Obras

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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

CIVILIZARBÁRIE-3

No século 5 da era cristã, Santo Agostinho foi um dos primeiros a delinear nossa verdadeira identidade, inquieto que era quando tratava de compreender a condição humana. Não apenas ele é um legítimo representante do espírito de uma época em que se discutia a relação entre fé e razão, como também seu pensamento influenciou fortemente toda uma corrente de filósofos e humanistas sobre a Questio Dei, sendo considerado aquele que simboliza o nascimento da Era Medieval, plantando as sementes filosóficas da civilização ocidental. Santo Agostinho estava em busca da verdade e da luz espiritual. Para ele, o homem é um ser degenerado, perturbado e pecador em sua essência sendo confrontado desde o nascimento com as coisas desse mundo, mundo que é matéria de expiação, sofrimento e dor como fontes de angústia e desespero:
Nesta lamentável inquietação dos espíritos decaídos, que, despidos da veste de tua luz, manifestam as próprias trevas, mostras claramente a grandeza de tua criatura racional; na busca da felicidade, ela só se sacia com tua grandeza, onde encontra repouso – pois que ela não pode bastar-se a si própria. Porque tu, Senhor, iluminarás nossas trevas. De ti vêm nossas vestes de luz, e nossas trevas serão como o sol do meio-dia.
Antes dele, Sócrates já andava às voltas com a investigação acerca do homem, e reconhecia que, nada sabendo sobre si mesmo, não poderia avaliar a questão em toda a sua profundidade. Heráclito (540-470 a.C.) propunha a mutabilidade constante do homem, o que dificultava conhecer a sua natureza, mas é com Platão que o homem é colocado no centro da Filosofia. Depois de Santo Agostinho, poucos se dedicaram a esmiuçar nossas entranhas pela mesma ótica por estarem sob as leis da Igreja e dos preceitos da fé cristã. A questão entre fé e razão só voltaria ao debate com Santo Tomás de Aquino mil anos depois.

No início do século 16, quem toma a palavra é Niccolò Machiavelli. Sua consagrada obra ainda é objeto de estudos e interpretações na Academia por ser um tratado ímpar sobre o Poder, o que ele faz do homem e o que este faz daquele. Ademais, seu discurso disseca sem hipocrisia, cinismo ou ingenuidade o mundo como ele é e o homem como ele é. Por isso mesmo, um autor central para se entender, sem ilusões, as engrenagens que movem o planeta. Para este filósofo e historiador florentino, a maneira pela qual o homem conduz a política é espelho de sua natureza violenta, perversa e traiçoeira, porque o Poder, acima de qualquer outra coisa, assim o demonstra. Mesmo se dizendo cristão, Machiavelli não se ilude com a religião nem com o homem, para quem, sempre que possível, agirá segundo as fraquezas de seu espírito – covardia, dissimulação, crueldade, falsidade. Definitivamente, não estamos bem na foto.

Machiavelli não era o único a pensar dessa maneira, mas morar em Florença, berço do Renascimento e centro culturalmente efervescente, colaborou muito para propagar suas ideias. Ao comentar sua obra, o filósofo Maurice Merleau-Ponty assevera que “O realismo de Maquiavel¹ desmonta concepções clássicas de um homem virtuoso, e isso alterará os modos de compreensão do poder”. Um dos aspectos fundamentais da política é a aparência do ser, conforme afirma o autor florentino:
A natureza dos homens faz com que eles se maravilhem com o que veem, mesmo quando enganados, e geralmente o são, pois os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, pois todos podem ver, mas poucos são os que sabem sentir. (...) O vulgo é levado pelas aparências e pelos resultados dos fatos consumados, e o mundo é constituído pelo vulgo.
No século seguinte é o trabalho de Thomas Hobbes que sobressai nas discussões sobre o estado de  natureza, cuja  obra, Leviatã, torna-se um marco. Também ele segue a linha dos autores mencionados ao afirmar que o homem é “utilitarista, egoísta e interesseiro”, com predisposição para a explosão – o ser em sua “natureza bruta”,  sem lapidações sociais; cruel, possessivo, beligerante, age a ponto de matar em defesa de sua fé, muitas vezes com requintes de crueldade e sadismo.

O princípio do prazer faz o indivíduo desobedecer questões éticas e morais para atingir o pleno gozo de seus objetivos. Fato é que a busca do prazer está em rota de colisão com a realidade porque, quanto mais esse desejo aflora, mais diminui a capacidade de pensar, ponderar, deliberar. Para o homem, segundo Hobbes, pessoas e coisas têm o mesmo valor como meros instrumentos manipuláveis em benefício próprio. Jean-Jacques Rousseau dirá isso de forma diferente e com maior ardência ao comparar pessoas a bovinos: “Eis assim a espécie humana dividida em rebanhos de gado, cada qual com seu chefe a guardá-la a fim de a devorar”.

Devo ressaltar que foram levados em conta o ambiente histórico de cada autor, que certamente os influenciou na construção das ideias. Ocorre que tais obras são tão  densas, reformadoras  e inspiradoras, que se tornaram,  de certo modo,  fundadoras das Ciências Políticas e Sociais da nascente Era Moderna. A leitura hobbesiana nos põe a pensar que Leviatã, em última análise, somos nós e não apenas o Estado. Se o inferno são os outros, como dizia Sartre, então os outros somos nós também. O inferno somos todos, construindo uma civilização que, em algum momento, não se diferenciará mais da barbárie, será a civilizarbárie. Na próxima semana veremos a distância entre os homens de razão e a desrazão dos homens.


¹ Como critério pessoal, tenho adotado, para autores estrangeiros, a grafia do nome próprio no idioma natal,; no caso de citação ou obra publicada, mantenho como tiver sido empregado.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

QUEM HABITA A SUA PELE? - 2

Quando traçamos a linha do tempo da humanidade, verificamos que todas as tribos, clãs, sociedades e civilizações desenvolveram sua ciência, sua cultura e sua tecnologia próprias, estruturalmente semelhantes ao que se observa no mundo atual. A diferença está em nossa cultura revestida por uma finíssima pele de “modernidade”, que oculta a face primal instintiva de sobrevivência, dominação, força e medo, este como base das pulsões religiosas impregnadas na experiência humana.

Falar em eclipse da razão, dissensão a alteridade e autoverdade é insuficiente para abarcar toda a matéria, por isso é preciso tocar em alguns pontos capitais, ainda que brevemente. As grandes narrativas do passado deram lugar às micro narrativas, isto é, abandonaram-se os projetos de futuro, o ideário social e o comprometimento coletivo em nome de um imediatismo obsessivo e uma nova proposta individual de “verdade” – a autoverdade: O que se diz, o que se faz, defende e acredita é o texto final para promover a adesão grupal. Disso resulta a dissensão da alteridade, ou seja, o outro só me é útil se e enquanto alinhado com meus propósitos, se não, ignoro, desprezo ou elimino, metafórica ou literalmente.

O sujeito só ouve a si e quer que só a sua voz seja ouvida. Solipsismo compartilhado, lógica burra, monólogo de surdos. Temos aí a diluição dos princípios culturais, éticos e morais, a vida tratada como coisa, clivagem psíquica, distrato social, ruptura dos afetos, colapso da base educacional, eclipse da razão. Trata-se da retomada do estado de natureza do animal humano, de barbárie, enfim. “Todo processo civilizatório é também  um processo de barbárie”, assinala Walter Benjamin. Pergunto o inverso: Toda barbárie é também um processo de incivilidade? Claro que sim. Se o processo civilizatório é contínuo, a barbárie também é, portanto inevitável, e hoje muito mais midiática, muito mais expositiva e estarrecedora do que jamais foi, ainda que em contextos diferentes. Precisamos entender melhor seu pensamento, bastante atual.

Benjamin (1892-1940) foi um influente pensador alemão do início do século 20 com olhar bem pessimista sobre o futuro, com base nos aspectos políticos, históricos, econômicos e culturais da sociedade. Para ele, é preciso cortar o pavio antes que a faísca atinja a dinamite. No seu entender, a revolução tecnológica na virada do século 19 para o 20 modificou o papel da cultura de massa, dos meios de comunicação e da produção cultural, influenciando na percepção e na assimilação do público, gerando novas formas de mobilização social e contestação política. Percebeu a semelhança com a virada do 20 para o 21? Sua análise estava correta e continua valendo.

Segundo esse filósofo e ensaísta alemão, a tecnologia desenfreada e invasiva substitui as relações interpessoais, fazendo com que o sujeito perca a sensibilidade da experiência direta, autêntica, original. Esse declínio perceptiva torna-o incapaz de apreender as mudanças do ambiente, levando-o a um estado de nudez interior e impedimento da capacidade de comunicação. Tal pobreza da experiência tem consequências. Seu pensamento está aqui resumido ao máximo, pelas razões que você já sabe: 
Ele deseja libertar-se de toda experiência, aspira a um mundo em que possa assentar tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa resultar disso (...) Sim, é preferível confessar que essa pobreza não é mais privada, mas de toda a humanidade. Surge, assim, uma nova barbárie. 
Que estamos envolvidos por uma imagosfera asfixiante também não há nenhuma dúvida; a imagem tornou-se mais importante que o real, em qualquer circunstância. Vivemos um jogo de aparências onde imperam mentira, hipocrisia, falsidade, fake news, turbinadas pelas redes sociais em todas as plataformas numa multiconectividade avassaladora, um lugar simbólico de não pertencimento. Vários estudos apontam os danos dessa imersão desordenada no universo virtual mais real que o real: Desconstrução e reconstrução identitária, narcisismo compulsivo, fuga por inadaptação à realidade, hipervalorização progressiva do repertório imaginário, autocomiseração, imaturidade, covardia. Covardia moral neurótica, como diz Freud. Essa radiografia pode parecer, num primeiro olhar, devastadora de nossas melhores virtudes, quando é, de fato, retrato fiel, porque o exame crítico é e deve ser inelutavelmente rigoroso, imune a paixões, se quiser desvelar a face humana sem maquiagem. A pergunta-chave desta série, “Quem habita a sua pele?”, traz uma resposta irrefutavelmente assustadora: Há uma besta-fera enjaulada faminta por um pedaço de carne, que não a sua.

Ainda dentro do ambiente digital, a celeridade e elasticidade de informação geralmente sem filtro atropela a reflexão e a interpretação judiciosa dos fatos; Mark Bauerlein chama de “gratificação instantânea”, resultando na perda de contexto e historicidade, na atrofia de ideias e aporte contínuo de conflitos. Seu estudo é um recorte bastante sintonizado com os de países como Holanda, Dinamarca, China, Portugal, Espanha e Inglaterra, por exemplo, num total de 14 levantamentos independentes. É quase um consenso global.

Uma das conclusões apresentada nestes trabalhos é que a juventude de maneira geral, mas em especial a americana, perdeu totalmente o interesse pelos livros, pela literatura e pelo saber amplo; os estudos indicam ainda que esse decréscimo de inteligência começou a ser demarcado a partir dos últimos 40 anos, crescendo no início deste século, período em que a internet conquistou seu espaço. Não é mera coincidência. A correlação é inegável, segundo o consenso dos autores, que encontra eco nos trabalhos da neurocientista britânica Susan Greenfield, da Oxford University, para quem o admirável mundo novo digital está alterando significativamente e de forma inédita o nosso cérebro. Por óbvio, nossas atitudes, por óbvio, nossa auto-imagem. Aonde tudo isso nos leva? Semana que vem eu conto. Não perca o fio.

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BAUERLEIN, M. The Dumbest Generation. Tarcher/Penguin, 2017.
GRENFIELD, S. The Private Life of the Brain. Penguim, 2002.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

PÁSSAROS SOTURNOS

Por que subitamente essa inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam,
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
dizem que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros, o que será de nós?
Ah, eles eram uma solução . 
À espera dos bárbaros
Konstantinos Kaváfis (1863-1933)



Nota importante: Um leitor fez uma observação sobre a edição passada que cabe comentar. Assim como é mínima a distância entre fanatismo e loucura, é tênue também a linha que divide o fanatismo da farsa, da vigarice, da picaretagem, como ele disse. Tem razão, mas preferi não entrar nesse tópico, assim como não falar do fanático “da moda”, o sujeito que entra com volúpia na temática do momento sem ter noção do que está fazendo ali, pelas razões mais diversas, principalmente “aparecer” nas mídias, sentir-se no mundo já que, de outra forma, seria olimpicamente ignorado. Esse é o narcisismo extremado abrindo passagem a pontapés, literalmente. Pauta a caminho.


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Nas últimas três edições tratei do fanatismo em suas várias facetas, e o que você lerá agora e nas próximas semanas analisa a advertência feita por Morin – o temor da barbárie através dos seus operadores: dominação, conquista, fanatismo e intolerância. A literatura é farta, vem de longa data e aumenta à medida que se observam estas indesejáveis aves de maus presságios pairando ameaçadoramente sobre nós. Algumas já pousaram. Com elas, as distopias saem da ficção para o mundo real. O outro se torna um predador camaleônico e móvel que nos assombra a cada manhã. Não precisa ser um outro qualquer, desconhecido e distante, pode ser qualquer um – vizinho, porteiro, passageiro ao lado, amiga, policial, namorado, professor... A barbárie é a extrapolação do fanatismo, a irrupção explosiva e sangrenta da natureza humana crua.

Como você percebeu, vamos desviar do tema habitual porque trata-se de uma reflexão fundamental para se compreender um pouco melhor o momento que vivemos. Vamos falar do eclipse da razão, da dissensão da alteridade e autoverdade como versão contemporânea do estado de natureza. Como sempre, complexidade será a tônica. Recomendo enfaticamente que não disperse nem interrompa a leitura.

Pretendo mostrar da maneira mais clara possível que diversos fatores entrelaçados contribuem para criar um quadro de permanente tensão social, com contornos de uma barbárie em trânsito, através do ressurgimento do estado de natureza do homem. Quero mostrar também que os princípios religiosos estão sendo subvertidos para outras formas de crenças pessoais dessacralizadas, que assumem a função de guias morais individuais e coletivos com forte tônus extremista. A argumentação se constrói e se legitima pela literatura que vai da Antiguidade aos autores do nosso tempo, pela vivência pessoal e exame atento do cotidiano, local e global, produzindo uma crítica dura e sólida com inflexões densas acerca da “natureza bruta do animal humano”. 

O primeiro ponto é que essa “natureza bruta” se mantém viva e inalterada apesar do polimento cultural, social e científico que se produziu na espécie ao longo da história. Este estado de natureza o impede de ver a realidade como ela é, gerando, em decorrência, uma cizânia psíquica entre o real e o imaginário, entre verdade e ficção – vetores inconciliáveis do conflito existencial, da perda identitária e das pulsões de morte. O segundo [ponto] é mostrar que a única solução possível estaria na religião, sendo, ela mesma, porém, também uma ilusão. E, por fim, apontar as possíveis causas e os descaminhos pelos quais o homem decidiu trilhar. No cerne dessa experiência caótica os valores essenciais para a integridade constitutiva do ser estão lentamente se extinguindo: ética e moral. Então não há saída para essa tragédia anunciada? Saída há, mas não creio que será posta em prática, porque nunca foi.

Não há dúvidas de que o mundo passa por um dos períodos mais turbulentos já vividos desde a metade do século 20, com transformações profundas sem precedentes em velocidade e alcance. Política, economia, religião, ciência, arte, educação, cultura, justiça, esporte, tecnologia, relações humanas, comportamento, nada escapa ao abraço ardiloso dessa Quimera voraz insaciável. Pensadores, eruditos, filósofos, cientistas sociais, todos aglutinam o “mal-estar da civilização” de  Freud com a “sociedade do espetáculo” de Debord e os “tempos líquidos” de Bauman para compor um quadro amplo de investigação. Se a soma destes rótulos nos dá uma pista, então estamos dentro de uma sociedade emocional e intelectualmente desequilibrada, desajustada, doente, castrada dos ideais e utopias que um dia sonhou. Se antes o futuro era um farol iluminador, o presente se mostra um balé de sombras fugidias no fundo de uma nova caverna platônica.

Conhecemos (mesmo?) todos os efeitos colaterais desse estado de tensão em que nos metemos, e entender as causas exige um saber multiplicado e multiplicador. Apesar de vivermos uma notável era de avanço científico-tecnológico, com promessas de um futuro rico, temos uma contradição interna insolúvel: Continuamos visceralmente presos a uma mentalidade primitiva mítico-religiosa e ao pensamento mágico/místico ancestral de veneração ao sobrenatural. Não se trata da mentalidade primitiva dada pela psicologia de W. Bion, nem do pensamento selvagem trazido pela por Lévi-Strauss, mas da natureza humana inscrita nas Confissões de Santo Agostinho, nas sociologias d’O Príncipe de Machiavelli e nas páginas de Hobbes, Hume, Kant e Sartre, entre outros notáveis. Para entendê-los, ou ao menos absorver parte de suas ideias, sua mente precisa estar livre dos ranços e vícios com que a cultura popular nos condiciona permanentemente.


Para fechar esta primeira parte necessariamente introdutória e abrir caminho para as próximas, pense sobre o poema de Kaváfis. Se o outro pode tudo, eu também não posso? Sem ele, sei quem sou? Se nossas diferenças são tão iguais, quem é o bárbaro, aquele que deve ser excluído ou aquele que o quer excluir? E, para constar, bárbaro, do latim brabus, do grego bárbaros: Na Grécia antiga, bárbaro era o não grego, ou não helênico: o estrangeiro, estranho, de fora, que não fala a mesma língua, logo, o incivilizado, inculto, “invasor” não no sentido de conquistador, mas daquele que “invade nossa vida e nossos costumes”. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

FANATISMO DE PEDRA

Que o fanatismo fossiliza o ser nós já vimos, e também que pode ser diagnosticado como doença, e que em ambos os casos só o conhecimento “cura”. Pergunto: O fanático quer ser “curado”? Trocaria a pobre ração pelo banquete de saberes? Se disporia a remover o cabresto encilhado e explorar outras possibilidades? Pouco provável, o ele já foi contaminado pelo vírus do radicalismo. O fanatismo, sabemos também  – e como –, cega a razão, bloqueia o diálogo, dificulta as relações, desagrupa o sujeito da sociedade para reagrupá-lo em um microcosmo identitário. Há uma ínfima distância entre o fanatismo doente e a loucura, a psicopatia. É uma questão de tempo, não de espaço. Também sabemos em quais terrenos o fanatismo se propaga com força mortal: religião, política e esporte, e “mortal” não é figura de linguagem, a história tem nos mostrado isso com todas as dores, cores e odores. O fanatismo não tem freios para potencializar o irracional, como alerta o neurocientista Oliver Sacks:
Uma atmosfera profundamente supersticiosa e delusória também pode favorecer alucinações geradas por estados emocionais extremos, e essas alucinações podem afetar comunidades inteiras. (...) Temos descrições pormenorizadas de alucinações características desses dois estados — alucinações que, em alguns casos, assumiram proporções epidêmicas e foram atribuídas às artes do demônio ou seus lacaios, mas que hoje podemos interpretar como efeitos de sugestão ou até de tortura em sociedades nas quais a religião descambou para o fanatismo.  
Kant também se debruçou sobre a questão do fanatismo e sua proximidade com a loucura. Há um desvario mo modo de compreender certas ideias que produzem tais discursos - o metafísico, o místico, o fanático. Neles está o “desvairado” que se vale de conceitos sem qualquer significado efetivo que dizem respeito a objetos imaginários como se fossem reais. No primeiro caso está o sujeito inventivo com grande produção de fantasia graças à sua imaginação, mas de boa índole e dotes morais preservados. Já o fanatiker eleva aquele entusiasmo ao paroxismo com alto risco de perigo iminente. O o filósofo alemão procura explicar tal fato como um fenômeno da imaginação, uma perturbação no cérebro ou no sistema nervoso. Ele entende que tal explicação só pode se dar através do entendimento de seu significado nos seus diferentes contextos –religioso, científico, ético, etc., ou em termos médico-psiquiátricos como uma disfunção da própria natureza humana.
O problema da limitação do conhecimento ao campo dos objetos, segundo Kant, tem a função de evitar a loucura do pensamento. A razão, dentro do seu âmbito de conhecimento, muitas vezes se vê atormentada pelas questões que não pode resolver, explicar ou evitar impostas pela sua natureza, porque ultrapassam as suas possibilidades. Desse modo, adota obscuridades, contradições, erros e devaneios sem poder discerni-los, justamente por estarem além da experiência objetiva. O palco dessas incertezas chama-se metafísica, presunção da razão ou opinião ilusória. Kant assevera que só a crítica pode cortar pela raiz o fanatismo e a superstição, que se tornam nocivos e perigosos. O processo crítico tem a função terapêutica de expurgar os dogmatismos como desvarios ou discursos de loucura. Só lembrando que crítica, do grego kitikós , é cortar, separar, analisar, decidir, julgar..
Pelo olhar psicanalítico, todo fanatismo tem estreita relação com a fuga da realidade e precede à loucura se o fanático abdicar da sua inteligência, da sua moral e da sua ética. O problema da crença não é a crença em si, mas a inquestionabilidade do seu método, e o seu método está na “certeza” promulgada pelo discurso monológico repetitivo e doutrinário, como uma forma de reação recalcada no inconsciente.
Mesmo reconhecido como um distúrbio psíquico, o fanatismo tem o seu próprio sistema lógico, e quando esse sistema apresenta “mau funcionamento”, é sintoma que a Psiquiatria diagnosticará como loucura ou psicose. Freud, contudo, diz que aquilo que o psicótico paranoico vivencia na própria pele, o parafrênico o faz na pele do outro. Com isso, somos levados a pensar que o fanatismo está mais para a parafrenia (demência precoce, esquizofrenia) que para a paranoia:
Na produção de uma fantasia de desejos e alucinações, ele apresenta traços parafrênicos, enquanto que, na causa ativadora, no emprego do mecanismo da projeção, no desfecho, exibe um caráter paranoide. A análise das parafrenias, como sabemos, tornou necessária a inserção de um estádio de narcisismo, durante o qual a escolha de um objeto já se realizou, mas esse objeto coincide com o próprio ego do indivíduo.
Pudemos, assim, apresentar o fanatismo em suas três instâncias: como um cárcere mental que recolhe o sujeito à aridez do lugar, dando-lhe apenas uma fenda na parede por onde olhar a única paisagem de um mundo acanhado, circunscrito ao alcance de sua já estreia visão. A seguir, a infecção do estado psíquico com a invasão das quimeras e fantasias do imaginário que o fazem perder o contato com a realidade, ou seja, nem fenda mais existe. Por fim, o estágio final da sua ascensão delirante, irracional e ilusória na “certeza de uma missão divina” tutelada por entidades metafísicas para além da compreensão do homem, exceto a dele e de seus seguidores. É quando entramos no sombrio domínio das perturbações mentais – paranoia, loucura, parafrenia, esquizoidia e outras.
Penso que ficou clara a heteronomia do sujeito, isto é, sua completa subserviência a um poder externo obscuro, a incapacidade de reflexão crítica e desobediência a regras éticas, que resultam irresponsabilidade e conduta amoral. É da natureza humana: a razão inclina-se intrínseca e perigosamente para um estado próximo ao delírio, construindo doutrinas metafísicas e autoritárias de ordem delirante, sem sustentação racional e objetiva. Quanto mais o fanatizado se abastece de uma pretensa divindade, mais esvaziado de si mesmo. Quanto mais se curva ao sacerdote², menos ereto anda. Quanto mais pensa ser o centro do universo, mais à margem vive. Quanto mais crê elevar-se aos céus, mais próximo está do malebouge. Quanto mais poder julga possuir, mais esquálido é. Quanto mais se supõe na transcendência, mais doente se torna.
O tema fanatismo acaba aqui, porém, à medida que se agrava resulta consequências nefastas, projetando um rumo civilizatório de espectro assustador. O fanatismo é uma caldeira de alta pressão, passou do ponto, bum! O que virá nas próximas edições não se trata em absoluto de um argumentum ad metum – argumento do medo, “balada do terror” ou a sinfonia do apocalipse. Trata-se sim de um incisivo e cirúrgico exame crítico da realidade feito pelos mais seminais pensadores. Assunto gravíssimo, para gente adulta e corajosa, não chorona, e, de certa forma, também um alerta para as gerações que estão a caminho. 
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¹ Parafrenia: Termo que designa certas psicoses crônicas disruptivas como a paranoia, que implica o empobrecimento intelectual de evolução para a demência. Aproxima-se da esquizofrenia pelas construções delirantes com bases paranoicas. É uma expressão em desuso, restrita à Psiquiatria clássica. Freud acabou substituindo o termo pelas concepções de esquizofrenia.
² É significativo verificar que a função original do sacerdote era “oferecer as vítimas em sacrifício às divindades”! Do latim sacer – sagrado e dos, dotis – dotes, bens, doação, entrega.
Oliver Sacks: A Mente Assombrada Cia. das Letras. 2013.
Vários. Revista Filosófica de Coimbra. v. 19, nº 37, 2010.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

FANATISMO DOENTE

Mais uma vez, o post anterior também repercutiu, e não poderia ser diferente porque o problema é mais sério do que aparenta, e os leitores perceberam isso. O psiquiatra Fernando Neves, Professor do Departamento de Saúde Mental da Universidade Federal de Minas Gerais afirma que, de maneira geral, quando alguém defende fervorosamente um único argumento para sua crença, ele não admite outros pontos de vista, o que pode se tornar um hábito de vida a partir dos fundamentos que ela mesma cria, que nem fundamentos são. Para a psicóloga Ana Maria Franqueira, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, o sentimento exacerbado de fanatismo – que pode inclusive desconsiderar a própria família e amigos – é um distúrbio psicológico diagnosticado quando o sujeito age de acordo apenas com a emoção, em detrimento da razão.

O fanático não percebe que passou dos limites devido o composto irracional que prevalece: o radicalismo, como sinônimo de extremismo. Ainda de acordo com a especialista, esse é o traço psicológico que se desenvolve ao longo do tempo, possivelmente ligado a baixa autoestima, a ausência de identidade, imaturidade, insegurança, desequilíbrio emocional e solidão, o que o faz procurar e unir-se a grupos de mesma ideologia onde se fortalecem mutuamente.

Os estudos de  psicopatologia sobre o fanatismo crescem em escala planetária. A falta de uma crença raciocinada e da razão – maturidade psicológica – contribui para a instabilidade emocional e os estados psicopatológicos do fanatismo, que multiplicam-se fora de controle. O fanatismo traz em si um aspecto narcísico camuflado no ego, dificultando a convivência, a comunicação e as relações sociais. É importante ressaltar outro fator fundamental – a sedução – que, assim como toda crença, tem  sua matéria-prima na irracionalidade. A sedução tem um componente “mágico” que engana através de um jogo de aparências; do latim seductio, seducere – separar, por à parte, desviar – que preenche um vazio imediato e constrói, pelo imaginário, a sensação íntima de pertencimento no mundo. Separar o quê? Freud explica mais adiante.

A narrativa do fanatismo é unidirecional, dogmática, intolerante, agressiva, obsessiva, doutrinária e rígida, sobressaindo pelo sectarismo irredutível. O subterrâneo desse comportamento não esconde o substrato religioso impregnado no imaginário – a “doença religiosa”, viciante, disruptiva e destrutiva pelo excesso. Nesse sentido, voltando ao ponto que originou esta série, não exagerei ao dizer que aquele indivíduo pode, em algum momento, julgar-se  “eleito” pelos deuses astronautas com a missão de esclarecer a humanidade. Não seria o primeiro, não faltam elementos para isso e, conhecendo o histórico, bem provável acontecer. E a pergunta segue em aberto: É caso para tratamento psiquiátrico ou ação penal?

Para alguns especialistas, a função das experiências místicas  – e o contato/abdução é uma delas – é ajudar no exercício de uma construção identitária e de um estímulo existencial. Quaisquer que sejam os dogmas que orbitam na vida do indivíduo, são como um motor que o impulsiona a persistir em sua caminhada, e a gerenciar questões psicológicas através de “liturgias cerimoniais”. É o que parece ser no caso em análise –construção identitária – ufólogo; liturgias – palestras, artigos, fóruns; protagonismo – contatos, sequestros, mensagens, “missão”.

Atenção agora. De acordo com Freud, a psicose (o fanatismo é um desequilíbrio psíquico) encontra um modo de ser trabalhada através de instrumentos culturais como religião e arte. Esse movimento tem o objetivo de escapar de uma realidade insatisfatória em busca de um mundo mais agradável através da fantasia, podendo, assim, evitar entrar em contato com os processos psíquicos que causam sofrimento, e agir sobre práticas culturais aceitáveis. As questões sobre superstição e crença e suas funções psíquicas são recorrentes nos estudos freudianos e junguianos, entre outros. A expressão inaugurada por Freud  – sublimação – remete à ideia de que “uma atividade socialmente admissível [ufologia] possibilita ao sujeito [ufólogo] externar o seu âmago, caracterizando-o em ações culturais como música, pintura, arte, literatura, poesia, ou pela devoção a figuras sobrenaturais” (sublinhados e colchetes meus). 

O deslocamento dessa instância psíquica, normalmente inconsciente, é exposto através desse mecanismo que ajuda no processo de administração desses conteúdos. Embora Freud não cite, não parece fora de contexto incluir as liturgias referidas como parte da a atividade demiúrgica de certos atores.

A superstição, a crença, a fantasia, o delírio e o fanatismo podem ter ligação com o conceito de doença, quando analisadas pela ótica de uma determinada categoria. Como o sujeito organiza sua agenda a partir de atos relacionados aos dogmas que segue, denota certa estranheza quando convive em uma sociedade mais heterogênea. Sugiro acessar a série postada neste blog que traz os capítulos 5 e 6 da obra “O Futuro de uma Ilusão”, de Freud: Corpo de ilusões; O Espírito, a psique; Credo quia absurdum; Além da alma;  Em nome do Pai.

Jung ressalta que, “Devido ao seu parentesco com as coisas físicas, os arquétipos quase sempre se apresentam em forma de projeções, e quando estas são inconscientes, manifestam-se nas pessoas com quem se convive, subestimando ou sobre-estimando-as, provocando desentendimentos, discórdias, fanatismos e loucuras de todo tipo”. Autores representativos como MacKay e Le Bon, no século 19, categorizaram o “comportamento de manada” das massas como focos de frustração e loucura em larga escala. O fanatismo é a força ilusória dos fracos, e o único contra-ataque possível está no conhecimento. na formação e informação, no estudo, ponderação e senso crítico. Edgar Morin demonstra grande preocupação, que é nossa também: “A primeira forma de barbárie que nos ameaça é a da doutrinação, da conquista, do fanatismo e da intolerância”. Não é apenas uma opinião, é uma advertência. Estamos mais próximos disso do que se pensa. Falaremos disso em breve.

Como adendo, cabe mencionar que o fanático, nesse estágio de idolatria doentia pelo seu objeto de fascinação, fica vulnerável à ação de outros agentes externos de dependência como fármacos, drogas e álcool, por exemplo. Esses agentes produzem um efeito narcotizante que afeta o sistema nervoso central, inibe processos cognitivos lógicos, reforça o individualismo. Demais sintomas são alucinações, confusão espaço-temporal, estados delirantes e outros transtornos (psicose exotóxica); adicionalmente, encurtam a distância entre o sujeito e sua crença – o “ente sagrado”, amplificando os níveis de confiança, plenitude e prazer por essa pseudo proximidade, aliviando tensões e ansiedades, fazendo-o “esquecer” problemas, medos, frustrações e responsabilidades da vida prática, ainda que temporariamente por serem meros paliativos.

Na próxima e última parte da série, visitaremos o fanatismo fora dos padrões sociais aceitáveis em condutas que agridem não só a ética como põem em risco a integridade física dos cidadãos e a do próprio fanático. Neste ponto, a análise deixa de ser dos âmbitos da medicina, da antropologia e da sociologia para ser jurídica e criminal. O fanático passa a ser um perigo potencial para si e para a sociedade.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

FANATSMO PRISIONEIRO
Imagem: Zenith, bronze, 2010
               Matteo Pugliese

A postagem anterior –  A ópera dos corvos –  escrita com necessária acidez, trouxe comentários de consenso porque, de fato, o comportamento exacerbado de alguns espelha um fanatismo que ultrapassa os limites do razoável. É disso  que vamos falar – fanatismo, como quer que se manifeste – na política, na religião, no esporte. Trata-se de um tema complexo que vai além do campo das Ciências Sociais, exigindo leitura atenta e reflexão permanente. Ademais, é assunto muito atual nestes tempos estranhos de polarização acirrada, autoverdade, enfrentamento e esfacelamento da ética. O alvo de nossa crítica tem sido as crenças pertencentes ao universo do pensamento mágico e ficcional, 
quando no limiar da irracionalidade, o fanatismo: fantasmas, espíritos, anjos, deuses, crendices, superstições e extraterrestres.

Contudo, você sabe que neste blog não dá para aprofundar a discussão como seria desejável, operando mais como um candeeiro a alumiar caminhos, como sempre digo, ou plantar sementes aqui e acolá esperando que germinem em terras férteis. Então, dividi o tema em três partes de modo a proporcionar ao menos um ponto de partida para sua análise, longe de esgotar o assunto. Não ousaria ir além do que a minha experiência permite, recorrendo à literatura e aos conhecedores onde o meu saber esbarrou na ignorância. Espero que os amigos psicanalistas e psicólogos e de outras áreas que estejam lendo este artigo possam dar suas contribuições –  e correções –  se assim julgarem cabíveis.

O que me levou a abordar este tema teve sua origem no post referido, quando certo ufólogo, para sustentar e justificar suas crenças pessoais, decidiu envolver seus dois filhos, um deles adolescente, na tramoia mentirosa e abominável de se colocarem como vítimas de uma abdução alienígena. Sem dúvida, uma atitude que expõe seu caráter – ou a falta dele – desprezível, desregrado e comezinho. As semelhanças com os 
“mercadores de ilusão” não são coincidências. Como não sou da área médica nem jurídica, pergunto: Uma conduta dessa natureza não caracterizaria um grave transtorno mental ou um ato criminoso? Deixo a palavra com os especialistas.

Fanatismo vem do latim aefanum – templo, santuário, empregado a partir do século 18 para “indicar o estado de exaltação de quem se crê possuído por Deus e, portanto, imune ao erro e ao mal
” (Abbagnano:427). Logo, fanático expressa a convicção de quem fala em nome de um princípio absoluto, seja divindade, líder, poder, seita ou igreja, pretendendo que suas palavras também sejam absolutas. Fanático é traduzido como vigilante, guardião, serviçal, servo, lacaio, escravo do templo e, por extensão, das suas crenças. Estamos falando de um estado psíquico de devoção cega e inflexível que, em grande parte, flerta com o delírio, impossibilitando o diálogo. O fanático tem seu mundo próprio apartado da realidade.

No caso da Ufotopia, centro dessa conversa, seu arcabouço contém os princípios de uma religião embora não seja uma salvo casos muito específicos. Dito de outra forma, o fanático está absolutamente seguro de que suas ideias estão certas, são únicas, verdadeiras e indiscutíveis. Seu trabalho é convencer a qualquer custo aquele que não crê em sua verdade, em certa medida visto não como opositor, mas inimigo a ser (a)batido. O fanático acredita em qualquer mentira que reforce sua crença, e qualquer fala contrária, por mais racional e científica, será sempre hostilizada, devendo os descrentes ser combatidos ou eliminados como “solução final”. A mentira anda de mãos dadas com a crença falsa. 
O que o fanático não percebe é o quanto ele está fossilizado no tempo e no espaço, ajoelhado de costas para o mundo. Quem se posta de joelhos desconhece a própria estatura. 

Paradoxalmente, para mentir, o mentiroso conhece a verdade justamente para poder desmenti-la, invertê-la e distorcê-la. Diz Cassorla:

Defrontamo-nos com aspectos perversos, diferentes dos ingênuos e psicóticos, em que erros de percepção redundam em falsidades. O ingênuo acredita que o Sol gira em torno da Terra. O psicótico afirma que está sendo perseguido. Ambos não estão mentindo.

Quem induz deliberadamente seus filhos a cooptarem numa farsa, comete uma delinquência moral e ética condenável, revelando-se covarde, indecente, de espírito torpe e mente deformada. Veja o que diz Le Bon:

Os resíduos ancestrais formam a camada mais profunda e mais estável do caráter dos indivíduos e dos povos. É pelo seu “eu” ancestral que um inglês, um francês, um chinês, diferem tão profundamente. Mas, a esses remotos atavismos sobrepõem-se elementos suscitados pelo meio social (casta, classe, profissão, etc.), pela educação e ainda por muitas outras influências. Eles imprimem à nossa personalidade uma orientação assaz constante.

O fanático “são”, “do bem”, demonstra entusiasmo pelo seu objeto de adoração, paixão pelo time de futebol, admiração pelo líder político, devoção pelo santo, amor pelo ídolo com moderação e equilíbrio, sem danos a terceiros. Tenho amigos fanáticos pelo seus clubes, outro que ainda coleciona tudo sobre Ayrton Senna e assim por diante, mas sabem ser críticos e dosar seus apegos. Porém, transposta essa fronteira, o caso se torna patológico e com consequências, como veremos em  nosso próximo encontro.

______________
Nicola Abbagnano: Dicionário de Filosofia.
Ronaldo Brum: Fanatismo - Um Estudo Psicológico. Letra & Vida, 2007.
Jaime Pinsky e Carla Bazzanesi Pinsky: Faces do Fanatismo. Contexto, 2015.
Roosevelt Cassorla: "Notas sobre fanatismo e mentira". Soc. Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
Sigmund Freud: Totem e tabu e outros trabalhos. Obras Completas, Vol. XIII. Rio de Janeiro: Imago.
_______. O Ego, o Id e outros trabalhos. Obras Completas, Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago.
Carl J. Jung. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
_______. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis, 1980.

sexta-feira, 26 de julho de 2019


ÓPERA DOS CORVOS


Deu na imprensa: “Força Aérea dos EUA diz que defenderá Área 51 de tentativa de invasão convocada por Facebook”¹. Num primeiro momento, não pretendia perder meu precioso tempo com tamanha bobagem, porém, dois outros desatinos ainda piores obrigaram me manifestar. Vamos a eles.

Para quem não sabe, “Área 51” designa um complexo militar instalado no Estado de Nevada de uso restrito das Forças Amadas, que serve como campo de testes e desenvolvimento de projetos secretos militares – armamento, aeronaves, veículos, etc. No final dos anos 1940, ganhou notoriedade devido a notícias fantasiosas de que o governo americano estaria escondendo destroços de naves e corpos alienígenas, ligados ao que ficou conhecido como “Caso Roswell”

Desde então, ufólogos, curiosos, entusiastas e fanáticos tentam a todo custo desvendar o mistério daquela base americana para “revelar ao mundo sua verdadeira finalidade”. Agora surge essa iniciativa estapafúrdia parida nas redes sociais. Só há três saídas possíveis: 1) Por se tratar de uma área de segurança máxima, os invasores serem rechaçados com força proporcional, com graves consequências; 2) Os tontos de ocasião serem bem recebidos, convidados a conhecer parte das instalações, ganhando, como presente de boas vindas, cópias de relatos embolorados e fotos antigas desfocadas em valor  algum de “discos voadores” – acervo excedente ali guardado por falta de espaço em outros prédios. 

Por último, diante das alternativas 1 e 2, os bobos agentes da baderna (que parece chegar a meio milhão de patetas) não se darão por vencidos, esbravejando tolices tais como “acobertamento de informação”, “ocultação de provas” ou “conspiração contra a verdade” e outras do gênero. Já vimos isto por aqui quando, há alguns anos, uma turba de patafísicos* exigiu do governo brasileiro a liberação de documentos sobre Óvnis. O que a tropa obteve foi um punhado de material pífio copiado de algum Arquivo X jogado num porão qualquer, ma suficiente para os tolinhos jactarem-se pela gloriosa conquista. Faça sua aposta. É esperar para ver.

Não há “data limite” para o fim da ignorância e da canalhice

Outro assunto que ganhou espaço foi uma tal “data limite” profetizada, segundo alguns, por ninguém menos que Chico Xavier. O conteúdo da “profecia” é uma mixórdia de disparates em um roteiro rocambolesco, num verdadeiro festim de aberrações: guerra nuclear, espiritismo, transição planetária, cataclismos, candomblé, Jesus Cristo, potentados celestiais e, claro, extraterrestres. 

Consta que o dito médium teria confidenciado a amigos próximos que, em 1969, por ocasião da chegada do homem à Lua, “Ocorrera uma reunião com as potências celestes de nosso sistema solar para verificar o avanço da sociedade terrena. Decidiram, pois, conceder à humanidade um prazo de 50 anos para que evoluísse moral e espiritualmente e convivesse em paz, sem provocar uma terceira guerra mundial”². Em outras palavras, se a humanidade não se autodestruísse via terceira guerra, ela entraria numa nova era de júbilo, glória e evolução. Esse prazo expirou em 20 de julho e, como se deve ter notado, o mundo não acabou, ou seja, a partir de agora, vamos todos “ao infinito e além”, como diria o personagem de Toy Story. Evolução moral e espiritual? A quem querem enganar? Pensam que somos todos imbecis? Isso não passa de uma  farsa criminosa, propaganda enganosa de um documentário chulo cujos produtores estão associados a ufólogos e adeptos da crença extraterrestre!

O terceiro ato da ópera dos aloprados, diretamente ligado ao fato anterior, diz respeito ao editor de uma conhecida revista brasileira de ufologia, que teria sido sequestrado por extraterrestres! Este mesmo senhor, certa feita, informou ter extraído um chip do nariz, certamente implantado por alienígenas, mas que o perdera acidentalmente! Que pena. Suspeita-se, ainda, que ele esteja envolvido na farsa de supostos círculos (crop circles) descobertos em lavouras de trigo no Brasil, que seriam mensagens de civilizações extraterrestres! E agora, dias atrás, retornando de um Encontro de Ufologia na cidade de Peruíbe (São Paulo) em que se tratou também, oportuna e convenientemente, da “data limite”, ele, seus filhos e amigos teriam sido abduzidos por criaturas do espaço! É muita desfaçatez. Só falta este indivíduo se autoproclamar um demiurgo ungido pelos extraterrestres com a nobre missão de conduzir a humanidade ao seu venturoso futuro. Não duvido que o faça, e se o fizer, terá de ficar sob tratamento psiquiátrico para o bem dessa mesma humanidade.

O que mais posso dizer? No primeiro caso, a horda de  irresponsáveis está fazendo das redes um instrumento de extermínio da ética e destruição do bom senso, em um bunker de idiotice e irracionalidade. A burrice perde a vergonha quando o corvo canta de galo pensando ser pavão. Essa turma ainda não se deu conta do efeito bumerangue das redes e da exposição ao ridículo a que está sujeita. Quanto ao conteúdo, sem comentários. No segundo caso, uma comédia de horror. Trazer Chico Xavier pensando dar peso e credibilidade a um despautério em forma de profecia é imoral, uma falácia perigosa, ordinária e grotesca. Um tiro no pé. Entenda como quiser. O terceiro episódio é de uma vigarice exemplar. Em todos, o que há de fato são delírios, insânia, mentira, desvario e impostura. Entendeu agora? 

Estou preocupado – mas não surpreso – que o ser humano esteja emburrecendo tão rapidamente, voltando às suas origens, ao estado de natureza – primitivo, estúpido e selvagem. Os três eventos reforçam isso – incapacidade de reflexão, empobrecimento moral e intelectual, falta de senso crítico e desrazão, sinais inequívocos de um notório conflito psíquico: bípede falante agindo como quadrúpede fungante. Ou o contrário. Já escrevi muito disso aqui antes e não serei repetitivo. A preocupação é real porque este é o Zeitgeist – o espírito da época, o sinal dos tempos –, no qual a humanidade está inexoravelmente mergulhada. Não diga que não avisei.

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* Patafísica - ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções.
¹ https://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2019/07/forca-aerea-dos-eua-diz-que-defendera-area-51-de-tentativa-de-invasao-convocada-pelo-facebook.shtml
² http://www.e-farsas.com/chico-xavier-previu-que-dia-20-de-julho-de-2019-sera-a-data-limite-para-a-humanidade.html

terça-feira, 16 de julho de 2019

 
APENAS UM PONTO



Após uma pausa necessária, cujos motivos explicarei em outro momento, este blog volta ao circuito, com uma diferença – sua periodicidade não será mais semanal, mas apenas quando assuntos realmente relevantes justificarem sua publicação e o debate. Assim, recentemente, uma amiga enviou um vídeo intitulado “Pálido ponto azul”, produzido a partir do livro homônimo de Carl Sagan publicado em 1994. Extraí o áudio na íntegra para uma oportuna reflexão, lembrando que é apenas um recorte da obra. Sagan se inspirou quando, ao passar pela órbita de Saturno, a nave Voyager fotografou a Terra distante 1,4 bilhão de quilômetros. Fiz pequenos ajustes para adequar a narração ao texto escrito.Um pouco de lirismo vai bem nos dias atuais.
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A espaçonave estava bem longe de casa, e eu pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazê-la dar uma última olhada em direção de casa. De Saturno, a Terra parecia muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe. Nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um pixel solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a nave avistaria – planetas vizinhos, sóis distantes, mas, justamente por causa dessa impressão de nosso mundo assim revelado, valeria a pena ter tal fotografia.

Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da Antiguidade clássica que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmo circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava a nossa primeira chance, e talvez a última nas próximas décadas.

Então, aqui está! A Terra parece que está apoiada em um raio de sol como se houvesse alguma coisa especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente ótico. Não tem sinal nenhum de humanos nessa foto, nem nossas mudanças da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com o nacionalismo não aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num solitário torrão de rocha e metal.

Olhe novamente para esse ponto: ele é nosso lar, ele xsomos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas, a totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas. Cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada jovem casal apaixonado, cada pai e mãe, cada criança esperançosa, cada inventor e explorador, cada educador, político corrupto, superstar, “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, num grão de poeira suspenso em um raio de Sol.

A Terra é um minúsculo palco em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infligidas pelos habitantes em um canto desse pixel nos quase imperceptíveis habitantes de algum outro canto, ou quão frequentemente são seus mal-entendidos, sua ânsia por se matarem, o quão fervorosamente eles se odeiam.

Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em sua glória e triunfo, pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginária auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no universo é desafiada por esse pálido ponto de luz. Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica.
Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão não há nenhum indício que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nós mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta a vida. Não há outro. Não há lugar algum, pelo menos no futuro próximo, em que nossa espécie possa imigrar. Visitar, talvez, assentar-se, não. Gostando ou não, por enquanto, a Terra é onde temos de ficar.

Tem-se falado da Astronomia como uma experiência criadora de firmeza e humildade. Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que essa imagem distante de nosso pequeno mundo. Ela enfatiza a nossa responsabilidade de tratarmos mais amavelmente uns aos outros, de preservar e acarinhar o único lar que conhecemos – esse pálido ponto azul.