, agora levado também por um debate com um amigo, amizade essa a completar quatro décadas de boas histórias vividas no interesse comum, a ufologia. Mas seguimos rumos distintos, e algumas diferenças se acentuaram e se crisparam nos últimos anos. “Amigos, amigos, crenças à parte”. Intactos o respeito e o carinho.

Ele se tornou um astrólogo conhecido na cidade em que se estabeleceu, abraçando o Budismo e o Yoga, além de seguir nos estudos da Antroposofia de Rudolf Steiner e na Teosofia de Madame Blavatsky. Como se depreende, seu universo é o da metafísica, da 'transcendência', do 'oculto', do conhecimento 'superior', dos agentes externos que movem os fios da vida dos mortais. Curioso é ele dizer que “Não existe ‘lá fora’, o caminho é dentro”. Como explicaria suas crenças no lá fora? Vamos analisar um pouco essa questão. Peço desculpas, mas desta vez não deu para poupá-lo de uma leitura mais extensa. Acho que vale a pena.

Em dado momento, a conversa gerou mais calor que luz. Ao contrário dele, eu não me filio a nenhuma doutrina, religião ou sistema filosófico; sou, por assim dizer, livre-pensador. Tenho na Filosofia uma ferramenta de aprendizado através das leituras, aulas, reflexões, cursos, na polifonia discursiva dos melhores, dialogando ora com Platão, ora com Spinoza, ora com Kant, ora com Montaigne, entre muitos. Isso dá liberdade de escolha, de movimento e ausência de dogmas. Admiro todos, mas não rezo a missa de nenhum. Questiono não para contestar, mas para encontrar outras formas de entendimento. É assim que a coisa funciona porque é assim que deve funcionar.

Na sala de aula, quando o aluno levanta a mão e pergunta "- Professor, por que tal coisa é assim?", nenhum mestre em sã consciência dirá “porque sim”; ao contrário, dará ao aluno todos os instrumentos, inclusive fora da matéria central, para que ele encontre a resposta e compreenda a lógica do problema. 

Eis um dos pontos nevrálgicos da discussão: Toda doutrina tem todas as respostas porque todas as perguntas já estão pontas lá dentro. Todo sistema doutrinário se retroalimenta, numa estrutura fechada que não abre para o contraditório. Toda doutrina solapa a individualidade do sujeito. A vida que vale por ela mesma é a vida soberana. O contrário é servidão voluntária.

Já a Filosofia propõe contradições, complementares e antagônicas; pergunta e não responde, não traz soluções nem fórmulas prontas, não centraliza, não radicaliza nem escraviza. Não facilita, não se põe intramuros, não te deixa refém de qualquer certeza, não te torna heterônomo, mas autônomo, ao oferecer meios para raciocinar, questionar, duvidar, indagar, deliberar. E, certamente o mais importante, aguça o senso crítico. Em última análise, é diálogo permanente consigo mesmo para plateia de um único ouvinte. Sem direito a aplauso.

Vejamos o budismo, por exemplo. Segundo Abbagnano, uma “Doutrina religiosa e filosófica que se originou dos ensinamentos de Gautama Buda”. Doctrina, do latim – conjunto de regras, princípios ou instruções que servem de base a um dado sistema de ensinamentos. Regras existem para serem obedecidas, instruções existem para serem seguidas, logo, alguém deve se submeter a elas. Ao bater o sino, não pergunte, ajoelhe e reze é a liturgia nuclear de qualquer doutrina. Sobre Buda, Eliade destaca que "Na língua páli e em sânscrito significa 'iluminado', sendo, muito provavelmente, um personagem histórico, e no plano mitológico, o protótipo do homem divino”. 

Um momento emblemático e surpreendente daquele embate se deu quando, ao citar alguns dos principais filósofos das minhas leituras, meu amigo saiu-se com esta pérola: “Todos eles morreram na praia” e “Todos ficaram na esfera do conhecimento, segundo Steiner". Morreram na praia significa que não chegaram aonde queriam chegar. Aonde queriam chegar? Queriam chegar? Os filósofos abatidos são Descartes, Voltaire, Spinoza, Engel, Hume, Platão, Pascal, Rousseau... 

Para este amigo, se entendi bem, seus mestres Buddha, Krishna, Thomas Merton, Krishnamurti, Alan Watts estão fora da esfera do conhecimento? Foram além da praia? Filósofos morrem, mestres e deuses não. Nietzsche deve estar se debatendo no túmulo. Meu amigo ignora a esfera do conhecimento, preferindo a "intraduzível experiência da totalidade dos sábios", que diz alcançar sempre que esvazia a mente quando medita. Pergunto: como sabe que a sua 'totalidade' é a mesma do sábio? Como saber o que é totalidade? Só porque é "intraduzível" ficaremos a ver navios? Muito conveniente eximir-se de explicações. Clássica zona de conforto. 

O que não entendi também foi ele ter postado, após o debate, a seguinte frase: "Procure as respostas para as questões eternas e essenciais sobre a vida e a morte, mas prepare-se para não encontrá-las. Usufrua da busca". Deduzo que ele concorda com esse pensamento, mas, então, só a experiência intraduzível da totalidade é que vale, não morre na praia? A frase de Morris Schwartz é exatamente o que tenho dito aqui o tempo todo - o percurso é mais enriquecedor que o objeto da procura, até porque nunca teremos a certeza de termos encontrado as respostas certas porque nem saberemos se fizemos as perguntas certas.

Confesso ter dificuldades para entender como é possível passar algum ensinamento adiante sem o conhecimento daquilo que se propõe ensinar. Como explicar as bases, a origem, os fundamentos de tais ensinamentos? É assim porque assim é? É um saber meramente contemplativo, um insight dado pela Providência? O mundo não se explica pelo transcendente nem pelo imponderável, aliás, não se explica nem por ele mesmo, se explica pelo que fazemos dele com o que fazemos de nós. Eis a chave!

Aí está, meu caro amigo, minha querida leitora, exatamente aí reside a grande questão da relação entre nós, e entre nós e o mundo. Não há nada fora do mundo que nos diga respeito. As divindades fazem parte das mitologias, contam histórias sobre a criação do mundo para nos dizer quem somos, mas não interferem em nossas vidas. Nós criamos os deuses por medo de viver, por não suportamos a dor, porque somos fracos, infantis e despreparados para o mundo, por isso estamos sempre em busca da 'salvação divina'. Não são os deuses que devem nos dizer o que devemos fazer. Isso é subserviência, covardia, omissão diante de nossas próprias responsabilidades. Não se deve imputar aos deuses, aos "iluminados", aos demiurgos as causas e os efeitos de nossas ações. A vida é uma só, sem ensaio, sem volta, sem segunda chance, portanto, tenha dignidade e coragem de assumir o seu controle. Conciliação com o mundo. Os deuses agradecem, porque estão fartos de aturar tanta imaturidade.

Se a espécie humana é a única presenteada com a faculdade do cogito, a única a ter consciência de si e a única capaz de traçar seu próprio caminho, ora, justamente no momento de usar esse dom especialíssimo, esvazia a mente, como faz meu meditativo amigo? Prometeu pagou com o próprio fígado por roubar o fogo dos deuses - o logos - para que você não morra de fome nem sirva de alimento ao primeiro leão, e você retribui a dádiva com desprezo, desocupando a mente? Sem a razão, não temos como compensar a nossa total fragilidade. Não poupo ninguém: acreditar no além. em anjos, deuses e fadas, tudo bem, mas se for evacuar a mente, por favor, fique por lá, no vazio, vagando no sertão mental, o mundo não dará pela sua falta. O mundo precisa é de mentes intrépidas, férteis, volitivas, dinâmicas, e não de mentes frouxas, improdutivas e acanhadas, que giram como birutas de aeroporto na direção dos ventos a favor, só dos ventos a favor.

Se o entendimento entre os homens não se der pela esfera do conhecimento, não o será pela via da contemplação e menos ainda pela fé mística. É chique falar que o real é ilusão da mente ou que “a mente assassina o real”. Pode ser, mas apenas como exercício filosófico, não para aplicação prática, não para a busca do saber, não para a compreensão do mundo. Usando a metáfora praiana, o litoral do conhecimento é vasto, mas o oceano da ignorância é muito maior. Já o disse aqui: sejamos gratos aos provocadores, aos desbravadores, aos inquietos, enfim, àqueles que vivem atormentados pela dúvida, porque são eles que nos colocam em ação. Segundo meu caro amigo astrólogo, questiono porque é da minha "dupla natureza geminiana". Fico aqui pensando se piscianos, cancerianos, taurinos também não questionam.  Rezam em silêncio quando bate o sino?

Com toda franqueza (de novo), a crença discipular de que o verdadeiro saber vem de inspiração divina é de extrema fragilidade; é se colocar vulnerável aos influxos de ministérios ungidos por forças cósmicas, supranaturais, transcendentais. Sendo mais direto, é negar a realidade, é acovardar-se ante os desafios, as agruras, as adversidades e os fracassos do cotidiano. É escamotear medos e fraquezas, é esquivar-se do enfrentamento do mundo. Quanto maior a inadaptação ao mundo real dos fatos e das coisas, tanto maior as idealidades escapistas e as rotas de fuga. Alienação. Viver o mundo é fardo pesado, contemplar o mundo é "pegar leve". Esvaziar a mente é paz fugaz, pensar o mundo é angústia permanente. Pergunto: se o real é ilusão da mente, esvaziar a mente não seria também uma ilusão? O vazio não faz parte do real? Fico com Aristóteles, outro que sucumbiu na areia: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”.

Tomara que você tenha percebido ironias sutis nas entrelinhas.


Thomas Merton - monge trapista, escritor sobre espiritualidade.
Alan Watts - teólogo, especialista em filosofias orientais.
Jiddu Krishnamurti - Filósofo e educador indiano.
Krishna - uma das divindades mais cultuada do panteão hindu.
  ___________________

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de FilosofiaMartins Fontes, 2007.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Ática, 2011.
ELIADE, Mircea; COULIANO, Ioan P. Dicionário das Religiões. Don Quixote, Lisboa, 1993. 
HUME, David. Tratado da Natureza Humana. UNESP, 2009.
MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. Bertrand Brasil, 2005.


sábado, 22 de outubro de 2016

O candeeiro alumia dois caminhos

carlosalbertoreis51@gmail.com



Lembra quando eu disse semanas atrás que, caso esteja em dúvida sobre qual caminho escolher - fantasia ou realidade, você deveria perguntar ao gato de Alice? Você sabe qual foi a pergunta que ela fez e o que o gato respondeu? Sêneca disse a mesma coisa com outras palavras e o recado é o mesmo. Já notou que você faz perguntas o tempo todo, todos os dias, e não há gato algum para te responder? É claro que estou falando de filosofia, que está presente em nossas vidas o tempo todo e em toda a parte. As escolhas que fazemos não dizem quem somos, mas o que somos. Já pensou nisso?

Mas, e as crianças, mentes e personalidades em formação, sujeitas a toda espécie de influências, exemplos, indicativos, caprichos, regras e ditames, tentando ser elas mesmas sem, contudo, saber exatamente qual o próximo passo? É preciso uma bússola bem calibrada apontando o norte corretamente. Calma, não quero dar uma de educador, pedagogo, professor, nada disso, minha bagagem se resume a quatro filhos e oito netos. O que estou tentando dizer é que a nossa responsabilidade na hora de ensinar certo é muito maior do que imaginamos. Ensino, do grego en signo, "deixar uma marca para alguém". A boa cartilha recomenda que devemos ser um farol, expor os prós e os contras das escolhas que têm a fazer, e deixar a critério delas o voto final. Dito isso, vamos ao que interessa.

Você lembra também que usei mais recentemente a história da filha do Rubem Alves como exemplo de uma mente bem encaminhada. Suponho que, sendo filha de quem é, seu ambiente educacional e familiar preparou sua consciência com a lucidez necessária para compreender certos mistérios da vida. É óbvio também que ela era potencialmente apta a receber tais ensinamentos. Não é a resposta o aspecto o que mais importa, mas o que está além das palavras, a essência do pensamento, o fundamento filosófico do que está em jogo. 

Quantas crianças podem dar a mesma resposta, perceber a sutileza da questão? Como estamos formando essa geração que está chegando? Estamos preparados? Você se sente pronto a oferecer um caminho razoavelmente iluminado a quem vem por aí? Seu capital filosófico dá conta dos desafios que te esperam a cada amanhecer? Reparou quantas perguntas só neste parágrafo? 

E o que você acha que estou tentando mostrar neste blog? Chegamos ao ponto.

Ao longo destes meses, a cada semana, me esforço para trazer um conteúdo de qualidade, novos campos de reflexão, autores, obras, estudos e ensaios que ampliem os horizontes do conhecimento para balizar seus questionamentos. Aqui desfilam nomes consagrados em quase todas as áreas, e para quê? Para que você se abasteça com o que há de melhor, para refletir com sabedoria, achar seu caminho sem precisar consultar o gato de Alice. Estou praticamente te levando pela mão, portando um candeeiro.

Não me julgue pretensioso e arrogante, dono da verdade. Não sou. Posso estar errado e não tem nenhum problema reconhecer isso quando e se for o caso, mas não nego que me sinto absolutamente confiante do que estou fazendo. Não tenho mais tempo a perder com tentativa e erro. De onde vem tanta segurança? Dado o polimento permanente nas lentes, o ajuste fino e a precisão dos instrumentos, a excelência da companhia e com a rota seguindo o mapa, a chance de naufrágio é quase zero.

Eu te levo pela mão, mas você pode soltá-la quando bem quiser.

Vejo a Filosofia como o eixo central por onde orbitam todas as outras matérias; ela é a cellula mater, o mais belo e puro pensamento que o homem foi capaz de produzir, razão pela qual tem sido a minha bússola, e penso que possa ser a sua também. Filia Sofia, do grego - amor pela verdade, paixão pelo saber. John Locke, filósofo inglês do século XVII, defendia assim esse princípio: "Um sinal infalível de amor à verdade é não considerar nenhuma proposição com convicção maior do que a autorizada pelas provas que a fundamenta." O título é referência a antigo provérbio português: “Candeia [ou candeeiro] que vai adiante alumia duas vezes; o caminho de quem a segura e o de quem vem atrás”. Semana que vem vamos filosofar mais um pouco.

____________________

LOCKE, John. Ensaio sobre o Entendimento Humano. Martins Fontes, 2012

sábado, 15 de outubro de 2016

Como tornar a ausência presença

carlosalbertoreis51@gmail.com


Você não entende papai, chorei justamente porque ETs não existem.

Abro a conversa de hoje com a frase que fechou o post anterior, porque entendi ser importante continuar no tema, começando com o comentário do Rubem Alves, relator e partícipe do episódio: "Compreendi, então, que ela já sabia o segredo das histórias. O ET não existe. As histórias são falsas, mas nós choramos, e por isso são verdadeiras; elas delimitam os contornos de uma grande ausência que mora em nós. Elas contam um desejo, e todo desejo é verdadeiro (muito embora o ET não exista...)."

Esse encantador mundo das histórias, contos de fadas, mitos e fábulas tem gramática própria, é preciso ver não o que está escrito pelas palavras, mas entre elas, no intervalo da pronúncia, nas bordas da narrativa. Só é possível compreendê-las na leitura além da leitura, no silêncio entre os sons, silêncio que a psicanálise ouve com carinho. O visível é a farsa do teatro, a mímica dos personagens, espelhos mágicos que dissimulam a verdade. 

Encantamo-nos não apenas com o oque vemos, mas principalmente, talvez, com o que imaginamos. A imaginação presentifica um desejo, e um desejo preenche uma lacuna, uma ausência, porque somos entes desejantes o tempo todo, porque carentes, porque algo nos falta, sempre. Em um mundo revolto tomado de animosidade como esse que vivemos, é cabível supor que as pessoas sejam religiosas porque desejam algo dos deuses: fim das doenças, prosperidade, vida longa - ou até a imortalidade - e muito mais

Essas pessoas acreditam que podem convencer seus deuses a lhes conceder tais favores, e essa hierofania mostra que a adoração não precisa ter, necessariamente, um fundo de interesse. Quando elas aspiram atingir a transcendência simbolizada pelo céu (tema da próxima semana), creem também que possam 'burlar' a fragilidade da condição humana e passar a outro nível de existência. De todo modo será, sempre, uma fuga e jamais o enfrentamento da realidade.

O "contato", em qualquer nível, surge como uma espécie de ligação com os poderes superiores, do alto, dos céus, esboçando um 'diálogo' com Deus. Desejos, necessidades, carências... ausência, lembrança, saudade. Para Debord, "À medida que a necessidade se encontra socialmente sonhada, o sonho torna-se necessário". Sua análise é mais aguda quando afirma que, "Quanto maior a alienação do espectador em relação ao objeto de sua contemplação – resultado de sua atividade inconsciente –, quanto mais ele admite reconhecer-se na imagem dominante, menos ele compreende sua própria existência e seu próprio desejo." Quando os deuses nos faltam, criamos outros.

Uma pesquisa no final dos anos 1980 mostrou que, para uma parcela significativa das pessoas, era muito importante observar um Óvni. Na mesma época, na Espanha, outra pesquisa demonstrou que mais de 80% acreditavam na origem extraterrestre desses objetos. Eramo números expressivos que deixavam evidente a necessidade ou o desejo de passar por essa experiência. Uma das conclusões das pesquisas é que quanto mais se acreditava no fenômeno Óvni, menos se aceitavam os modelos tradicionais de religião. Não sei se essas cifras e conclusões se repetiriam hoje.

Para deixá-lo com uma baita pulga atrás da orelha, recordo uma instigante frase dita em 1983 pelo luminar amigo Willi Wirz, sagaz investigador do fenômeno Óvni desde o princípio: "O disco voador não é disco e muito menos voador". Um aparente paradoxo ocultando um sentido inesperado? Pois vejo como uma dedução lúcida carregada de sabedoria. O disco voador não é mesmo disco nem voador.

___________

DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Contraponto, 1967.



sábado, 8 de outubro de 2016


Sabedoria de criança é coisa séria


Por mais que eu procure conter meu ímpeto crítico em direção ao mundo da ufologia, não posso me calar diante de tanto despautério, tanta vigarice, tanta desvario e tanto desrespeito com a inteligência alheia. A sua inteligência. Mas, como diz a sabedoria popular, “Haverá sempre espetáculos medíocres enquanto houver plateias medíocres a lhes aplaudir”. Isso explica por que os medíocres rechaçam tudo aquilo que sua compreensão não alcança. 

Faço o que faço do jeito que gosto e sei fazer: pela palavra, denunciar a falácia intelectual com requintes de lavagem cerebral contida nesse pacote, que produz um poderoso efeito multiplicador e ressonante. Dois pensamentos ajudam a entender minha atitude. De Rabelais: "Conheço muitos que não fizeram quando deviam, porque não quiseram quando podiam". De Hilel, rabi filósofo do século I: "Se não eu por mim, quem o será? Mas, se eu for só por mim, que serei eu? Se não agora, quando?"

Pode ser que minha percepção esteja errada –acho que não – mas na observação do cotidiano sinto que o olhar das pessoas sobre o assunto vem mudando gradualmente, pelo menos dentro de uma faixa etária mais madura, mais vivida, mais experiente. Que mudança é essa? Qual ou quais fatores seriam responsáveis por esse comportamento, se é que acontece realmente e não seja um equívoco meu? Não conto o público fiel que lota congressos, seminários e fóruns que rodam país afora, sempre ávido por novas “revelações”, novos casos e novas descobertas. Esse público não vai mudar. O que ele não percebe é que não há novidade alguma, é sempre a mesma coisa travestida de nova, pura enganação, mas se a plateia aplaude...

Vamos supor, por um momento, que eu esteja certo e que há de fato um novo enfoque nas ruas, um movimento silencioso indicando uma postura, digamos, de maior consciência dos fatos. Devemos deduzir múltiplas causas mas é impensável elenca-las todas neste espaço. O acesso, a velocidade e a quantidade de conhecimento disponível sem dúvida são algumas delas, sem entrar no mérito da qualidade da informação, óbvio. A internet é um veículo facilitador, mas cuidado, Umberto Eco dizia que a internet democratizou a imbecilidade, e ele está certo. A leitura que se faz hoje do mundo também mudou, porque o mundo mudou, e isso certamente contribui muito  para um novo pensar.

Essa minha percepção ultrapassa o âmbito regional porque quando conversei com colegas pesquisadores em Paris, há um ano, eles relataram que os franceses, de modo geral, não se interessam mais pelo assunto como antigamente, considerando-o exótico e fantasioso. Não se apresse, não estou tomando a parte pelo todo, em particular o francês como um novo padrão de conduta, falta consultar o resto do planeta, mas é um dado de realidade, logo, de reflexão. Em contato mais frequente com o historiador português Joaquim Fernandes, fico com a mesma impressão. Para resumir, o interesse continua existindo, mas nem de longe com a mesma intensidade de antes. Entra na conversa quando falta assunto melhor.

Penso que há ainda outro aspecto que deve ser examinado mais de perto: a formação e a educação das crianças. É claro, muito em função do ambiente social e de como pais e/ou educadores veem e transmitem seus conceitos sobre a questão. É uma enorme responsabilidade a qual me empenho por inteiro. Não raro nos surpreendemos como os pequenos absorvem conhecimentos e técnicas – não só tecnologia (celulares, micros, aplicativos...) – mas do mundo mesmo, e isso naturalmente inclui assuntos de natureza pouco usuais como a vida extraterrestre, por exemplo. De novo, não estou generalizando, mas faça um teste com seu filho, sua sobrinha, e depois me conte.  A história que trago me parece emblemática, vivida pelo filósofo e teólogo Rubem Alves.¹ Naturalmente, é um caso isolado, mas vale a pena refletir sobre ele.

Conta ele que estava com sua filha de 7 anos assistindo ao filme “ET – O extraterrestre”, de Spielberg. Na sequência final, quando o simpático alienígena está se despedindo de seus amiguinhos, ele notou a filha em prantos, um choro silencioso e pungente. Reparou que também ele estava com os olhos lacrimejados. Na volta para casa, vendo a menina calada e entristecida, tentou animá-la: - Veja como o céu está estrelado, para qual estrela o ET terá voltado? Como resposta, silêncio.

Mais tarde, percebendo a filha ainda calada, com a fisionomia séria, fechada, tentou descontrair: - Filha, vamos dar uma volta para ver se encontramos o ET? Desta vez, a menina respondeu: – Pare com isso, papai, ETs não existem.
– Ah não? Então porque você chorou tanto ontem à noite? [referindo-se ao filme]
A resposta da garota foi de uma simplicidade irretocável.

- Você não entende papai, chorei justamente porque ETs não existem.

______________________

 ¹ MORAIS, Regis de. As Razões do Mito. Papirus, 1988.


sábado, 1 de outubro de 2016


  Compare, reflita, escolha: fantasia ou realidade

Na noite de lançamento de Naus, um amigo que não via há muito apareceu por lá, mais pela amizade que pelo interesse no tema. A certa hora, ele me perguntou se valeu a pena dedicar tantos anos a um assunto que agora eu 'não acreditava' mais: - Não foi perda de tempo? Dúvida natural, a amizade é relativamente recente e o que ele sabe do assunto vem da imprensa, ou seja, nada. Me pergunto se outros não querem fazer o mesmo questionamento.

No final dos anos 70 realmente senti vontade de parar com o estudo; havia poucos eventos e poucos amigos que pudessem conversar seriamente. O assunto sempre foi motivo de piada, deboche, escárnio, uma situação incômoda e constrangedora. Me afastei por alguns meses até que um congresso em São Paulo me animou e me trouxe de volta à cena. Fiz novos amigos, a coisa engrenou e decidi assumir o desafio de pesquisar com seriedade e acabar com as chacotas, exercendo e aprimorando o espírito crítico.

No início dos anos 90, com mais rodagem e por isso mesmo mais decepcionado, resolvi me afastar em definitivo das pesquisas de campo. Passei a observar à distância o canto da sereia e percebi que poderia prosseguir desde que mudasse meu foco e tomasse outra direção, que aliás já vinha mesmo se desenhando. A partir daí você conhece a história. Quanto a "não acreditar no assunto", a questão foi mal formulada, mas entendi o sentido: "assunto" queria dizer "disco voador".

Então, vem comigo.

Não se trata de acreditar ou não acreditar, mas de saber o que pesquisar e como. Em si mesma a Ufologia não tem nada para ser estudado - nada! - daí parte da minha decepção. Pegando um chiste bem popular, "se murar vira hospício, se cobrir vira circo", e realmente, se não tomar certas precauções, o risco de insanidade é alto e prognostica um potencial estado demencial. Há tempos adjetivamos a ufologia como a nau dos insensatos, um manicômio a céu aberto. Uma nação de patetas.

Entenda, de uma vez por todas: Ufologia não é matéria de nada, não é ciência, não é doutrina, não é religião, não é seita, é um sofisma barato que ainda funciona, fazedo dela o que lhes convém fazer em proveito próprio. Um hobby, passatempo de fim de semana, papo de boteco, embora alguns aufiram lucros de modo um tanto suspeito. Por extensão, ufólogo também não é profissão, não está na academia, mão tem sindicato, carteirinha ou diploma e não paga imposto; mesmo não tendo o objeto da pesquisa, está tão viciado e tão empostado pelo habitus do 'ofício' que já nem sabe mais o que está fazendo lá, sem se constranger nem enrubescer com a exposição pública de sua mais absoluta inutilidade. Mas, se não atuar nesse palco, continuará um obscuro professor, um reles bancário, um funcionário público mediano e descartável. Em outras palavras, ele precisa que alguém chancele seu 'status' de ufólogo como atestado sua existência social.

Fato é que a Ufologia não passa de um festival de absurdos, um mercado persa de relatos delirantes, uma mixórdia de teorias fantasiosas, ideias esdrúxulas e devaneios, sem contar as sandices, as paranoias, as cretinices, a psicopatia, o charlatanismo e a pajelança. Um verdadeiro circo de horrores.

Sim, valeu a pena, não foi perda de tempo, aprendi e ainda aprendo, e o mais legal, compartilho com você esse conhecimento, sempre renovado, consciente e comprometido com tal responsabilidade. Por isso, acho também que vale a pena você ficar por aqui. Por quê? Porque aqui as palavras têm peso, não são como fumarolas ao vento, você não é enganado e não tropeça em banalidades. Sua inteligência não é espancada nem traída nem subtraída. Aqui não tem embromação, a realidade é dissecada a sangue frio. Aqui você não é doutrinado por um sacerdócio de ideologias metafísicas porque este espaço é consagrado à razão, onde a irracionalidade é abatida em pleno voo pela artilharia da lógica. Aqui você tem um corpo robusto de saber proveniente de fontes confiáveis, que premia uma informação de conteúdo. Aqui, a reflexão é o motor e a discussão vai além da superfície. Enfim, aqui você é tratado com respeito. Compare, reflita e escolha o caminho. Se estiver em dúvida, pergunte ao gato de Alice. 


sábado, 24 de setembro de 2016


Olá, tem alguém aí?

A bola da vez (literalmente uma bola) é uma das luas de Júpiter, Europa, que há décadas intriga astrônomos, cientistas e astrobiólogos, pelas conjecturas de que sob sua crosta gelada haveria água líquida em extensões oceânicas. Suspeitas confirmadas, o mundo científico vive um frissonatrás de mais informações.

Nesta segunda (26), a NASA deverá divulgar suas observações sobre uma "atividade surpreendente" naquele astro. O que poderia ser? É prematuro fazer qualquer tipo de afirmação porque tudo se move no terreno escorregadiço da especulação. Até aí, tudo bem, ruim é quando o assunto descamba para fantasias e delírios, que irrompem com muita frequência entre os apressados e excitadinhos leigos. Por que digo isso? Porque o senso comum ingenuamente associa vida extraterrestre com vida extraterrestre inteligente, um erro crasso. E estou falando também dos que, em notícias dessa natureza, defendem que os alienígenas estão mais perto do que supomos, coisas do tipo "o contato está próximo". Aí já não é ingenuidade, é ignorância mesmo.

A provável presença desse oceano subsuperficial não implica necessariamente existência de vida, até porque não se sabe ainda qual a composição destas águas. As expectativas mais otimistas projetam uma missão exploratória mais detalhada para o decorrer da próxima década, o que considero difícil. Entendo que serão necessários muitos anos para que surjam dados seguros e confiáveis. De qualquer modo, é um fato muito significativo para a ciência, e só para ela.

Tenho falado muito disso aqui e nos livros, e volto a fazê-lo. A Ciência está sempre revendo e atualizando seus achados até que, pela extensão das pesquisas, sejam definitivamente consolidados como verdades científicas. As informações atuais dão conta de que num raio de 200 anos-luz não há qualquer sinal de vida - essa que conhecemos, mas nada impede que uma outra forma possa vingar. O problema está em descobrir que tipo de vida seria essa, uma tarefa dificílima, arriscaria dizer, impossível. Nos mares interiores de Europa pode haver vida sim, provavelmente ainda em estágio de microrganismos unicelulares, extremófilos¹, estromatólitos² e outros. E...? A rigor, nada de novo sob o sol.

Em 2010 houve a descoberta de uma bactéria batizado GFAJ-1 que, para sobreviver, precisa absorver arsênio, elemento altamente letal. O microrganismo foi localizado em um lago da Califórnia hipersalino e com elevada concentração daquele elemento. O fato sinaliza a possibilidade de que a vida no cosmo possa ter se reproduzido, mas ainda carece de comprovação. Ela pode estar a caminho. Talvez o que surpreenda mesmo seja não haver nada de revelador nos mares europeanos.

A todo momento surgem notícias da descoberta de "planetas-gêmeos" da Terra, como o Kepler-452b em 2015, ou de astros "potencialmente habitáveis". O homem não consegue, não quer e não pode se desapegar da ideia renascentista da pluralidade de mundos habitados. Cada foguete lançado ao espaço é uma garrafa mensageira vagando errática no oceano cósmico: Oi, tem alguém aí? Cada ruído estranho captado pelos poderosos radiotelescópios pode soar como sinfonia vinda de emissários distantes. Cada planeta que mostre alguma semelhança com o nosso é um sopro de esperança - utópica e melancólica - de um auspicioso porvir para a humanidade. É a expressão subjetiva do desejo obsessivo por companhia cósmica. Já discuti filosoficamente sobre isso aqui mesmo, mas a verdade é que o conceito "Terra rara, vida rara" pode prevalecer por muito tempo na vida científica.

¹ microrganismo que sobrevive em ambientes inóspitos e condições totalmente adversas.
² estrutura fóssil formada pela sedimentação em camadas de cianobactérias.
_______________

sábado, 17 de setembro de 2016


  Não se muda o passado, mas se aprende com ele


Abro o texto de hoje inspirado no avô dos meus filhos, nosso querido e saudoso 'vô Tito'. Caprichando no sotaque espanhol, dizia ele que No satisfechos con nuestros errrores, los ampliámos y los transmitimos a nuestros hijos. Sábias palavras. De fato, se não praticarmos a autocrítica, se não reconhecermos nossas falhas e não cumprirmos com ética nossos atos, estaremos condenados a repetir os mesmos erros, e pior, deixar às gerações futuras um saber equivocado e cada vez mais ditante de uma ortopedia corretiva.

Já disse aqui mesmo várias vezes que a história tem sido passada a limpo em todos os níveis, mas só a Ufologia não percebe, ou não quer perceber. No post passado, quando o cientista Jacques Vallée foi taxativo ao declarar que todas as tentativas de explicação do fenômeno fracassam seguidamente, e que é preciso abandonar o conceito de 'naves extraterrestres', não se pode admitir que a Ufologia seja exceção. Em seu recente livro, Wonders in the Sky, ele faz uma reinterpretação dos registros da antiguidade pela ótica da da ciência.

Foram mais de 500 casos analisados sob o olhar da isenção, e muito pouco permaneceu inexplicado. Suas considerações pedem uma reflexão: "Ao longo da história, fenômenos desconhecidos descritos como prodígios ou maravilhas celestes causaram um grande impacto nos sentidos e na imaginação dos indivíduos que os testemunharam. Cada época tem interpretado os fenômenos em seus próprios termos, muitas vezes em um contexto religioso ou político específico. As pessoas têm projetada a sua visão de mudo, seus medos, fantasias e esperanças naquilo que veem no céu, e o fazem até hoje. Embora muitos detalhes destes eventos tenham sido esquecidos ou jogados para baixo do tapete da história, a sua presença moldou a civilização humana em muitos aspectos importantes. As lições tiradas destes casos antigos podem ser aplicadas de modo útil para a ampla gama de fenômenos aéreos que ainda  e permanecem inexplicados pela ciência contemporânea. Como sempre, o itálico é meu.

Vallée conclui o comentário afirmando que "Mesmo que não queiramos admitir, tanto a história como a cultura são influenciadas por estes acontecimentos extraordinários. As histórias sobre criaturas estranhas sempre nos influenciaram de maneira imprevista. A nossa visão de mundo é uma fusão dos mitos antigos em nosso cotidiano e de novos mitos que pegamos ao longo do caminho.," Nessa linha, julgo pertinente a palavra do historiador Mircea Eliade: "O que primeiro nos chama atenção nas mitologias e folclore do 'vôo mágico' é o seu arcaísmo e a sua difusão universal.  Pode inserir aqui o tema da 'fuga mágica' entre os mais antigos motivos folclóricos; encontramo-lo por todos os lados e nos estratos mais arcaicos da cultura."

Por fim, Vallée coloca o dedo na ferida: "As lições do passado  muitas vezes são esquecidas. Um exame de cultos contemporâneos do século 20 centrados na crença em visitas extraterrestres mostra que o público moderno ainda é suscetível em acreditar nos incidentes Óvni. Mesmo nos primeiros anos deste século 21, observa-se um processo contínuo através do qual os mitos da humanidade seguem importantes como realidades sociais e políticas. Somos testemunhas e vítimas desse processo

Você tem lido muito aqui nessa mesma linha, portanto não serei repetitivo. A proposta de Vallée é pegar todos os dados que temos e levá-los aos especialistas em cada campo da ciência, cabendo a eles investigar de maneira a obter resultados consistentes e em bases científicas. Ora, se o cientista não vem a nós, vamos a eles. Pois Naus fez isso, juntou todo o inventário ufológico, botou o colo dos senhores doutores dizendo "- Expliquem!" E não é que os danados deram conta do recado? Se você ainda não leu - e recomendo que faça - prepare-se, vai exigir um esforço de compreensão, o que poderá surpreendê-lo. Talvez você não concorde com tudo que está lá, mas haverá de reconhecer que não se brincou de fazer ciência.

Não sou cientista nem especialista em coisa alguma, mas segui a bula de como praticar pesquisa séria, fazendo o que a ciência faz: estabelecer nexos de causalidade entre fenômenos, buscar a síntese (grego syn thénai - colocar junto), encontrar as conexões, o encadeamento, as correspondências.a. A ciência não é contemplativa nem divagante, não espera que as respostas caiam do céu ou brotem do chão. Ela impõe pensar, pensar e pensar, e se não for o bastante, pensar mais um pouco. É preferível ser escravo da dúvida a refém da ignorância. No primeiro caso, você tem as ferramentas para se livrar dela, no segundo, é prisioneiro cativo, no limite da estupidez.

Este tem sido meu trabalho e assim fiz em Naus. Não é continente da Ufologia ou o da Ciência que mais importa, é a ponte que se estende entre ambos Isso é fundamental você compreender: a resposta está - ou pode estar - nela, na ponte. Tenha isso em mente quando for ler o livro. Na próxima semana eu trarei mais argumentos para ajudar nas tuas reflexões.

______________

Vallée, Jacques & Aubeck, Chris. Wonders in trhe Sky, Penguin, 2010.
Eliade, Mircea. Mitos, Sonhos e Mistérios. Edições 70, 2000.
http://www.etseetc.com/2016/08/palestra-de-jacques-vallee-legendada-uma-aula-de-ufologia-seria/

sábado, 10 de setembro de 2016


Um encontro improvável , um diálogo possível


O encontro mostrado nessa foto nunca aconteceu, é uma montagem artística meramente ilustrativa, mas alguém irá dizer que é um "desejo inconsciente" meu. Errado, é consciente mesmo, gostaria de um dia trocar ideias com este badalado pesquisador franco-americano, o cientista Jacques Vallée. O mais próximo que cheguei foi coordenar uma entrevista para uma revista brasileira especializada em ufologia.1

Por que trazê-lo aqui? E para quê? Primeiro, porque Vallée ainda é considerado um pesquisador de respeito dentro da comunidade ufológica, e um pensador atuante, sempre disposto a explorar novas possibilidades que satisfaçam sua inquieta curiosidade científica. Segundo, para mostrar que essa inquietude é a seiva inesgotável que conduz ao igualmente inesgotável saber. Qualquer semelhança entre nossas atitudes e pensamentos, nessa esfera, pode até ser mera coincidência, mas é também produto de mentes inquisidoras em permanente ebulição.

Naquela entrevista, quando indagado sobre seu afastamento da Ufologia, disse que ele se deu apenas das discussões públicas "porque o campo tornou-se tão confuso com ramos de ideologias conflitantes, que qualquer coisa que eu dissesse como cientista se perderia na 'confusão'." Disse também que muitos pesquisadores "seguem a mesma estratégia de trabalhar em silêncio, longe das controvérsias da mídia". E finaliza: "o quadro que continua a emergir é o de um fenômeno muito forte, que combina parâmetros físicos com efeitos psicológicos e psíquicos muito interessantes."

Vallée prega a necessidade de se manter a mente aberta perante um problema de tal magnitude: "A Ciência está baseada em medidas. O desafio é determinar qual medida é significativa e qual não é. Ao mesmo tempo, é saudável explorar novas hipóteses. Após 50 anos [referindo-se ao início da "era moderna"- 1947], é óbvio que as explicações simples para o fenômeno falharam todas." E sua fala sobe o tom quando assinala que "nós temos que amadurecer e abandonar o conceito de espaçonaves como era visto nos filmes de ficção científica de 1950" (o destaque é para chamar enfaticamente sua atenção). Seu discurso só não repercute mais porque a indigência mental dentro da ufologia é assustadora.

Pouco mais de uma década se passou desde então e, mesmo recluso, não deixou de lado suas pesquisas e reflexões. Em entrevista recente, ele reforça que a responsabilidade do estudo compete à comunidade científica, com desapego e isenção: "Deve haver um esforço concentrado, sóbrio, estruturado, com ampla participação das partes interessadas. Precisamos levar os dados que temos aos especialistas, para que possam trabalhar e obter resultados mais consistentes. A ciência só funciona e só avança quando há debate e diferença de interpretação". Você já leu algo parecido aqui mesmo.

Vallée relata os rumos do estudo que o consumiu por 12 anos no livro Wonders in the Sky (reeditado a cores em 2016): uma retrospectiva crítica de documentos, registros, arte e textos antigos, sugerindo que a presença do fenômeno remontaria a tempos imemoriais. Perguntei a mim mesmo, ressabiado: Däniken à francesa? Não exatamente, mas um estudo comparativo entre e os 'prodígios celestes' do passado e as observações contemporâneas.

Nessa obra, Vallée faz uma releitura de seu Passport to Magonia - em que analisa o fenômeno no âmbito social e cultural -, analisando os casos de ontem considerados inexplicáveis, pelas lentes interpretativas dos contextos de cada um pelo crivo da ciência e do saber acumulado. Para muitos desses casos, as explicações são naturais, enquanto outros - uma porcentagem irrisória - permanecem em aberto. Mesmo sem respostas e sem conclusões, mas também sem frustrações, Vallée segue estudando: "Nós acreditamos que é apenas o começo, e isso é fascinante".

Vallée e eu nunca nos encontramos, nunca conversamos, apesar de ele ter estado no Brasil diversas vezes. Trocamos curtos e-mails em 2009 e 2011. Acompanho seu trabalho quando algum bom amigo me notifica de algo novo na praça. Sinto-me afinado com sua forma de pensar, seu olhar crítico e discernimento, o que não me impede de divergir em várias questões relevantes. Nosso trabalho conversa de algum modo, andam juntos, e ainda que seguindo rotas paralelas de mesmo sentido, lá longe, lá na linha do horizonte, eles parecem se encontrar. Tomara. 

Para manter ou despertar seu interesse, mas sobretudo para trazer dados às suas reflexões, no próximo post pinçarei alguns comentários extraídos de seu livro, e trechos de outras obras pertinentes às "maravilhas no céu" que tanto fascinaram os antigos. Discos voadores? A conclusão é sua.

______________

¹ Revista UFO, nº 100, jungo 2004.
Vallée, Jacques & Aubeck, Chris, Wonders in the Sky, Penguim, 2009.
https://lvsitania.wordpress.com/2010/10/28/sleuths-estudam-ovnis-na-antiguidade/
http://www.etseetc.com/2016/08/palestra-de-jacques-vallee-legendada-uma-aula-de-ufologia-seria/





sábado, 3 de setembro de 2016

A hermenêutica desconstrói. O saber reconstrói



Como dito na postagem anterior, uma vez tomada a decisão irreversível de trilhar novos caminhos com um panorama bem mais largo, iniciei a década de 1990 bebendo em outras fontes. As pesquisas de campo e as contendas interpessoais foram para o escaninho do passado, oferecendo farto material de estudo. Tirei um período sabático para me livrar do ranço e da pasmaceira que impregnavam a atmosfera.

Foi um recomeço altamente produtivo e de sólidas perspectivas. O espectro do estudo cresceu de modo geométrico, gerando uma avalanche de conhecimento. Um elenco de notáveis pensadores surge de todos os lados. Livros, aulas, conferências, artigos, ensaios, nada escapa ao radar panóptico permanentemente ligado. Com boa experiência prática e um novo arsenal de informação, só faltava dar forma ao conteúdo. Não falta mais, aí estão as obras que se anunciam neste blog.

Diante desse novo quadro, não foi difícil constatar que o fenômeno só poderia ser melhor avaliado se "fatiado", atomizado, desconstruído, para observar seus elementos separadamente. Que ligação teriam entre si - se é que teriam - e como poderiam operar em conjunto - se é que poderiam. Não podem. É como um quebra-cabeça de peças distintas não conectáveis. É a hermenêutica que leva nossa razão a desvestir os trapos rotos da 'velha' ufologia. Mas só ela não basta, é necessário fazer também o caminho inverso.

O passo seguinte foi recompor a dinâmica do fenômeno a partir dos saberes até então adquiridos. Tarefa complexa e delicada,  porém de prazer incomparável. O que surge é uma estrutura de base segura, de elementos sinérgicos e conexões fortes, e, mais importante, com centro de gravidade firme. Não tem como desmoronar. Trata-se de um corpo sólido de argumentos que dá outra configuração ao estudo. São questões polares - o disco passa de protagonista a coadjuvante, troca de lugar com o sujeito, ou. Dá-se uma guinada de 180° no foco da discussão, vai-se da água ao vinho - do insípido ao inebriante.

Toda essa mudança ensejou uma nova caminhada. Se alguém vem nessa mesma estrada, não aparece no retrovisor. Tenho ânimo para uma longa jornada, sigo a rota traçada que indica ser esse o caminho. Não tenho pressa de chegar seja lá onde for,. Como dizia Sêneca, não há vento a favor para quem não sabe a que porto chegar. Quem não segue essa máxima terá um grande problema pela frente, plural e hiperbólico. Onde está o problema?

O problema está na volatilidade das relações, na vulnerabilidade das palavras, na mediocridade das ações, na extinção das fronteiras, na irresponsabilidade do indivíduo, na voracidade e ferocidade do mundo, na transitoriedade dos valores, na precariedade do cogito, na falta de ética, na ausência de reflexão. Na liquidez do mundo, enfim. Para quem ainda não entendeu a coisa, sugiro olhar pela janela ou dar uma voltinha na praça.

Penso que você compreendeu que mudar foi um imperativo categórico, uma questão de atitude. A Ufologia do século passado, essa que acontece por aí, não faz mais sentido, caducou, não traz nenhum saber sobre o que supõe estudar. Em contrapartida, veja só, escancara as portas para conhecermos justamente o que mais ignora o tempo todo - o ser humano. As lições estão aí para quem quiser aprender. Os livros estão aí para quem souber ler. A boa dicção está aí para quem tem bons ouvidos.


segunda-feira, 29 de agosto de 2016


O Labirinto Humano - o "xis" da questão



Ao visitar meu irmão há quase um ano, em Portugal, num dado momento da esperada reunião familiar regada a muita pizza e vinho, o assunto girou em torno do meu posicionamento frente ao “disco voador”. A conversa atiçou a chama da curiosidade quando fui questionado por ter mudado radicalmente de opinião em tão pouco tempo. Explico: como ele não acompanhou minha trajetória de pesquisa ao longo dos anos, surpreendeu-se me ver contradizendo tudo aquilo em que acreditava antes. Esse "pouco tempo", na verdade, corresponde a pouco mais de 30 anos, desde quando ele mudou-se para aquele país. Esse hiato temporal ficou eclipsado no reencontro e o passado tornou-se um mero "ontem". 

A explicação dada naquela noite cabe agora àqueles que talvez também pensem da mesma forma, e quem sabe ainda possa servir de modelo de conduta aos mais novos. Longe de fazer uma autobiografia, vou apenas pontuar o que considero relevante para a questão.

A primeira década - 1971-80 - foi investida em leitura e aprendizado, assistir congressos e seminários, fazer amigos no meio e conversar com pesquisadores. Como todo jovem interessado, acreditava que os discos pudessem de fato existir porque tudo me levava a crer nisso. Na década seguinte, entrei de corpo e alma já como ufólogo atuante, passando a ver e viver de perto o ambiente e os bastidores da pesquisa ufológica. Estando dentro da coisa, imaginei que encontraria as respostas que procurava, mas me enganei. Foi quando percebi que “pesquisa” não se justificava nem no nome. Fui tomado por um desconfortável sentimento de decepção e frustração.

O que houve? Não havia, como nunca houve, método, rigor, isenção, autocrítica, reflexão, discernimento, disciplina, ponderação, conhecimento do objeto de estudo, e tal não poderia haver! O objeto do estudo não existe! Como pesquisar algo se não tenho esse algo para pesquisar? Como investigar aquilo de que não tenho a menor ideia do que é? Se esse algo só se entrou em cena porque alguém o viu manifestar-se, é evidente que esse alguém passe a ser o objeto primário da pesquisa! Para mim passou a ser a prioridade da pesquisa, e isso mudou todo o cenário de fundo.

Em grande medida, a inépcia e a imperícia dos ufólogos são de tal ordem que tipificam muito mais uma caricatura de pesquisa do que um procedimento cuidadoso conduzido por pessoas habilitadas. As exceções que realmente  pensam o fenômeno cabem num elevador. Além disso, entendi também que, desde o início, eu estava lá não para provar a existência dos objetos ou para confirmar minhas crenças, mas para conhecer, investigar e esclarecer os fatos à luz da razão e de um conhecimento de base científica. É claro que cometi erros porque aceitei as regras do jogo, mas logo que me dei conta dessa irreflexão coletiva, tirei meu barco desse rio, que se mostrava inavegável.

Quando me tornei articulista da revista Planeta naquele período (1980-90), usei o espaço para expressar minha justa preocupação, com matérias do tipo “Fraudes, misticóides, depoimentos imprecisos: obstáculos para um estudo mais preciso”¹; “Testemunhos ufológicos: o fator básico”²; em outra mídia,  contundência: “Um pouco mais de seriedade, por favor!"³, e assim por diante. Era o meu cartão de visita.

Martelando nessa tecla, percebi que estava pregando no deserto e angariando desafetos, porque meu discurso contrariava conveniências, vantagens e interesses alheios. Diante disso, e por me sentir andando em círculos, portanto, sem novos horizontes,  decidi sair do circuito para ir mais fundo na questão. Um vastíssimo campo se abriu. O turning point foi marcado com a publicação da Planeta Especial Ovnis4 no ocaso daquele período, escrita integralmente em parceria com Lúcio Manfredi. Foram 20 anos de gradual amadurecimento, pacientemente lapidado a custa de muita reflexão e genuíno desejo de saber. Era a transição entre um modelo fracassado de entender o fenômeno e a aposta segura em outra via de acesso a ele. Os desdobramentos e o resultado dessa mudança nos anos seguintes você saberá na próxima semana.




Planeta Ufologia 115-A, abril  1982.
Planeta Ufologia 143-B, dezembro  1984.
Realidade Fantástica, Agosto 1983.
Planeta Especial Ovnis, junho 1989.

sábado, 20 de agosto de 2016

...e a Nau lançou-se ao oceano do conhecimento


Peço licença para fugir do tema habitual deste blog, porque quero compartilhar com você um pouco dos momentos agradáveis desta sexta, 19, quando do lançamento de Naus da Ilusão. Foi uma boa oportunidade para rever alguns amigos, no acolhedor ambiente do Museu do Crédito Real, localizado na região central da cidade.

O Museu do Crédito Real abriga parte importante do acervo da República


A boa cobertura da imprensa atraiu pessoas interessadas em em debater o tema, conversar com o autor, trocar ideias, expor suas opiniões e confrontar  suas crenças.

A Dra.  Rita Dornellas recebe dedicatória do autor.

O autor ladeado pelos amigos Prof. Emerson Sena da Silveira, autor do prefácio, e Prof. Matheus Carvalho.


Conversar com o historiador Rômulo Marcos é aprender o tempo todo.



O jornalista Renato Dias recebido por Reis e sua mulher Izaura Rocha




Um Vin d'honoeur deu um toque descontraído ao ambiente, proporcionando horas de boa conversa.


Por fim, torno público um agradecimento especial ao Prof. Roberto Dilly, Diretor do Museu, que de forma muito gentil e generosa disponibilizou o Salão Nobre e outras dependências da instituição. para que o evento se realizasse com pleno sucesso. Agradeço também convidados que deram o prazer de sua companhia, e também aos que, impossibilitados de comparecer pelos mais diversos motivos, tiveram a preocupação e a delicadeza de comunicar sua ausência com mensagens de carinho e apoio. Aos que levaram a obra, meu sincero desejo de que ela possa surpreendê-los.






sábado, 13 de agosto de 2016


O extraterrestre no divã. Nem Freud explica


Imagine a cena, hoje. Freud em seu gabinete tomando notas no tablet enquanto aguarda o próximo paciente. De repente, uma criaturinha cabeçuda e esverdeada abre suavemente a janela da sala e diz, em perfeito alemão: "- Com licença, Dr. Freud, podemos conversar? Estou com um probleminha." Atônito, incrédulo, Freud titubeia, engasga, mas resolve atender seu inusitado visitante, afinal, é uma oportunidade única de aprendizado clínico.

- Sabe o que é 'seu' Freud, estou há tanto temo por aí, fui fotografado, fiz selfie, dei rasantes em aeroportos e bases militares, provoquei blackouts em cidades inteiras, muitos programaram encontros comigo, fui perseguido por aviões, deixei marcas no chão, cheguei até a sofrer um acidente...
- Hum hum.
- Peguei um monte de gente para conhecer meu planeta, algumas vezes à força, reconheço; dei voltas com elas em torno da Terra, conversamos, fizemos amizade, dei souvenirs. Uma de nossa gente até se envolveu com um brasileiro, mas acho que a coisa não rolou, não pintou clima, sei lá...
- Hum hum
- Doutor, já fizeram muitos filmes a meu respeito, virei celebridade, escreveram centenas de livros, blogs, todo dia tem congresso, seminário, palestra, seriados, programas, entrevistas e documentário na TV. Muita gente ganha dinheiro em meu nome. Mando mensagens telepáticas, psicografadas, espirituais, gravadas, viva voz, de tudo quanto é jeito. Dizem que fizeram autópsia em um dos nossos, mas sacho meio estranha essa história.
- !
- Li outro dia que são milhares de associações de pesquisa, centros, grupos privados e oficiais; artigos são escritos, teses, dissertações, ensaios acadêmicos, mas esses aí falam que eu não existo, que é coisa da cabeça das pessoas, que é tudo imaginação, fantasia... um apadrinhado seu andou dizendo que eu sou assim uma espécie de mito, coisa de arquétipo, inconsciente, não entendi direito...
- Eu sei de quem você está falando...
- Então, como estava dizendo, depois de tudo isso, muitos ainda não acreditam em mi, quer dizer, em nós. Não sei mais o que fazer, sinto que estou passando por uma profunda crise existencial, 'seu' Freud. Acho que estou à beira de um ataque de nervos. O que o senhor acha, tenho cura?
- Deveras interessante seu caso meu rapaz, sem dúvida, mas terei que consultar meus colegas, trocar ideias, rever a literatura, sabe como é... volte daqui a alguns anos-luz para uma nova sessão. Quem sabe eu possa te explicar.

Bem humorada na forma, esta breve ficção traz um interessante ponto para discussão. Para que servem os grupos de pesquisa, se o que dizem pesquisar não se deixa ser pesquisado? Outro dia um amigo informou que seu grupo completou um quarto de século de existência. Muitos outros igualmente comemoram suas efemérides. Sim e...? Que resultados concretos trouxeram? Nenhum, nada, zero, traço, nem fumaça fizeram. Esse amigo disse que seu grupo "estava sem atividade por falta de casuística ufológica". Emblemático, não? Não havendo disco voador na praça, pesquisar o quê? Nosso extraterrestre no divã deve estar mesmo com uma tremenda dor de cabeça. Ninguém o vê mesmo om todas aquelas peripécias.

É isso que venho tentando mostrar todos esses anos. É isso que as pessoas, e os ufólogos em particular, ainda não entenderam. O ufólogo não pesquisa o disco voador, ele apenas documenta quem alega ter visto um. Da mesma forma, o pesquisador do paranormal também não investiga o 'fantasma', mas o sujeito que diz tê-lo visto. Nenhum deles tem o objeto da pesquisa porque tal objeto não existe! Por que é tão difícil entender isso? A esmagadora maioria dos que participam dessas sociedades e centros de pesquisa é formada por crédulos e entusiastas, que estão lá para colecionar fotos de discos voadores como "prova definitiva" de sua existência. Se não houver fotos, casos ou "contatos", não terão o que fazer! Suas salas e ‘garagens’ ficarão às moscas. Não é incrível? 

E não vamos esquecer aqueles que estão convencidos de que os ETs não se mostram abertamente para "não causar pânico na população", ou porque "uma revelação dessas acabaria com as instituições religiosas" e coisas do tipo. Pela mesma razão, afirmam que governos e Vaticano sabem, mas escondem toda a verdade sobre eles. Devo informar que quem defende tal “teoria da conspiração” não faz a menor ideia do que está dizendo, vivendo num mundo de ilusão e da mais fantasiosa ficção. São eles que deveriam ir para o divã.

Agora, imagine se nos próximos anos a casuística minguar de vez, se os discos voadores nunca mais retornarem ao planeta, o que será desse pessoal? Sugestão: Que tal ler um pouco mais, estudar um pouco mais, pensar um pouco mais? Poucas coisas libertam tanto quanto o conhecimento, ele faz a diferença entre a vida e a morte, entre a ação e a paralisia, entre a autonomia e a servidão.

Já me perguntaram o que fazer para ser um ufólogo. Difícil responder. Se eu indicar seguir o caminho que fiz, levará anos para chegar aonde cheguei, e o que as pessoas querem é o prato pronto, tipo leia isto ou faça aquilo e você será um ufólogo. Não é assim que funciona, não há fórmulas nem regras, não é receita de bolo. Ler de tudo um pouco é fundamental, mas não suficiente. No ritmo alucinante em que vivemos, paciência e dedicação estão fora do mapa. Só funcionam se o objetivo é olímpico, e olhe lá.


Vejo a Ufologia com os dias contados, em franco declínio, ao menos essa que aí está: canhestra, paleolítica, paralítica, falaciosa, idiotizante, com elevado grau de demência. Exagero? Pois não é que um parlamentar siderado vindo sabe-se lá de que planeta apresentou uma proposta para regulamentar a "profissão" de ufólogo? É caso para psiquiatria. Sei que minhas palavras não surtirão nenhum efeito e se perderão no vazio. Sei que muitos darão de ombros e seguirão em frente, impassíveis. Sei, por fim, que nenhum grupo fechará suas portas porque são eles que precisam justificar sua existência, senão, quem notará que existem?